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Vending de Bens Intangíveis...

por Robinson Kanes, em 22.08.18

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 Imagem: Art & About Sidney

 

 

O mundo das artes tem, cada vez mais, de estar aberto ao mundo real. Muitos artistas e correntes que vivem fechados em autênticos mausoléus ou em bairros das grandes cidades, como se estivessem acima dos demais mortais têm os dias contados, sobretudo quando os financiamentos públicos de projectos inúteis começarem a terminar - financiar cultura só porque sim não é o caminho, sobretudo em sociedades onde a grande maioria dos cidadãos já não são propriamente analfabetos.

 

É nesse âmbito que destaco um projecto, "Art & About Sidney" e um dos seus subprojectos, nomeadamente o "Intangible Goods", ou seja, bens intangíveis. Em relação ao projecto mãe, o "Art & About Sidney" não é mais que um projecto que procura, sobretudo junto dos artistas, a promoção de ideias que possam ajudar à definição do espaço urbano quer em termos de identidade quer em termos de desenvolvimento e bem-estar. Procura-se que artistas e público trabalhem juntos e criativamente desenvolvam projectos com real impacte no dia-a-dia de uma metrópole como Sidney.

 

Foi neste âmbito que um dos projectos mais interessantes teve lugar e por isso, também chamou a minha atenção. O "Intangible Goods" não é mais que uma iniciativa que, numa sociedade onde tudo se compra e tudo se vende, procura também trazer para o mercado algo que ainda ninguém consegue vender, e muitos parecem nem sequer perceber que se pode comprar... Que se pode sentir... Falamos de coisas como bem-estar, um propósito, paz, relações e mais um sem número de estados de espírito e emoções que não encontramos no supermercado.

 

Imaginem que numa "vending machine", aquelas máquinas onde colocamos umas moedas e nos sai uma sandes ou um café, conseguimos colocar à venda um pacote de "calma" ou de "repouso", ou então até de" amor" ou "auto-estima". Quais poderão ser os resultados? Sobretudo se estes produtos forem desenvolvidos por profissionais de saúde mental e artistas? E imaginem que alguns dos lucros acabam por reverter para instituições que trabalham na área da saúde mental, sobretudo do ponto de vista cientifico? Parece estranho, mas como qualquer produto de sucesso, também este passou por uma fase de teste e estudo de necessidades junto de uma amostra da população de Sidney.

 

De facto, parece-nos estranho comprar, por exemplo, um estado de alegria, todavia, mais estranho é poder viver essa alegria quase todos os dias, afinal Camus era o primeiro a dizer ("Entre Oui et Non") que tudo era simples, somente os homens é que complicava as coisas... No entanto, praticamente esquecermo-nos anos a fio que, por exemplo, a alegria existe e depende, em muito, de nós próprios.

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Barceloneta, Onde Fica o Coração...

por Robinson Kanes, em 08.11.17

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

Do Port Olímpic caminhamos facilmente junto ao mar pelo passeio marítimo. Este é talvez um dos melhores programas entre o bulício de uma moderna metrópole e o azul do mediterrâneo, isto, enquanto observamos as crianças de diferentes origens e nacionalidades no "Parc de la Barceloneta". E é aí, ao chegar a Barceloneta que o ar tem outro cheiro, que uma diferente Barcelona olha para nós e nos apela a deixar o mar apesar do convite dos bares mais turísticos.

 

Barceloneta não é um bairro muito antigo, percebe-se pela arquitectura. Nasceu no século XVIII quando os habitantes da "La Ribera" foram expulsos por Filipe IV que ordenou a construção da "Ciutadella". Foi, e é ainda, um bairro típico de pescadores e operários (uma dos ambientes que gosto de frequentar), todavia, bem diferente daquele que era antes da modernização de que foi alvo aquando dos Jogos Olímpicos em 92.

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Lembro-me de Barceloneta que, segundo alguns, inspirou Cervantes numa passagem de D. Quixote, e sentir inveja de ver muitos dos meus amigos morarem naquele bairro - denote-se que estava a viver em Ausiàs Marc, pelo que não me poderia queixar, pelo contrário. Barceloneta é o expoente máximo da cultura mediterrânica em Barcelona (apesar de ser um bairro recente), dos cheiros, das conversas, da vida e contrastes que nos fazem indagar se estamos no norte de África, ou num qualquer bairro do sul de Itália. Mas não comparemos, Barceloneta é diferente. Foi lá que aprendi a cozinhar alguns petiscos senegaleses, foi lá que descobri uma forma low-cost e eficaz de polir faróis, foi também naqueles recantos que, entre peixe frito e outras tapas únicas me foi possível conhecer grandes indivíduos.

 

É também aqui que fica o "La Bombeta", um pequeno restaurante e sempre apinhado de gente e que acabava por ser o escape aos restaurantes caros e tremendamente turísticos do "Passeig Joan de Borbó". Aliás, como qualquer bairro, para se encontrar boa comida e... bons amigos, o ideal é sempre ir para o centro, neste caso, alguns dos mais especiais encontram-se perto do "Mercat de la Barceloneta", uma óptima alternativa à carérrima e descaracterizada "Boqueria". Basta seguir pela "Carrer de la Maquinista" que é também onde se encontra o "La Bombeta". Nem cinco minutos são a pé e sempre é possível recordar os bombardeamentos da aviação alemã durante a "Guerra Civil" através da inúmeras placas que se encontram espalhadas. Também é aí que temos uma imagem tipicamente mediterrânica, com habitantes locais à conversa e crianças ainda a brincar na rua - uma raridade - bem mesmo em frente na "Plaça de Pompeu Gener". E depois de tantos recantos, perceberemos que o "La Bombeta" nem é o melhor de todos...

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Neste pequeno bairro conquistado ao mar, existe também espaço para apreciar o património que vai para além das construções civis, refiro-me sobretudo à "Església de Sant Miquel del Port", uma igreja barroca que vibra, quando em Setembro, Barceloneta é um palco de festa com cortejos e uma animação no bairro e nas praias. É totalmente impossível não ficar contagiado pelas danças e folia daqueles dias. Penso que só em Andaluzia conseguem isso de mim, até porque não sou de danças, mas este foi um dos locais onde não consegui resistir.

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Uma outra nota de destaque é o edifício e o próprio "Museu de História da Catalunha", já na direcção do "Port Vell". Este museu é interessante, pois além de contar a história da Catalunha desde a época pré-história é bastante interactivo, os miúdos adoram-no e os adultos apaixonam-se pelo restaurante no piso superior com um terraço e umas vistas únicas para o "Port Vell".

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Recordo agora com saudade a praia depois de umas animadas conversas entre vinho e comida em alguns dos pequenos recantos de Barceloneta... Recordo aquele momento que nos fins de tarde outonais tinha para mim um encanto especial, mais do que no Verão onde os turistas e os próprios habitantes da cidade preenchem o espaço até à exaustão. Recordo o dia em que tirei algumas destas fotografias, um dia em que vesti a pele de turista e não senti nem um terço das emoções que se têm como habitante...

Barcelona é especial e se admito que o meu coração ainda hoje está naquela cidade, por certo está bem guardado num qualquer local de Barceloneta, possivelmente numa das varandas à espera que o resto do corpo o encontre um dia.

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Descalçada Portuguesa...

por Robinson Kanes, em 05.11.16

 

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É verdade! Finalmente alguém retirou do mais recôndito e inverosímil da sua mente que a Calçada Portuguesa é digna de ser exaltada como Património da Humanidade.

 

Confesso que saúdo e saúdo também que se inclua nesse registo empreendimentos de calçada portuguesa não só por Portugal mas também pelo mundo.

 

Mas hoje o que me faz vir aqui e ficar recostado na cadeira enquanto escrevo é a Descalçada Portuguesa.

 

Efectivamente, presenciei um pouco desse imaterial património num destes dias enquanto passeava o Rufus  em plena Avenida da República (Lisboa).

 

É algo digno, não fosse a cidade estar toda esburacada e muitas das calçadas também. No entanto, nada me preparou para o que iria ver – uma verdadeira manifestação cultural de Descalçada Portuguesa.

 

Uma senhora, de tailleur escuro, camisa branca, uns cabelos castanhos lisos e uma pele clara daquelas que é difícil resistir ao toque, circulava pelo passeio e eis senão que, tropeça num buraco da calçada e... a partir daqui é épico, é imaterialmente etnográfico - um sapato preto, de salto alto, coisa fina até... voa pelo ar no céu cinzento de Lisboa e cai metros atrás de tão elegante e delicada figura.

 

-Raios, já viste isto? – interrogou-se com um misto de riso e fúria.

 

Eu sorri e dei graças a Deus por ter sido contemplado com uma frequente manifestação imaterial de um património que é de todos nós, a Descalçada Portuguesa.

 

Fotografia: http://www.plantagri.com, 2016.

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