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Créditos: https://pixabay.com/pt/photos/motor-ciclo-3260697/

 

Sabendo que existem múltiplas ocorrências em que a actividade que um centro de estudos, um ATL ou uma creche diz desempenhar é efectivamente aquela que podemos verificar, existem situações em que a lei é contornada em todas as suas formas... E a recente polémica relacionada com o encerramento destes espaços veio confirmar algumas áreas mais obscuras como sucedeu com os lares ilegais que praticamente toda a gente sabe que são às centenas mas parece ser normal e até encarado como se de estabelecimentos legalizados se tratassem.

 

Se existiam dúvidas que muitos centros de estudo e ATL eram somente depósitos de crianças, essas dúvidas ficaram dissipadas. Não são raros os casos em que para fugir à lei (e aos impostos) muitos centros de estudo não são aquilo que dizem ser. São meras creches ou então depósitos de crianças que não reúnem as condições (inclusive em termos de dimensões) para exercer uma actividade que implica outras licenças e outras prerrogativas. Se fizermos algumas pesquisas às notícias dos últimos dias, vemos pais que deixam as crianças nestes centro de estudos de manhã e só as recolhem ao fim do dia... Também a actividade de muitos ATL pode ser questionada, pois para mim, ainda me faz uma certa confusão se Actividades de Tempos Livres ou de Enriquecimento Curricular são somente brincar com jogos de tabuleiro, atirar bolas uns aos outros ou ficar sentado (muitas vezes no chão) a ver televisão e muitas vezes acompanhados por indivíduos não habilitados para as funções. Não tenho filhos, mas se fosse pai, pensaria duas vezes antes de colocar o meu filho numa espécie de "filhão".

 

Esta situação leva a outras que tenho ouvido pontualmente e que se referem ao impacte destes espaços em, por exemplo, prédios habitacionais. Ora se uma creche tem de obedecer a vários trâmites e normalmente até estão localizadas em edifícios independentes, um Centro de Estudos ou um ATL, não raras vezes, estão situados em infraestruturas habitacionais o que levanta, normalmente, situações relacionadas com ruído e até riscos para a segurança das crianças e daqueles que habitam no mesmo prédio.Todavia, esse parece não ser um problema, o que é de estranhar, pois se tivermos em conta que para ter um pronto-a-vestir tenho de reunir mil e uma condições, por vezes descabidas de qualquer nexo. 

 

Casos destes pululam por aí, e não parece existir por parte dos municípios e do próprio Governo, vontade em rever este género de situações... Também não raras vezes, estes estabelecimentos são explorados a tempo inteiro por indivíduos que deveriam estar a prestar um serviço público pago por todos nós mas que ninguém consegue conceber como é que conseguem estar num local e no outro ao mesmo tempo...

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Balada do Pequeno Soldado...

por Robinson Kanes, em 13.01.21

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Columbano Bordalo Pinheiro - "Cabeça de Rapaz" (Museu José Malhoa)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

Dei por mim, mais uma vez a tentar interpretar o Mundo, a "sofrer", afinal precisamos desse tempo, e fui catapultado nos meus pensamentos para um tema que já abordei aqui aqui.

 

Um dia de sol, não o de hoje onde os pneus já comem asfalto há muitos quilómetros e este artigo irá ser disparado, mas um outro, com vista do Tejo.  O Tejo com as suas pequenas vagas adivinhando o vento que irá entrar pela planície adentro e afastar os flamingos para as salinas. Recordo a "Ballade vom kleinen Soldaten, ou se preferirem a "Balada do Pequeno Soldado", obra de um dos mais brilhantes realizadores do nosso tempo, o alemão Werner Herzog.

 

Somos transportados para a Nicarágua dos anos oitenta, terra onde os sandinistas na sua cavalgada para impôr um regime socialista naquele país, tomaram como uma das suas frentes de batalha a eliminação dos povos indígenas, neste caso em particular os Miskito. Nada de novo numa ideologia que procura limpar a História e o que dela resta, mesmo que tal testemunho tenha a forma de um ser-humano.

 

Recordo aquele pequeno soldado que abre o "documentário" e também o "Dia Mundial dos Povos Indigenas". Foi no dia 09 de Agosto, por sinal, o dia em que escrevo este texto. Poucos se terão recordado da data, é impossível chegar a tudo. Sem perceber porquê, e perdoem não ter uma história cheia de epifanias para contar acerca de, os meus pensamentos foram levados para esta obra de Herzog. Talvez culpa dos meus pais, da minha irmã, que me carregaram de realidade e nunca tiveram qualquer pejo em mostrar-me o que era o Mundo. Até aquilo a que memória me alcança, vejo-me a absorver todo o tipo de documentários na televisão, para o bem e para o mal. Sangue, morte, fome... Nunca foram um problema que levasse os meus pais a desligarem a televisão, a tirarem-me um livro da mão ou até a orientarem o caminho que percorria, bem pelo contrário. Bem, a minha mãe...

 

Na Nicarágua dos anos 80 e até 90, estes pequenos guerreiros formaram batalhões inteiros, muitos deles porque só tinham esse destino  - destino, não raras vezes, desenhado pelos pais e pelos desejos de vingança. Podemos tecer todo o tipo de comentários anti-violência, eu próprio os faço, mas explicar isso a quem vê toda uma aldeia ou vila incendiadas, os seus habitantes (independentemente de serem homens, mulheres ou crianças) serem fuzilados não é de todo a tarefa mais fácil do Mundo... O "olho por olho, dente por dente" tende a ser mais forte.

 

Quiçá por isso recorde um amigo de alguém cá de casa que fugiu de um país da América Latina com a família. Diz-nos ele que, naquele país, todos sabem que existe um projéctil com o seu nome, é uma roleta russa.

 

Crianças fardadas e prontas para a guerra, é dos crimes mais hediondos que se podem cometer. É ver a infância roubada, mesmo que as hipóteses de atingir algum nível de felicidade sejam baixas. Ver crianças que já perderam tudo e se transformaram em máquinas de guerra ou simplesmente carne para canhão deveria chocar, fazer-nos tremer! Ainda são milhares - e sabemos como as estatísticas são generosas nestes números - as crianças que sabem manejar um morteiro ou uma automática melhor que a maioria da população adulta. Provavelmente, quandos os nossos filhos brincam na rua e fazem o "pfiii pxiiiiu" com uma arma de plástico, outros sentem o som dos projécteis a passar-lhes por cima e sentem a dor de ver a pela rechassada por um ferro a alta velocidade ou por uma explosão. Enquanto os nossos filhos dão à costa embalados pelas pequenas ondas e riem, outros dão à costa ou à margem de rios crivados de balas.

 

A somar a tudo isto, porque isto é "só" uma consequência de, é importante que olhemos para os povos indígenas deste mundo. Em alguns casos, é lá que está a nossa história como seres-humanos, como homens que somos - simplesmente ignoramo-los como o faríamos se hoje em dia Edison fosse vivo e tantos outros pioneiros do nosso bem-estar. Não basta andar vestido em tons tribais e achar-se um cidadão mais para a frente, bastará afinal, saber que estes povos existem, até porque, numa época em que algumas vidas interessam, talvez fosse mais humano perceber que todas as vidas importam, mesmo aquelas cujas raízes ancestrais jamais deverão ser esquecidas ou destruídas. Mesmo aqueles cujos descendentes já não são mais que um pequeno grupo de dezenas ou centenas.

 

Olho o horizonte e acompanho o pequeno soldado, cuja Kalashnikov mais parece uma viola e onde o olhar de criança é corrompido por um olhar vazio e triste de menino soldado...

 

(...)

Que te pasa chiquillo, que te passa

Me dicen en la escuela y me preguntan en mi casa

Y hasta ahora lo supe de repente

Cuando vi pasar la lista y ella no estuvo presente 

Ella de la mochila azul

la de ojitos dormilones

Me dejo gran inquetud

Y bajas calificaciones 

Ni al recreo quiero salir

No me divierto con nada

No puedo leer ni escribir

Me hace falta su mirada

De recuerdo me quedan sus colores

Dos hojas del cuaderno dice amores entre borrones

Yo quisiera mirarla en su pupitre

Porque si ella ya no vuelve mi salon sera muy triste

(...)

Bulmaro Bermúdez, "La  de la Mochila Azul"

 

(Publicado originalmente a 11 de Agosto de 2020 no espaço SardinhaSemLata)

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Sardinhada com uma Balada do Pequeno Soldado

por Robinson Kanes, em 11.08.20

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Créditos: http://worldpolicy.org/2012/03/26/nicaragua-forlorn/

 

Hoje, no espaço habitual à terça-feira, estamos no "SardinhasSemLata"... Falamos de indígenas e de crianças-soldado. E também não precisamos de sardinhas para engolir... em seco. Estamos aqui.

 

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Crianças-Soldado: Os Putos Esquecidos...

por Robinson Kanes, em 12.02.19

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Créditos: https://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/africaandindianocean/9391115/UN-hundreds-of-thousands-of-child-soldiers-kept-in-slavery.html

 

Admito que é revoltante quando chamam de egoísta alguém que, por opção, não quer ter filhos. Por norma, a acusação parte de quem pretende ter filhos, ou já os tem,  mas faz questão que os mesmos tenham os seus genes, nem que para isso tenham de despender milhões em tratamentos - e, em alguns casos, mais valia que tais genes não andassem pela superfície terrestre. Mas o que é ser egoísta?

 

Escrevo sobre este tema no dia seguinte à publicação, por parte da "Child Soldiers International" de uma comunicação que refere a duplicação do número de crianças soldados desde 2012 - nomeadamente um aumento na ordem dos 160%, ou seja, mais 30 000 casos.

 

Esta conclusão, para que possamos perceber a mesma, baseou-se numa análise dos relatórios das Nações Unidas, nomeadamente os relatórios anuais "Crianças em Conflitos Armados" de 2018 e 2013. Estes relatórios tornam-se mais assustadores quando percebemos que estes números, muito provavelmente não correspondem À totalidade dos casos. 

 

Mas as crianças em combate não são apenas do sexo masculino, como se pensa, pois também as raparigas sofrem, muitas vezes como escravas de apoio e como... Escravas sexuais! Aliás, o aumento da violência sexual sofreu também um aumento! Estamos a falar de crianças que chegam a ter 7 anos e menos e que, mesmo quando libertadas, encontram (por motivos religiosos e culturais) o isolamento e a repulsa por parte das comunidades acabando por sofrer as consequências de um passado negro.

 

A dificuldade em acolher estas crianças noutros países é também uma realidade, não só legal mas também cultural, afinal, somos muito humanos com as crianças desde que tenham a nossa cor, os nossos genes e não nos causem problemas administrativos. Também somos humanos se formos uma "pop star" e nos deslocarmos ao Sudão, com um milhar de fotógrafos para assistir à adopção de um "pretinho". Também ignoramos que, aqueles que chegarem a adultos não serão propriamente os adultos mais recomendáveis - nascer no meio de uma guerra, com uma arma na mão, não augura nada de bom para o futuro!

 

Hoje é um bom dia para fazermos um exercício: pensemos que, enquanto estamos no trabalho, os nossos filhos são retirados da creche paga a peso de ouro - ter os filho em creches do Estado já não é cool, mesmo que provoque o endividamente dos pais - e são levados para a guerra. Em troca do tablet e do smartphone é-lhes dada uma kalashnikov e uma valente tareia. Imaginem que nunca mais saberão dos vossos filhos e que, muito provavelmente acabarão mortos em dias! Imaginem que as vossas filhas são levadas para lavar os pés a senhores da guerra e também para serem violadas numa base diária por estes!

 

Fechem os olhos, parem um pouco e imaginem tudo isso! Imaginem que, mais logo, quando deixarem o vosso emprego, é o cenário que irão encontrar... Imaginem também que, é por puro egoísmo que muitas destas crianças nunca terão um lar porque afinal... Não há espaço para elas no mundo dito desenvolvido, onde a solidariedade impera e, aparentemente, não pode have espaço para o egoísmo...

 

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 Peter Paul Rubens, A Virgem - Musée du Louvre

Fonte da Imagem: Própria.

 

Uma das tendências, perdão, "trends" (Portugal está na moda mas a língua portuguesa não, esqueci-me desse detalhe) para muitos é utilizarem os filhos como arma de arremesso contra tudo e contra todos.

 

Para estes, ter filhos passou a ser um estatuto tal que quem não os tiver perde o direito de opinião ou, em alguns casos, à própria vida em sociedade - eu já fui filho, já tomei conta da minha sobrinha e sou tio de mais dois! Apesar disso, o melhor do mundo são as crianças, pelo que são aceites gritos, correrias, faltas de educação, é aceite não conseguir estar num restaurante e um outro sem número de privações de direitos porque são... Apenas crianças. Eu fui criança e não me era permitido incomodar quem quer que fosse.

 

Ter filhos é um direito (para alguns uma obrigatoriedade e eu diria até um patamar de status), não tê-los é uma afronta à sociedade, sobretudo se ao invés de um filho tivermos, por exemplo, um cão! Com este dilema lido todos os dias... "Como é possível ter um cão e não ter um filho, não gosta de crianças!". Já me aconteceu ver um cavalheiro com o filho a pedir para que eu me retirasse de uma zona pública com o meu pastor-alemão. Utilizava o argumento de que era um cão perigoso e de grande porte, isto enquanto a adorável criança arremessou duas pedras ao cão (não acertou) e o mesmo ficou sereno... Espero que um dia não precise do pastor-alemão para encontrar ou lhe salvar o filho...

 

Mas uma das questões que mais me agrada é a utilização dos filhos como arma de arremesso contra aqueles que queremos criticar ou denegrir. Amor aos filhos é isso, usar os mesmos como escudo contra aquele indivíduo que não gostamos.

 

Eu entendo que gostar dos filhos é falar do amor pelos mesmos e usar isso contra os outros mas não hesitar em circular a mais de 150km hora com o filho na cadeirinha e o autocolante a dizer "bebé a bordo" ou "cuidadinho vai aqui o meu paizinho" - este último bem mais egoísta e que coloca o filho no lugar de cuidador dos pais. Ou então, amor aos filhos pode ser sempre passar por criticar o "puto Vitor" (hoje em dia Vitor já não se usa, Santiago, puto Santiago ou Mateus) que é "explorado" pelo pai na vinha da família, mas elogiar aquele que coloca o filho na televisão ou explora o mesmo através de um blog... E há quem os explore sem sequer eles aparecerem... E há quem os explore não para ajudar a sustentar a casa mas para se auto-promover e procurar ser aceite por outros seja no mundo virtual ou no mundo real. Amor aos filhos também é dar-lhes um tablet para as mãos disfarçando o "não me chateies" pelo "estou a educá-lo para as novas tecnologias".

 

"Não ande aí com o seu cão, existem aqui crianças" ou "Isto é inadmissível quando há crianças que podem ser influenciadas", ou ainda "esta gente não tem respeito nenhum pelas crianças" ou "desampare-me a loja, mas como não tenho argumento, preciso de fazer chorar as pedras da calçada e influenciar quem me ouve para tomar partido por mim em caso de zaragata, lá vou ter de dizer que é por causa do meu filho e das crianças" são das coisas que mais se ouvem. Isto é o ideal quando existe um grupo de cidadãos com direitos (muitos deles também pais, mas conscientes e sem filhos metidos em bolhas de ostentação)  e nós queremos tirar partido de uma sociedade onde a infantocracia reina e eu tenho todos os direitos e o outro não. É por estas e por outras que defendo sempre a participação do povo na vida pública mas jamais que o poder possa um dia cair na rua.

 

Porque existem bons pais (e muitos) talvez a mensagem seja sobretudo para aqueles que gostam tanto, mas tanto dos filhos que até se esquecem que os mesmos não servem para servir os seus intentos. Começem a falar por vós, mesmo agora que a moda é criticar quem deixa as fezes dos cães no passeio! Eu concordo com a "luta", mas mesmo eu que não gosto, piso muito mais vezes as ditas fezes que muitos. Se andarem por onde eu ando, não só pisam fezes de cão, como de cavalo, bovinos, caprinos e um sem número de bicharada... Até hoje não morri e uma das coisas que o médico disse à minha mãe quando esta me via com as mãos cheias de borbulhas por mexer em tudo o que era porcaria, terra e lixo foi para ela não se apoquentar e deixar andar - nunca tive alergias nem nada que se pareça! E sim: quem tem animais tem também de garantir a higiene pública, e até, em último caso, não dar argumentos àqueles que encontram um "cocó" no passeio mas já dizem que não se consegue circular na cidade - sim, porque por norma são suburbanos (sem ser em tom depreciativo) ou vivem dentro das cidades.

 

Em suma, não tenham medo de dizer o que vos incomoda sem colocar a criança na arena, isso não é gostar do filho, é gostar demasiado de si! Lembrem-se, quando forem comprar brinquedos ou roupinhas caras para os vossos filhos, que os mesmos são, muitas vezes, fabricados pelos filhos de outros. Lembrem-se que quando querem tramar o vosso colega que até vos ajuda, esse também tem filhos para alimentar... Lembrem-se também que quando usam os vossos filhos para ter prioridade, aquele que espera pode ter o filho em casa e que já não vê há dias... É que gostar só do nosso filho, ou utilizar o mesmo contra os outros, ou fazer dele uma espécie de "Rei-Sol" não é gostar de crianças e muito menos ser bom pai e cidadão... É gostar demasiado do seu umbigo, ser egoísta e falso moralista.

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Girolamo de Santa Croce - A Adoração do Menino (Gemäldegalerie Alte Meister)

Fonte da Imagem: Própria.

 

No seguimento do artigo de ontem, ao qual podem aceder aqui, e onde os contributos de muitos comentadores foram valiosíssimos, procurarei hoje ver as coisas de um outro ponto de vista, até porque a temática é complexa.

 

Foquemo-nos numa questão: porque é que não trabalhamos a questão da maternidade/paternidade, ou aliás, a impossibilidade da mesma no sentido de mentalização dos indivíduos para esse facto? Com isto não estou a dizer que não se desenvolvam demais abordagens. Porque é que o foco não passa por uma mentalização das pessoas para as suas limitações? Porque é que noutros campos vamos por aí e no caso da geração de um filho fugimos mais à questão?

 

É assim tão grave que um indivíduo conviva com o facto de não poder ter um filho? Dou um exemplo: são muitos os casos que conheci de pessoas que passaram pelos maiores martírios fisícos e psicológicos só para conseguirem ter um filho e muitas vezes por pura pressão social! Parece que nos tempos actuais é proibido dizer "não tenho filhos porque biologicamente não sou capaz e vivo bem com isso" e nem menciono aqueles que não os têm por opção. Porque é que não existe um trabalho desse lado e continua a impor-se uma lógica do "ter filhos a todo o custo". Será que se a abordagem fosse mais por aí teriamos tanta gente a investir dinheiro, anos de vida e um sem número de emoções para conseguir ter um filho? Alguém, aos comentários do artigo de ontem focou o egoísmo... Será um egoísmo da sociedade e de cada indivíduo? O artigo presente, pretende sobretudo ir pela questão do "é assim tão complicado aceitarmo-nos como somos?".

 

É uma questão complexa, sobretudo quando leio e vejo argumentos de indivíduos que na praça pública defendem (quase obrigando) que devemos ter filhos, pois estes serão o garante da sustentabilidade da Segurança Social e que é egoísmo não os ter! Um deles até é o proprietário de uma empresa de brinquedos com nome na mesma praça. São esses mesmos indivíduos que não falam de adopção, por exemplo.

 

Estamos a fazer de tudo para promover um mercado de venda ou negociação de bebés mas continuamos a não exigir leis mais facilitadoras da adopção. É aqui que pecam aqueles (auto-intituados vanguardistas) que acusam os "anti-barrigas de aluguer" de estarem presos a rituais ancestrais e de serem egoístas. Eu, sem me colocar de um lado e de outro, digo sempre... Cuidado, sobretudo quando a pretexto do que é novo, colocamos todo um passado no caixote do lixo. Até porque uma das marcas maiores de ancestralidade é a geração de um filho - quantas mulheres não eram ostracizadas ou até mortas por não conseguirem gerar uma criança?

 

Além de que, se queremos falar de egoísmo importa referir, mais uma vez, que o mundo já tem gente a mais e sempre podemos encontrar muitas crianças sem pai nem mão à espera de uma oportunidade para serem crianças... Mas talvez seja mais interessante ver as mesmas subnutridas, feridas ou mortas na televisão enquanto a todo o custo tentamos ter aquele filho que tem de ser "nosso"! Mas aí já estamos a ser vanguardistas... 

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A Nova "Trend": Barrigas de Aluguer.

por Robinson Kanes, em 19.07.17

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 Adoração do Menino - Filippino Lippi (Galleria degli Uffizi)

Fonte da Imagem: Própria

 

Falar de incêndios já não é cool. E quando o tema já não vende revistas, jornais ou visualizações nada como ir buscar temas que vendem muito, nomeadamente a homossexualidade e agora as trendy "barrigas de aluguer". Homossexualidade, para mim, é um tema gasto, perdoem-me mas qualquer dia até me sinto mal por ser heterossexual. Ou sou eu, ou então algo se passa, dos muitos amigos(as) que tenho com uma orientação sexual diferente da minha não me recordo de perdermos muito tempo a falar do tema.

 

Mas as "barrigas de aluguer"... Primeiro, é triste perceber que foi preciso um jogador de futebol "comprar filhos na Amazon" para de repente toda a gente se lembrar que esta prática existe. Caríssimos, é uma prática com séculos e ninguém descobriu a pólvora, aliás, um dos empreendimentos mais bem sucedidos da História, o Cristianismo, começou com uma "barriga de aluguer".

 

Mas tanto se fala de "barrigas de aluguer"... Pelo que, voltemos aos moralistas do politicamente correcto, sempre a defender a liberdade e ao que diriam se encararmos essa prática como a venda de seres-humanos? A verdade é simples e crua: estamos a mercantilizar seres-humanos! Podemos concordar ou não, mas aí temos de ter muito cuidado quando apregoamos leis morais, éticas e humanas, mas depois defendemos esta prática. 

 

Vejamos também outra questão e que alguém por aí (alguém a quem nem dou grande importância, mais foi exímio na análise) falou, que é a questão dos impostos? Ora, se existe uma compra, como é que são calculados os impostos? Como é que eu, que tenho um estabelecimento onde vendo bifanas e Sumol de Ananás, fico quando tenho de pagar dezenas de taxas e quem vende crianças não está sujeita a impostos? Mas é uma criança, um bebé, como é que se pode falar de impostos, questionarão! Todavia, não temos pejo em defender o comércio de seres-humanos que só não é tráfico porque, em alguns casos, já se encontra legislado. Não é diferente da criação de leis que regulem o tráfico de droga, e aí passamos a ter um mercado legal... Mas é "trendy". Até nos damos ao luxo de atacar as pessoas que vão buscar filhos a África, no entanto, já achamos bem se forem por encomenda e full extras. Ficamos chocados com a mulher que vende o corpo por sexo, mas não ficamos tão chocados se vender o feto...

 

Hoje é "trendy" mercantilizar seres-humanos e sob a capa do "trendy" têm sido cometidas algumas atrocidades que nos fazem estar a atravessar uma crise de valores e de comportamentos, mas mais que isso a sofrer de uma espécie de arregimentação pela incapacidade de aliar o bem da liberdade à virtude da tolerância. E aí, Huxley rapidamente nos demonstrou que o resultado desse arregimentação só poderia ser uma grande infelicidade! Eu só espero que comece a ser "trendy" criticar a corrupção e a injustiça, aí sim, deixarei de ser um indivíduo fora de moda.  

 

Finalmente, algumas questões que irei abordar amanhã: nesta sociedade do ter, doa a quem doer e custe o que custar, não estaremos demasiado focados na importância do ter ao invés de nos focarmos na mentalização do não ter? Do saber viver sem ter? Poderão também dizer que é egoísmo da minha parte, mas quem é o egoísta? Não faltam crianças em dificuldades no mundo inteiro e se formos por aí, há muito que superámos a capacidade de carga do planeta, pelo que se dispensam mais seres-humanos, já em 1798 Malthus o dizia no seu "Ensaio Sobre o Princípio da População". Passaram mais de 200 anos e ainda nos custa pensar nisto... Além de que, por muito que não queiramos ver, cientificamente, a sobrepopulação é uma das grandes ameaças ao futuro da Humanidade.

 

 

 "Trendy": algo que está na moda. Algo que é forçoso que esteja na moda...

 

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As Criancinhas que Morrem e Não Têm Sonhos...

por Robinson Kanes, em 24.05.17

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Bartolomé Estéban Murillo - Crianças Comendo Uvas e Melão, (Alte Pinakothek)

Fonte da Imagem: Própria

 

Deve, portanto,  cada um por sua vez descer à habitação comum dos outros e habituar-se a observar as trevas. Com efeito, uma vez habituados, sereis mil vezes melhores do que os que lá estão e reconhecereis  cada imagem.

Platão, in "República"

 

 

As criancinhas que morreram em Manchester colocaram o mundo a pensar em como é possível que se matem crianças num concerto, onde algumas até estão a realizar o sonho de uma vida. Como é possível? É a questão que todos colocam...

 

Lamento essas mortes como lamento quaisquer outras, mas o ódio e tristeza de muitos coloca o foco nas crianças que morreram. Por serem crianças, por serem jovens, por terem tantos sonhos e por estarem a realizar um deles que não era mais que ver um concerto. É legítimo, é um sonho...

 

Contudo...

 

E as criancinhas dos países do Sudoeste Asiático, da América do Sul, de África e até de países como na Turquia, qual imagem com que a personagem Mevlut de "Estranheza em Mim" (Orhan Pamuk) se deparou aquando da venda de Booza. A imagem de assistir a crianças que vivem fechadas em apartamentos a fabricar brinquedos, peças de roupa e calçado para muitas marcas que muitos de nós compramos... Às nossas criancinhas?

 

E as criancinhas que ficaram sem pai e/ou sem mãe porque foram mortos pela guerra? Criancinhas que nunca souberam o que era paz.

 

E as criancinhas que mal conseguem andar e começam a trabalhar para ajudar a família ou que então são escravizadas? 

 

E as criancinhas que não querem ficar fechadas em casa a viver no medo e arriscam brincar entre as crateras das bombas?

 

E as criancinhas que dão à costa ou andam a boiar? Quantos sonhos se perderam nas ondas que as arrastaram às areias do mediterrâneo e não só? São as mesmas areias onde muitos de nós vamos passar férias, com as nossas... Criancinhas...

 

E as criancinhas vitimas da guerra que aos 10-14 anos falam como adultos? Que demonstram uma frieza de adultos e guardam uma tristeza profunda por viverem como vivem? Criancinhas que nos fazem envergonhar e pensar como é que um discurso tão evoluído daqueles cabe em tão poucos anos de vida!

 

E as criancinhas que aos 12 anos sabem o que é disparar uma AK 47 e armar uma granada?

 

E as criancinhas que sufocam com gases tóxicos ou são contaminadas com urânio empobrecido?

 

E as criancinhas que são feitas em pedaços porque estavam a brincar na rua e a última coisa que ouviram foi o “click” da mina anti-pessoal que as enviou pelo ar e desfez as mesmas em pedaços?

 

E as criancinhas que sobrevivem a tudo isso e são transportadas para um hospital até o céu lhes cair em cima, porque lá de cima alguém o fez cair sob a forma de uma bomba?

 

E as criancinhas que, apesar de tudo isso, ainda conseguem ter um sorriso e não pedir nada?

 

E as criancinhas que, ao contrário das nossas, provavelmente nunca saberão o significado da palavra sonhar?...

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O Mundo Envia-nos Lixo e Nós Damos-lhe Música!

por Robinson Kanes, em 15.03.17

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Fonte das Imagens: Orquesta de Reciclados de Cateura

 

No seguimento de um artigo muito interessante que tive oportunidade de ler (http://quimeraseutopias.blogs.sapo.pt/do-lixo-para-a-boca-38578) e que me chocou profundamente, aproveito esta minha exposição, não só para divulgar o mesmo – posto que a comunicação social em Portugal prefere virar o foco para o futebol e para o fútil – mas também para abordar uma iniciativa que é um verdadeiro exemplo de como se pode sair do lixo... ainda tive esperança de ver aquele artigo em destaque...

 

Cateura, no Paraguai, é a maior lixeira daquele país, aliás, é considerada uma zona inabitável face à degradação que aí se encontra e ao elevadíssimo risco de cheia. Inabitável... mas local de residência para 2500 famílias!

 

0c2f2c_e5e7546a109849b6bc0b23b206f01add.jpgFoi entre esta degradação que um indivíduo encontrou uma forma de criar valor acrescentado... valor acrescentado numa lixeira. Começou por fazer instrumentos com o próprio lixo e o resultado foi que um grupo de crianças completamente esquecidas pela sociedade se transformaram em artistas e deram origem à “Landfil Harmonic” ou, menos sonante mas mais genuíno, a “Orquesta de Reciclados de Cateura”.

 

O lema da orquestra é algo extraordinário e ao mesmo tempo provocador: “O Mundo envia-nos lixo e nós damos-lhe música”. Num só projecto temos uma lição ambiental, uma lição educacional e uma lição social. Do atelier, porque existe um atelier, saem todos os instrumentos feitos à base de... lixo... são esses instrumentos que vão acompanhando um grupo de crianças na sua educação e viagens pelo mundo, crianças perdidas e entregues a uma sorte que... de sorte tem pouco.

 

Lembro-me de ter partilhado esta temática com muita gente (sobretudo da área social e ambiental em Portugal) que, simplesmente, olhou para mim com um desprezo tal que me fez pensar onde estaria a lixeira... se em Cateura, se numa mentalidade triste e tacanha que habita na cabeça de muitos portugueses que se orgulham de ter dado mundos ao Mundo, mas cuja cabeça e visão não vai além do seu pequeno quintal.

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Todo este projecto começou sem apoios do Estado, afinal falamos de pobreza em Portugal, mas não sabemos realmente o que é ser pobre. Hoje, além de vários prémios (inclusive para um documentário) e apoios de vários mecenas esta orquestra é um verdadeiro sucesso. Mas há países onde alguns indivíduos, que se dizem homens e mulheres de terreno, ou os apóstolos da felicidade, cujo suícidio é iminente se ficam sem o relógio de marca, se riem e exclamam: “instrumentos de lixo, que estupidez!”.

 

Talvez a música que nos chegue desta orquestra possa inspirar muitos que andam por aí, numa lixeira diária... e se esquecem que... mesmo com talas nos olhos, cavalos e burros caminham em frente... talvez a inspiração possa vir do texto de Agustina em “Fanny Owen” porque muito provavelmente “ as grandes obras nascem assim: dum sujo porto, entre fezes e urina”.

 

Um pequeno vídeo, resumo da "Orquesta de Reciclados de Cateura"

 

 

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Proibir a Entrada de Crianças em Hipermercados!

por Robinson Kanes, em 05.12.16

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Fim de semana é, por si só, um dos momentos predilectos dos portugueses para fazerem compras, sejam elas quais forem – aliás, é um dos motivos que me leva a evitar as grandes superfícies comerciais nestes dias.

 

Contudo, nem sempre podemos evitar e lá decidi vaguear pelos corredores de uma superfície alemã à procura de lombinhos de frango e de pão ralado. De facto, é uma superfície que “quer mais para mim” e já por várias vezes me salvou de ficar sem aquele ingrediente fundamental para uma boa “patuscada”.

 

Mas eis que tudo começa no corredor do açúcar e das farinhas... um ditador, com cerca de 10 anos de idade, arremessava pacotes de açúcar (de quilo) uns contra os outros provocando uma neve sazonal em toda aquela área e nem os adoçantes, que estão sempre com aquele ar de quem não entra excessos, escaparam. Escusado será dizer que a banda sonora de gritaria ecoava por toda a superfície.

 

Por norma, e segundo estudos científicos de grandes universidades, dizem que estes ditadores são acompanhados por um pequeno “séquito”... os pais. Mas naquele momento o séquito encontrava-se mais interessado em roupa desportiva low cost . É verdade que nestes supermercados alemães é “tudo ao molho”, mas podem imaginar a distância.

 

Já em direcção às caixas, com os meus lombinhos e o pão ralado (ainda tenho este hábito de levar sempre uma “bucha” quando saio do país, devido ao facto de ter viajado muito de regional na infância) deparo-me de novo com uma revolução junto à “secção” de comida para animais – era um labrador a rebentar com sacas de ração em busca de uns bons croquetes de carne de vaca? Era um siamês à procura de um refeição gourmet de salmão? Não, era o nosso pequeno ditador a rebentar os sacos de “Coshida”!

 

O séquito? Na caixa e a sorrir como se o pequeno ditador estivesse naqueles parques cheios de bolas onde os pais largam os filhos para comprar móveis que a posteriori se montam em casa.

 

Só perante algum repúdio por parte da plebe é que o séquito chamou a atenção do ditador, mas... diplomaticamente nem sempre é fácil demover um ditador dos seus intentos. Os colaboradores da superficie, no seu “pelo cliente e para o cliente” não agiram...

 

Desperdiçar comida ou outros produtos deveria ser crime (se as empresas, perdão, associações... que vivem de recolher comida para os mais carenciados lerem isto...) e no final de contas... não educar também... provavelmente não são as crianças que deveriam ficar à porta... mas os pais que no superior interesse da criança e, especialmente no seu, não têm certificado de educação de filhos e desconhecem as limitações da sua liberdade.

 

Fonte da Imagem: http://thefw.com

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