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Granada. O Fim da Conquista...

por Robinson Kanes, em 07.06.17

 

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Fonte das Imagens: Própria 

 

Recebendo as chaves de Granada, os Reis Católicos avançaram para a cidade - embora tenham esperado que esta fosse pacificada – encontrado pelo caminho uma recepção de prisioneiros cristãos visivelmente abatidos pelo cativeiro e que acolheram os reis de Castela e Aragão em sorrisos e lágrimas. Os reis eram acompanhados por Cidi Yahye (lembram-se dele?), já com o nome cristão de Don Pedro de Granada Vanegas e com a missão de ser o responsável pelos mouros da cidade e do reino.

 

Interessante é o relato de Agápida aquando do desfile dos reis católicos, chegando mesmo a apelidar os monarcas de seres sobrenaturais. Também interessante é o mesmo relato que aponta para a ostentação do clero que quase ofuscava a dos monarcas tal o brilho dos diamantes e riquezas transportadas pelos seus membros.

 

Após D. Fernando ter agradecido a Deus na Mesquita Central, entretanto consagrada como Catedral, o cortejo seguiu até ao Alhambra entrando pela Porta da Justiça. Segundo os cronistas, Boabdil solicitou que jamais alguém entrasse pela porta (Puerta de La Alhambra) por onde este havia deixado ocomplexo pela última vez. Esta sua vontade foi respeitada. Ainda hoje esta porta não é acessível, sendo apenas um monumento comemorativo.

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Terminava assim a Conquista de Granada que, segundo Frei António Agápida, teve a mesma duração do cerco de Tróia. Terminava também o domínio dos Mouros em Espanha, 778 anos após a derrota do rei Visigodo Rodrigo nas margens do Guadalete.

 

Termina também esta aventura, pelo que subo novamente ao Alhambra e contemplo mais uma vez a “vega” de Granada, o Albaicín e toda a cidade no seu fervor, esse fervor que não se perdeu com a passagem dos séculos. Contemplo a Serra Nevada e aprecio o belíssimo complexo que é o Alhambra. Recordo os meus encontros com o Zagal, com Boabdil e com todos aqueles que me acolheram dentro daquelas muralhas. Passeio pelas salas onde o Zagal me tratou como um rei, onde partilhamos as nossas semelhanças culturais e de sangue onde, fosse hoje, talvez encontrasse alguém que pudesse ser um bom conselheiro para uma escalada de tensão entre o mundo árabe e o mundo ocidental. Talvez com a maturidade dos séculos fosse possível encontrar uma solução.

 

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Sinto agora os cheiros do Alhambra e vou descer à cidade para também prestar a minha homenagem na Catedral e na Capela Real aos Reis Católicos. Com a noite a cair passo a Calle Navas, conhecida pelos restaurantes e tabernas, mas demasiado turística, isso faz-me recuar e entrar no "La Cueva", em plena Calle Reyes Católicos. Sento-me junto aos presuntos que decoram aquele espaço e aí aprecio umas fatias desse diamante fumado acompanhado de uma Alhambra enquanto espero pela Paella. Entre o barulho infernal (tão típico e tão bom de Espanha) fico a olhar aquelas gentes e o convívio que envolve todo aquele espaço... Penso em como o sangue de dois povos corre nas veias daquele povo e daquela cidade, de como isso, ao contrário do que se apregoa, é que torna tudo mais perfeito, mais genuíno e sem dúvida mais belo.

 

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Para os recém-chegados a esta aventura:


http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/aben-hacen-e-zahara-17518

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/el-zegri-e-ronda-18287

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Um Feijão Frade no Deserto...

por Robinson Kanes, em 31.10.16

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No âmbito do desafio lançado pela colega Mami, eis-me aqui a falar sobre um Feijão Frade no Deserto. Sim... eu também pensei algo como: "que coisa mais parva!".

 

Já imaginaram a vida de um feijão frade? Acredito que já todos pensámos em tal manifestação de existência. A vida do feijão frade é antiga e digna de uma verdadeira diáspora, ou não fosse este oriundo de África e tenha agora uma comunidade por todo o globo. Por pouco não se chamava rabi ao invés de frade...

 

Colhido seco, ou vai para uma embalagem para posterior venda ou é imediatamente cozido e fechado numa lata com outros tantos amigos e familiares da mesma colheita... estão a ver um autocarro da Carris em hora de ponta? Algo como isso, mas menos doloroso.

 

No entanto, o que vos vou contar é uma história que tem sido passada de geração em geração em muitas famílias da mais alta elite - a história do feijão frade que acabou no deserto. Poderia ter acabado numa salada de atum com cebola e salsa, mas aqui tudo foi diferente...

 

Este feijão frade cresceu num pé de feijão em Morogoro, na Tanzânia. No primeiro dia em que teve oportunidade de ver o sol, foi imediatamente colhido e metido num enorme cesto de palha. Na viagem para o barco, os feijões mais velhos contavam histórias de arrepiar - feijões que eram comidos em restaurantes de má fama, feijões que passaram da validade e acabaram com falta de ar, feijões até, que foram atirados pela pia da cozinha e acabaram por morrer moles e afogados numa ETAR - histórias terríveis.

 

Contudo, numa escala em Casablanca, o nosso feijão e outros tantos foram colocados em camiões para serem transportados por essa via para a Europa, mas na verdade o destino do nosso feijão seria outro.

 

Quando, num percurso esburacado e sob uma tempestade de areia, o saco que transportava o nosso feijão, já de si mal fechado, caiu e espalhou milhões de feijões pelo chão, este nunca esperou que acabaria de aterrar em pleno Saara.

 

Tinha sido transportado durante centenas de quilómetros até ficar sozinho no deserto. E também no deserto a vida não foi fácil. No primeiro dia, não fosse o vento e seria comido por uma cobra e no segundo quase que fora sugado por areias movediças.

 

Procurou água, contudo cedo percebeu que água e feijão são uma combinação letal e que provoca uma moleza extrema nesta espécie de semente. O deserto, apesar de monótono, era cheio de perigos e nem uma lata de marca branca para servir de abrigo surgia no horizonte.

 

Triste e aborrecido, este nosso feijão procurou uma saída. Desejava que o seu destino fosse a Europa onde seria consumido num glamoroso restaurante de Paris ou Londres. No entanto, ali naquele local seco e sem fim, via a sua vida desperdiçada e elevada ao nível daqueles feijões que são comidos com atum de lata num qualquer café central, sem qualquer requinte e reconhecimento.

 

Desiludido por vaguear solitariamente por bancos de areia, por dunas infindáveis, cansado daquela vida errante eis que se abandonou ao absurdo. Acabaria engolido por areias movediças.

 

Mas a história não acaba aqui.

 

Ao contrário do que esperava, não sufocou. Lá em baixo uma pequena corrente de água passava e, contra todos os medos aí se encostou e adormeceu. Dormiu dias a fio e eis que um dia deu consigo a acordar cheio de raízes a sair do seu pequeno corpo. Fechou os olhos novamente, sorriu... e adormeceu para sempre.

 

Foi o primeiro pé de feijão do deserto, um pé de feijão que fez nascer outros tantos feijões e que transformou aquela zona inóspita, para sempre num jardim. Um jardim, que se transformou num enorme oásis e alimentou um sem número de povos do deserto que até aí lutavam por comida.

 

Fonte da fotografia: Jornal de Oleiros, 2016

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