Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Nascido nos anos 80, não tive oportunidade de sentir aquilo que muitos dizem ter sentido e outros que efectivamente sentiram, sobretudo em relação à música. Todavia, quando temos uma irmã que poderia ser nossa mãe, aliás, duas irmãs que o poderiam ser - tenho uma sobrinha bem mais velha que eu - não é descabido que nos fique algo de ambas - e na música não foi excepção com claras influências no bom e no mau gosto musical que daí adveio.

 

Falo sobretudo da minha irmã mais nova (sendo que é mais velha que eu) e que acabou por ser também um pouco minha mãe. Na verdade, os gostos musicais desta acabaram também por me acompanhar, e nesse campo fiquei completamente marcado com os anos 80 pois cresci a ouvir muitas das músicas que foram um autêntico sucesso. Hoje, acabo por ter em mim um pouco desses sons e que também escuto não raras vezes.

 

Existe a capa de um vinyl (com Laura Braningan encostada a uma rocha) que ainda hoje tenho na cabeça e já nem falo da música. Estava sempre na linha da frente do gira-discos lá de casa, pelo menos no gira-discos da minha irmã, qual teenager rebelde. Hoje, quando passa "Self Control" de Laura Braningan, não resisto a dançar aquele estilo slow 80's. Esta música levou a que desde a infância lá solte um "oh-oh-oh oh-oh-ho" de vez em quando e sem perceber muito bem a que propósito.

Outra das músicas que me persegue e por culpa da minha irmã já vem dos anos 70 - época onde eu ainda não era sequer pensado. "Goodbye Yellow Brick Road" é um clássico de Elton John que não me é indiferente. Porquê? Pela melodia, pela entrega à música e também pela letra, foi uma das que preservei e me recorda um estilo que já não se ouve por aí... Sim, a minha irmã chegou a ter o disco do Elton com a música "Nikita" (não contem a ninguém).

Se gosto de Bruce Springsteen e venero o senhor no meio musical e não só, devo-o à paixão que também a minha irmã tinha por este senhor e que dava direito a um poster na parte interior da porta do guarda-fatos. "Dancing in the Dark" foi das que mais ouvi e é das que mais gosto... No entanto, para quem como eu adora o Bruce, não faltam bons exemplos de grandes malhas... Mais um daqueles que, cada vez que abre a boca para cantar arrasta multidões!

Outro indivíduo que não parava de tocar lá por casa era o incontornável David Bowie. "Heroes" foi uma das músicas que me acompanha desde então e que é indespensável que me apetece ouvir este senhor. Com "Ashes to Ashes" ou até "This is not America" é o complemente perfeito para um óptimo momento em que um sofá e uma boa música fazem toda a diferença na vida de cada um de nós.

Outra das boas heranças musicais que tenho da minha irmã é outro senhor que já não está entre nós: George Michael. Penso que a adolescente que foi não dispensaria algumas das suas melhores músicas. Desses tempos, pois muitas fui descobrindo, guardo sobretudo uma que ecoava bastante lá por casa, e mais tarde, acabou por dar azo a grandes conversas e dissertações: "One More Try". Nessa altura a minha irmã era uma romântica, enfim, que fazer... Hoje não é e... Não sei se isso é bom ou mau... De bom, pelo menos ficou este senhor!

Uma banda pura dos anos 80 e com letras adequadas ainda a uma época de inquietação mas de alguma esperança. Os Tears for Fears são outra daquelas bandas que muito estimo, algo ao nível dos Spandau Ballet, Duran Duran, The Clash e tantas outras que poderia enumerar. Ainda me lembrei dos Roxy Music e especialmente de Bryan Ferry, mas isso já é outro planeta. Lembro-me de ouvir sem perceber uma palavra de inglês "Sowing the Seeds of Love". Poderiam ser tantas outras, como "Everybody Wants to Rule the World", "Watch me Bleed", "Pale Shelters" ou até "Swords and Knives".

Outro mestre que não faltava lá por casa era o tio Phil. Falo de Phil Collins, não tanto na sua era Genesis, que aprendi a gostar mais tarde, mas já num Phil a solo. Lembro-me de "I Don't Care Anymore"... Não porque fosse uma música ouvida pela minha irmã, mas porque foi o mote para gostar tanto do baterista genial que também é um cantor fantástico... 

E não poderia faltar Sting... Muitas das músicas que aprecio e que fazem parte da carreira deste senhor encontram-se nos anos 90, no entanto, "Englishman in New York" ficou nos anos 80 como uma das grandes músicas do século. Foi com esta música que conheci Sting e contribuí para preservar mais um vynil da minha minha irmã na colecção lá de casa. Mais uma daquelas vozes cujo paralelo teima em aparecer. Uma música para verdadeiros cavalheiros...

Mas nem só de coisas boas foram feitos esses tempos - cresci traumatizado pela paixão parola que a minha irmã tinha por um dos vocalistas dos "Modern Talking" - o senhor moreno de cabelos compridos. Com direito a poster, um pouco contra a vontade do meu pai, lá tive de olhar para aqueles discos todos e crescer ao som de "You're my Heart, You're my Soul". Pior não poderia ser e, além do hit anterior, sei de cor músicas como "Brother Louie", "Cheri Cheri Lady" e até algumas partes de "Lady Lai"... Sim... A minha irmã é parola e contagiou-me com os Modern Talking, fantástico não é? Não...

Esquecendo um pouco a vergonha que já passei, termino com algum bastante melhor: INXS. É claro que a minha irmã só aparolou a sério a partir dos 28, ou seja, até lá teve muitas coisas mais... Cool? "Mistify" foi uma delas. Mais uma daquelas músicas para se ouvir enquanto se conduz, quando apetece bater em alguém ou então simplesmente quando nos apetece ser rebeldes lá por casa...

Poderia falar de mais, e talvez volte a falar, mas para já estas dez músicas já mostram um pouco do que ía, e de certo modo, ainda lá vai por casa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Falar de Bowie e da Morte...

por Robinson Kanes, em 19.12.16

david-bowie-1.jpg

 

 

Agora que os ventos estão mais calmos e em que tudo já se escreveu sobre David Bowie - que ficaria feliz ao perceber que afinal tem o quádruplo dos fãs que pensava - escrevo eu quando pouco falta para o primeiro aniversário da sua morte. Sobretudo porque, sempre que morre alguém, tenho a sensação de que já existem rascunhos prestes a serem publicados para não se perder a corrida das lamentações e com isso os holofotes.

 

De repente fiquei a saber que poderia ter falado de "Absolute Beginners", de "Ziggy Stardust" ou de outros temas com tanta gente que eu pensava não conhecer muito da vida e obra deste senhor... possivelmente não as conheciam mesmo. Nada que no prazo de um dia umas pesquisas na internet não resolvessem e... a cada aniversário lá virá mais uma colectânea para o lembrar.

 

Bowie, apesar de ter trabalhado uma vida inteira e de, por isso, ter sido reconhecido também em vida, teve de morrer para chegar a número um nos Estados Unidos. Isto faz-nos pensar um pouco... afinal, quer queiramos, quer não, as conquistas, os prémios e os reconhecimentos depois de mortos de nada valem para os artistas. “Vou ser reconhecido pelo meu trabalho... fantástico!... mas estou morto e, mesmo que até na minha fé esteja a visualizar tudo o que se passa na terra, convenhamos, de pouco ou nada me serve”. Somos nós, sobreviventes (por mais algum tempo), que podemos lucrar e transportar para aí um pouco a nossa crença de imortalidade.

 

Falou-se muito de David Bowie, sobretudo em termos de aprendizagem organizacional, de como era inovador, diferente e até de como a sua atitude se reflectiu numa carreira que se prolongou por várias décadas. David Bowie foi sempre ele próprio e a “única” coisa que teve de inovador foi isso mesmo: ser ele próprio. David Bowie não cedeu às muitas inovações (absurdas) de que o mundo musical foi sendo alvo nos últimos anos. Aproveitou como ninguém a tecnologia, mas jamais se deixou contagiar pelo muito lixo musical que foi sendo produzido. Podemos nesse aspecto continuar a falar de inovação? Claro que sim! Também isto é ser inovador – cada vez mais...

 

Outra descoberta: a apropriação da morte de Bowie por todos nós - “o meu Bowie”; “quando ouvia a música do Bowie”; “foi um cd do Bowie que...”; “como vai ser sem a música do Bowie” (interessante que também descobri no decorrer deste ano que a maioria dos portugueses e não só tem dificuldade em pronunciar o nome do senhor).

 

Tudo isto é interessante, e eu aí também sou apanhado na teia, mas esquecemos que o Bowie era uma pessoa e não pensamos muito nisso. Não pensamos muito no lado de lá... na família, no próprio (afinal morreu)... Não conseguimos ir mais além do “eu” que aqui também ganha destaque. É lugar comum falar em sociedade individualista, mas não vamos ao encontro dos focos desse mesmo individualismo. Não me alongo muito nesta matéria, deixo-a para os especialistas.

 

Finalmente, falar da morte de Bowie é também, passe a redundância, falar de... morte! Bowie é um cidadão da Idade Média. Ou melhor, é gente da Idade Média, pois o conceito de cidadania nessa época, com a queda do Império Romano do Ocidente, ficou um pouco marginalizado. Bowie soube preparar a sua morte com discrição - convidou a senhora da foice, sentou-a à mesa e discutiram todos os preparos para a festa que se seguiria. Uma das coisas em que a nossa sociedade não evoluiu, pelo contrário, foi a questão da morte. Talvez por perda de fé; talvez pelo simples facto do homem estar entregue a si próprio; talvez porque nos julgamos imortais; talvez porque perdemos aquele ente querido mas acreditamos poder viver eternamente porque a medicina nos vai salvar... até ao dia em que corremos o risco de morrer “velhinhos”. E quando a morte nos pisca o olho, temos um medo terrível e lutamos com todas as nossas forças, pois ainda há esperança de sermos salvos, mesmo quando não somos mais que um vegetal condenado a essa mesma morte.

 

Bowie foi gente da idade média, basta ler Ariés para perceber em que medida, naquela época, a Ocidente, o cerimonial da morte era preparado: morrer fazia parte da vida e a aproximação da morte era como que celebrada. Era o próprio moribundo que, apercebendo-se da aproximação do fim, preparava todo o cerimonial. Não existiam pontas soltas, quer em termos de heranças, quer em termos de palavras ou gestos. Havia tempo para serenamente discutir as questões da morte, não só entre o moribundo e os médicos da morte, mas também entre o moribundo e todos aqueles que o rodeavam. Segundo Ariés a morte era uma cerimónia pública e organizada e mais importante que isso, a simplicidade com que os ritos da mesma eram aceites e cumpridos, sem qualquer drama ou emoção excessiva. Fugir da morte, esconder o moribundo é uma prática recente do início do século XX.

 

Bowie não teve medo da morte. Preparou-a aliás, com um sorriso no rosto e trabalhou em parceria com ela no sentido de deixar tudo finalizado apesar de possivelmente ter travado uma luta interior que nos é desconhecida. Quantos clientes com esta postura não adoraria ter a morte?

 

No entanto, não esqueçamos... isto não é coisa que se faça cinco minutos antes de termos aquele AVC que nos vai levar de vez... este é um projecto também de vida, pois a serenidade da morte tem a ver com a serenidade da vida, caso contrário teremos aquilo a que Sartre chamava de “viver” e não a “aventura” (da vida) que só existia quando pudesse ser contada e acrescento eu, realmente sentida...

 

Talvez uma das maiores lições e inovações de Bowie tenha sido essa: a morte é normal, faz parte da vida e, fazendo parte dessa vida, também nós, “pseudo-imortais”, temos de estar preparados para a receber. Foi essa a última grande inovação de Bowie, ser gente da Idade Média em pleno século XXI.

 

Fonte da Imagem: http://thefashiontag.com/2016/01/13/david-bowie-a-style-icon/

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog





Mensagens

Copyrighted.com Registered & Protected 
CRD7-BFJD-IWHB-ZXDB