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Fogareiro na Sérvia...

por Robinson Kanes, em 14.07.20

000_1UU6AD.jpgCréditos: Andrej Isakovic AFP 

 

Hoje, na minha habitual participação no "SardinhasSemlata", o melhor local para acender o fogareiro e assar umas sardinhas é mesmo na Sérvia e pela convulsão que se está a viver naquele importante país dos Balcãs...

Podem saber mais aqui.

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Isto está a aquecer...

por Robinson Kanes, em 10.07.20

Polar-Bear-on-Iceberg.jpg

Créditos: https://lakeshoresolar.com/index.php/home-extended/polar-bear-on-iceberg/

 

O clima... Só podemos andar "apanhados do clima", de facto. Eu hipócrita me confesso, afinal ando de avião, tenho carros a gasóleo e não consigo ter uma pegada nula, esforço-me mas não é o suficiente.

 

Todavia, a realidade, por muito assustadora que se apresente, não parece estar a fazer-nos compreender que o futuro em termos de alterações climáticas não se avizinha risonho. Entendo que muitos ainda pensem que "isto já não vai ser no meu tempo", mas a verdade é que pode ser mesmo e se não for no tempo destes será no tempo dos adoráveis filhos concebidos na lógica da perpetuação dos genes. Como é que podemos ser solidários com o próximo se nem com aqueles que amamos o somos.

 

Junho foi um mês óptimo para fazer uma fogueira, afinal, desde que existem registos meteorológicos, nunca existiu ano mais quente (Fevereiro, Março e Abril foram os segundos). Se em Portugal nem terá sido dos piores e os incêndios também andaram doentes com Coronavírus, juntando-se ainda uma certa frustração pela perda de tempo de antena para a epidemia, a verdade é  que o assador esteve bem quente, sobretudo no Árctico. Não me enganei, falei mesmo do Árctico e foco também a Gronelândia. A título de curiosidade, se a Gronelândia, aquela pequena ilha em comparação com a Antárctida, derreter, o nível médio da água do mar irá subir 7 metros! Imaginem que calçamos o chinelo de enfiar no dedo, toalha da Coca-Cola e cadeira pirosa debaixo do braço e vamos à Costa da Caparica ou a Matosinhos e de repente... Só vemos a geleira carregada de cervejas e uvas a aterrar em Pegões.

 

Tudo isto para chegar ao ponto em que temos de nos preocupar seriamente com as consequências deste fenómeno e especialmente com o facto do mesmo suceder cada vez mais vezes e ainda com mais intensidade de ano para ano. Quem o diz é a NASA, a agência daquele país onde muitos associam aquecimento global a propaganda. Sugiro a quem ainda tiver dúvidas que invista 2 minutos do seu tempo com uma reportagem da Reuters filmada nos campos de arroz do Vietname e onde os trabalhadores que fazem a colheita deste cereal já só o podem fazer de noite! Estamos a falar de campos de arroz e não em recolha de cactos. 

 

Penso que ainda não temos real noção dos cataclismos que todos estes fenómenos podem causar e com impactos em tudo aquilo que possamos imaginar, nomeadamente em relação ao ambiente, às pessoas e às sociedades, mas também em relação à economia. A epidemia de COVID-19 já nos mostrou como algo, à partida tão vulnerável, pode destruir a economia mundial e por arrasto muitas outras áreas. 

 

2020 tem tudo para ser o ano mais quente de sempre, mas voltemos ao Árctico: no dia 20 de Junho e em Verkhoyansk (Sibéria/Rússia) iremos encontrar temperaturas de uns assustadores 38º centígrados que, associados aos dados do Copernicus Climate Change Service (C3S*) revelam, até à data, um ano negro para a o Globo.

era_t2m_Arctic_Siberia_time_series_June_1900_scale

 

Entendo que se lance o medo global (ou se tente) por causa de um infectado com "peste negra" (como se a mesma não estivesse já controlada) mas não estará na altura de lançar o "pânico" também em relação ao clima? Se não chega, juntemos o permafrost do Árctico que está a derreter e cujas consequências são apenas o desaparecimento de cidades inteiras que estão sob o mesmo e a libertação para a atmosfera de uma quantidade astronómica de gases que provocam efeito-estufa, nomeadamente dióxido de carbono e metano.

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Fonte:  NASA: The 1980-2015 seasonal cycle anomaly in MERRA2 along with the 95% uncertainties on the estimate of the mean.

E porque não ter em conta algo que nos é tão próximo nestes tempos que vivemos e encarar que um perigo maior poderá estar à nossa espera, pois o permafrost armazena bactérias e vírus que não conhecemos e que podem ser letais para homens e animais.

 

Finalmente, e porque é importante falar em números, por muito que queiramos  ignorar os mesmos, e tomando apenas como exemplo os Estados Unidos, segundo o National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), só nos primeiros seis meses deste ano, 10 desastres climáticos provocaram um prejuízo de 10 biliões de dólares! Argumentar que financeiramente é difícil fazer algo, não pode servir de desculpa sob pena de que as perdas superem os dividendos em larga escala.

Billion $ 1120 x 534_v2 (1).png

Fonte: NOAA: Assessing the U.S Climate in June 2020

 

É tempo da economia e dos nossos comportamentos começarem a ser mais eco-friendly e também estarmos dispostos, como consumidores, a procurar os produtos oriundos de produtores e/ou vendedores ambientalmente e socialmente responsáveis. Não chegam as palavras, são precisas acções, porque ao contrário dos humanos, a Natureza não se deixa convencer tão facilmente.

 

P.S.: também a Ucrânia tem sido fustigada, desde segunda-feira, dia 6 de Julho, por vários incêndios (sim, a Ucrânia) e que já mataram 5 pessoas, colocando no hospital cerca de 30 à data da publicação deste artigo. Incêndios deste género já têm existido desde Abril e até ameaçaram Chernobyl...

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O que aprendi nos últimos seis meses...

Por MJP...

por Robinson Kanes, em 09.07.20

be68076629107c4fe0814e3187f3a227-1000.jpgCréditos: Amarjeet Kumar Singh/SOPA Images/Lightrocket via Getty Images - https://www.sciencemag.org/news/2020/05/doctors-race-understand-rare-inflammatory-condition-associated-coronavirus-young-people  (imagem da exclusiva responsabilidade do autor do espaço)

 

O que aprendi nos últimos seis meses…

Quando recebi o generoso convite do R., que muito me honra e agradeço, para reflectir sobre o que aprendi nos últimos seis meses, pensei que seria uma boa oportunidade de colocar em palavras escritas o que me vai no pensamento.

 

E, assim, de repente  (ou talvez não!), já passou metade de 2020... um ano diferente... arriscaria, mesmo, dizer que este será, muito provavelmente, o ano mais atípico que a maioria de nós já experienciou...

Fomos brindados com acontecimentos inesperados  (inimagináveis)  que abalaram, algumas das nossas certezas...

No início do ano, creio que poucos pensariam que este vírus chegaria à Europa... à medida que o tempo foi decorrendo e as imagens do desespero  (e da morte), que chegavam de Itália e de Espanha,  invadiam os nossos ecrãs, fomo-nos dando conta que isto era "real"... que o"nosso dia" haveria de chegar... era inevitável a chegada do vírus a Portugal... muitos de nós, conhecedores das fragilidades do nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS) - onde eu me incluo - temeram o pior...

Entretanto, ocorreu o proclamado “milagre Português”, que redundou no cenário que, actualmente, experienciamos…

 

A verdade é que depois de muito pensar, não creio que tenha aprendido nada de novo nestes últimos seis meses (decorrente da Pandemia) … mas, a verdade é que, constatei muitas coisas que já sabia, nomeadamente:

 

- O Ser Humano é muito vulnerável e controla muito pouco (ou nada) à sua volta, ao contrário do que muitos pensam;

- O Bem comum deverá sobrepor-se à (minha) vontade individual, ainda que, signifique ter de abdicar da Minha Liberdade de circulação, que tanto prezo;

- Nada é garantido, de um momento para o outro tudo pode mudar “sem aviso prévio” e, por isso, devemos aproveitar o melhor possível o momento presente e não adiar aquilo que consideramos importante;

- O que se torna essencial, em momentos de crise, são as relações de qualidade que estabelecemos com as nossas pessoas e que se revelam à prova de qualquer distanciamento físico;

- A Saúde Mental (tão estigmatizada e desvalorizada) é muito mais frágil (e difícil de manter, sobretudo, em confinamento) do que a Saúde Física;

- As crises não tornam os indivíduos “melhores Pessoas”, apenas evidenciam as suas características mais marcantes, ou seja, tornam-nos mais refinados;

- O Mundo não é cor-de-rosa, não somos todos amigos e não vai ficar tudo bem para todos;

- O Mundo é um lugar repleto de desigualdades, que se evidenciam e acentuam em momentos de crise;

- Há sempre quem esteja pronto a lucrar com a tragédia alheia;

- A memória é curta e os erros cometidos são facilmente repetíveis;

- Há muita gente que não saber viver em sociedade, adoptando comportamentos de risco que fazem perigar a saúde alheia;

- Os profissionais de saúde apenas são reconhecidos e valorizados pelo seu trabalho quando uma crise sanitária se instala e ninguém deseja morrer por ausência de cuidados de saúde!!!  

MJP

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Dizem que a sardinha está de morrer...

por Robinson Kanes, em 07.07.20

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Créditos: https://100anos100arvores.wordpress.com/tag/fernando-medina/

 

É o que dizem, no habitual espaço de terça-feira no SardinhaSemlata... Vão lá comer uma, basta ir por aqui.

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Irão: Do Pedido de Desculpas...

por Robinson Kanes, em 24.01.20

yazd_iran.jpg

Em nove décimos do homem o que pensa é o animal. E é com o décumo que resta que quereis reinventá-lo? Quereis? Mas é da parte que negais nos outros que vos servis de engodo para a pregação.

Vergílio Ferreira, in "Signo Sinal"

 

Podemos até afirmar que não haveria outra hipótese... Que era a resposta esperada mas...

... Quantas vezes vimos altos responsáveis políticos e militares a assumirem o que generais, líderes políticos e religiosos assumiram com o abate do avião da Ukranian Airlines? Não passou uma semana e um país como o Irão assume a responsabilidade pela destruição de um avião com cidadãos estrangeiros e nacionais daquele país.

 

A verdadeira bofetada que o Irão deu ao assumir este acidente mostrou que os erros existem e mesmo em situações de alta tensão temos de os assumir! De quantos pedidos desculpas estamos à espera relativos a massacres, atentados e guerras iniciadas por países ditos desenvolvidos? Ainda estamos à espera de um pedido de desculpas em relação ao Iraque! Ainda estamos à espera de um pedido de desculpas em relação à Síria! Ainda estamos à espera de um pedido de desculpas relativo a muitas colónias no Norte de África e na América do Sul! É importante lembrar que numa coisa tão simples como foi o "Bloody Sunday" na Irlanda do Norte, só com David Cameron o pedido de desculpas surgiu. E o pedido de desculpas relativo à destruição do avião da Malaysia Airlines sob território ucraniano? E mesmo as organizações empresariais que exploram crianças e demais população em países sub-desenvolvidos, o tais que em tempos era chique apelidar de Terceiro Mundo? E quando é que pedimos desculpas por fazer negócios e parcerias com países que torturam e eliminam dissidentes e indivíduos de diferentes etnias e culturas? Quando é que pedimos desculpas por apertar a mão a criadores de sistemas como o "skynet"?

 

O Irão, para o mal ou para o bem, deu-nos uma grande lição e mesmo não sendo o maior admirador do regime iraniano, tenho de reconhecer que se existissem mais líderes e países a ter este tipo de atitude o mundo poderia ser um local muito melhor! Além disso, não me custa engolir que um país como o Irão tem mais anos disto (civilização) que nós... Até porque, consta que ainda mais antigo que a própria Pérsia, é o Irão.

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Somos todos uma bela cambada de mendazes...

por Robinson Kanes, em 31.12.19

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Imagem: Benoit Gauzere

 

Antes de me levantarem o dedo, é só para dizer que eu também me incluo como palerma nas palavras que irei escrever.

 

A verdade é que quem me estiver a ler neste momento, pelo menos a maioria, vai estar a fazê-lo através de um aparelho produzido por uma marca que compactua com trabalho infatil. Claro que esse trabalho não é na Europa nem nos Estados Unidos, os nossos filhos têm direitos humanos! No entanto, os filhos dos outros não, e o facto de darmos um euro ou um pacote de arroz enquanto tiramos uma selfie permite-nos ignorar os direitos humanos dos filhos dos outros.

 

Ficamos muito chocados com o filho que ajuda o pai que é carpinteiro mas gastamos milhares de euros com gadgets e carros com pinta (ainda me hão-de dizer onde é que um Tesla é bonito, mas admito que gostos não se discutem) mesmo sabendo que parte da laboração teve mão-de-obra infantil. Sim, porque nós sabemos, e estas coisas são notícia de roda-pé - quando são. São aquele género de notícias que gente evoluída, solidária e atenta aos problemas do mundo (pena que seja do seu pequeno mundo) não lê e muito menos pensa para 2020.

 

Ignoramos aquilo que está à frente dos nossos olhos a troco de um falso conforto e ainda falamos de questões ambientais e escolha consciente! O mundo não pode contar com tartufos que defendem o ambiente e uma pseudo-capacidade evolutiva e depois assobiam para o lado quando descobrimos que alguns dos gigantes tecnológicos e não só usam crianças para produzir artigos ao preço da chuva que são adquiridos por nós a preço de ouro! Boicotamos as "padarias portuguesas" deste mundo mas não boicotamos as "apples" porque dá status, mesmo que uma outra empresa de telemóveis nos tenha enviado alguns para utilizarmos e que em alguns casos até são melhores! Casos destes não são raros nas nossas empresas, por exemplo, onde gestores preferem o status à eficiência. Estou a escrever num "mac", podem atirar as vossas pedras.

 

E porque é Natal (sim, escrevi isto no Natal), enquanto estiverem a trocar mensagens do vosso automóvel que "anda sozinho" ou a partir de um telemóvel de "ponta" à mesa da ceia, não vos fica mal pensar nisto... Ou talvez fique, pelo menos não esperem muitos "likes" quando partilharem este presente. Terão mais quando partilharem aquele que vocês pensam que é único mas milhões têm igual. É uma questão de pensarem na prioridade. E pronto assim incluo uma linha para este artigo ter qualquer coisa relacionada com o final do ano.

 

Em jeito de conclusão, não se pede que se acabem com estes gigantes, pede-se acima de tudo mais Responsabilidade Social que não pode vir só das grandes corporações. Essa Responsabilidade Social está em cada um de nós e pode começar na forma como fazemos as nossas escolhas e como também elas influenciam muitas práticas e os próprios mercados. Nada como pensar nisto para 2020!

 

Feliz 2020, que já ninguém se lembra do Natal que foi há pouco mais de cinco dias...

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A Elite dos Otorrinos no SNS!

por Robinson Kanes, em 16.12.19

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Créditos: https://1.bp.blogspot.com/-Ao6nkr-G444/Tq2QXGb3JSI/AAAAAAAALCs/Gr7if-G6uv0/s1600/Stupid+Stock+Photos+%25281%2529.jpg

 

Os grandes valores não se definem, como se não define uma simples dor de dentes.

Vegílio Ferreira, in "Conta Corrente V"

 

 

Sou um acérrimo defensor do Serviço Nacional de Saúde (SNS), aliás, quando a coisa aperta é lá que todos vão parar! Junto-me nessa causa a muitos políticos deste país onde se inclui o Presidente da República que defende com unhas e dentes o SNS, sobretudo se a lista de espera, para este, não se aplicar.

 

O que vou contar vem de fonte mais que fidedigna, aliás, assisti a algumas das peripécias. Um doente que se desloque a um certo hospital da cidade de Lisboa e que seja um caso de vertigem postural paroxística benigna (VPPB) é atendido por um internista, o que é rotineiro. Mas, e porque existem critérios, não é visto por um otorrinolaringolista, mesmo que este esteja disponível. Ou seja, "leva" com o habitual "Betaserc" e com sorte um "Primperan", além do "vá para casa descansar que isso passa" (independentemente deste nem se aguentar de pé ou estar há dias/semanas nesta situação). E antes de começarmos a pensar mal dos internistas, lembrem-se que estes nada podem fazer quando o outro especialista recusa ver o doente... Nesta primeira situação, a enfermeira, já na triagem, pediu desculpas pelo facto de não conseguir que o doente (diagnosticado, por sinal no privado mas por um excelente profissional do SNS) fosse visto logo pelo otorrino pois já não é novo e é perfeitamente explicado pelo doente - o que não dispensa que o profissional de saúde faça a sua avaliação.

 

A verdade é que a velha história de que o "Betaserc" e o "Primperan" resolvem, não é assim tão linear. Existe ainda a hipótese de realizar a manobra de reposicionamento dos canalitos, (manobra de Epley) ou então a manobra de Sermont e a manobra de Brandt-Daroff. Existem especialistas que imediatamente seguem o caminho das manobras, outros nem tanto, mas não é a minha especialidade e não quero ir mais longe sob pena de começar a tecer disparates.

 

Com a repetição dos sintomas, o doente regressou ao hospital. Desta vez, temendo o mesmo tratamento,  foi a outro hospital central que, por sinal, nesse dia, tinha a urgência de otorrino a funcionar no hospital anteriormente escolhido. Sem solução, regressou ao primeiro hospital, onde o enfermeiro da triagem informou que o ideal era ser visto por um otorrino. Mais um telefonema, mais umas trocas de olhares e mais um pedido de desculpas por parte da enfermeira: "desculpem, não posso fazer mais, mas isto está assim...". E mais não digo para não comprometer ninguém.

 

Mais uma vez, a chegada ao internista, uma médica jovem e excelente, daquelas que ainda é humana. Contada a história, e após contacto com a especialista, seguido de contacto com chefe de equipa, sugere uma ida ao privado - e acreditem que insistiu muito para que o doente tivesse o tratamento adequado. A especialista recusara atender este caso - não reúne os critérios! Ou seja, após 20 minutos de insistência por parte da internista que diz não poder fazer mais nada, é sugerida uma consulta de urgência nos dois dias seguintes: isto enquanto o paciente vomita, vê tudo a andar à roda e não come há mais de 4 dias porque, passo a expressão, tudo o que entra sai. "Vão ao privado, ninguém merece ficar a sofrer assim só porque...".

 

Dois dias depois, com o doente um pouco recuperado depois de mais um dia e meio infernal, o atendimento numa consulta onde lhe é dado um novo medicamento que calmamente (mais de duas semanas e...) lá foi diminuindo os sintomas... Com manobras o alívio é quase imediato, todavia, mais do fazer ou não as manobras - não domino a especialidade - é esta forma de encarar os doentes. Se a culpa é dos otorrinolaringolistas, da direcção clínica ou do Ministério da Saúde, não sei, mas que nos colocar a pensar, é um facto e chega a roçar a omissão de auxílio. Mas também não é de admirar... Basta andar atento às peripécias (algumas criminais) que ocorrem com alguns directores de serviço nesta área...

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IMG_1701.JPGImagens: Robinson Kanes

 

Amanhece em Shiraz, o sol brilha logo cedo e nem sentimos a diferença de horário. Preparar um jantar iraniano foi fantástico, abençoada suite de hotel que nos permitiu, nesta estada, também tomar parte neste cultura de forma mais profunda.

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Não deixámos de passar uma noite agradável e na companhia de duas jovens iranianas que nos mostraram um pouco das ruas do norte da cidade e ainda nos fizeram prometer que faríamos compras no supermercado dos pais. Uma sem sonhos ainda definidos, outra com um desejo de ser professora de inglês. Quiseram saber tantas e tantas coisas da nossa vida e que nos interrogaram mil e uma vezes do porquê de não poderem ter um namorado não-iraniano.

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Mas temos de seguir caminho pela cidade, há tanto para ver e sentir. Depois do "Jardim Eram" e das suas águas límpidas, a "Casa Qavam/Museu Nerenjestan", construída em finais do século XVIII por ricos comerciantes de Qazvin.

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Os jardins e o espaço são mais uma demonstração do encontro da cultura ocidental com a cultura persa - uma curiosa representação de como ambas podem combinar muito bem arquitectonicamente. A rua movimentada lá fora, não nos deixa permanecer por lá muito tempo, chama por nós... Não obstante, à saída, paramos, olhamos mais uma vez os jardins, recordamos os espelhos, inalamos o odor das flores do jardim e saímos para um sumo de romã.

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Entre talhos, lojas de ferragens, lojas de comida, enfim... lojas de tudo, percebemos que está a chegar a melhor hora para visitar a "Mesquita Nasir ol Molk", também conhecida como "Mesquita Rosa". No bairro de Gawd-i Arabān, encontramos esta herança dos Qajars. Amplamente conhecida, esta é uma mesquita singular pelos seus vitrais que, escolhida a hora certa da posição do sol, se tornam ainda mais encantadores! É um local muito procurado pelos turistas para as fotos, mas é no pico da sua beleza que encontramos menos gente e nos permite apreciar toda a sua arquitectura. Podemos examinar o seu pátio e deixar que as cores dos vitrais se possam reflectir no nosso rosto, nos tapetes persas e transformar-nos também em parte daquele mundo de maravilhas. É um monumento único, belo e onde nos sentimos a viajar por contos e lendas da pérsia.

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Alguns turistas "irritam-nos" tentanto simular orações e uma certa pose para a fotografia, o banalismo habitual... Fascina-nos, contudo, a condescendência da segurança que com um sorriso no rosto sente que partilha um pouco de si com todos aqueles que deliciam perante um património de uma riqueza invejável... Fascinam-nos aqueles que lá se encontram em recolhimento... E é junto desses que também nos sentamos antes de abandonar o local e voltar às movimentadas ruas da cidade. No entanto, a sensação de que saímos de um mundo grandioso e mirífico contido numa sala tão pequena não nos abandona.

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E é tão difícil deixar este templo, no entanto, mal sabemos que ao longo dos dias ficaremos a perceber que uma das imagens de marca do Irão está longe de ser apenas esta e mais uma ou duas que conhecemos até agora. É hora de almoçar e pela rua vamos comendo aquilo que nos oferecem, temos que passar pela famosa "Universidade de Shiraz" e pela "Porta Quran" - queremos apenas sentir se o conhecimento que já temos destes locais se reflecte de poderosa forma nas nossas emoções.

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É hora de começar a pensar no "Santuário de Ali Ibn-e Hamze" que se apresenta hoje como mais uma reconstrução pois os sismos em Shiraz são frequentes.

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Ao entrarmos sentimos o peso da religião e da história. Sentimos o peso da amizade, nenhum dos acessos nos é vedado, tomamos chá, comemos doces e ainda temos um diálogo sobre o Islão e o Cristianismo. O diálogo e a experiência acaba por se sobrepor à beleza do espaço, dos seus espelhos, da sua arquitectura. Para nós é interessante na medida em que sendo pouco crentes (pelo menos eu), do outro lado temos um crente fervoroso mas com uma abertura de espírito tal que reconhece as fragilidades da sua religião e entre esse reconhecimento (até porque o tema das mulheres acaba sempre por surgir) nos prova que a própria Bíblia é muito mais castradora em relação às mulheres do que o Alcorão.

Ali Ibn-e Hamze_shiraz_iran.jpgÉ interessante esse diálogo... A abertura religiosa é, aliás, uma das imagens de marca deste povo. Como já havíamos sentido noutros países, por vezes, algum desconforto religioso sucede dentro da própria confissão e não com crenças exteriores. Conversamos largos minutos... Sentados dentro do santuário enquanto outros estudam e fazem as suas orações, o diálogo inter-religioso (e até entre quem não é crente) a acontecer e o respeito permanente entre os três vértices deste triângulo. 

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Terminamos a conversa com um convite para a "Mesquita Vakil", um edifício que ocupa uma área de mais de 8500m2 e que foi construído no terceiro quartel do século XVIII durante a dinastia Zand, sendo restaurado já no século XIX sob a liderança dos Qajars.

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A entrada, o pátio das orações, os minaretes e os pilares são algumas dos seus aspectos mais peculiares. O pôr-do-sol é também o momento perfeito para apreciar este espaço. A luz do crepúsculo cria uma imagem perfeita que, se complementada com aqueles que vêm aqui prestar o seu culto, se torna ainda mais pulcra.

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"Acompanhamos" as orações e voltamos ao exterior. Hoje ainda lá anda o "nosso" declamador de poesia persa. E é com ele que deixamos que o anoitecer se intensifique... E é com a poesia de Hafez e de tantos  outros que nos entregamos novamente às delicias astronómicas iranianas...

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Uma nota final para o facto de Shiraz ser também a região onde, no Irão, se produz/produzia um vinho fantástico. Até hoje, ainda é controverso se a casta Syrah vem de Shiraz. Testes genéticos dizem que não, todavia, também a produção deste vinho (deste e de outros) em terras iranianas não é permitida desde a revolução de 1979.

 

Sobre Shiraz

Shiraz: Cidade dos Jardins e dos Poetas

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Das Dívidas Perdoadas...

por Robinson Kanes, em 14.10.19

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Créditos:https://www.thoughtco.com/al-capone-1779788

 

Como tantos outros animais, temos de uma necessidade muitas vezes desesperada de nos adequar, pertencer e obedecer. Tal conformidade pode ser marcadamente prejudicial, pois negligenciamos soluções melhores em nome da loucura da multidão. Quando nos damos conta que estamos fora da sintonia com o resto do grupo, as nossas amígdalas contraem-se de ansiedade, as memórias são revistas e as regiões de processamento sensorial são inclusive pressionadas a experimentar o que não é verdadeiro. Tudo para nos encaixar.

Robert Sapolsky, in "Comportamento"

 

 

Muitos são aqueles que argumentam que somos um país de gente boa, de brandos costumes e perdolários do próximo. Da minha experiência como ser humano e português, uma coisa eu sei: um português nunca se esquece de alguma que lhe fizeram e à mínima oportunidade lá estará ao ataque. O português quando perdoa é porque tem um interesse óbvio nesse perdão.

 

Tudo isto a propósito dos perdões sucessivos dos bancos públicos (Novo Banco e Caixa Geral de Depósitos) a determinados indivíduos e entidades da nossa praça. Que os privados o façam, ainda posso compreender, não é o nosso dinheiro - a não ser que as injecções de capital público (de todos nós) não sejam utilizadas para esse efeito. 

 

Percebo também porque tal é feito, de facto até percebo, mas convenhamos que para o comum cidadão -  aquele que é perseguido pelos bancos públicos por não conseguir pagar os míseros €5000 que deve e que até pagaram os seus estudos - perdoar milhões atrás de milhões a empresas que muitas vezes se gabam na comunicação social e redes sociais de fecharem negócios e até de estarem a crescer é, no mínimo, cruel. Podemos falar das empresas, muitas delas detidas por indivíduos com filiações partidárias que viram muitas das suas dívidas perdoadas e claro, como não poderia deixar de ser, dos grandes clubes de futebol.

 

É vergonhoso, para não dizer criminoso, que os bancos públicos perdoem milhões aos clubes de futebol (o Sporting Clube de Portugal foi o mais recente caso) e ninguém esteja interessado em perceber o porquê! Onde andam os comentadores da praça? Onde andam as entidades que deveriam olhar para estes factos? Onde anda o jornalismo sério? Onde andam os  fanáticos da bola? Ondem andam os partidos da esquerda? Onde andam os pequenos partidos que dizem que é hora de mudar?

 

Que o futebol em Portugal é uma instituição/religião todos sabemos, que corrompe a política e é um jogo de interesses, também todos sabemos, mas perdoar dívidas astronómicas a clubes que pagam milhões em salários a um só jogador, que não abdicam do luxo e da ostentação e que não abdicam de compras e vendas de mais milhões é, no mínimo, gozar com a cara de todos aqueles que todos os dias laboram para que a sua empresa não feche por falta de pagamentos. É criminoso que uma empresa produtiva e com reais impactes na economia feche porque não consegue pagar aos bancos ou ao fisco, mas é perfeitamente aceitável que um ou vários clubes de futebol continuem a receber dinheiro do Estado, a ter perdão de dívidas e mais um sem número de regalias que incluem muitas isenções fiscais!

 

E mais uma vez, censuramos o vizinho caloteiro que deve €10.000 e não paga, censuramos o gestor que até recebe pelos bons resultados, mas aceitamos de bom grado e até aplaudimos nos estádios e no sofá aqueles que todos os dias nos enganam e nos retiram dinheiro do bolso. 

 

Até podem acusar este discurso de ter o seu quê de populista, mas ver as tribunas de honra apetrechadas de políticos e responsáveis públicos desde as mais altas instâncias até aos lambe-botas locais, ver ministros e presidentes a mendigarem bilhetes para a bola é esclarecedor do estado criminoso em que algumas instâncias se movem, mas isso não é populismo, dizem que é dever de Estado.

 

Em Portugal, para se ser imune à lei e agir como um perfeito Al Capone, basta estar ligado ao futebol... Sobretudo aos grandes clubes da praça! E aqui temos uma vantagem, é que nem os "Eliot Ness" têm poder para acabar com o estado das coisas, ao contrário do que acontecia na Chicago da década de 30 do século passado.

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Aprendam! Eles não duram sempre!

por Robinson Kanes, em 27.09.19

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Imagem: Petr David Josek / AP

 

Não é absolutamente necessário voar e entrar pelo sol adentro, basta rastejar até um lugarzinho limpo nesta terra onde de vez em quando o sol brilha e nós nos podemos aquecer.

Franz Kafka, in "Carta ao Pai".

 

Não resisti, por isso aprendam... Eles não duram sempre e mostram que ainda existem Homens com "H" grande...

 

Agora sim... Até breve!

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