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De Braga ao Sameiro - Pela Falperra...

por Robinson Kanes, em 24.07.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

O sentimento estético da vida não é uma distracção ou prazer, nem afirma bem a qualidade do Mundo que nos foi dado a habitar: é a qualidade do que nesse mundo é a vida, é a sua exaltação, e portanto invenção plena da beleza. O sentimento estético da vida não é um museu de estátuas, e de telas, e de ficções literárias: é a dimensão de uma vivência profunda, o reconhecimento do que supera o imediato, lhe descobre a harmonia obscura, mas permite uma inteira comunhão.

Vergílio Ferreira, in "Carta ao Futuro"

 

 

Depois da subida por Tenões, nada como a subida pela famosa "rampa da Falperra", esta um pouco mais dura. Os primeiros metros são os mais espinhosos. Subidas acentuadas e as curvas, embora, ara quem corre, as últimas façam pouca mossa. Não deixa de ser recomendável já chegar bem quente. A manhã abafada não ajuda, desde a Makro que a camisola já está encharcada e é necessário controlar bem a respiração.

 

No início da subida, já se vislumbra bem cedo uma mãe com os dois filhos. Voltarei a encontrá-los mais acima, existe um atalho entre os eucaliptos que acelera a chegada ao Sameiro. Novos, velhos, famílias inteiras usam-no para chegar ao santuário. Escolho o asfalto, mais longo, mais lento... Mais apetecível. 

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Passam já alguns carros por mim, a eucaristia começa bem cedo. Antes da chegada ao Hotel da Falperra, numa belíssima propriedade, já se sente um pouco de fresco, os hóspedes ainda dormem e a neblina dá um encanto especial a toda aquela área. Não existe melhor escopo que este para acelerar a passada e esquecer as recordações do ruído dos automóveis em velocidade nas provas automobilísticas que ali têm lugar. O tempo agora é para escutar a nossa respiração e o despertar da natureza.

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Braga vai ficando lá para baixo e com a chegada ao topo, ficamos com a sensação de ter chegado ao céu... Não propriamente porque poderia parar para descansar, mas porque é preciso voltar antes de arrefecer. Para os que ficam, nada como um bom piquenique depois de uma corrida ou até de uma saudável caminhada, além de que, podem sempre descer por Tenões e parar para um espresso no Bom Jesus. Poucas manhãs tão perfeitas poderão existir por aquelas bandas... 

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É hora de descer, lá em baixo, a cidade já aquece, mas os croissants, a simpatia e o  ambiente da São Brás, na Avenida Dr. António Palha, são o mote perfeito para acelerar o passo. E com isto, passa pouco das oito da manhã, está na hora de começar o dia...

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De Braga ao Sameiro - Por Tenões...

por Robinson Kanes, em 22.07.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

 

Dizem por que o fim-de-semana foi pouco animado para os lados de Braga. Devo dizer que me sinto ultrajado com tais palavras, pelo que, e sabendo que em breve terei uma resposta à altura com belas montanhas, venho justificar-me.

 

Uma das vantagens de quem está/vive por Braga, logo pela manhã, é poder subir ao Bom Jesus e ao Sameiro e assistir a uma das mais airosas auroras do nosso país. Existem duas opções para quem chega do centro, nomeadamente a subida pelo Bom Jesus, ou a subida pela Falperra. Hoje debato-me sobre a primeira, a segunda fica para sexta-feira. Perdoem-me também os amantes do Bom Jesus, mas isso será também tema para outros artigos.

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Apanhar a Ecovia do Rio Este, uma das melhores obras que se fez em Braga nos últimos tempos, finalmente o cimento começa a perder terreno e toca a subir por aí acima. Sobe-se bem em passo de corrida, mas para quem não estiver para isso, ou vai a caminhar pela estrada ou sobe as escadas. Vejo os velhos de 80 anos a subir aquelas escadas, não há desculpas. Todavia, é pela estrada que mais aprecio, além da paisagem, vou vendo as casas "senhoriais", algumas de amigos e sempre dá para aquecer um bocadinho e apreciar a grande chegada ao topo...

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Chegar ao Bom Jesus é bom, mas as pernas pedem mais e o Sameiro a cerca de quilómetro e meio não é nada, é só subir mais um pouco. Esqueci-me de um pormenor: guardem a paragem no Pórtico, em Tenões, para o fim do dia... Boa comida, gente simpática e vinhos a condizer...

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O Sameiro, a chegada ao Sameiro, esse ponto alto que nos contempla com duas opções: ou depois de uma corrida se sobem as escadas e se sentem os músculos a vibrar ou então nada como seguir pela estrada. Se for muito cedo não há tempo para grandes deslumbramentos, é que descer a correr com os músculos a frio pode correr mal.

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Outra opção interessante é,para quem não quiser "esticar muito a corda", levar o carro até ao Bom Jesus e correr até à Citânia de Briteiros, cerca de 20 quilómetros a correr, ida e volta. O passeio vale bem a pena e é bastante acessível.

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José Malhoa -  "Retrato de D. Luís Filipe" (Museu José Malhoa)

 

 

A busca de originalidade, que é tão característica da Modernidade, manifesta-se no facto de procurar modelos que são apenas aparentes, que ela destrói, para se afirmar contra eles; os verdadeiros, contudo, dos quais está dependente, ficam assim tanto mais bem escondidos. Este processo pode ser inconsciente; muitas vezes, é consciente e mendaz.

Elias Canetti, in "A Consciência das Palavras"

 

Por Braga, e depois de uma dia onde a Tourigalo bem podia fazer os seus grelhados no alcatrão, admito que me deu para pensar o Mundo. Seria mais fácil antecipar e subir ao Bom Jesus num aquecimento para o dia de amanhã, mas o ar pesado dos fogos de hoje e o calor não o recomendam, nem mesmo à noite... Noite de quinta-feira em que ainda nem sei bem o que vai sair nas linhas de baixo.

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Mas o Mundo hoje é outra coisa, hoje é somente um peixe-galo, ou melhor, uns filetes de peixe-galo com as ovas do proprietário da ementa. Como não poderia deixar de ser, uma paixão do Ribatejo, uma daquelas paixões que não consigo deixar para trás tal é a qualidade que se sente de ano para ano: um "Quinta da Alorna Arinto Chardonnay Reserva". Um branco, é Verão e na cidade dos 3 P está um calor que não se pode, encontro de astros fatal. Adeptos do tinto que me perdoem, mais uma vez, mas nem os franceses resistem aos brancos no nosso Verão. Em relação aos três P, não vou responder a questões, quem é de Braga sabe...

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Lembram-se de lá em cima ter dito que não sabia o  que vinha por aí abaixo? Estou a fazer aquilo que se chama "encher chouriços" e a seguinte tentativa será colocar a foto de um gatinho ou um vídeo com bebés.. Não... Mas posso pensar numa leitura, afinal dá aquele ar de intelectual (o que é um intelectual?) que lê cinco livros por dia. Só me resta colocar a minha foto ou fazer uma entrevista com uma estante repleta livros atrás de mim. Escolho, e por aqui já não é novidade, a minha última aquisição na Lello: "A Consciência das Palavras". Elias Canetti, como sempre nos habituou, aqui pelo ensaio, é mais um daqueles autores que nos faz sempre pensar em como as suas palavras são sempre tão actuais... Em como, apesar de tanta mudança, só o Humano parece teimar em não acompanhar o ritmo frenético do globo - parece que acompanha, mas... Ah! E a Lello não me pagou pela hiperligação e o vinho fui eu que o paguei, mas são malta simpática e por isso...

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Já a caminho do fim, a parca inspiração tende a desaparecer e já nem o "encher chouriços" me vale, sai um tema para este fim-de-semana. Pensei em Bach, agora que olho alguns discos do mesmo e que só me trazem à memória o Natal de Berlim de 2013. Dava aquele ar intelectual à coisa, de facto... Mas não... Klingdale e uma noite inteira a dançar isto...

Siga que a Heineken ainda aquece nas mãos... Vinho branco e cerveja holandesa, e a noite ainda agora começou. Ainda vou ter os adeptos do politicamente correcto a pedirem-me que beba sumo de beterraba e a lançarem um boicote a este artigo. A imagem de Sua Majestade Fidelíssima, o Rei D. Luís, "o Popular" é só para dar um ar pedante à coisa e... até aposto que era indivíduo para me acompanhar numa noite de dança e alta rave nos claustros do Mosteiro de Landim...

 

Dance people! Nem que seja em modo confinamento, mas dancem e bebam até ser dia!

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