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O Fim do Não é que não houvesse...

por Robinson Kanes, em 20.02.21

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Créditos: https://www.pinterest.pt/carlosserrenho/no-masculino/

 

 

Não é que não houvesse... Haver havia... Não era grande coisa... Mas haver havia...

 

Quem me acompanha sabe que não sou adepto do bafio ou de me perpetuar em algo. Acredito na renovação e na procura de diferentes desafios. Ficar agarrado ao mesmo uma vida inteira é como se me matassem. Prefiro a dedicação total no tempo que tenho ao laissez faire da eternidade. Gosto de novos desafios e também de ver outros tomarem um caminho que eu já percorri, por certo o enriquecerão. A toda a hora a natureza, o espaço, tudo se renova, porque nós também não o fazermos?

 

Quem me conhece, também sabe que quando discordo de algo ou não me revejo em, alerto e abandono (o chorrilho português tem o habitual discurso escroque do "quem está mal que se mude") ao invés de preferir pactuar com ou tomar parte em. E existem, por certo, em muitas coisas boas, outras tantas coisas que a minha, digamos, forma de estar, não quer pactuar ou estar associado. 

 

Defendo também que espaços como os blogues são espaços de inovação, de mudança e não de pó entranhado. Assumi isso no primeiro dia em que aqui publiquei e hoje é o dia de fechar o "Não é que não houvesse" que, em meu entender, até durou muito. Fico contente pelas conquistas e também pelas aprendizagens que tive com todos aqueles que por aqui passaram: os comentários; as mensagens de email; os ataques e os elogios; os que não nos seguem ou nos abandonam por medo de acicatarem alguma força que por aí anda e com isso matar a sua imagem virtual na plataforma; os que nos abandonam porque perderam o interesse; os que nos seguem porque os seguimos, uma espécie de moeda de troca, e finalmente os que nos seguem desde o primeiro momento, entre o apreciar e o discordar. Tenho de admitir que estes últimos são os melhores, a par daqueles que nem a existência conhecemos - a sua dedicação e capacidade de discussão, o seu silêncio até, são qualquer coisa e a grande riqueza deste espaço.

 

É tempo de parar, de pensar em novos projectos e de com menos fazer mais, até porque, acredito, só 10% do que poderia adicionar foi escrito. Continuarei, para já, no SardinhaSemLata a espalhar veneno à terça-feira, todavia as portas aqui se fecham. O caminho faz-se caminhando, e além disso, as palavras são uma coisa boa mas terei agora ainda mais tempo para o terreno... Para o pó e para a lama e sem dúvida para um acréscimo do risco. Não poderei estar mais feliz.

 

Para o fim, deixo o porquê do "Não é que não Houvesse" e do seu "Haver havia e por aí adiante"... Foi numa loja de bairro, onde aquando da compra de farinha, uma personagem de provecta idade falava do seu passeio de autocarro a um restaurante (aqueles passeios dos velhos que todos conhecem) e da comida... Repetiu a lenga-lenga umas sete ou oito vezes, o que levou a que uma besta (eu), tivesse tido vontade de lhe despejar um pacote de farinha em cima. Quem díria que acabou por servir de inspiração a...

 

A todos os que por aqui andaram, só tenho de deixar o meu agradecimento, porque quem escreve, gosta sempre de ter o seu público, ou melhor, de criar relação - é isso mesmo. Se não quisesse não publicava, sejamos sérios - outra coisa é afastarmos a clientela ou abanarmos uma certa estrutura, momento em que agora colocaria um smile à gargalhada. Vou estando por aí, algures nesta poeira cósmica que somos e com o mau-feitio do costume. Sabem onde me encontrar...

 

Obrigado a todos e muitos sucessos!

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Do Subnutrido Iémen...

por Robinson Kanes, em 18.02.21

 

Fechar os olhos não muda nada. As coisas não desaparecem pelo simples facto de não estares a ver. Pelo contrário. Da próxima vez que abrires os olhos, revelar-se-ão ainda piores (...) só os cobardes vivem de olhos. Fechá-los e tapar os ouvidos não faz passar o tempo.

Haruki Murakami, in "Kafka à Beira-Mar"

 

Nos anos 90, ainda muito pequeno, e com a visão mais apurada para a televisão que os outros sentidos, acabei por ficar marcado pelas imagens de crianças subnutridas em África. Já referi em tempos que os meus pais nunca me privaram de visualizar qualquer conteúdo mais horrendo... O Mundo é como é...

 

Qualquer criança ou adulto que tenha passado pelos anos 90 (e muito provavelmente nos anos 70 e 80) terá assistido a este triste espectáculo que marcou décadas e cujo esquecimento - e um certo sucesso no combate à fome - acabou por transformar esse passado em algumas piadas: as piadas são boas, além de nos permitirem desanuviar na desgraça, também podem demonstrar o distanciamento face a algo que deixou de existir.

 

Todavia, parece que o passado, e em alguns casos o apagar ideológico do mesmo, leva-nos a pactuar com o regresso de determinadas catástrofes. Não obstante, a diferença é que num Mundo pouco ligado a luta contra a injustiça tinha outra força, muito mais que num Mundo hoje ligado e onde, temas como a fome, só surgem quando alguém tem interesse em tirar uma fotografia junto dos pretos ou dos asiáticos para colocar na capa e um livro.

 

Desta vez volto ao Iémen, país que já abordei aqui, para chegar à conclusão que infalivelmente a História se repete. E a cada vez que se repete, a nossa ignorância e desprezo perante os factos é ainda maior. É perturbador como em países onde os bancos alimentares são verdadeiras indústrias e oligarquias de milhões de euros, se inventa fome que não se vê e quando ela existe, uns quilómetros mais à frente, fingimos nem ver... Ou mais grave que isso, não vemos...

 

Dispenso mais palavras, o vídeo que acompanha este artigo fala por si... Engoli em seco e tive vontade de bater em alguém, mais ainda quando recebia a notícia de que um carregamento de armas de fabrico chinês (alegadamente sem o envolvimento do Governo comunista daquele país) seguia clandestinamente em direcção a este país e foi capturado por uma fragata norte-americana. No meio disto tudo, existem uns olhos que não esquecerei tão depressa...

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Todavía cambian más las cosas que tenemos delante de loso ojos que las que viven sin distancia debajo de la frente. El agua que viene por el río es completamente distinta de la que se va. ¿Y quién recuerda un mapa exacto de la arena del desierto.... o del rostro de un amigo  cualquiera?

Federico García Lorca, in "Así que pasen cinco años" 

 

 

Tarde vai um Sábado onde se almoçou sushi para fugir à rotina -  entrar na comida da moda para dar descanso ao estômago - se bem que um branco de Bucelas no Inverno cai sempre bem, sobretudo numa monocasta de Arinto. Arinto... Aquela coisa que até o pior apreciador reconhece logo pelo aroma e pelo paladar. Desta vez foi um "Prova Régia" e que mesmo refrescado ao momento não desapontou.

 

Apesar de bastante trabalho, uma semana com muita actividade... No que concerne à sétima arte, dose tripla do melhor, uma da Geórgia, outra da Coreia e outra de França. Tentar perceber qual das três a melhor é um exercício demasiado complexo. Graças à quarentena cinéfila do meu adorado Nimas/Medeia consegui ver "Chantrapas" de Otar Iosseliani - um quase filme de cinema dentro do cinema e nos mostra uma realidade que, muito provavelmente já vivemos. Juntemos-lhe "Le P'tit Quinquin" de Bruno Dumont. Adorei o "Commandant Van der Weyden" interpretado por alguém que não é propriamente actor mas faz ver a muitos: Bernard Pruvost. Uma interpretação fantástica (e bem real, porque aquele senhor não está só a representar) para um filme que enquanto toca entre alguns dos males da sociedade explora o já conhecido naturalismo de Dumont. Este ainda é passível de ser visto no site da Medeia Filmes. Três horas de filme que valem cada minuto... Cada minuto até o "Commandant" virar as costas perante o olhar de Quinquin.

Dose tripla a terminar, já fora do espaço Medeia, com mais um daqueles filmes coreanos que, à semelhança dos filmes japoneses, conseguem entre a fantasia e a realidade espoletar em nós as mais profundas emoções. "Deok-Gu", mais conhecido por "Stand by Me" é uma obra prima entre a história de um avô e do seu neto e de como existem separações que não são possíveis, simplesmente... Um filme, à partida para preencher um início de noite, mas que acaba por nos deixar a pensar noite dentro. Grande obra de Bang Soo-In e uma interpretação maravilhosa de Lee Soon-jae como avô! 

Um fim-de-semana este, apimentado com Lenny Kravitz , especialmente com "Ride". Este músico é daqueles que não perde aquilo que o tornou famoso e vai conservando um estilo muito próprio sem ceder às tendências de destruição da boa música. É sempre um gosto ouvir o intérprete da brilhante "It Ain't Over Til It's Over".

Fecho com uma das minhas últimas leituras do universo García Lorca, nomeadamente duas peças extraordinárias: "El público" e a espectacular "Así que pasen cinco años". Quem já viu as duas representadas vai perceber a intensidade das mesmas e a presença do espírito de García Lorca em cada fala. García Lorca foi um génio e mais do que uma vítima da guerra civil, é um verdadeiro colosso da poesia e dramaturgia espanhola... E de uma época que, apesar de toda a turbulência, deixou a sua marca na História Mundial, sobretudo a nível político, social e claro, artístico.

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Bom fim-de-semana...

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As Mamas da Liz Hurley...

por Robinson Kanes, em 03.02.21

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Créditos: yahoo.co.uk / Liz Hurley Instagram

 

E de repente, a chavasqueira toma conta deste espaço porque vamos falar de mamas! Sim, a Liz Hurley tem 55 anos e um corpo invejável onde se incluem as mamas, por sinal, igualmente atraentes. So what? Sim a Liz Hurley deverá ser das poucas britânicas realmente atraentes, so what? Sim, muitas mulheres gostariam de chegar aos 55 como a Liz Hurley. So what

 

Mas tendo em conta que o chavascal tem limites, não vou entrar na discussão das redes sociais nem das celebridades, seria perda de tempo, fico-me mesmo pela apreciação dos seios da senhora. Não obstante, quando alguém como a Liz Hurley expõe parcialmente os seus seios e é alvo de um coro de criticas, inclusive de um dos mais mediáticos gentlemen de bem, mas que não passa de um dos novos censores, Piers Morgan, começamos a pensar. Ninguém sabe muito bem o que é este cavalheiro e o que é que ainda faz nas manhãs de Inglaterra. Ninguém percebe como é que uma coisa destas escalou em importância enquanto o Mundo está transformado numa autêntica sarrafusca! Abrir noticiários com isto é...

 

Posto que, nesta sociedade aberta do politicamente correcto é mau dizer que a roupa é preta pois já estamos a ser racistas, é mau até falar de racismo em África porque não é cool (mas se for nos Estados Unidos já é ser activisita) e é mau levantar um braço ou até fazer humor, todos os cuidados são poucos... a bem da liberdade, dizem. Um humorista que hoje em dia queira fazer jus à profissão não vai longe, ou se vende à política e ao futebol (sim, o Ricardo Araújo Pereira, o Nogueira e tantos outros... acho que houve um que até se trocou todo a propósito de uma passagem de ano mais rebelde) e passa a ser um canal de débito político e ao sabor de quem governa , ou então procura uma nova profissão... Já não se pode ser engraçado que é o fim do mundo. Aliás, já nem assertivo, fará engraçado... Não fosse o humor e tanta coisa já seria esquecida, como se tem tentado que seja nas escolas.

 

Penso hoje que uma série como o Allo' Allo'! nunca teria sucesso, aliás, seria censurada logo à partida! Eu vejo o Allo' Allo', tenho todos os episódios e parto o caco a rir com os alemães, ou melhor, com os nazis! Com os nazis, com os franceses, com a Resistência, com os ingleses, com o fascista Bertorelli e claro com o fantástico agente da Gestapo, Herr Flick! Tornei-me numa besta? Não! Não tendo acompanhado aquando da estreia, vi em diferido e suscitou-me até bastante curiosidade acerca de alguns tópicos. Mas depois criticamos umas mamas atraentes praticamente escondidas... 

 

E enquanto reprovamos as mamas da Liz Hurley, vamos empreendendo o novo hype de uma sociedade decadente que dá demasiada importância a desocupados, perdão, influencers, e embarcou naquela coisa de liberdade feminina que se chama... menstruação! Aliás, vestir de branco e exibir uma enorme mancha vermelha é o que está a dar! Ainda bem que a maioria das mulheres não se revê nisto e outras até dizem que se a emancipação da mulher é isto mais vale voltar ao que era! Como as consigo entender... E sim, não sou mulher, mas posso falar sobre, poupem-me à superioridade moral. Não sou mulher e gosto de mulheres, preferencialmente atraentes como a Liz! Uau! Posso?

 

Enquanto criticamos a mamas da Liz Hurley, estamos a ir contra aquilo que queremos para as mulheres, enquanto criticamos a Liz Hurley mostramos quão hipócritas somos e como fazemos parte de um monte de ovelhas que coloca o bem-estar à frente do look at me. Enquanto enxovalhamos a Liz Hurley, e até achando que é creepy que tivesse sido o filho maior a fotografar, fechamos os olhos a tanta coisa e escavamos um buraco maior do que aquele que queremos tapar. 

 

Esta é a mesma hipocrisia que assistimos em movimentos e causas criadas no momento e ao sabor do like mas depois enfiamos a cabeça na areia porque ser homossexual em Aceh, Indonésia, pronto, como é bem longe, vá... uma 43 chibatadas no lombo e à frente de quem quiser ver até é uma coisa aceitável. A Indonésia é cool, tem Bali, pronto... Nem tudo é mau. Recordo-me do episódio hipócrita do "batom vs velhos bêbados"  e de facto, como tão bem retrata Houellebecq, de que "no mundo moderno (é) permitido trocar a toda a hora, ser bi, trans, zoófilo, sadomaso, mas (é) proibido ser velho". Basta pegar nesta observação e transportá-la para tantos episódios do quotidiano.

 

O vírus tem-nos roubado tanta coisa que é tão nossa, que é tão humana, que não nos roube as nossas liberdade e não nos coloque na cabeça a pedra da loucura de Bosch ou até da histeria colectiva que mais parece um pelourinho mas com gente ainda mais louca com tiques de altamente civilizada e desenvolvida. Realmente... como diz o povo, "o trabalho faz tanta falta"...

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Sardinha Vacinada...

por Robinson Kanes, em 02.02.21

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Créditos: https://starecat.com/katie-i-dont-want-the-covid-vaccine-i-dont-trust-what-they-put-in-it-also-katie-snorting-cocaine/

 

Hoje estamos no SardinhaSemLata a cumprir a penitência da terça-feira. 

Aproveitei, e como me sobraram vacinas que já haviam sobrado de uma misericórdia e que antes também já haviam sobrado de uma delegação do INEM, vacinei-me também. Não sou grupo de alto risco, os pulhas da misericórdia também não e os do INEM, perdão dos amigos do INEM, também não, mas isto a res publica só é pública depois de me precaver em privado. 

 

Mas confesso, foram só sobras e por via das dúvidas vacinei também o peixe, o gato e o cão, além do papagaio da D. Dorinda (é mor, fala muito consoante o vento) e claro do indivíduo que a partir de hoje me vai oferecer sempre os almoços de francesinha.

 

Basta irem aqui para saberem mais...

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A Liberdade num copo de Viña Ardanza...

E na Grécia com Níkos...

por Robinson Kanes, em 29.01.21

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Imagem: Robinson Kanes

 

Nada espero, nada temo: sou livre

Epitáfio de Níkos Kazantzákis

 

Aproxima-se a hora de jantar... Celebremos... Nada em particular para celebrar, somente a existência e o estar por cá. Não celebramos porque é a data X ou Y, celebramos porque sim, o calendário não tem de ditar a nossa vida, para isso já basta ser a contagem dos dias em que adiamos a nossa extrema-unção. 

 

Juntemos-lhe um bom petisco e associemos-lhe um La Rioja, mais propriamente um Viña Ardanza - Reserva 2012. Só tenho de agradecer a sugestão aquando da deslocação às Caves Rioja Alta por esta mistura fatal de "tempranillo" e "garnacha". É bem possível que se sigam mais encomendas... No Natal acompanhou o cabrito e o borrego, hoje acompanha... Sei lá, ainda nem decidi e não me apetece pensar nisso. 

 

Enquanto o Viña Ardanza respira, deixo-me levar neste sentimento de falta de abraços, de falta de sermos humanos - quero visitar Zorba pela perspectiva do seu "criador", o apaixonante Níkos Kazantzákis. O filme de Yannis Smaragdis é uma forma de sonharmos e viajarmos com este senhor e de conhecermos uma das suas grandes personagens, Zorba. Simplesmente apaixonante, sobretudo se apreciarmos a obra do escritor grego e o seu mundo que é tão nosso - existem filmes para sonhar, este é um deles.

 

E dou comigo a pensar naquele taxista que era também professor de História, também de seu nome Níkos... Saudades do bulício ateniense, da Plaka e das discussões para comprar um pote "hand made" e com o respectivo selo. E é nestas alturas que damos connosco a pensar em como é que é possível ter saudades daquela poluição quando atravessamos a cidade em direcção a Pireu... Em como é possível ter saudades de olhar do alto do Licabeto a obra de Demiurgo... Penso na liberdade de Níkos, do taxista... Penso em Jovanotti...

 

La voglio qui per me, la voglio qui per te
La voglio anche per chi non la vuole per sé
Tempi difficili, a volte tragici
Bisogna crederci e non arrendersi

Sim! Viva la Libertà! Porra!

 

Pois que se beba a Kazantzákis, a Smaragdis, a Atenas, a Jovanotti e ao Níkos pois, enquanto o o fruto de Baco brilha no copo, só podemos mesmo pensar em nada esperar e nada temer, ser somente livres... Nessa liberdade, acho que também preciso de ser, não apenas em projecto, essa forma de não ser, mas com tranquilidade de consciência. Vergílio Ferreira não poderia estar mais certo.

 

Bom fim-de-semana,

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Porque existem vírus bem mais perigosos...

por Robinson Kanes, em 26.01.21

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Créditos: https://imgflip.com/i/3u4tcj

 

Hoje estamos no SardinhaSemLata a falar de vírus muito perigosos, mas podem ficar mais calmos... O SARS-CoV 2 não é um deles... 

Passem por lá, é só clicar aqui.

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Discurso do Pânico... Continuem que vão bem...

por Robinson Kanes, em 21.01.21

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Capa da edição do histórico Diário de Notícias de 21/01/2021 - que para isto, não precisava de ter voltado.

Imagem: Diário de Notícias

 

 

E quando se deixa de acreditar nas pessoas, o que é que fica a um homem?!... Pouca coisa e nada de bom... Uma noite danada dentro da gente, uma grande vontade de morrer quando o coração amacia e uma grande vontade de matar quando se pensa que viver é bom e são os outros que não deixam.

Alves Redol, in "A Barca dos Sete Lemes"

 

 

O caronismo e o buescismo vieram para ficar. Já não basta a situação delicada e temos uma nova imposição do pânico e do medo. Parabéns, algumas pseudo-celebridades, médicos sem ética e alguns meios de comunicação conseguiram... "Estamos" cheios de medo.

 

Em relação ao caronismo, faz-me espécie como é que um candidato a Dr. Oz português, que não olha a meios para alcançar o protagonismo, continua a ter destaque máximo nos meios de comunicação, mais do que outros médicos experientes e muito mais prudentes quando falam da situação actual. A apologia do medo e da desgraça, sobretudo vinda de um indivíduo que diz ter estado em cenários de guerra, faz-nos pensar se tal terá servido de alguma coisa: a última coisa que, num cenário de guerra ou de pandemia, devemos fazer é a apologia do pânico e do medo, pelo menos dentro das nossas fileiras... Alguém estudou mal a lição... A cegueira por meia dúzia de likes e futuras audiências não tem limites! Caronas e dokinnis deste país semeiam o pânico e o medo sem olhar às consequências do seu discurso. Também não entendo o que os chefes do serviço destes profissionais andam a fazer...

 

Homens, verdadeiros médicos como António Sarmento (apenas um exemplo), mostram que não devemos entrar neste estado de pânico, mesmo em entrevistas que, mais do que buscar informação, o jornalista (ou licenciado apenas em jornalismo e com faltas a todas as aulas) tenta por todos os meios fazer com que o especialista ceda ao discurso do pânico. Mesmo perante as investidas sem sucesso insiste em dramatizar uma situação que ainda não chegou a tal. Para isso, para o desastre, voltaram os matemáticos dos números lapalissados, a semear o terror ao anunciarem números como 16 000 casos numa semana quando na corrente já temos 12 000 e estamos numa curva ascendente. Brilhante, e pagamos milhões a indivíduos como estes para ensinarem...

 

Também não deixa de ser paradoxal ver o mundo das pseudo-celebridades a embarcarem no discurso do medo e a apregoar o internet shaming e o encerramento de todos em casa - não seria grave se isto não afectasse a saúde mental de muitos que lhes dão ouvidos. Estas estrelas cadentes são as mesmas que há uma semana contestavam o encerramento de espaços culturais mas devem ter chegado à conclusão que, na tentativa de aparecerem, nada como ter as pessoas fechadas em casa e adoptar o discurso do medo - assim não vão cair no esquecimento de facto, mesmo que um dia sejamos contra o panda do kung fu e no outro dia a favor, vive-se de likes e a realidade pouco importa. Ninguém é responsável, mesmo que tenham passado o verão em férias à grande (e não poucas vezes pagas por outrem) a ostentar o seu confinamento. Também ninguém é responsável por, aquando de um acidente de viação em período de proibição de circulação entre concelhos, que pelo que me vem à memória deve ter sido o único em Portugal nos últimos anos, muitos destes indivíduos terem tido vontade de tomar parte na desgraça e afinal se terem esquecido que em tempo de confinamento, a A1 era um desfile destas celebridades quando outros estavam fechados.

 

Voltámos também ao discurso da guerra. Só quem nunca esteve debaixo de fogo real em situação de conflito pode chamar a isto guerra. Não, isto não é uma guerra!  Mas pelo menos, já que andamos todos tão preocupados com a guerra e com a linha da frente, pode ser que seja desta que possamos dar valor aos ex-combatentes do ultramar que combateram numa guerra que nem sabiam muito bem para quê... Esses e os desertores que um certo Presidente da República que na altura já ambicionava estar à frente de uma ditadura, apelidou de cobardes e apátridas mas quando chegou a sua vez, como sempre enquanto era jovem, lá chorou junto do pai para fugir às picadas africanas... E é isto Presidente de uma Democracia... Ainda por estes dias alguém me dizia, vocês (europeus) não sabem aproveitar a paz, estiveram demasiado tempo sem guerra.

 

Sou critico do Governo de António Costa, mas é preciso muito para sentir que desta vez o nosso Primeiro-Ministro não é dos maiores culpados (sim, é o Robinson a escrever isto). Perante tantas decisões complexas, perante tantos especialistas que só querem dar nas vistas (não todos), perante um Presidente da República que se confunde com Primeiro-Ministro quando as coisas correm bem e cospe publicamente em António Costa quando as coisas correm mal, mesmo que tenha tomado parte (e influenciado até) nas decisões, é motivo para ter alguma compaixão. Pelo menos, com más decisões, não deixa de ser um estadista, já o outro... A história falará por si e de um dos maiores actores e youtubers (seja lá o que isso for) da sociedade portuguesa

 

Assassínios em massa? Alguém tem real noção do que significa (mesmo em termos legais) de acusar um Primeiro-Ministro deste tipo de crime? Será que, com todos os erros, ainda não percebemos que não é possível salvar toda a gente e os custos económicos e sociais de um confinamento geral serão fatais? Continuo a não defender confinamentos gerais, não pode ser... Porque é que muitos europeus, e sobretudo os portugueses não se convenceram que os riscos existem? Mas onde é que andaram com a cabeça, pelo menos alguns deles, para acreditar que a segurança é absoluta? É impossível salvar toda a gente se o vírus, seja ele qual for, atacar em força! Podemos mitigar, sim podemos mitigar, mas o risco existirá sempre... Em que raio de bolha andámos a viver estes anos todos? Em que raios de guerras andaram os caronas deste mundo, pois parece que andaram foi a jogar Risco ou a Operação e quando algo é a sério parecem tontos a correr de mãos no ar a gritar acudam!

 

Já se fazem contagens de mortos nos cantos dos ecrãs... Mas o que é isto? Já não há ética, já não há decoro e o jornalismo tende a ocupar mais campas que o SARS-CoV. Somos um Heinrich de Malraux a fazer render a situação, posto que a mesma já foi encontrada! Estamos a abrir precedentes perigosos...

 

E é nesse contexto que, mais do que a situação actual, dá-me medo o futuro neste país, porque isto é só o começo do que um futuro incerto nos reserva. E como diz o povo, continuem que vão bem...

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A dokinni vai dar cabo disto tudo...

por Robinson Kanes, em 11.01.21

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Imagem: instagram

 

Este mundo precisa de tudo menos  de informação suplementar.

Michel Houellbecq, in " Extensão do Domínio da Luta"

 

Em Portugal começa a nascer uma nova trend: o "caronismo". Esta tendência é uma espécie de prática em que médicos com vontade de serem mais estrelas de televisão do que propriamente médicos (e que provocam em muitos profissionais da área estupefacção) se colocam como os profetas da desgraça. Vale tudo... Vídeos, livros e espaços de opiniões em telejornais que os colocam como peritos em várias especialidades médicas... Não fossem os canais informativos uma peça importante na transmissão de notícias, muito provavelmente nem nunca falaria sobre Ana Isabel Pedroso, médica no Hospital de Cascais. Os Médicos de Matosinhos e Cascais têm sempre outro... estão a ver? Também é importante que a TVI não se esqueça de mencionar a actividade no privado, afinal não é mal nenhum, bem pelo contrário, mas fica bem, mesmo que não agrade àqueles que só defendem SNS ou não vejam com bons olhos que um profissional de saúde trabalhe nos dois lados da barricada. 

 

Um destes dias, pois não tendo eu televisão, juro que ligo para a operadora para cortar alguns canais à minha mãe...

 

Confesso que Robinson Kanes tem muito que se lhe diga, mas se uma "dokinni" (nome pelo qual esta profissional é conhecida na rede social instagram) me vier dizer que o Mundo está a acabar e vamos todos morrer de SARS-Cov-2, admito que é possível que ao invés de fugir para a Marateca, muito provavelmente me vou meter no meio da Festa do Avante e sem máscara, especialmente durante aqueles concertos em que os pontapés e as orgias à belga são uma constante. Ana Isabel Pedroso (ou Dra. Ana Isabel Pedroso como se intitula ao mesmo tempo que diz ser a fofinha "dokinni") seguiu a linha que alguns profissionais de saúde tentaram seguir em Itália, aproveitando publicações do "La Repubblica" ou do "Corriere della Sera" para surgir num canal informativo (TVI 24) a anunciar o caos (actos isolados que em termos de comunicação dão sempre uma óptima imagem) e a mostrar o rosto com as marcas da doença, ou melhor com as marcas das horas dedicadas ao combate à doença. Este conceito já está esgotado em Itália... E até gerou alguma controvérsia face aos médicos superstar. Poderia ficar chocado, é um facto, mas afinal parece-me um rosto de "fim de festa" ou de quem tive mais um dia de trabalho... Anormal? Não.

 

A "dokinni", que como Carona se queixa das horas sem fim a trabalhar  mesmo sendo remunerada por isso, é a mesma, também como Carona, que sempre arranja tempo para a televisão e auto-promoção. Anunciar o fim do Mundo com um "A terceira vaga está a rebentar com isto tudo" assusta-me... Quando um médico vem para a televisão sem quaisquer dados fazer destas afirmações é uma espécie de antigo Ministro da Propaganda iraquiano invertido em que ao invés de manter a calma sai pela rua aos gritos com um "fuuuuujam". Depois de um meu familiar ter ouvido um colaborador de um hospital dizer que era "mais uma para morrer naquela sala", também já espero tudo.

 

Mas... Por falar em marcas, sugiro que a TVI 24 comece um novo programa que fale das marcas do trabalho dos portugueses, tem cerca de 10 milhões de candidatos... Bem, 10 milhões não, talvez seja em demasia, mas percebem o que eu quero dizer. Os candidatos poderão também contratar uma agência de comunicação ou perceberem se têm amigos produtores no Whatsapp.

 

E como não gosto de falar das pessoas sem dar uma vista de olhos por alguns aspectos da vida pública das mesmas, lá dei com uma "dokinni" que já é presença habitual nas televisões e também, pelo teor dos comentários, amiga de caras dessas mesmas televisões... Portanto, está explicado. O problema é que este tipo de favores, facultados em canais informativos, só reforça o discurso daqueles que têm os media como uma das maiores ameaças à estabilidade dos nossos tempos.

 

Finalmente, também é interessante ver a tristeza de uma médica que tira uma selfie com marcas da batalha, enquanto improvisa um bico de pato ao mesmo tempo que partilha publicações de quem está muito bem na vida e percorre o caminho daqueles que almejam ser estrelas com vídeos pseudo-educativos mas que colocam o interlocutor como um idiota ou discursos inspiradores dignos de um qualquer Gustavo Santos. Também sugiro à dokinni, que faz questão de mencionar que é a Dra. Ana Isabel Pedroso que apesar da profissão, não é "enxerto" que se escreve, mas sim "excerto". É que isto de ser Dr...

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A Pandemia de Gates e dos Eternos Confinadores...

por Robinson Kanes, em 17.12.20

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Créditos: https://www.euractiv.com/section/coronavirus/news/italy-to-extend-coronavirus-lockdown-until-easter-as-new-cases-fall/

 

O sentido implica a proporção; os excessos pelo contrário, apenas causam dor e destruição.

Aristóteles, in "De Anima"

 

 

Não quero ser uma espécie de moderador entre uma CNN e uma Fox News, todavia, ao escutar ou ler as palavras de Bill Gates acerca da pandemia, existe sempre qualquer coisa que me deixa inquieto. 

 

Bill Gates foi alguém que desde o primeiro momento da pandemia se mostrou deveras preocupado com toda a situação e mostrando o maior empenho na resolução do problema. É um dos homens mais ricos do Mundo (e não é má pessoa), tem uma fundação (é o maior financiador independente na luta contra a Covid-19 com 650 milhões de dólares investidos) e tudo isto também é bom para o marketing da Microsoft, nada a apontar. Também estou perfeitamente de acordo quando Gates afirma que a pandemia deixou os países pobres num estado ainda mais pobre e que a pandemia não irá durar para sempre. Ao contrário de Gates, prefiro ser mais cauteloso em relação à normalização da mesma - Gates apontou há pouco tempo o Verão de 2021.  O multimilionário foi um dos críticos da política de Trump em relação à pandemia, tendo inclusive criticado a política de encerramento de fronteiras dos Estados Unidos com a China e a Europa que, segundo o mesmo, foi um desastre.

 

Todavia, Gates é o mesmo que defende um confinamento alargado (Bill Gates não é profissional de saúde) e que é fácil para alguém que fundou a Microsoft não ter problemas com lockdowns - em Outubro o revenue chegou aos 37.2 biliões de dólares nos resultados trimestrais (aumento de 12%). Nas últimas palavras aponta para algo até 6 meses, no mínimo. Digamos que até é bom, a Microsoft pode continuar a cortar nos custos e a vender mais software, numa clara adaptação aos novos tempos (desde que não forcemos demasiado os tempos). Gates também colocou nos Estados Unidos o ónus de suportar a pandemia para lá de 2022 até que os países mais pobres possam ficar estabilizados e até a própria economia mundial. Não quero, neste caso, pegar nas palavras muitos dos que defendem que se a China criou o vírus deveria também pagar os custos, mas é no mínimo caricato que o ónus esteja a ser colocado a Ocidente e seja quase um sacrilégio afirmar que a China merece uma investigação.

 

Não questionando Gates, até porque tenho o trabalho deste senhor em boa conta, é preciso recordar, e incluo muitos adeptos do "fique em casa até morrer", que é óptimo passar um confinamento quando estamos a ganhar dinheiro com a pandemia. Também é óptimo estar em confinamento quando a nossa casa ocupa um quarteirão, temos piscina e uma sala que parece um space shuttle. Também poderei falar daqueles que acreditam que o Estado tem recursos infinitos e que portanto o dinheiro nunca vai acabar. Estados paternalistas adoram, e cidadãos que esperam tudo do Estado também. Vamos continuando naquela que, em gstão de catástrofe, se chama a fase 1 de relief.

 

Finalmente, enquanto tomamos o pequeno-almoço de Natal aos conselhos do George Villiers português, continuamos a ignorar as consequências para a saúde mental e para a "saúde social" dos confinamentos (já sem falar na económica), porque não é preciso ser especialista em saúde pública para chegar à conclusão que saúde pública não é só Sars-Cov-2, é também todos os efeitos da doença. Na verdade, é apetecível que passemos as nossas vidas agarrados a videojogos, séries de televisão e a uma inundação de informação que ao invés de nos dar empowerment e espírito crítico, só nos faz sentir inteligentemente estúpidos, no entanto, o Homem (essa natureza em perigo como nos disse Behlen), a Saúde e o Mundo são muito mais que isso... 

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