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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Todavía cambian más las cosas que tenemos delante de loso ojos que las que viven sin distancia debajo de la frente. El agua que viene por el río es completamente distinta de la que se va. ¿Y quién recuerda un mapa exacto de la arena del desierto.... o del rostro de un amigo  cualquiera?

Federico García Lorca, in "Así que pasen cinco años" 

 

 

Tarde vai um Sábado onde se almoçou sushi para fugir à rotina -  entrar na comida da moda para dar descanso ao estômago - se bem que um branco de Bucelas no Inverno cai sempre bem, sobretudo numa monocasta de Arinto. Arinto... Aquela coisa que até o pior apreciador reconhece logo pelo aroma e pelo paladar. Desta vez foi um "Prova Régia" e que mesmo refrescado ao momento não desapontou.

 

Apesar de bastante trabalho, uma semana com muita actividade... No que concerne à sétima arte, dose tripla do melhor, uma da Geórgia, outra da Coreia e outra de França. Tentar perceber qual das três a melhor é um exercício demasiado complexo. Graças à quarentena cinéfila do meu adorado Nimas/Medeia consegui ver "Chantrapas" de Otar Iosseliani - um quase filme de cinema dentro do cinema e nos mostra uma realidade que, muito provavelmente já vivemos. Juntemos-lhe "Le P'tit Quinquin" de Bruno Dumont. Adorei o "Commandant Van der Weyden" interpretado por alguém que não é propriamente actor mas faz ver a muitos: Bernard Pruvost. Uma interpretação fantástica (e bem real, porque aquele senhor não está só a representar) para um filme que enquanto toca entre alguns dos males da sociedade explora o já conhecido naturalismo de Dumont. Este ainda é passível de ser visto no site da Medeia Filmes. Três horas de filme que valem cada minuto... Cada minuto até o "Commandant" virar as costas perante o olhar de Quinquin.

Dose tripla a terminar, já fora do espaço Medeia, com mais um daqueles filmes coreanos que, à semelhança dos filmes japoneses, conseguem entre a fantasia e a realidade espoletar em nós as mais profundas emoções. "Deok-Gu", mais conhecido por "Stand by Me" é uma obra prima entre a história de um avô e do seu neto e de como existem separações que não são possíveis, simplesmente... Um filme, à partida para preencher um início de noite, mas que acaba por nos deixar a pensar noite dentro. Grande obra de Bang Soo-In e uma interpretação maravilhosa de Lee Soon-jae como avô! 

Um fim-de-semana este, apimentado com Lenny Kravitz , especialmente com "Ride". Este músico é daqueles que não perde aquilo que o tornou famoso e vai conservando um estilo muito próprio sem ceder às tendências de destruição da boa música. É sempre um gosto ouvir o intérprete da brilhante "It Ain't Over Til It's Over".

Fecho com uma das minhas últimas leituras do universo García Lorca, nomeadamente duas peças extraordinárias: "El público" e a espectacular "Así que pasen cinco años". Quem já viu as duas representadas vai perceber a intensidade das mesmas e a presença do espírito de García Lorca em cada fala. García Lorca foi um génio e mais do que uma vítima da guerra civil, é um verdadeiro colosso da poesia e dramaturgia espanhola... E de uma época que, apesar de toda a turbulência, deixou a sua marca na História Mundial, sobretudo a nível político, social e claro, artístico.

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Bom fim-de-semana...

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As Mamas da Liz Hurley...

por Robinson Kanes, em 03.02.21

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Créditos: yahoo.co.uk / Liz Hurley Instagram

 

E de repente, a chavasqueira toma conta deste espaço porque vamos falar de mamas! Sim, a Liz Hurley tem 55 anos e um corpo invejável onde se incluem as mamas, por sinal, igualmente atraentes. So what? Sim a Liz Hurley deverá ser das poucas britânicas realmente atraentes, so what? Sim, muitas mulheres gostariam de chegar aos 55 como a Liz Hurley. So what

 

Mas tendo em conta que o chavascal tem limites, não vou entrar na discussão das redes sociais nem das celebridades, seria perda de tempo, fico-me mesmo pela apreciação dos seios da senhora. Não obstante, quando alguém como a Liz Hurley expõe parcialmente os seus seios e é alvo de um coro de criticas, inclusive de um dos mais mediáticos gentlemen de bem, mas que não passa de um dos novos censores, Piers Morgan, começamos a pensar. Ninguém sabe muito bem o que é este cavalheiro e o que é que ainda faz nas manhãs de Inglaterra. Ninguém percebe como é que uma coisa destas escalou em importância enquanto o Mundo está transformado numa autêntica sarrafusca! Abrir noticiários com isto é...

 

Posto que, nesta sociedade aberta do politicamente correcto é mau dizer que a roupa é preta pois já estamos a ser racistas, é mau até falar de racismo em África porque não é cool (mas se for nos Estados Unidos já é ser activisita) e é mau levantar um braço ou até fazer humor, todos os cuidados são poucos... a bem da liberdade, dizem. Um humorista que hoje em dia queira fazer jus à profissão não vai longe, ou se vende à política e ao futebol (sim, o Ricardo Araújo Pereira, o Nogueira e tantos outros... acho que houve um que até se trocou todo a propósito de uma passagem de ano mais rebelde) e passa a ser um canal de débito político e ao sabor de quem governa , ou então procura uma nova profissão... Já não se pode ser engraçado que é o fim do mundo. Aliás, já nem assertivo, fará engraçado... Não fosse o humor e tanta coisa já seria esquecida, como se tem tentado que seja nas escolas.

 

Penso hoje que uma série como o Allo' Allo'! nunca teria sucesso, aliás, seria censurada logo à partida! Eu vejo o Allo' Allo', tenho todos os episódios e parto o caco a rir com os alemães, ou melhor, com os nazis! Com os nazis, com os franceses, com a Resistência, com os ingleses, com o fascista Bertorelli e claro com o fantástico agente da Gestapo, Herr Flick! Tornei-me numa besta? Não! Não tendo acompanhado aquando da estreia, vi em diferido e suscitou-me até bastante curiosidade acerca de alguns tópicos. Mas depois criticamos umas mamas atraentes praticamente escondidas... 

 

E enquanto reprovamos as mamas da Liz Hurley, vamos empreendendo o novo hype de uma sociedade decadente que dá demasiada importância a desocupados, perdão, influencers, e embarcou naquela coisa de liberdade feminina que se chama... menstruação! Aliás, vestir de branco e exibir uma enorme mancha vermelha é o que está a dar! Ainda bem que a maioria das mulheres não se revê nisto e outras até dizem que se a emancipação da mulher é isto mais vale voltar ao que era! Como as consigo entender... E sim, não sou mulher, mas posso falar sobre, poupem-me à superioridade moral. Não sou mulher e gosto de mulheres, preferencialmente atraentes como a Liz! Uau! Posso?

 

Enquanto criticamos a mamas da Liz Hurley, estamos a ir contra aquilo que queremos para as mulheres, enquanto criticamos a Liz Hurley mostramos quão hipócritas somos e como fazemos parte de um monte de ovelhas que coloca o bem-estar à frente do look at me. Enquanto enxovalhamos a Liz Hurley, e até achando que é creepy que tivesse sido o filho maior a fotografar, fechamos os olhos a tanta coisa e escavamos um buraco maior do que aquele que queremos tapar. 

 

Esta é a mesma hipocrisia que assistimos em movimentos e causas criadas no momento e ao sabor do like mas depois enfiamos a cabeça na areia porque ser homossexual em Aceh, Indonésia, pronto, como é bem longe, vá... uma 43 chibatadas no lombo e à frente de quem quiser ver até é uma coisa aceitável. A Indonésia é cool, tem Bali, pronto... Nem tudo é mau. Recordo-me do episódio hipócrita do "batom vs velhos bêbados"  e de facto, como tão bem retrata Houellebecq, de que "no mundo moderno (é) permitido trocar a toda a hora, ser bi, trans, zoófilo, sadomaso, mas (é) proibido ser velho". Basta pegar nesta observação e transportá-la para tantos episódios do quotidiano.

 

O vírus tem-nos roubado tanta coisa que é tão nossa, que é tão humana, que não nos roube as nossas liberdade e não nos coloque na cabeça a pedra da loucura de Bosch ou até da histeria colectiva que mais parece um pelourinho mas com gente ainda mais louca com tiques de altamente civilizada e desenvolvida. Realmente... como diz o povo, "o trabalho faz tanta falta"...

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Um Hendrick's com Whitman, Clio e Leone...

por Robinson Kanes, em 08.01.21

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Imagem: Robinson Kanes

I know I have the best of time and space, and was never measured and never will be measured.

Walt Whitman, in "Canto de Mim Mesmo"

 

 

Quem me conhece por aqui, provavelmente terá ainda estranhado o facto de não ter abordado a invasão do Capitólio. Tenho de admitir que me preocupa mais a invasão da Assembleia da República por alguma gente da pior espécie e que esta semana esteve na ribalta. Confesso que também aguardo mais dados para formular o meu pensamento. Talvez para a semana, longe do chinfrim e com toda a informação recolhida, porque para já, o palco já tem muitos actores.

 

Admito que agora o que me apetece é mesmo um Hendrick's com uns cubos de gelo, a rodela de limão e a tónica... É bom o mundo parar de vez em quando, sobretudo na nossa varanda. Entre os raios de sol que combatem este frio, acompanho o gin com um livro: Walt Whitman é o escolhido com "Canto de Mim Mesmo". Tenho dias em que me dá para a poesia, embora a poesia de Whtiman seja pouco poética no sentido em que podemos interpretar a mesma como uma lição prática, não só da realidade norte-americana mas também de nós próprios: talvez isso nos ajude a não ser tão idiotas na interpretação de certas realidades.

 

Com o gin ainda a meio, é provável que me deixe levar pela música, uma presença constante ao longo da vida. Ainda não passaram duas semanas que morreram dois dos mais elevados intérpretes latinos, Armando Manzanero e Carlos do Carmo. Do "viejito" falei aqui, do segundo recordo uma das suas menos conhecidas: "Palavras Minhas", uma interpretação única dos versos de Pedro Tamen. Todavia, tenho de reconhecer que o dia se vira para outras sonoridades e é aí que encontro uma paixão de longa data, a francesa Clio... Escolho "Amoureuse" no iPod. Sim, hoje estou um iPod. Talvez o final da minha estada na varanda, antes que me transforme num abominável homem das neves, seja reservado para os Groove Armada e onde não poderá faltar "My Friend". Esta música traz-me demasiadas memórias, de uns anos em que um "contrato" não me permite falar sobre o que vi, ouvi e fiz... Grande banda sonora para tanta coisa...

É provável que este fim-de-semana contenha cinema e se assim for, já está ali de lado a obra prima de Sergio Leone, "Once Upon a Time in America". Um dos filmes de gangsters mais longos da história e um dos mais apaixonantes... James Woods e Robert de Niro (e até uma presença de Joe Pesci). É mais um daqueles filmes que nunca se apagarão da nossa memória e que veremos vezes sem conta. Um lado de Sergio Leone apaixonante que foi um tremendo sucesso na Europa depois de ter sido mal visto nos Estados Unidos, sobretudo pela duração... Bons actores, uma excelente realização e sem esquecer o brilhante Ennio Morricone com uma das suas mais belas bandas sonoras - a música é de arrepiar, indiscritível em termos de emoções e com cada nota composta com uma alma que só Morricone possuía. Um filme duro, bem duro como qualquer bom filme de gangsters e com uma das cenas finais, entre Woods e De Niro que nos deixará a todos...

E como diria Whitman, I take part, I see and hear the whole/The cries, curses, roar, the plaudits for well-aim'd shots/The ambulanza slowly passing trailing its red drip/Workingman searching after damages, making indispensable repairs/The fall of grenades through the rent roof, the fan-shaped explosion/The whizz of limbs, head, stone wood, iron, high in the air.

 

Bom fim-de-semana...

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Só eu Escapei porque o Mal não Existe...

por Robinson Kanes, em 19.12.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

O homem não quer matar a sede. O homem quer é a sede. Por isso é que come tremoços quando bebe cerveja.

Vergílio Ferreira, in "Promessa"

 

 

Deixar passar a oportunidade de ver no mesmo palco, Lídia Franco, Márcia Breia, Maria Emília Correia e Catarina Avelar seria um ultraje. Foi por isso que voltei ao Teatro Aberto para assistir à peça "Só eu Escapei" de Caryl Churchill e encenada por João Lourenço. Não estamos perante uma peça para tempos de Natal, no entanto, a mesma, sendo escrita há cerca de 4 anos é mais actual que nunca - temo até que Caryl Churchill tenha um oráculo. O teatro tem a capacidade de nos colocar a pensar e a reflectir, de nos chocar até... E é nesse choque que abandonamos a sala com a sensação de que o Mundo não é aquilo que pensamos e de que caminhamos para um "fim" iminente, trágico até, em contraste com toda a inovação que temos. Fazendo até aqui uma ponte com o romance, somos em alguns momentos transportados para os admiráveis mundos de Huxley. 

 

A cultura faz bem, um jantar no "Pano de Boca", o restaurante do teatro que muito aprecio, faz maravilhas... Não me canso de repetir que os filetes de peixe-espada preto, com banana e milho, simplesmente geniais.

 

Um dos melhores filmes que vi este ano e vencedor do Urso de Ouro em Berlim, "O Mal não Existe". A minha admiração pelo cinema iraniano fica mais uma vez reforçada com este filme de Mohammad Rasoulof. Um filme que se foca na pena de morte e na luta que os indivíduos enfrentam na concretização ou não da mesma. É um filme extraordinário, com a sensibilidade que só os iranianos conseguem ter e que custou a liberdade (cerca de um ano) a Rasoulof por desafiar o regime. O filme é fantástico e penso que nos traz uma realidade que nos orgulhamos de já não ter de enfrentar e onde até fomos pioneiros no combate a... Admirável! Assisti nos cinemas UCI em Lisboa, mas vai andar pelo país...

Para terminar, não podia deixar de lado alguém de quem falei recentemente num artigo de memórias sobre Berlim: Severija - uma actriz lituana que deslumbra a cantar, sobretudo em alemão. Simplesmente adoro "Zu Asche, Zu Staube" e embora nunca tenha visto "Babylon Berlin", a banda sonora é qualquer coisa. Um timbre semelhante ao de Sónia Tavares, mas esta senhora é mais humilde e sabe cantar, além de que trabalhou a respiração.

Já agora, anda tudo doido ou a falta de trabalho (ou melhor, o emprego sem trabalho e com a real cunha) anda a deixar algumas pessoas completamente tontas? Até o anúncio da CNE para as eleições presidenciais gera revolta? Será que é desta que a estátua do Marquês vai abaixo? Como diz o outro, "olha, escuta... vai mas é trabalhar e fazer algo de útil pela sociedade".

 

Boas Festas...

 

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Convidei Obama para beber um Villas-Boas

Porque o resto ainda está para vir...

por Robinson Kanes, em 06.12.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

Talvez os princípios da organização comunitária pudessem ser orientados não somente para realizar uma campanha, mas para governar, para encorajar a participação e a cidadania activa, franquiando o processo àqueles que haviam sido deixados de fora. Ensinar as pessoas a não se limitarem a confiar nos seus líderes eleitos, mas a confiarem umas nas outras e em si próprias.

Barack Obama, in "Uma Terra Prometida"

 

 

Não tenho por prática escrever sobre um livro antes de terminar a leitura, e não raras vezes, até de submeter a obra a uma releitura. No entanto, e graças à minha mãe, uma apreciadora de Barack Obama e que se convence que o tenho como um ídolo, embora questione muito a sua governação, dei uma oportunidade ao cavalheiro em "Uma Terra Prometida".

 

Comecei a lê-lo, acompanhou-me um "Villas-Boas Reserva 2016", e de facto, não poderia ter feito melhor escolha, que rapidamente transitou para o jantar - o vinho. Não é um vinho em que se sinta totalmente o Douro, mas é apetecível para acompanhar uma leitura e um queijo de ovelha (meia-cura) de Zugarramurdi... Sinto saudades de "Nafarroa" e de "Euskadi".

 

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Assisto a um homem simples, o Presidente (esse título nunca se perde) Obama, pelo menos na fase em que ainda está na campanha às primárias. Um homem com real vontade em mudar o Mundo e com um foco muito interessante na sua vida pessoal e na família - a relação com Michelle e com as filhas é apaixonante. Além de que, Obama também é daqueles que dispensa festas e encontros mascarados de palcos para ascensão social e privilegia a família e um pequeno círculo de amigos. Para já, tem o meu voto por também me rever no mesmo.

 

E como é Domingo, e ainda tenho os dedos a estalar depois de ter ido correr com um gelo daqueles, deixo-vos com uma sugestão musical e cinematográfica.

 

Começo pela segunda: "Le Meilleur Reste à Venir" - os franceses (a produção é franco-belga) não conseguem fazer comédias sem uma boa carga dramática e é por isso que um Dezembro não deve passar sem uma ida ao cinema para ver este filme de Alexandre De La Patellière e Matthieu Delaporte. Adorei o duo Fabrice Luchini-Patrick Bruel, especialmente o último actor... É uma verdadeira história de amizade e das decisões difíceis que temos de tomar quando uma verdadeira amizade - algo raro nos dias de hoje - nos coloca à prova. O resto... Vejam o filme.

Para terminar, recupero algo que me tem acompanhado várias vezes neste início de Dezembro... Amilcare Ponchielli e o seu mais que fabuloso "Capriccio per oboe e pianoforte, op.80". Isto é maravilhoso... Ideal para acompanhar uma leitura, o trabalho ou simplesmente para acendermos um candeeiro de pé e ficarmos no sofá a entregar o nosso pensamento às mil e umas taquicaridas que a nossa condição nos obriga a enfrentar.

Bom Domingo...

 

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Il Gattopardo... Il Robinsonpardo...

por Robinson Kanes, em 11.09.20

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Imagem: https://www.pinterest.pt/classical826/il-gattopardo/

 

Foi na quarta-feira que tive a oportunidade de rever o filme baseado na obra de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: "Il Gattopardo". Mais um filme de se lhe tirar o chapéu do mestre Visconti (sem esquecer a banda sonora de outro mestre: Nino Rota). Com o Nimas totalmente ocupado, respeitando o devido distanciamento, aquele momento foi mais um daqueles em que viajamos pela Itália profunda e pela Sicília, terra apreciada pelos cineastas italianos e também berço de muitos. 

 

Em relação à película, estar vivo e não ter visto a mesma, é como já ter morrido. Com efeito, agora com outra maturidade, recordo as palavras de Fabrizío (interpretado pelo magnifíco Burt Lancaster), aquando da sua visão da Sicília: “I siciliani non vorranno mai migliorare per la semplice ragione che credono di essere perfetti; la loro vanità è più forte della loro miseria.”.

 

Por momentos, senti a pele e a alma a envelhecerem-me, a tomarem conta de um aspecto ainda jovem em mim e a tornarem-me desencantado por uma nação, tal como o Princípe de Salina. Nesta espécie de exaltação e de show, de ineptas personagens aos pulos em busca de, sento-me num chesterfield, algures no Palazzo Valguarnera Gangi, e partilho da desilusão daquele nobre que afinal, antes de tudo e todos, percebeu que a saída de uns e a entrada de outros, só permitiu mudar algumas personagens e conceder algum poder a - mas na realidade, tudo ficou na mesma. Até mesmo o Conde de Tancredi, aquele que lutou a favor de Garibaldi e "desonrou" a nobreza se deixou levar pela não mudança. Também aqui vi Portugal, vi até parte da minha Espanha e de facto, reconheci que para evitar a contaminação dos deuses que preferem a apatia e o provincianismo da sua mentalidade, sair aos 20 anos do rectângulo já é sair tarde, pois algumas crostas entretanto se formam e podem dificultar o processo.

 

Talvez tenha ganho maturidade (e aqui tenho sérias dúvidas, não chego lá tão cedo) e esteja em crer que, como dirão os psicólogos clinícos, o paciente tem de ser o primeiro a querer a cura da sua perturbação - talvez tenha de me convencer nisso e desistir do doente. Talvez assista ao baile, talvez não... Talvez troque a casaca real pela casaca de Garibaldi e continue a lutar e a acreditar mesmo quando a ataraxia está por todo o lado, ou talvez queira estar sozinho a percorrer um qualquer quelho em Palermo, pois desejando, como um certo Lobo de Hesse, "música em vez de chinfrim, felicidade em vez de divertimento, alma em vez de dinheiro e verdadeiro trabalho em vez de bulício, paixão em vez de brincadeira", por certo, não é nestas fronteiras que encontrarei o meu lar. Talvez em Céfalu, aquele lugar junto ao mar onde nos esperarão os nossos amigos romanos, uma bela salada ao pequeno-almoço e um dos mais belos "tramontos" do Mundo. Talvez em Palermo ou mesmo em Bagheria sentados numa qualquer esplanada do Corso Italia... Talvez por aí...

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Faz-me favas com chouriço... O meu prato favorito... Quando chego para jantar... Quase nem acredito! Poderia ser a música de José Cid, mas não. Desta feita o Robinson foi à fava e sacou um belo entrecosto com favas, mentira, foi mesmo a alemã. A carne de porco não é uma das presenças mais habituais cá em casa, não obstante, um belo entrecosto bem temperado e uma favas, quem resiste? A receita também não é das mais complexas e acompanhada, mais uma vez, por uma Moretti, é de chorar por mais... Aprecio bastante a Nastro Azurro é mais difícil de encontrar por cá, embora em Santa Maria da Feira exista um distribuidor.

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Para os que defendem que beber cerveja é coisa que não vai bem que um petisco destes, junto um pouco de atitude e nobreza ao prato e carrego com um "Pacheca". Um tinto de 2017 a trazer-nos de volta ao Douro. E o Douro, o que dizer...

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E agora entro em mais um momento old school e sendo um apaixonado pelo Mediterrâneo e por Espanha, não posso deixar de me recordar de um dos maiores êxitos de Joan Manuel Serrat, "Mediterráneo". É música de velho, mas tendo em conta o que se ouve hoje. A propósito, Lena D'Água é a artista feminina do ano... Pronto, lá se vai o entrecosto pela goela acima. Como é que é possível que... Em Portugal o "choradinho", a família e os amigos nos locais certos fazem milagres. E convenhamos, um milagre de todo o tamanho, acho que nem Nossa Senhora foi capaz de atingir tão elevado grau de complexidade.

E antes que um cavalheiro me venha chamar burguês, passem num cinema e vejam o novo filme do sempre brilhante Elia Sulleiman "It Must be Heaven" ou como é conhecido por cá, "O Paraíso, provavelmente". Confesso que adorei este filme premiado em Cannes e onde me ri e fiquei a pensar... Em como lá, como cá, ficamos a pensar no que realmente muda. Top! Será o mundo realmente uma Palestina como disse o realizador?

Finalmente um livro... "A Lã e a Neve" de Ferreira de Castro. Os recentes incêndios na Covilhã despertaram-me para a memória deste livro. Tendo uma mãe beirã, entendo o que significa e  amargura-me ver como a serra vai ardendo... Tempos difíceis os relatados no livro onde a esperança alterna com o desencanto.

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E para pensarmos... Sobretudo tendo em conta os tempos actuais e um episódio em particular relacionado com bancos, uma frase de Manuel Vilas, um dos melhores da Espanha actual, que pode ser lida na sua obra "Ordesa": E quem é o Estado? É uma sobreposição amarelecida de vontades cansadas, que já não pensam, que pensaram há muitas décadas,  e que a preguiça,  que é a mãe da inteligência , perpetua.

 

Bom fim-de-semana,

 

P.S.: as mulheres de Braga "têêm" charme, aproveitem e levem uma às "Frigideiras do Cantinho"... Apesar da simpatia, pago-as sempre pelo que, a sugestão é baseada apenas no meu bom gosto, vá... Mesmo congeladas e depois aquecidas, ui...

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Ainda ontem se andou por Braga... Mas admito que hoje ainda subi mais, até às Astúrias, e tive de ir à procura das lentilhas negras ou belugas. Das Astúrias porque foi lá que comprei a última embalagem desta iguaria, mais precisamente em Cangas de Onís. Com uns camarões e uns chocos, temos o jantar perfeito para uma noite bem animada e proteica. A receita é simples e segue por email para os mais interessados...

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E como este autêntico caviar, aliás, bem melhor que caviar (abomino caviar), não pode ser ingerido a seco e a água não abona ao paladar de tal iguaria, vou ceder a um afordable  "Castelo do Sulco Tinto 2016" da Quinta do Gradil.  Bom preço e não fica nada mal... Como os vinhos desta região mudaram e se tornaram tão apreciáveis.

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Para acompanhar todo este cerimonial, nada como ter uma música de fundo que acaba por nos acompanhar ao longo do fim-de-semana, e nos transporta para as Astúrias e até para estes novos tempos, a "Sinfonia nº 9" do compositor  checo  Antonín Dvořák, mais conhecida como "Sinfonia do Novo Mundo". É  uma das mais belas obras do compositor e que foi a minha banda sonora aquando da visita à última morada do mesmo, em Vyšehrad. 

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E como estamos por Praga, nada como encontrar Kafka e começar o fim-de-semana com uma leitura de "Amerika", bem ao estilo que Kafka nos habituou mas com a ligeira diferença, imprevisível ao início, em que finalmente temos uma personagem principal que... de forma simplista, consegue dar a volta.

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E como não falta embalagem e também há sempre tempo para bom cinema, uma sugestão do Cazaquistão, o filme de Sergay Dvortsevoy, "Tulpan". É impossível ficarmos indiferentes e apaixonados pela personagem de Tulpan e o enredo em torno do seu futuro, onde o casamento se revestirá como "obstáculo" principal os desafios do mesmo. 

Bom fim-de-semana,

*Imagens: Robinson Kanes

 

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prague_czech_republic.jpgImagens: Robinson Kanes

 

 

É Natal e com o mau tempo os portugueses lidam mal... É natural num país onde uma grande parte das infraestruturas são castelos de papel.

 

E não seja por isso, já que o fim-de-semana com cheiro a Natal vem aí! Sim, afinal algum dia tinha de ser e na época apropriada. Quando o Natal já não é tema é que eu venho falar do mesmo, apesar do esgotamento a que foi sujeito, desde Outubro, por estas bandas e não só. Acho estranho ainda ninguém ter falado do Carnaval ou até da Páscoa, já vai sendo hora.

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Uma boa leitura para o Natal... Para aqueles que dizem que a poesia não tem grande interesse para mim, hoje até lhes faço a vontade e atiro-lhes com o "Coração do Dia Mar de Setembro" de Eugénio Andrade. O senhor já morreu há algum tempo, por isso nem estou a aproveitar uma onda de falar que se gosta ou se aprecia um escritor recém-falecido. Tomem e embrulhem com um momento pedante...

 

Variações em Tom Menor

 

Para jardim te queria

Te queria para gume

ou o frio das espadas.

Te queria para lume

Para orvalho te queria

sobre as horas transtornadas.

 

Para a boca te queria.

Te queria para entrar

e partir pela cintura.

Para barco te queria.

Te queria para ser

Canção breve, chama pura.

 

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia - Mar de Setembro"

 

Vou já ao teatro, e aproveito para comprar uns bilhetes para "Ricardo III", encenado por Thomas Ostermeier e texto do grande Shakespeare e em alemão (com tradução). Ideal para a passagem de ano, pois há espectáculo dia 31 também! Podem saber mais sobre esta peça no Teatro Nacional D. Maria II.

 

Para escutar... Música de Natal, admito que já irrita. Por isso, o melhor do Natal pode ser passado com Johann Sebastian Bach e uma bela de uma Kantate. Tomem lá a Cantata BW 142 - Uns ist ein Kind geboren que dizem ser de Bach. Digo-vos que é do bufo, ou não as tivesse todas por cá...

E como existe algo ainda pior que música de Natal, nada como um filme para esta época e bem católico, Forušande, do realizador Asghar Farhadi. Filme iraniano, não podia ser mais adequado ao Natal. A vida e o teatro e o teatro da vida... Enfim, é isto e o filme é muito porreiro! Libertem-se das amarras do menino nas palhas estendido (ou será deitado?) e mergulhem na realidade. Os iraninanos são dos melhores neste mundo a fazer filmes e este é um exemplo supremo!

E finalmente porque é Natal, aproveitem para dizer àquela pessoa que gostam realmente dela, isto se tiverem tempo enquanto dão umas moedinhas ao pobrezinho no momento em que tiram uma selfie... ou no espectáculo de abertura das prendas que em algumas casas chega a ser repugnante, sobretudo quando são tantas que, no caso dos miúdos, nem se apercebem do que estão a abrir e parecem autênticas bestas perdidas no meio de tanta oferta...

 

Feliz Natal...

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Becket e Lorca encontram-se e ouvem ODO Ensemble.

por Robinson Kanes, em 13.12.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

Sexta-feira, não é em Albufeira mas podia ser... Ou talvez não. Não sei!

 

Com o Natal a aproximar-se, cada vez são mais as mensagens que aqui vão chegando. Não são as melhores e fazem-nos questionar se é este Natal que queremos. Mas falemos de coisas boas e nada como entrar a matar com música boa, não de Natal, que é de fugir.

 

Um ensemble que descobri por mero acaso enquanto procurava sons que completassem a minha paixão pelas sonoridades arménias. O ODO Ensemble não é Arménio, até tem origens em Cluny, no entanto, as suas sonoridades medievais e de world music são deslumbrandes.Então quando os sons têm origem naas arábias nos balcãs... Simplesmente genial! Este agrupamento que, e que tem o seu suporte como associação que encontra na música a sua fonte de pesquisa e descoberta, merece uma escuta atenta, e porque não com "Ir Me Kero Madre". Isto é trabalho, isto é ser músico...

Para ler... Não vou muito longe e partilho o livro que estou a ler actualmente: "Molloy" de Samuel Beckett. Um dos romances da trilogia "francesa" do autor, "Malone Dies" e "Unnamable" são os outros dois. Viajar na mente e no comportamento de "Molloy" e "Moran" (sem esquecer a presença da mãe do primeiro, é entrar no mundo de Beckett de uma forma surpreendente. Vai ser interessante perceber o modo como se cruzam os dois primeiros ou se serão só...  (Recomendo a leitura em inglês).

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E já agora, ide a Oeiras ao Auditório Municipal Eunice Munõz e entreguem-se a Garcia Lorca... Ainda se vai falar muito dele por aqui! Tem um espaço muito especial cá por casa, sobretudo no que depende da alemã... Pois, a peça: "A Casa de Bernarda Alba".

 

Finalmente, porque o cinema também é importante, "La Classe Operaia va in Paradiso" de Elio Petri. Mais um vencedor em Cannes, corria o ano de 1972! Um filme interessante e que acabou por ser até um case study. Mais cinema política italiano e que interessa quer a um lado quer ao outro da barricada. A actuação de Gian Maria Volonté é brilhante!

E do Uganda, uma mensagem para o mundo: não é preciso uma eternidade e muita coisa para fazer a diferença, para alguns, basta um dia... (e nós por cá, devemos andar mesmo a dormir).

Obrigado John!

 

Bom fim-de-semana,

 

 

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