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Há Ceviche e Flamenco na Tasca do Robinson...

por Robinson Kanes, em 24.04.18

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Fonte da Imagem: Própria

 

 

 

A vida é feita, bem o sabemos, de pequenos nadas que é o que mais conta para o nada que somos no fácil e correntio.

Vergílio Ferreira, in "Conta Corrente II"

 

 

Aqui nunca se falou de comida, aliás, já se falou muito de comida mas nunca se mostrou a verdadeira iguaria. Desta feita, e posto que o fim-de-semana foi caseiro, também resolvi trazer para aqui um bom pitéu!

 

Por natureza, sou esquisito com o peixe (se fosse só com o peixe...) e depois de uma ida ao mercado, lá veio um peixe-espada preto para casa! Não foi bem um peixe-espada, afinal o peixeiro é um indivíduo daqueles com quem rapidamente se cria uma boa amizade e logo se ofereceu para fazer um trabalho que eu não desejo a ninguém mas que teria de ser feito se não existisse tanta simpatia - transformar o peixe-espada em filetes!

 

Feito o trabalho, e como estamos a falar de cerca de dois quilos e meio, aproveitei os rabos e dediquei-me ao ceviche, um prato da América do Sul. Para os peruanos é até parte do seu património cultural, ou não fosse o Perú o país com o registo mais antigo desta iguaria.

 

Devo falar da receita? Sempre a posso colocar nos comentários, no entanto o resultado final foi este:

 

Eu sei que podia ser melhor e que isto não é um espaço culinário e que pode ser o primeiro passo para assassinar o blog, mas tenho de pelo menos mencionar os ingredientes utilizados:

 

-filetes de peixe-espada preto

-cebola roxa

-malagueta vermelha

-coentros frescos

-sal iodado

-batatas pequenas

-pimenta moída na hora

-limão

-abacate

-manga

-abacaxi

-azeite 

 

Todavia, o Robinson na cozinha precisa de utensílio fundamental e não é a bimby - em casa não existe. É a música... Cozinhar sem música e sem uma boa companhia não é nada agradável, pelo que, a companhia da alemã, um copo de Moscatel de Setúbal, Quinta da Bacalhôa, colheita de 2014 e ritmos andaluzes foram a escolha! Por acaso, é algo que acontece com alguma frequência, mas enfim...

 

Entre os vários escutados, destaco uma das minhas musas musicais: Estrella Morente, a cantora de flamenco granadina e que tem também o seu espaço nas playlists cá de casa.  A música que escolhi, foge um pouco a alguns registos da cantora e até já serviu de banda sonora ao filme "Volver" de Pedro Almodovar, com Penélope Cruz e Carmen Maura - acham que aquela voz a cantar no filme era a Penélope? O filme valeu aliás, o Óscar, o Goya e o Leão de Ouro a Penélope.

 

Esta é uma música que fala de memória, de regressos, de medos do passado e que... Não tem nada que ver com ceviche... Mas fica a nota, nem tudo tem de ser linear.

 

Hoje, até porque não dá muito trabalho, cheguem a casa, não liguem a televisão e coloquem a Estrella Morente a cantar e atirem-se ao ceviche - cuidado é com o peixe que precisa de ser muito fresco. Eu sugeriria a versão de Morente para "La Noche de mi Amor" ou então na voz e a presença da costa-riquenha Chavela Vargas, mas isso já é entrar num mundo que não é o nosso e requer um artigo só para ela. 

 

Boa Semana e apaixonem-se...

 

 

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Paleo? Não é Realista!

por Robinson Kanes, em 06.11.17

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 Bodegón con Costillas , Lomo y Cabeza de Cordero, Francisco de Goya - Musée du Louvre

Fonte da Imagem: Própria.

 

Sempre que surge uma nova "dieta", existe um vasto número de "nutricionistas" na nossa praça que quase nos obrigam a aderir à sua ideologia alimentar. Para mim, e por ser um tema demasiado sério para andarmos a brincar com o mesmo ou a assumir o papel de um especialista, penso que cada um de nós deve consultar sempre um profissional da área... Não estamos propriamente a adquirir ou a aderir a uma forma de vestir - a "última" tendência é o Paleo ou os "Primitivos Modernos" ou "Neo Primitivos".

 

Não sou seguidor da corrente e muito menos especialista na área da saúde alimentar pelo que estudei um pouco sobre a matéria, mas não o suficiente, reconheço, pelo que os vossos comentários serão mais que importantes. Nestas matérias mais do que embadeirarmos algo em arco, só porque é cool ou está na moda, temos de ver todas as frentes, eu vou-me focar nos contras, porque prós não faltam, embora mencione alguns.

 

O desenvolvimento desta tendência tem por detrás o polémico Chef Pete Evans. Evans defendeu nos media que se começássemos a replicar a alimentação dos nossos antepassados do paleolítico, a nossa saúde melhoraria substancialmente. Pete Evans, apenas criou uma tendência, e com o devido usufruto para o próprio, mas temos de ter em conta que é só isso e até aí, nada a apontar. Importa sublinhar, contudo, que Evans apenas mediatizou o que já vinha a ser estudado por alguns especialistas que defendem esta prática há mais de 40 anos. Desenganem-se aqueles que pensam que é uma descoberta recente, livros dos anos 70 não faltam.

 

Um dos maiores contestários de Evans, é Marlene Zuk, especialista em Biologia Evolutiva na Universidade do Minesota e uma referência na área. Esta advoga que a dieta Paleo é baseada na ideia de que a genética humana não mudou desde há 10.000 anos para cá, nomeadamente, desde o desenvolvimento da agricultura. Todavia, mais uma vez e segundo a mesma, os nossos genes mudaram e isso fez com o nosso organismo possa perfeitamente "aceitar" alimentos que nunca seriam aceites pelo Homem do Paleolítico. Os especialistas como Zuk vão mais longe, e assumem até, que pouco sabemos do que se alimentavam os nossos antepassados pelo que não podemos sustentar tal teoria. Zuk é a autora do livro "Paleofantasy: What Evolution Really Tells Us about Sex, Diet, and How We Live".

 

Uma outra questão, prende-se com o facto dos defensores desta corrente excluirem das épocas históricas a questão social e das próprias necessidades - à época o homem tinha de caçar ou recolher o que a natureza lhe dava, hoje isso não é necessário, pelo que ficará a questão: justifica que nos comportemos como tal? Coloca-se ainda a questão de que tudo o que comemos actualmente, ou quase tudo, já sofreu a transformação do homem e da própria evolução natural - não podemos conceber que as frutas, legumes e até carne de outrora existam hoje como existiram um dia. Temos de ter cuidado e ter em conta que a tendência paleo não resolve todos os problemas de saúde, como em alguns casos já se tentou fazer crer - a propósito disso, este artigo publicado na Lancet, demonstra que o Homem de outrora não era propriamente aquele ser belo, de corpo esculpido e saudável. Já vão sendo realizados alguns estudos, todavia, muitas doenças poderiam não ocorrer no paleolítico pelo simples facto de muito poucos atingirem uma grande longevidade... Além disso, as doenças actuais não estão só relacionadas com a idade mas também com o estilo de vida e outros factores que vão bem para lá da alimentação. 

 

Outro pormenor prende-se com o facto do Homem, ao longo da história, ter estabelecido diferentes dietas que sempre dependeram da geografia e da variedade de "produtos" disponíveis. Recomendo o artigo de William Leonard na Scientific American de Dezembro de 2002 e este outro da Nature realizado com base no estudo do ADN da placa dentária dos Neandertais - se gostarem desta matéria, para lá das dietas, é sem dúvida uma viagem interessante. Ambos os estudos têm acesso pago e por esse motivo as minhas desculpas.

 

Um outro factor, e aqui creio que podemos extender a todas as dietas, está relacionado com a importância de prevenir aquilo a que os americanos chamam o "what the hell effect", algo como "efeito, mas que raio" e que não é mais do que sublinhar que a prática de diferentes dietas não leva a uma perda de peso, bem pelo contrário. Este comportamente surge também devido à vulnerabilidade a que muitos estão sujeitos assim que "caem em tentação". Neste campo, os estudos vão mais longe, e apontam que basta só a ideia de se ter quebrado determinado regime alimentar, para que os indivíduos percam o auto-controlo. Sugiro este estudo da Universidade de Toronto. 

 

Finalmente, a adopção de determinados hábitos como o regime paleo, pode levar, inclusive, à perda de um ambiente social agradável e também a restrições que são irrealistas para os dias de hoje. Esta é também a opinião de Charlotte Markey, psicóloga e professora na Rutgers University com 15 anos de investigação nesta área. Sugiro o livro "Smart People Don't Diet: How the Latest Science Can Help You Lose Weight Permanently" e também o artigo "Don't Diet!", da autoria da mesma, e publicado na Scientific American Mind de Setembro/Outubro de 2015. Podem encontrar o artigo online mediante pagamento ou adquirir, como eu, a revista.

  

Todavia, nem tudo é mau, uma das vantagens apontadas para esta dieta, é a ausência das chamadas "comidas processadas". Penso que aí é indiscutível. 

 

Com isto, não procuro censurar quem segue estes hábitos (é uma escolha dos próprios, livre e que deve ser respeitada), contudo, temos de ter cautela quando utilizamos o conceito de ciência como se fosse marketing ou um lifestyle, até porque dizer que hoje é possível adoptar uma forma de estar paleolítica é totalmente absurdo - ainda não conheci ninguém que adira a este modo de estar e viva numa caverna sendo recolector ou caçadorO ideal, será sempre conhecer diferentes perspectivas e, sobretudo, quando é de saúde que falamos, conversar com os verdadeiros especialistas (a favor e contra). 

 

 

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Portugal: O País da Fartura!

por Robinson Kanes, em 05.09.17

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Fonte das Imagens: Própria 

 

A  Terra, disse ele, tem uma pele, e esta pele tem doenças. Uma destas doenças, por exemplo, chama-se homem.

Friedrich Nietzsche, in "Assim Falava Zaratustra"  

 

Este país é um local mágico. O meu pai costumava dizer que não havia melhor país que este, pois bastava percorrer as estradas e as ruas para se encontrar mobiliário para a casa - são os colchões, as cadeiras, os móveis de sala, as camas e um sem número de coisas atiradas para a berma ou largadas no meio da floresta. Quem quiser um animal de estimação facilmente encontra um, sobretudo nos meses de verão.

 

É um país de fartura, onde estudos encomendados dizem que andamos todos muito entusiasmados e confiantes com a nossa situação económica, mas onde a dívida não pára de subir, esperemos que a situação se inverta. No meio de tudo isto, sempre é bom para dinamizar a economia, embora ainda não tenhamos percebido que os anos dourados não voltam, ou voltam, mas daqui a meia dúzia de anos voltam também os anos negros... E cada crise económica, tende a ser pior que a outra... Mas por aqui a comida vai parar ao lixo ou não fôssemos um país onde a alimentação até é barata (infelizmente).

 

Mas a fartura é tanta que até despejamos comida em condições de consumo para o lixo. Digam lá que não somos um país rico? Depois de ter fotografado aquilo que vos é apresentado no topo da página ainda remexi o lixo e encontrei pacotes de leite dentro da data de validade e iogurtes em iguais condições. Somos gente fina que não se limita a colocar o lixo no local próprio (quando coloca) mas ainda dá um bónus às gaivotas e às ratazanas que deambulam pelos aterros. Um dos bolos, que é visível, estava totalmente selado.

 

Um destes dias teremos o Banco Alimentar Contra a Fome a fazer recolhas junto aos caixotes do lixo com os senhores mais adultos em amena cavaqueira enquanto as crianças à civil ou vestidas com a farda dos escoteiros entregam sacos e pedem donativos. Chama-se a isto ser solidário.

 

P.S: o bolo acabou comido pelos corvos, cortesia do Robinson...

 

 

 

 

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"Dinner in the Sky"? Prefiro "In the Tree".

por Robinson Kanes, em 22.08.17

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Fonte das Imagens: http://www.redwoodstreehouse.co.nz/photo-gallery/

 

Uma das "últimas" tendências na área dos eventos e até do turismo é o "Dinner in the Sky", ou seja, "Jantar no Céu". Não estou a falar de uma reedição da "Última Ceia" mas agora com palco nas alturas e muito menos no "Cenáculo", em pleno Monte Sião. Também ninguém vai trair o organizador do jantar, é mesmo um jantar numa plataforma suspensa e suportado por gruas com chefs famosos a servirem. 

 

Pessoalmente não é uma iniciativa que aprecie, mesmo que digam que é moderno. Além de que... Se alguém beber bastante corre o risco de cair (não acontece, estarão presos).

 

No entanto, para comer nas alturas, um dos locais/iniciativas que mais me encantou foi recomendado por um colega austríaco na Nova Zelândia, mais precisamente em Warkworth, Auckland. O resultado é fazer a refeição nas árvores, uma espécie de regressar às origens mas de uma forma bem mais conseguida e bem mais ecológica que a anterior. Estou a falar da "Reedwoods Treehouse", um conceito de restauração extremamente interessante. Também é nas alturas, mas bastante mais natural e humano. 

 

Saborear uma refeição ou celebrar uma festa no meio da floresta, tendo para isso de atravessar uma plataforma de madeira entre as árvores e entrar num "ninho" é algo de singular. Actualmente, a "Reedwoods Treehouse" ainda só pode ser utilizada para eventos privados mas é sem dúvida um ideia excelente e que poderia ser transposta para as nossas florestas. Quando nos queixamos que a floresta está ao abandono, pode ser uma forma de rentabilizar um espaço garantindo, contudo, o equílibrio com a natureza. Ainda me lembro, quando apresentei esta ideia a um investidor e a duas câmaras, a perplexidade de todos. Embora não fosse algo novo a reacção foi esta: "acha que somos macacos para comer em árvores?". Tivesse eu falado de um jantar suspenso por gruas mas que tem mais visibilidade talvez tivesse tido mais sorte.

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O conceito é fantástico, ecológico e de extremo bom gosto criando uma experiência inesquecível. Com Portugal a ser o foco do turismo internacional, bem podemos ter uma forma de fazer o mesmo chegar a locais mais recônditos e menos conhecidos e com isso desenvolver um turismo sustentável e com reais impactes positivos no local. Além disso, a estrutura foi construída em apenas 66 dias! Quando falamos em "Turismo para Todos" não nos podemos esquecer de incluir no "todos" os que cá estão sob pena de cometermos erros que outros já se arrependeram e agora se encontram a corrigir.

 

Se ser macaco é isto, pois bem, trepemos às àrvores e aproveitemos este espaço!

 

Querem saber como tudo começou? Sigam esta ligação e vejam como uma campanha de marketing acabou por dar origem a este espaço.

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