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O que aprendi nos últimos seis meses...

Por menina-mulher.

por Robinson Kanes, em 02.07.20

be68076629107c4fe0814e3187f3a227-1000.jpgCréditos: https://www.wallpaperup.com/528753/mood_sensual_fashion_beauty_beautiful_girl_face_cute_attractive_lovely_woman_female_model.html ( (imagem da exclusiva responsabilidade do autor do espaço)

 

 

Começo com um paradoxo: tenho tentado não pensar demais, passando o dia a pensar – especialmente nos últimos seis meses. Por isso este convite foi um desafio, mas um dos bons, que como vão ver, a seguir, acabou a fazer-me sorrir.

 

Admito que desde dezembro (daí os seis meses) estava atenta às notícias do Oriente, mas, na minha inocência de pessoa pouco ligada às Ciências, acreditava que íamos passar “só” por uma “sequela” do SARS 1, ou seja, volta e meia ouvir falar da nova gripe nos noticiários, quase como um fait-divers, mas a achar que a sua representatividade no nosso “cantinho à beira mar plantado” ia ser mínima.

 

Chega março e percebi... pânico, particularmente em quem me rodeia, ou não seja eu irmã de uma pessoa em imunodepressão e que está dependente de medicações e tratamentos diários. No “nosso umbigo familiar”, o que primeiro percebemos é que a (agora nova) Covid-19 ia mudar os nossos dias e as prioridades do país e logo do curso dos tratamentos com que vivemos, todos os dias.

 

Seguiu-se a muito lenta alteração do espírito e atitudes dos lisboetas nos transportes públicos e nos restaurantes (os meus habitats mais naturais aqui na capital), tanto que, na noite anterior ao decretar do isolamento voluntário pela empresa onde trabalho, estive com amigos a jantar e a Covid não foi, de todo, o principal tema de conversa.

E plim! Na tarde seguinte, entrei em confinamento voluntário e por cá continuo quase 120 dias depois.

 

O que aprendi?

  • Que lido melhor com o confinamento do que esperava. Lido bem com o trabalhar de casa, com as reuniões com câmara e sem ela; que os meus gatos também têm horários e que conseguem ser companheiros de trabalho muito chatinhos...;
  • Que cozinhar me acalma e me dá um foco ao dia: o alimentar os outros, o encontrar novidades seguras, o ganhar coragem para experimentar, mesmo dentro das minhas “quatro paredes”;
  • Que morar numa casa não é o mesmo que viver numa casa, e que passar tanto tempo dentro de casa leva a um graaaande “síndroma de ninho;
  • Que “as dicas certas”, “a produtividade”, o “melhoramento pessoal” não funciona igual para todos, e pode bem até aumentar a ansiedade e o sentimento de alienação;
  • Que morar a 300 quilómetros da nossa família é difícil, mas agora experimentem viver com a regra “não podes sair de casa” e vão ver que centenas de quilómetros se transformam num continente com um oceano pelo meio;
  • Que descer as escadas para ir à mercearia ao lado da porta pode ser todo um programa, agora na companhia de máscara e luvas e um cronómetro.

 

Mas, acima de tudo, aprendi que vivemos num país que se entrega e se ouve quando o mal é comum, mas que se distrai facilmente quando os estímulos são muitos.

Aprendi que informação pode ser demais, mas que o “lava sempre bem as mãos”, o “mantém 2 metros de distância”, o “apoia os negócios locais” já não são informação, mas são sim formação da nossa personalidade no “novo normal”.

 

Venha o copo de vinho à 6ª feira, para brindar a mais uma semana (minimamente) sãos, e cá estaremos daqui a meio ano, para nos abraçarmos virtualmente, outra vez!

Blog da menina-Mulher

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O que aprendi nos últimos seis meses...

Por Maria Araújo...

por Robinson Kanes, em 25.06.20

WhatsApp Image 2020-06-24 at 23.07.49.jpegCréditos: GC/ (imagem da exclusiva responsabilidade do autor do espaço)

 

Estávamos todos a par do que acontecia na República Popular da China, pensávamos que um desconhecido, perigoso e invisível vírus, que obrigou a que milhões de pessoas tivessem de ficar fechadas em casa, não chegaria à Europa, muito menos a um cantinho à beira-mar plantado: o nosso país.

Em Fevereiro, fui uns dias de férias para conhecer um pouco mais do Alentejo, dias estes muito bem passados, "que tranquilidade!", de regresso a casa, já se ouvia nas notícias que Itália era o foco de infecção, os media entravam casa adentro a toda a hora, o Coronavírus estava na Europa.


E de Itália a França e Espanha, Portugal começou a sentir o perigo, agiu o governo atempadamente, e, de uma forma inesperada, mudámos o nosso estilo de vida.


Somos um povo de afectos, estavam proibidos os beijos e os abraços, o alerta constante de evitar o contacto físico e manter o distanciamento desencadeou nas pessoas o medo de ser contaminado.


As cidades ficaram desertas.


Às crianças foi-lhes tirada a rotina das creches, da escola. Interromperam-se os afectos, as brincadeiras com os amiguinhos, os parques de rua para brincar. Estava nas mãos da família adaptarem-nas a uma nova rotina, árdua e exigente.


A nossa casa passou a ser o escritório, a escola, as consultas, as reuniões, a fé, a cultura, o ginásio, a loja que procurávamos para comprar alguma coisa que nos satisfizesse o ego de tão triste estávamos neste isolamento forçado.


Passados este seis meses ( comentando com um familiar, a quem foi muito difícil este tempo de confinamento, que, apesar de tudo, parece-nos que já foi há bastante tempo ), não tendo alterado o meu comportamento muito mais que anteriormente, aprendi algumas coisas que em situações normais certamente não pensaria nelas: 

aprendi que fiquei mais tolerante a pequenas coisinhas que me irritavam, sobretudo más interpretações ou juízos de valor que eu mesma fazia; 

aprendi que o medo faz (re)agir perante ocorrências inesperadas, "esquecer" o vírus e seguir em frente, há que proteger os seres mais frágeis; 

aprendi a controlar a minha ansiedade se me doesse um dedo, ou a ponta nariz, e,sim,tive dores no braço, e deixar de procurar o médico especialista disto e daquilo só porque queria ficar tranquila (não vou a uma consulta desde novembro do ano passado); 

aprendi, basta querer, que o tempo que tenho chega para tudo: ler, computar, tomar conta do sobrinho neto quando é preciso, cozinhar, fazer as tarefas da casa, passear, apoiar quem me pede ajuda;

aprendi que os nossos melhores momentos são aqueles que dedicamos a quem mais gostamos: um almoço e/ou jantar convívio via whatsapp;

aprendi que o progresso traz riscos, que a insegurança e a desigualdade social aumentam.

O homem é um ser vulnerável.

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Créditos: https://www.cm-mgrande.pt/pages/357?event_id=1319

 

Siga a dança e a sardinhada que hoje é terça-feira e nas SardinhasSemLata que monto o estaminé... Não são permitidas mais de 10 pessoas junto à grelha e só servimos vinho a martelo até às 20h:00m... Podem ler o artigo aqui.

 

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O que aprendi nos últimos seis meses...

Por GC...

por Robinson Kanes, em 18.06.20

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Peter Paul Rubens - "Retrato da Filha do Artista" (Scottish National Gallery) 

Imagem: Robinson Kanes

 

Quando penso nos últimos seis meses tenho a sensação de ter passado já muito tempo. Não por causa da pandemia e do consequente recolhimento forçado, que obriga a mais tempo de reflexão e contacto com a nossa mais íntima realidade, mas porque uma parte de mim parece ter ficado lá atrás - enquanto a minha essência mais profunda está a voltar e a caminhar em frente. Qualquer que seja a razão para isso ter acontecido, parece que devo ter motivos para ficar feliz.

 

Nos últimos seis meses aprendi que, embora seja por vezes doloroso, a escolha pelos nossos ideais e valores em detrimento de títulos (profissionais ou outros) vale sempre a pena. É um caminho solitário e muitas vezes incompreendido. Mas a coerência e consistência com o que temos de mais estrutural traz-nos uma tranquilidade impagável.

 

Aprendi, igualmente, que a minha ignorância é afinal bem maior do que julgava. Há tantos livros para ler, tantos cursos para fazer, tantos filmes e música e poesia para me emocionar, que a única hipótese viável é reservar uma parte do dia para me cultivar e tentar ser melhor a partir do conhecimento e da experiência dos outros.

 

Aprendi ainda que a vida pode ser tão simples para nós, humanos, como é para um cão. O meu Pastor Alemão descobre, à medida que vai ficando mais velho, muito mais sítios interessantes para farejar, brincadeiras muito mais divertidas para me pedir ou técnicas bem mais ardilosas para me obrigar a levá-lo a dar passeios mais longos pela natureza. Quando penso que poderia traduzir tudo isso para a minha própria experiência humana, chego à conclusão de que, tal como para ele, descobrir constantemente novos motivos para me fascinar perante o mundo poderá ser algo verdadeiramente espontâneo - basta estar atenta ao que me rodeia.

 

Aprendi também que, embora não se morra, literalmente, de saudades, é possível morrer metaforicamente. Porque é por dentro, no invisível traço que nos une a alguém, que a falta acontece sem pedir licença. Um dia disseram-me que não era de uma pessoa que sentíamos saudades mas do que ela nos fazia sentir. Talvez seja verdade. Ainda assim, há olhares, aromas, sorrisos, abraços e cumplicidade que não são repetíveis - por muito que outra ou outras pessoas cheguem entretanto à nossa vida. Aquela marca, aquela ausência, aquela memória pertencem unicamente a quem no-la gravou cá dentro.

 

Aprendi, finalmente, que não há nenhuma forma de saber o que cada dia nos reserva, por muito que gostemos de nos defender dessa certeza com falsas seguranças e vidas muito cronometradas. A inevitabilidade e o mistério do desconhecido parecem-nos longínquos quando estamos a viver em piloto automático. Mas o facto de não podermos controlar tudo pode trazer uma bênção impensada: a de sermos, finalmente, aquilo que somos, sem amarras, sem controlo de cada gesto, sem medo que a nossa essência transborde para lá do barco imenso da nossa plena existência.

 

GC

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Banhos, Ciência de Esquina e Banhadas...

por Robinson Kanes, em 30.05.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

O homem precisa de ver mais as suas possibilidades que as suas prisões

Agustina Bessa-Luís, in "Ternos Guerreiros"

 

Ontem, violando os deveres do confinamento, sentei-me na esplanada do costume, não a "Taberna dos Cabrões", mas aquela que já deu azo a grandes artigos.  Foi por lá que se fizeram alguns balanços da semana entre choco frito, cerveja Sagres da "botella" (a imperial esgotou), martini, gin só com limão e sem água tónica, azeitonas, queijo de Azeitão e bochechas... Agora lembrei-me do...

 

O primeiro balanço saiu da boca de um marialva daqueles que não compreendia como é que se defende o confinamento e o distanciamento social e depois se disputa nas televisões palco mediático por idas à praia, ainda por cima antes da abertura oficial da época balnear e perto de bairros onde a bomba começa a explodir e só são importantes para a selfie popular (lembrei-me do funeral popular que se faz em Alcochete) ou para o Banco Alimentar Contra a Falta de Fome. Na ausência da bola, é preciso continuar na senda da popularidade com alguns relatos de autênticas "banhadas" que mais parecem um Benfica-Sporting. Não foi o marialva, fui eu, mas não convém sempre dizer que sou eu... 

 

Entretanto, uma das grandes figuras de Alcochete, toca noutro ponto: mas porque raio é que temos de andar a colocar sempre o nosso dinheiro nas mordomias da TAP? Porque é que a TAP interessa tanto? Além dos votos e dos conluios, anda toda uma súcia de desejosos em nacionalizar a mesma... Aprendam com a Lufthansa, a Alemanha não serve só para nos dar dinheiro. E mais não digo, antes que a música seja outra, como disse "em tempos" um dos patrocinados do regime e alguém que confunde a pasta de ministro com a de ditador, com todo o respeito pelos segundos que subiram, mal ou bem, a pulso.

 

E numa zona onde alguns comunistas abundam, especialmente os que são financiados pelo Orçamento de Estado, são muitos o que questionam porque é que um dos espectáculos mais duvidosos em termos legais e de pagamento de impostos vai ter uma cláusula especial lá para início de Setembro. Aqui a conclusão foi fácil: "vamos lá e rebentamos com aquilo tudo". Denotem que isto foi o proprietário de um pastor alemão que usa sapato de vela, veste camisa Ralph Lauren e usa calças de montar a proferir - após a décima segunda cerveja (e sempre são 33cl x 12).

 

Finalmente, e depois de ter recebido da Suiça um link com muitos smiles, link esse de uma publicação daquelas revistas de especialidade cujos artigos são sempre com os mesmos, ninguém conseguiu deixar de estar inquieto com Miguel Pina Martins - um senhor que aparecia muito, depois deixou de aparecer quando a fraca procura de acções em Bolsa se deu e agora volta em força como porta-voz de mais uma associação - um aparte: nunca vi um país tão pequeno com tantas associações, e olhem que sempre me ensinaram que menos é mais.

 

Este indivíduo, cujo mérito no desenvolvimento de um conceito de brinquedos é notório, uma ideia brilhante, aplica o discurso ameaçador do "ou nos dão aquilo que queremos ou fechamos", no habitual atirar de números para o ar e declarando guerra aos senhorios, particularmente aos proprietários de centros comerciais que, no entender deste, deveriam ser "penalizados" pois os custos são inferiores aos dos arrendatários. Para um gestor, o conceito de investimento e retorno do mesmo deveria ser mais claro, além de que, sendo moralmente condenável ou não, lá porque eu estou a sofrer, o do lado não tem que sofrer também - chama-se economia de mercado. Além disso, não basta criar conceitos e desenvolver produtos e ficar à espera que seja o mercado a vir ter connosco, até porque este n\ão é estanque, cada vez menos.

 

Pina Martins pede também ao Estado, os famosos empréstimos a fundo perdido e mais um sem número de privilégios para o retalho, dando a entender que o retalho são somente as lojas de centro comercial ou as mais conhecidas. Chego a ter dúvidas que muitas organizações empresariais ligadas ao retalho tenham esta visão. A repetição do discurso da crise, do dinheiro grátis e da chantagem está à vista, mas...

 

... em nenhuma linha vi Miguel Pina Martins tecer planos para o futuro, nomeadamente no médio-prazo. Também não vi Miguel Pina Martins focar-se nas novas formas de fazer chegar o produto ao consumidor final, acabando por defender (e colocando esse escolha no próprio consumidor - anda a falhar na análise) o tradicional comportamento retalhista da ida à loja. Existiu uma crise com proporções dantescas, mas falamos no regresso ao que era, do "vai ficar tudo igual"... É o mundo a mudar e "vai ficar tudo bem" não é o mesmo que dizer "mais do mesmo"! Se num país com economia dinâmica e sem esperar subsídios do Estado a toda a hora, esta visão arruina qualquer empresa. O comércio online, desafios logísticos, reconversão dos colaboradores, formas de investimento, estratégia nacional e internacional, desenvolvimentod e produtos, nada disso é falado, nada! Até o hype do "teletrabalho" é deixado de lado, para alguns, já coisa do passado. E de facto até é, pois nos últimos meses parece que descobrimos a pólvora, a verdade é que já tinha sido descoberta há décadas...

 

Pergunto, aliás, perguntamos todos a Miguel Pina Martins: fundo perdido? Em que mundo é que vive, Miguel? Pelo facto de sermos o país das borlas e do esmaga orçamentos (em tudo) é que também não evoluímos muito, mas permita-me dizer-lhe que não é motivo para trazer essa questão à praça. E olhe que vi empresas a encerrar nesta fase porque (até arrogantemente) se recusavam a ser financiadas pelos impostos de todos nós e a ouvir associações que só criam entropia e defendem interesses que vão muito além dos interesses de todos os associados. A nossa recomendação, Miguel, venha mais para a esplanada e passe menos tempo nos media. Venha discutir connosco e ensinar-nos qualquer coisa... Olhe que até nos enfrascamos de surface  e gráficos na mão, mas uma coisa é certa, nunca nos lembraríamos da dos fundos perdidos e do regresso ao que era.

 

P.S.: também falámos de coisas boas, sobretudo quando se chegou ao gin. Nasceu um burrito que está cada vez mais brincalhão e ainda ninguém conseguiu perceber como é que eu não sendo um aficionado, mas apaixonado pelos touros no campo, continuo a ter excelentes momentos com aquela malta... 

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O que aprendi nos últimos seis meses...

por Robinson Kanes, em 27.05.20

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Créditos: https://soundmacguy.wordpress.com/2018/06/29/good-moaning-london/

 

 

Amanhã, pela segunda vez este espaço estará aberto aos amigos e seguidores do mesmo. Aliás, pela segunda, em tempos alguém (alguém, porque foi anónimo) quis expressar uma opinião e cedi-lhe o "Não é que não Houvesse" por um dia.

 

Todas as quintas, um convidado poderá falar um pouco do que aprendeu nos últimos seis meses. Esta época, por certo, fez-nos pensar e aprender muitas coisas e mesmo que até ao final do ano, os estilhaços (bons e maus) de toda esta crise irão marcar-nos... Pelo menos a todos os que têm coluna vertebral e têm de trabalhar para viver ou, não podendo trabalhar, querem fazer algo pelas suas vidas e dar um significado às mesmas.

 

É também uma forma de nos conhecermos, de conhecermos o outros e quem sabe até de nos deixarmos inspirar.

 

Quem nos acompanha, vá ficando por aí - amanhã o meu convidado será um grande Amigo destas ondas agrestes onde navega o "Não é que não Houvesse", até porque... Haver, havia, não era grande coisa, mas havia.

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Sem Destino no Adriático...

por Robinson Kanes, em 23.05.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

A maioria dos homens não tem destino.

Manuel Vilas, in "Ordesa"

 

Já tão perto, o mar Adriático arrasta-nos para a Costa Albanesa com o Parque Natural de Llogara a Norte. Terras perigosas dizem, em tempos talvez, hoje mais seguras apesar da distância que nos separa de Tirana a nordeste. Sem destino, apenas com o gelado italiano na memória e com águas que brotam história, cada salpico traz consigo milhares de anos de diálogos e de sangue. O mar tem a capacidade de nos retirar o peso do mundo mas também de nos fazer reflectir sobre o mesmo, apreende-nos e faz-nos querer ir mais longe... Talvez o desabafo para percorrer a Albânia, a Macedónia e entrar em Istambul pela Bulgária, percorrer o Mar Negro até Batumi ou Poti, já na Geórgia, e aí repousar antes do regresso à Arménia.

 

Sem destino, "como barcos contra a corrente, arrastados incessantemente", para citar Scott Fitzgerald, ao sabor das vagas... Ensina-nos a vida moderna, que o destino não existe, ou simplesmente acontece e todos os dias se renova numa espécie de conceito cuja formulação deixo aos pensadores deste século. Absorvem-se já os ares da terra albanesa, pois as suas águas territoriais já nos acolheram. Nesse embalo rimo-nos de como é que é possível acreditar e viver num mundo em que damos tudo como um dado adquirido e tamb´ém troçamos daqueles que, evidentemente, se riem de pensarmos dessa forma... Como era bom que a pandemia que assola o mundo em 2020 tivesse sido há uns anos. Talvez aqueles que perdendo o estrelato, o topo da hierarquia em prol da verdade tenham a razão do seu lado, talvez até não. Quiçá o herói de Kazantzakis tenha toda a razão do mundo enquanto dançava nas areias das não distantes praias gregas. Quiçá nenhum de nós tenha real noção e no conforto de uma paz sustentada em tenros pilares tenha sucumbido ao drama do conforto, mesmo que aponte os tempos actuais como um período de mudança. Também nos podemos rir, afinal a mudança há muito que começou e só um jerico pode afirmar que, agora nestes meses, é que é o tempo de mudar. 

 

Cheira a Tavë Kosi, ou melhor, talvez nós queiramos que esse aroma e o que vem atrás dele nos entre pelo estômago... O Souvlaki há muito para trás já não nos engana o apetite. Podemos atravessar a Macedónia e ficar pelas praias da Bulgária antes de seguir caminho? Mil e um destinos, mil e um de nadas e naquele momento, onde a água e a terra albanesa se beijam e levam o que ainda de mediterrânico existe até aos balcãs, seja também o momento oportuno para selarmos com um beijo e um sorriso o destino. Para o escrever e transformá-lo em passado, porque não me quero mover no contínuo mas sim ficar extremamente sensível naquilo a que Cortázar chamava de descontinuidade vertiginosa da existência.

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Desacatos no Parque...

por Robinson Kanes, em 18.05.20

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Créditos: https://www.vieiradominho.tv/esquadra-da-policia-do-bairro-bela-vista-atacada-com-cocktails-molotov/

 

E dos desacatos do fim de semana na freguesia do Parque das Nações? Onde é que estão as associações de defesa dos cidadãos que foram atormentados com os mesmos? Onde andam as tulhas repletas de comentários e artigos de opinião?

 

E ser PSP em Portugal? Ser PSP em Portugal significa ter um coro de criticas quando se faz o trabalho em prol dos demais e cair no esquecimento quando sofre na pele à mão de muitos que impunemente continuam a dançar entre os pingos da chuva da Justiça.

 

Enquanto este silenciamento continuar e impavidamente ocultarmos este tipo de situações ou adoptarmos o discurso do politicamente correcto com toques de "caça-likes" e do "não vou falar contra a corrente", não vamos resolver o problema. Vamos, aliás, alimentar o discurso dos "Venturas" que tantos com espaço na praça procuram eliminar. Só estão a alimentar a máquina...

 

Finalmente, quem é que defende o cidadão trabalhador português? Quem é que defende o cidadão cumpridor da lei em Portugal? Quando um cão morde um homem devia ser notícia, mas em Portugal dá-se exactamente o contrário e a escalabilidade de algumas situações está aí.

 

Este tipo de questões não se resolve com selfies (ou na sua nova versão de papagaismo-mor selfies do vírus) mas sim com acções concretas e musculadas, num país onde além de existirem cidadãos de segunda e de terceira (consagrado em Constituição) ainda existem aqueles que têm mais diretos, mais impunidade e menos deveres que os demais. Isto não é Democracia, é, como alguém dizia, uma "piada de mau-gosto".

 

Uma Nota final:

E aos criticos da também "fraca" actuação da PSP, lembrem-se que não é fácil controlar uma multidão de 100 pessoas, algumas delas armadas e no seu território e além disso ainda terem de lidar com a pressão dos media e com um representante máximo da nação que as destrói num discurso hipócrita e de aproximação ao criminoso em detrimento da autoridade.

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Avante contra a Liberdade...

por Robinson Kanes, em 14.05.20

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Créditos: https://rdldn.co.uk/elgin-maida-vale/mao-communist-1024x586/

 

Lenine dizia que a Liberdade era um bem tão precioso que tinha de ser controlado... Será por isso que um dos últimos países onde um certo comunismo ainda dita as regras faz aplicar esta regra com total impunidade.

 

Depois do 1º de Maio e da cedência ao sindicalismo naftalinoso eis que chegamos ao Avante. O Partido Comunista Português (PCP) não abdica de fazer a festa, como não abdicou com os seus tentáculos de fazer o 1º de Maio, doa a quem doer, como dizia um Chefe de Estado no tempo dos fogos (até agora ainda ninguém sentiu dores...).

 

O que nos coloca a pensar é a inquietação provocada por uma minoria que consegue todos os anos realizar festas privadas/partidárias que alegadamente utilizam fundos e meios públicos, fogem aparentemente aos impostos e cujos promotores se dão luxo de contornar a lei em pleno Estado de Emergência contrariando tudo e todos e fazendo valer a sua vontade. Que poder é este para escarrar na cara de todos os portugueses que trabalham e cumprem a lei? Que poder é este que domina o Estado Democrático e o funcionalismo público? Questionamos tanto as opções e das ideias de André Ventura (que enfim...) mas continuamos há mais de 45 anos a suportar autênticas ditaduras de uma minoria poderosa que defende regimes sanguinários. Não hesitamos em citar Hitler (o mais popular, logo mais fácil para os mentecaptos) mas aplaudimos os servos de Kim Jong Un, Maduro, Estaline, Pol Pot e por aí adiante... Não é uma questão de esquerda e de direita, é de terror!

 

Continuamos também a permitir que os intentos de uma Constituição claramente comunista e com uma exagerada protecção da máquina do Estado e de todos aqueles que vivem na sua sombra, impedindo, não em raras ocasiões, o desenvolvimento do país e a reforma do Estado - a ausência de coragem para fazer esta reforma tem sido um dos nossos maiores atrasos crónicos - e assim promete continuar a ser, pelo menos tambem enquanto continuarmos numa dicotomia esquerda/direita.

 

Continuamos a deixar que tudo isto aconteça, mesmo que enquanto um grupo de gente de bem, democrática e que vive na miséria a ajudar o próximo (ou não) faça o que bem entende... Fazendo o que bem entende enquanto ficamos confinados nas nossas casas, enquanto não poderemos celebrar festas populares de cariz religioso e profano com origens em tempos que nem o comunismo sonhava existir. Teremos de ficar em casa, muitos de nós, durante as férias porque não podemos exercer a nossa liberdade e ajudar a economia em nome de um bem maior. Teremos de abdicar de produzir, de exercer muitas actividades... No fim, muitos de nós ainda irão perguntar porquê! Talvez poucos, talvez aqueles que estejam cansados de ver os seus impostos a fugir por túneis sem fim, talvez aqueles que preferem lutar a viver na sombra do paternalismo!

 

Porque é que continuamos a ficar parados e corroídos de ferrugem enquanto o mundo cresce? É a pergunta que se coloca, além de que não é de descartar que talvez gostemos e talvez o atraso civilizacional e económico crónico seja por vontade própria... Basta ver o nosso apetite insaciável por destruir que tem novas ideias para o país, seja a nível público seja a nível privado. 

 

Ainda dizem que o orgulhosamente sós era do tempo da outra senhora... O orgulhosamente sós continua na cabeça da maioria...

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Playlist bem regada...

Para um fim-de-semana de Maio...

por Robinson Kanes, em 09.05.20

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Créditos: https://altovineyards.net/wine-and-music/

 

 

A maioria dos homens não tem destino.

Manuel Vilas, in "Ordesa".

 

O primeiro fim de semana onde já muitos sentem a ordem de soltura, para outros com ordem de soltura diária, talvez, uma noite de final de semana mais pacata... Entre um Porta de Santa Catarina Tinto de 2015 e um que recorda o Pico nos idos de Maio, a música em épocas de complexidade, terá outra entoação mais forte. Caríssima, este também marcha bem e nada como aproveitar uma ida a Estremoz e trazer uma caixa de branco e outra de tinto. E usted tome lá mais um... Ainda estou à espera de um prometido petisco...

 

Hoje enquanto conduzia, uma pérola na SBSR, Lou Reed com "Perfect Day", bem a propósito, depois de ouvir o pessimismo disfarçado com optimismo bacoco, realmente nada como um néctar musical destes.

Ainda numa onda de pensamento, nada como navegar com uma voz conhecida dos Kings of Convenience, Erlend Oye & La Comitiva com "Paradiso". Uma voz nórdica com requintes de mediterrâneo, ideal para a noite quente e para ouvir de copo na mão... Música suave, para embalar a alma tranquilamente entre o cheiro do rio e o sabor do luar.

Já me perguntaram o que é que eu tenho contra a música portuguesa. Pouco, só não gosto da nossa língua em modo cantado, parece uma língua eslava e mesmo assim existem línguas eslavas que se bebem melhor que a nossa. Depois temos a qualidade que não abunda... Talvez duas das poucas excepções se possam encontrar na letra e música de José Mário Branco, "Inquietação". Camané e os Dead Combo numa versão simplesmente espectacular... Finalmente em português e com todas as inquietações que nos percorrem actualmente.

Uma letra interessante com o que de bom ainda se fez nos anos 90, onde a boa música (salvo a dos grandes) já começava a declinar. Manic Street Preachers, com "Motorcycle Emptiness". Actual, sempre actual, feliz ou infelizmente.

Pensar onde é que é a nossa casa... Será que tem de ser onde vivemos. Será que é esta a nossa casa. Onde é que é o nosso país? Tem de ser aquele que nos viu nascer? Podemos pensar nisso enquanto os Kaiser Chiefs interpretam "Coming Home".

Falou-se em casa... Talvez esta música aqui não se relacione muito com a playlist que hoje trago, mas quem me conhece sabe perfeitamente o que significa "El aire de la calle". Já me faz falta esse ar temperado com a fritura, com o aroma da Cruzcampo ou até com uma Alhambra que me diz menos. Um eterno delinquente mental a ouvir "Los Delinqüentes"... Esta malta de Jerez de la Frontera já está crescida...

Surge aqui, mas poderá ser efectivamente a última música, para o último copo e para a última fatia de queijo... Não encaixa, não tem de encaixar, mas a noite não pode acabar de outra forma e por isso mesmo o argentino Federico Aubele deixa-nos os seus "Postales".

Peter Gabriel, porquê? Porque sim, é Peter Gabriel... Escolhi "Darkness" mas a lista seria longa.

Já por aqui passaram, não podia deixar que o "Silence" da noite não fosse quebrado pelos "Manchester Orchestra". Há ruídos baixinhos que provocam grande tumulto...

Fecho com uma banda que me tem acompanhado há muito, não que prossiga com novos discos mas tem sido uma presença constante desde 2010, os "Oi va Voi". Também hoje pensamos em "Yesterday's Mistakes", espero que possamos aprender com os mesmos... Tenho dúvidas, mas basta que uma meia-dúzia já o consiga fazer para que o mundo seja um lugar bem melhor.

Bom fim de semana,

P.S.: Para não dizerem que sou do contra... Partilho aqui uma ideia do Rui Melo, do Henrique Dias e do Sérgio Graciano. Terminemos assim em grande com um musicaaaaaaaaaaaaaaaaaaal! 

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