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Imagens: Robinson Kanes

 

Depois de Persépolis é sempre bom descansar. Avizinha-se um fim-de-semana de chuva e por certo, fora de Portugal também estará, aposto.

 

Por isso, para os que não querem apanhar chuva, uma ideia para o fim-de-semana e inspirado na "inquietação" de sua excelência Vorph Valknut, volto a Hermann Hesse com o colossal "O Jogo das Contas de Vidro", um livro cuja leitura vai bem para além de um fim-de-semana. A utopia do conhecimento de uma comunidade fechada assente num jogo e o paradoxo do mundo exterior em jogo. Interessante e para ler com calma.

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Para algo mais fluído, se é que podemos falar de fluidez quando nos referimos a Hermann Hesse, nada como nos deixarmos ir nas letras de "Viagem ao País do Amanhã"! Uma viagem de auto-conhecimento, de desafios em comunidade e com a espiritualidade a que Hermann Hesse sempre foi fiel. Quantos de nós não merecíamos uma viagem assim?

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Para ouvir, nada como chamar um dos mestres da casa, o grande Bruce. Ainda me lembro dos posters deste senhor colados no guarda-fatos da minha irmã, mais velha que eu e já com bom gosto para a música - anos mais tarde percebi o porquê da paixão. Bruce Springsteen é um senhor, ponto!

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Um dos seus albúns mais "recentes" é "High Hopes" e entre outras, destaco "Down in The Hole". O resto é conversa!

E como ir ao teatro é das melhores coisas do mundo, nada como ir à Politécnica ver a peça "Vemo-nos ao Nascer do Dia" de Zinnie Harris! Os Artistas Unidos no seu melhor com uma peça sobre amor e morte! Andreia Bento e Joana Bárcia numa excelente, mas excelente, interpretação!

 

Finalmente,  bom cinema... Volto a Espanha, volto a Almodóvar com "Todo sobre mi Madre". Acompanhar a luta de Manuela (Cecilia Roth) após a morte do filho e a busca pelo pai do mesmo - uma surpresa enquanto assistimos a todas as peripécias de Manuela e à tristeza da pequena Irmã Maria, interpretada por Penélope Cruz. De destacar, entre os muitos prémios, o "Óscar para Melhor Filme Estrangeiro", a "Palma de Ouro" em Cannes para Almodóvar, o "César para Melhor Filme Estrangeiro" e o BAFTA para "Melhor Filme em Língua não Inglesa". 

Também não me posso esquecer da banda sonora de Alberto Rivera, mas destaco uma das músicas que nos vai acompanhando ao longo de todo o filme, "Tajabone" de Ismael Lô. Não se poderia ter escolhido melhor música para acompanhar este filme. E é também com esta que vos desejo um Excelente fim-de-semana.

P.S.: e não se esqueçam de acompanhar esta caldeirada com um "HT Reserva", de Tiago Cabaço. Também ele uma bela caldeirada de Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Syrah.

 

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Agora sim, mais bem regados, bom fim-de-semana,

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Hess e Bartoli numa Sociedade Karōshi...

por Robinson Kanes, em 15.11.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

Uma hora assim com vinho e um amigo, quando se tem um, e uma conversa bem humorada sobre esta vida estranha, é de facto o melhor que se poder. Também tem de ser assim, e nós temos de ser felizes, pelo facto de ainda termos isto. De quanto tempo é que precisa um pobre diabo para fazer um belo foguete e a alegria não dura um minuto! Por isso há que poupar a alegria e a paz de alma e a boa consciência para que haja de vez em quando uma hora assim.

Hermann Hesse, in "Gertrud"

 

 

Entre o sol e a chuva, este Outono vai tendo cores fantásticas... Época maravilhosa e que será mais escura além fronteiras daqui a alguns dias. Por isso, para celebrar o Outono, o habitué da sexta-feira dará lugar a uma Cecilia Bartoli que "elogia" a grande Maria Malibran - polémica e que teve uma curta vida de 28 anos.

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Recordam-se alguns concertos onde encontramos trechos de Vicenzo Bellini ("La Sonnambula", "I Puritani" e "Norma"), Mendelssohn ("Infelici"), Persiani ("Ines de Castro") e tantos outros onde destaco também Hummel. O Outono terá outro sabor... Mesmo entre castanhas e jeropiga,

Para uma leitura ligeira mas nem por isso leve, Gertrud de "Hermann Hesse". Um amor frustrado, um elogio da música e da vida, o ideal para ler antes de ficarmos a meditar ao som de Bartoli. Uma obra bem ao estilo de Hesse, que já passou muitas vezes por aqui, e que não deixará ninguém indiferente.

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E porque não uma ida ao D. Maria II? Brilhantes encenações de "O Bando" com o "Purgatório - A Divina Comédia" que dispensa apresentações e "Karōshi" (na sala estúdio) uma encenação brilhante do trabalho actual, dos dias de hoje e de uma sociedade em colapso. Uma peça para pensar, por certo é o que acontecerá no Sábado. Cumprimentamo-nos lá enquanto assistimos ao "Teatro da Cidade" no seu melhor?

 

E finalmente, para quem gosta de uma boa amizade, para quem ainda gosta de um bom filme sem ir muito lá para trás... "Fried Green Tomatoes". O filme de Jon Avnet que de comédia tem pouco. Um leque brilhante de actrizes onde destaco Jessica Tandy (a eterna Miss Daisy) e Kathy Bates. A vida como ela era, numa realidade dos Estados Unidos que não está assim tão longe. A amizade entre Ruth e Ninny Threadgoode não nos deixará indiferentes, e por certo nos deixará, mais perto do fim, com uma amargura rapidamente ultrapassada por Ninny - e quantos de nós não gostariam de ser Ninny?

 

Bom fim-de-semana,

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Imagens: Robinson Kanes

 

Decidi antecipar o "Dia dos Mortos" e consequentemente aquele artigo que antecede quase sempre o final da semana. Talvez esse sentimento de perda se tenha abatido sobre mim por antecipação, talvez essa saudade, não das coisas más, mas das coisas boas que este dia trouxe durante muito tempo... Aproveitarei, no entanto, para amanhã deixar algo mais reconfortante para os três dias de "descanso" que se avizinham.

 

Para uma leitura, depois de "A Esperança" terei de voltar a André Malraux, é imperativo que assim o seja. Para estes dias, nada melhor que "A Estrada Real", que conhecer pelos olhos de Claude o grande Perken e a sua luta pelos valores e quiçá pela morte. É um livro que nos torna mais adultos enquanto deambulamos pela Indochina.

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Uma das minhas paixões por música clássica deve-se aos requiem. Este estilo, apesar da tristeza, mas também da força e da esperança que nos dá tem-me acompanhado desde muito jovem - cedo fiquei fascinado com as composições de Mozart e Verdi. No entanto, ao longo dos anos, fui descobrindo preciosas obras e deixo as minhas duas sugestões para estes dias, talvez os melhores (ou não) para escutarmos um requiem. A primeira audição vai para um dos meus preferidos, o "Requiem em Dó Menor" de Luigi Cherubini. Imaginem-se em Florença, junto ao rio ou até em Fiesole, bem perto a escutar esta composição! Talvez me tenha deixado influenciar pela naturalidade do compositor, porque o mesmo foi escrito em memória de Luis XVI de França.

E porque é importante não compactuar com a ocultação dos nossos grandes mestres, não posso deixar passar um dos mais belos requiem de sempre e que é português! O "Requiem Op.23" de João Domingos Bomtempo! Uma "homenagem" a Camões, à sua memória e à língua portuguesa que hoje está sob ataque cerrado! Escutemos Bomtempo e escutemos aquele(s) que muitos teimam em fazer esquecer mesmo que continue a passar nas grandes salas por esse mundo fora.

E a propósito de Bomtempo, porque não irem à Igreja de São Roque no dia 1, pelas 21h:00m, ouvir o Ensemble MPMP? Poderão ouvir do compositor Bomtempo "LIBERA ME" e as "Quatro Absolvições". Aproveitem e vejam também a estreia das "Canções do espaço e da luz" de Hugo Ribeiro. Estas apresentações estao incluídas na Temporada de Música em São Roque! Podem consultar aqui o programa.

 

E porque o pedantismo já vai longo, nada como fechar com um filme... Amor e morte, mas muito mais amor. O filme "Amour" de Michael Aneke deveria ser obrigatório para jovens e adultos. Um filme que ganhou a Palma de Ouro em Cannes e o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro - conta ainda com a portuguesa Rita Blanco e duas brilhantes interpretações de Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant. Há quem o veja como um retrato positivo no meio de tanta dor, tristeza e solidão, no entanto, desperta-nos para a realidade inerente a todos os estados anteriormente enumerados - e essa nem sempre é a mais agradável... Mas o amor, o amor tudo vence e aí sim, poderemos esboçar um sorriso ao longo do filme. Além disso, foi lançado numa data muito especial para mim.

E para reflectir durante os dias que se avizinham, e desta vez não é uma má notícia - os gorilas das montanha, no Ruanda, cuja extinção esteve anunciada para o ano 2000 passaram por estes dias a espécie "em perigo" deixando a categoria de " em grande perigo". É uma vitória para todos aqueles que protegem uma espécie que partilha 98% do nosso ADN. Os gorilas têm aumentado em número e por isso todos estão de parabéns, não só no Ruanda, mas também na República Democrática do Congo e Uganda. África também precisa que as boas notícias cheguem até nós!

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Head On com um Lobo em Time Lapse...

por Robinson Kanes, em 25.10.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Fechar a semana com a ideia de que talvez tenhamos feito justiça, de que talvez possamos ter contribuído para que o país tenha menos fantochada, menos corrosão... Ou talvez não... Talvez tenha sido apenas uma espécie de utopia que alguns lobos solitários teimam em criar, apesar do seu pragmatismo lhes dizer o contrário... Talvez por isso, para o fim de semana que se aproxima (e para a semana, pois nem todos gozam o Sábado e o Domingo) pense em Hermann Hess e no seu "O Lobo das Estepes". Talvez pense como o país seria um local melhor para se trabalhar, viver e desenvolver se levássemos esta frase a sério:

 

Imagine-se um jardim com centenas de variedades de árvores, milhares de variedades de flores, centenas de variedades de frutos, centenas de variedades de ervas. Se o jardineiro deste jardim não conhecer nenhuma outra classificação botânica para além da distinção entre "comestível" e "ruim", não saberá o que fazer com nove décimos do seu jardim, arrancará as mais encantadoras flores, cortará as mais nobres árvores ou então vai odiá-las e olhá-las com desconfiança.

Hermann Hess, in "O Lobo das Estepes"

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Para se escutar, uma série de autênticos "poemas" outonais. Talvez me sinta sempre defraudado quando assisto aos concertos de Ludovico Einaudi - é o meu egoísmo! Quero sempre que Einaudi toque só para mim, sem o aparato da banda que traz consigo. Só eu, a alemã (que abriu as portas de Hermann Hess a este indivíduo que aqui se chama Robinson) e Einaudi - preferencialmente com um Steinway & Sons. Do mestre italiano, o albúm "Time Lapse", ideal para acompanhar ou ajudar a digerir a leitura de Hess e do mundo... Uma nota para o facto de em composições como "Orbits", "Experience" e "Underwood" contar com o excelente violinista Daniel Hope. 

Um filme? Um alemão com contornos turcos, também do realizador nascido na Alemanha mas filho de pais turcos Fatih Akin. Um filme que a critica cinematográfica portuguesa não gostou muito... Não atinge patamares de intelectualidade que só os criticos percebem e como também não foi propriamente alvo de grande divulgação é normal que assim seja por terras lusas onde se alterna entre a estratosfera e a moda - sempre é mais confortável. Eu gostei... Violento, amargo, duro e pouco romântico - a vida tende a ser assim muitas vezes, como em "Gegen die Wand" mais conhecido por "Head on - A Esposa Turca". O romantismo fica sempre bem nos livros...

E porque o fim de semana também ajuda a pensar, talvez seja uma boa altura para questionarmos a nossa abordagem, sobretudo em termos de comunicação, face às alterações climáticas - a verdade é que quanto mais ruído provocamos menos eficientes estamos a ser, ou seja, o excesso de informação que vemos em tantos canais de media e não só, estão apenas a alimentar criadores de conteúdos ultrapassados e a não produzir o engagement esperado. A este propósito, e é apenas um entre muitos, nada como investirem alguns euros no website da American Psychological Association (APA) e na leitura de Susanne Moser:

Moser, S. C. (2007). More bad news: The risk of neglecting emotional responses to climate change information. In S. C. Moser & L. Dilling (Eds.), Creating a climate for change: Communicating climate change and facilitating social change (pp. 64-80). New York, NY, US: Cambridge University Press.

 

Bom fim de semana

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Imagens: Robinson Kanes

 

Já estão a chegar mais dois dias de boa vida. Pelo menos para alguns, pois há quem trabalhe, muitas vezes, para que esses dois dias sejam óptimos para os outros. A semana passada, como em outras, dei folga a esta rubrica, se assim preferirem chamar a mesma - mas o "Dia Internacional da Paz" surgiu-me como prioritário, sobretudo pela ligação que tem agora às questões climáticas e pela ausência de alguma discussão em torno do mesmo.

 

Por aqui será feita uma pausa de alguns dias. Dias para experimentar uma realidade diferente, dias para equacionar uma presença, dias para muitas outras coisas. 

 

E que tal um fim de semana com Albert Camus? "A Queda" é talvez a sugestão que mais se enquadra para o dia de hoje, talvez aquele que me pode fazer reflectir no dia de hoje.

 

Que importa, no fim de contas? As mentiras não conduzem finalmente à via da verdade? E as minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tenderão todas todas para o mesmo fim, não terão o mesmo sentido? Que importa então, que sejam verdadeiras ou falsas, se, nos dois casos, são significativas do que fui e do que sou? Vê-se mais claro, por vezes, naquele que mente do que no que fala a verdade.

Albert Camus, in "A Queda"

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Deixo também uma ideia (sugestão é colocar-me em bicos de pés), musical. Talvez um dos melhores complementes à leitura da obra que falei anteriormente - Rachmaninov e o "Concerto para Piano nº2 em Dó Menor op.18 ". Escrito depois de um colapso nervoso no início do século XX é uma obra clássico-romântica e capaz de nos fazer ir bem para além da compreensão humana.

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É talvez o mais conhecido e em alguns trechos irão reconhecer alguns acordes que foram aproveitados por cantores actuais. Optei por seleccionar uma versão com menos qualidade mas tocada pelo próprio. Para algo "melhor", Rafael Orozco não é uma má opção.

Finalmente, fica uma ideia para ver cinema... Cinema espanhol, de Miguel Ángel Lamata, o filme "Nuestros Amantes". Aquilo que parece ser uma comédia não o é e acaba por tocar em pontos bem profundos das relações... Aquilo que parece ser uma brincadeira é algo muito sério. Enquanto conhecem (ou recordam) um pouco de Zaragoza (e até de Teruel) vão rir e pensar muito... Não tenho dúvidas. Não gosto como Miguel Ángel Lamata filma, no entanto é um filme actual e para os amantes de hoje.

E para pensarmos enquanto adoramos viver neste país e talvez chegarmos à conclusão que não somos um povo de brandos costumes mas de acomodados, corruptos e apáticos (para ser simpático): Pedrogão; Incêndios de Outubro; Tancos (ninguém me diz que o papagaio-mor do reino não é...); perdões aos bancos; perdões do banco público Novo Banco a instituições como a Malo Clinic; perdões à EDP, partidos que vendem a ideologia a troco de maiorias; falta de condenções a detentores de cargos públicos ou aplicação de simpáticas penas suspensas; destruição do ambiente; golas anti-fumo; habitantes do concelho, dito o mais desenvolvido do país, a votarem em massa e a defenderem um corrupto; sempre os mesmos nas universidades e sempre os mesmos em várias áreas profissionais a opinarem sobre aquilo que não sabem e não fazem; sempre os mesmos a dizerem aquilo que é bom para nós e e ainda um sem número de situações que envergonhariam qualquer cidadão digno desse rótulo... Mas por cá há poucos, logo a vergonha também tende a escassear...

 

Até breve e bom fim de semana,

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Liberdade, Dor e Glória e o Wine & Music Valley...

por Robinson Kanes, em 13.09.19

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Peter Paul Rubens - O Conselho dos Deuses (Museu do Louvre)

Imagem: Robinson Kanes

 

E que tal começarmos com um sugestão de leitura e já agora, uma espécie de "Follow Friday"? Pois é, hoje a MJ lembrou-se de colocar um texto meu no seu espaço - o "Liberdade aos 42", haja paciência, mas como é algo que a mesma tem, se quiserem sempre lá podem dar uma vista de olhos. O tema é a liberdade, por isso, quem quiser perder tempo ou simplesmente não tiver nada mais interessante para fazer pode sempre aceder aqui... Aproveitem também o espaço, são interessantes os temas levantados e as discussões que se geram... Espaços com conteúdo, algo que faz falta...

 

Pela música, volto a Bryan Ferry... O Wine & Music Valley está aí! E sem conhecer o cartaz, sabendo que o mestre estava por aí, não hesitei. Este fim-de-semana, sem dúvida, o melhor incentivo para ir a Lamego - não digo ao Douro porque nada supera a época das vindimas. Deixo "The Right Stuff" para recordar o gentleman dos anos 80 e não só.

Nada também como bom cinema... E desta vez, com algo bem recente: "Dolor y Gloria" (Dor e Glória) de Pedro Almodóvar é um dos melhores filmes dos últimos anos! Finalmente, um bom filme a entrar em 2019, sobretudo depois do flop de Tarantino. Dor e Glória é tudo... É a mescla de temas que está sempre presente nos filmes de Almodóvar e, ao contrário do que li na critica, pouco tem a ver com a preocupação da personagem principal com a velhice, aliás, acredito que esse tema é bastante forçado e só para encher colunas de opinião. Muitas emoções, muitas memórias e mais não posso dizer - afinal, nada como ver o filme e um Banderas irrepreensível (talvez o grande filme do actor) ao lado de excelentes actores. Se existe filme perfeito, este não anda longe e estando ausente dos cinemas pela falta de qualidade cinematográfica, devo admitir, que há muito tempo que não via um filme assim nas salas de cinema. TOP! TOP! TOP!

Também não posso deixar escapar a banda sonora ou, à semelhança do que acontece em muitos dos filmes de Almodóvar, não fosse do compositor basco, Alberto Iglesias! É um dos compositores contemporâneos mais apreciados cá por casa e por isso deixo "Salvador Sumergido", facilmente reconhecível quando começarem a ver o filme. Adoro Alberto Iglesias!

 

E finalmente, para que esta paragem de dois dias possa ter algo de muito bom para todos, é importante lembrar que em Portugal já se roubam ambulâncias em serviço enquanto os tripulantes prestam socorro à vítima. Populismo ou não, ultimamente têm acontecido situações que, pensava eu, só em filmes... Estes casos não seraão de admirar, afinal existem esquadras a fechar durante alguns períodos do dia por falta de efectivos e má gestão... E para fechar, também vivemos no país onde alguém sem qualificações para um cargo no Estado, nomeadamente no Ministério da Administração Interna, permanece no mesmo sem contestação. Para camuflar a coisa antes que se saiba, abre-se um concurso, normalmente feito à medida para o indivíduo em questão passar, o mesmo chumba, mas continua no cargo a aguardar novo concurso e com o total apoio do Ministro da Administração Interna. E tudo isto é normal - provavelmente a maioria de nós também já fez o mesmo.

 

Bom fim de semana,

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Entre deveres e pérolas até à ressurreição...

por Robinson Kanes, em 06.09.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Como a injustiça pode ser cometida de duas maneiras, isto é: pela força ou pela fraude - assemelhando-se a fraude à da raposa e a força, à do leão - são ambas totalmente ,indignas do homem, suscitando, porém, a fraude um ódio ainda maior. Em todas as injustiças nenhuma é mais hedionda do que aquela cometida por aqueles que, enquanto ludibriam com o ar mais refinado, a fazem, assim parecendo a sua acção ser própria da conduta do homem de bem. E isto basta para a discussão acerca da justiça.

Cicero, in "De officiis"

 

 

Uma semana complicada, um fim de semana para fugir para perto, um próximo para fugir para mais ou menos perto (e cumprimentar o Bryan Ferry em Lamego) e depois, duas semanas para muito, muito longe...

 

A semana complicada fez-me recorrer aos livros e à música como há muito já não o fazia. Fez-me recordar também as palavras e os conselhos da GC (a alemã) e do meu pai... O último, infelizmente, já não está cá para acompanhar as peripécias. Não está, nem nas estrelas nem em mais lado algum, não está...

 

Talvez por isso a minha selecção literária vá para os clássicos, para Cicero e o seu "De officiis" que é o mesmo que dizer "Dos Deveres". Li vários excertos deste livro em latim e depois, já na minha língua mãe, e é um verdadeiro tratado. Hoje muito se escreve disto e daquilo, mil e uma pessoas a escreverem tudo e nada do mesmo assunto, mas quantos textos perdurarão? Este, de Cicero, ainda perdura, cada vez mais escondido nas prateleiras da História até ser esquecido... Como tantos outros. Por vezes, chego também à conclusão que não deveria ter lido nenhum deles... "Nah"...

 

Tudo aquilo que é honesto dimana dos seguintes quatro elementos: o primeiro é conhecimento, o segundo , o espírito de solidariedade, o terceiro a magnanimidade, e o quarto, a moderação.

Cicero, in "De officiis"

 

Musicalmente, esta semana tenho de entrar na ópera, uma das minhas paixões, embora algumas figuras da nossa praça insistam em dizer que a mesma se encontra morta - uma certa forma de criticarem uma elite como estratégia para fazerem prevalecer a sua, mesmo que também se seja radialista e nunca tenha existido preocupação em trabalhar a dicção...  Só me posso recordar de uma obra magnifica de Georges Bizet, "Les Pêcheurs de Perles" ou seja, "Os Pescadores de Pérolas"... O CD comprado no "Palais Garnier" ainda cá mora...

 

Gratidão, coragem e amor - o amor, sempre presente mesmo em tempos conturbados! O exemplo de Nadir e Leila e sobretudo de Zurga não deixa ninguém indiferente! Uma ópera, um libretto que deveria ser obrigatório em todas as estantes... Fica a ária, talvez a mais conhecida e consequentemente a mais bela, aqui interpretada por Roberto Alagna e o grande Bryn Terfel: "Au fond du temple saint".

Finalmente... Esta semana também recordei, de Florian Henckel von Donnersmarck,  o filme "Das Leben der Anderen" (penso que traduzido como "A Vida dos Outros") - vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007. Alguns talvez conheçam melhor este realizador através do filme "O Turista". Sem desvendar muito, vamos assistir à passagem de um homem da "morte" para a "vida" por intermédio da experiência que terá como agente da Stasi na antiga República Democrática Alemã. Amor, história, calculismo... 

Finalmente, e para que tenham um excelente fim de semana, pensem alegremente que arderam em Agosto deste ano, na Amazónia brasileira, cerca de 2,5 milhões de hectares e na Venezuela, Bolívia e Colômbia foram registados, respectivamente 26000, 18000 e 14000 incêndios! Em África foram detectados pela NASA (até 21 de Agosto) 6902 focos de incêndio em Angola e 3395 na República Democrática do Congo (RDC) - vejam a fauna e a flora que existem nestes países, nomeadamente a floresta tropical da RDC.

Para Domingo, podem sempre pensar que na Sibéria arderam até hoje 5,4 milhões de hectares de bosques e floresta e só 9% dos fogos estão a ser combatidos - é bom que arda para se começar a extrair o que há naquele solo, maravilha! Na Indonésia, onde todos gostam de passar umas boas férias, só na primeira metade do ano e na região de Kalimantan (o lado indonésio da ilha de Bornéu) a desflorestação aumentou 52% em comparação com 2018! O governo indonésio tem vindo a ser pressionado pela comunidade internacional, mas nada faz... Na Europa, mais precisamente na Península Ibérica, para terminar, estamos a assistir ao nascimento de um novo conceito de fogo: " incêndios sem capacidade de extinção". Nada mau, hein?

 

Bom fim de semana...

 

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historia_da_morte_ocidente.jpgImagem: Robinson Kanes

 

A última coisa que vem à cabeça de alguém que está prestes a ir de fim de semana é a morte! No entanto, o prometido é devido (promessa à MJP) e assim sendo começa de forma bastante célere o artigo de hoje como uma sugestão do diabo: Philippe Ariès e o seu trabalho "Sobre a História da Morte no Ocidente". Arìes foi um historiador, no entanto, foi um pioneiro a desmistificar a morte, sobretudo numa óptica mais sociológica e até antropológica.

 

Arìes faz-nos uma demonstração de como a temática da morte, a Ocidente, foi evoluindo ao longo dos séculos  bem como dos seus avanços e recuos na forma como lidamos com a mesma. Arìes vai ao homem medieval que se preparava para a morte e chega ao homem moderno com descobertas muito interessantes como a evolução da própria localização do cemitério. Esta é uma das obras que mais gostei de ler e de facto é fascinante, levando-me a aferir de que em muitas situações relacionadas com o tema da morte, estamos mesmo lá para trás. Em muitas situações o homem medieval estava bastante mais à frente que nós, sobretudo na preparação para a morte - é um facto que a religião ajudava, a fé em algo superior também.

 

Em termos musicais, o último fim de semana de Agosto traz-me algumas memórias e uma certa nostalgia... Sinto que tenho de ouvir "The Last Waltz" do compositor sul-coreano Jo Yeong-wook. Transporta-nos efectivamente para essa nostalgia, para esses passos alegres num passado distante alternando entre as memórias longínquas e os sorrisos presentes. Este tema faz parte da banda sonora do filme "Old Boy", prémio do júri, em 2014, no Festival de Cannes - não associo a música ao filme, mas tenho de admitir que a banda sonora e o filme merecem uma visita.

Um fim de semana sem um filme não é um digno desse nome... Não sei porquê, de repente recordei-me do filme "Merry Christmas Mr. Lawrence", indicado para uma palma de ouro em Cannes e que até contou com David Bowie como actor. É um filme de 1983 e que baseia nos livros e experiências de Laurens van der Post como prisioneiro de guerra no Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Talvez me tenha deixado influenciar por "Old Boy" ou talvez não...

 

Afinal, a banda sonora tem esta obra-prima de Ryuichi Sakamoto - "Merry Christmas Mr. Lawrece" para escutar e ver. Acho que ainda anda algures por aqui! Sakamoto (que participou no filme) anda de certeza em CD, mas será tema para outro artigo...

E porque as boas notícias são para ser dadas e sempre fica algo para se pensar: Angola também está a arder... Muitos países em África também estão a arder... A Sibéria arde há meses... Em Moçambique continuam a morrer milhares de pessoas devido às cheias, mas ninguém quer saber... Desta vez não há folclore e por isso também não existem likes. Quando o tecto vos cair em cima, os vossos corpos forem carbonizados ou descobrirem qual a sensação de morrerem afogados, lembrem-se que também só serão lembrados se as vossas mortes derem likes.

 

Um apontamente final: em Hong Kong também se cancelou uma manifestação pela Democracia e por não ser possível acautelar a integridade física dos participantes. Na Rússia a história repete-se, mas aqueles que andaram calados nos incêndios de Pedrogão (PAN, BE, PCP, PS, Quercus e demais suspeitos do costume) criticam Portugal por não tomar uma posição em relação à Amazónia e até se esquecem do nosso papel em Timor e nos 20 anos do referendo para a independência - algo que tem sido celebrado ao longo da semana...

 

Bom fim de semana...

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

O nosso carácter é formado, não apenas pelas nossas liberdades, mas também pelas forças da memória e da história.

Orhan Pamuk, in "A Mulher de Cabelo Ruivo"

 

A verdade é que a onda anda por aqui, e sabendo que existem tantos seguidores do grande Bryan Ferry, esta semana deixo o best off dos Roxy Music - foi muito importante esta semana na medida em que me acompanhou todos os dias e admito que já não lhe pegava há uns tempo. Fez bastante companhia a um outro albúm, "Flesh and Blood". Deu bem para pensar, amar e abanar o "carolo". De facto, existem bandas intemporais e esta é uma delas, embora só o Bryan ande pelos caminhos da fama. Deixo-vos, do primeiro albúm, "All I Want is You" - se o albúm "Country Life" tivesse aquela capa hoje... Muitos dos que o compraram naquela época... Hoje, por "politicamente correcto", não o fariam. E eu em 1974 nem sequer era imaginado! Do segundo, malhar com "Eight Miles High".

Já falei de Pamuk por aqui e agora volto, depois de "Uma Estranheza em Mim" e de uma passagem por Istambul, ao autor que nos faz apaixonar pelas personagens de uma forma que temos uma certa ânsia de que as mesmas sejam reais para as podermos abraçar e consolar. Pamuk é exímio a criar essa ternura... Partilho "A Mulher de Cabelo Ruivo", como habitualmente, não vou explorar o livro, mas posso dizer que o final é uma grande surpresa, algo a que Pamuk já nos habituou... Gosto da Turquia, gosto de Istambul, admiro Orhan Pamuk.

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Agora é altura de "voltar" muito atrás, ao início dos anos 60 do século XX e lembrar "La Notte", o primeiro Urso de Ouro italiano e um filme brilhante realizado pelo grande Michaelangelo Antonioni. Com Marcello Mastroiani (eu sei, falo muito deste senhor, eu sei) e a saudosa (falecida recentemente em 2017), Jeanne Moreau. A deterioração da relação entre o casal, a infidelidade e todo o definhar daquilo que entendemos como estar a dois... Basicamente, os finais não têm de ser todos perfeitos. 

E porque já percebi que andam aqui muitos "bebedolas", nada como acompanhar uma música, um livro ou um filme com um tinto... Uma surpresa, "Conde de Arraiolos Reserva", a Herdade das Mouras brinda-nos com um vinho elegante e sem entrar em grandes loucuras no que concerne a gastos! É de Arraiolos, só podia ser bom!

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Finalmente, se estiverem de férias ou fim-de-semana e a abraçar os vossos filhos ou até simplesmente a pensar como é que vão pagar 150 euros por umas sapatilhas para que eles não fiquem "atrás" dos colegas em Setembro, podem sempre pensar que neste nosso mundo, metade dos 1.3 biliões de pessoas "multidimensionalmente" pobres, são crianças/jovens abaixo dos 18 anos de idade sendo que um terço tem menos de 10 anos...

 

Bom fim-de-semana,

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Imagens: Robinson Kanes

 

Já reservaram a casa no Algarve? Já preparam as latas de sardinhas e os douradinhos para levar? Levaram a máquina fotográfica para fotografar a única refeição que vão fazer fora de casa porque os douradinhos e as sardinhas não causam inveja? Pediram factura daquela semana cuja casa vos vai custar mais que 10 noites num hotel na Sardenha? Já convidaram os pais? Pode ser que paguem a despesa enquanto vocês colocam as fotos da semana espectacular na "vossa" casa de praia... Não fizeram nada disso porque vão estar em casa ou a trabalhar no fim-de-semana?

 

Então porque é que não pensam num livro? Querem "cascar" nos cristãos? Que tal um livro bem escrito e sustentado em factos... Catherine Nixey e "A Chegada das Trevas - Como os Cristãos Destruíram o Mundo Clássico". Ao ler este livro ficamos com a sensação que a Al-Qaeda é uma brincadeira de putos... Ficamos também com a sensação (como se isso fosse novo) que muito do atraso civilizacional actual se deve à malta da cruz... Claro que podemos sempre colocar algumas questões, mas que está bem escrito, está... Acredito é que depois sintam vontade de empurrar um padre do palco abaixo, como fez a outra ao Marcelo Rossi!

a_chegada_das_trevas.jpg

Em termos musicais, esta semana partilho três coisas distintas... A primeira é a banda sonora que me acompanhau durante metade da semana, sobretudo de manhã enquanto conduzia: a "Sinfonia nº 8 em Dó Menor" de Anton Bruckner - uma coisa simplesmente espectacular! Se acharem que fica muito longo e a paciência é pouca, escutem só o "Adagio - Feierlich langsam, doch nicht schleppend", uma maravilha. Fica uma interpretação pela Orquestra Sinfónica da Galiza, aqui bem perto...

Existe uma "miúda" em Itália que eu gosto. Desta vez não é a Giorgia nem todas as outras de quem já falei...É mesmo a "Noemi". Uma versão mais leve da Nanini, mas gosto... Gosto... Deixo uma das minhas paixões, "La Borsa di una Donna"... Dedico às senhoras que seguem este espaço.

A terceira... Estamos em semana de Festival Músicas do Mundo (FMM) e por isso a sugestão vai para alguém que eu nunca pensei que viesse a Portugal... Uma surpresa, só é pena que já tenha actuado ontem e por motivos profissionais não a tenha podido aplaudir: Sona Jobarteh com "Gambia" - uma música que celebra a independência desse país! Uma senhora com formação musical e que nos apaixona desde o primeiro acorde. É com tristeza por não ter estado ontem em Sines que partilho este som... Vão ao FMM! E ninguém me pagou para dizer isto, é mesmo um brand advocate do festival que o diz!

Talvez inspirado por algumas boas conversas que tive esta semana com esta senhora, a minha sugestão de cinema vai para "One Flew Over the Cuckoo's Nest" mais conhecido por "Voando Sobre um Ninho de Cucos". Um dos filmes obrigatórios para quem ainda não morreu e que muitos já devem conhecer - a obra-prima de Milos Forman! Jack Nicholson no seu melhor e um excelente trabalho para a saúde mental! Simplesmente genial e uma obra-prima do cinema - em Hollywood, não é qualquer filme que leva para casa os óscares de melhor filme, melhor realizador, melhor actor principal, melhor actriz secundária e melhor argumento adaptado! Tomem lá o trailler - escolher só uma cena é impossível! 

 

Em jeito de conclusão, lembrem-se que só entre 11 e 20 de Junho deste ano, a Gronelândia viu o seu gelo derreter numa extensão de 700 000 km2 (cerca de 80 biliões de toneladas), estabelecendo um novo recorde para esta época do ano. 80 biliões de toneladas... Imaginem o padrão e os efeitos nos mares...

 

Bom fim-de-semana...

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