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Atrás de Marcel Proust em Cabourg...

por Robinson Kanes, em 23.09.20

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Imagens: Robinson Kanes & GC

 

A única verdadeira viagem de descoberta, a única fonte da eterna juventude, será não visitar terras que nos são estranhas, mas sim possuir outros olhos, contemplar o universo através dos olhos do outro, de centenas de outros, ver as centenas de universos que cada um contempla, ver o que cada um deles é.  

Marcel Proust, in "Em Busca do Tempo Perdido - Volume V: A Prisioneira"

 

 

Já tive oportunidade de falar de Erik Satie, ou até de Eugène Bodin aquando do meu artigo sobre Honfleur. No entanto, agora é a vez de um mestre das letras merecer um destaque, é ele Marcel Proust!

 

Falo de Marcel Proust para poder também falar de Cabourg. Esta é umalocalidade, sobretudo conhecida por ter sido o local preferido de férias do escritor! Estar em Trouville-sur-Mer, ou mesmo em Dieppe e não passar por Cabourg acabará por ser quase um crime, nomeadamente cometido por parte daqueles que têm em Proust uma referência.

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Cabourg, ainda no Departamento de Calvados, é um daqueles locais de França em que as flores e as plantas transformam uma cidade... E uma espécie de cataplana típica também, devo confessar. Para mim, é também um local onde, como amante do estudo da 2ª Guerra Mundial, olhando o mar, já começo a ter uma sensação menos boa. Devo admitir que, na primeira vez que visitei Cabourg - e já explico porque é importante lá voltar - não consegui colocar um pé na água. Já imaginava muito daquilo que iria sentir mais para a frente... ao chegar a Caen.

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Mas Cabourg é mais que um majestoso Casino do século XIX. Cabourg é poder passear na "Promenade Marcel Proust" e sentir a aura de tempos que não vivi. É sentir um certo glamour dos anos 60, 70, 80 ou até mesmo de finais do século XIX e imaginar o charme e requinte de tal estância balnear. Não será dificil conceber Cabourg, e daí ser importante regressar, como uma daquelas escapadas românticas únicas ou não fosse conhecido pelo Festival de Cinema, também ele dedicado a filmes românticos! Acrescentem a isto, que uma parte do programa inclui cinema na praia!

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Mas Cabourg não se fica por aqui no que concerne a romantismo! O São Valentim é também celebrado de uma forma muito especial, com direito a banhos nocturnos e muito fogo de artifício - esta temática é tão levada a sério que se abrem ciclos de debates e um sem número de iniciativas culturais e até cientificas ligadas ao amor... Quiçá, e nem sou adepto da data, o próximo dia 14 de Fevereiro não venha a ser passado em Cabourg!

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Ainda falando de amor, Cabourg, mais precisamente da "Promenade Marcel Proust", é também o local onde encontramos o "Le Méridien de L'Amour", uma celebração do amor a uma escala universal e onde vários "quiosques" nos abrem os horizontes nesta matéria e em 104 línguas" - algo que não fica indiferente a ninguém! É fácil deambular por entre os  telegramas em diferentes línguas e sentir o amor num passeio junto à praia, numa localização privilegiada e romântica. Talvez seja isso que está a sentir aquele casal na segunda fotografia.

 

Honfleur, uma cidade portuária...

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"Kiss & Ride"

por Robinson Kanes, em 21.09.20

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Créditos: https://www.mirror.co.uk/news/weird-news/kiss--ride-signs-installed-5017292

 

"Kiss & Ride" é uma nomenclatura que já não é nova, mesmo em Portugal. De uma forma simplista, não é mais que a existência de uma faixa na via pública onde se pode parar e deixar entrar ou sair alguém - normalmente alunos em escolas.

 

Todavia, e especialmente em Lisboa, onde a febre da mobilidade continua a expandir-se mais que um vírus e sem olhar a planeamento, estas faixas têm sido criadas junto de algumas escolas. É interessante que a primeira faixa tenha sido criada no Colégio Sagrado Coração de Maria e não numa escola pública, sendo que a 50 metros existe uma. Esperemos que Lisboa não se transforme na cidade de "Kiss & Rides" só para topos de gama ou de jovens alérgicos a transportes públicos. Vai um pouco contra o turismo de "pé de chinelo", convenhamos...

 

Também podemos sempre enquadrar este tipo de medidas na nova moda de fragmentar cidades, e dentro de um bairro com 100 habitantes criar 120 nichos. Não obstante, podemos olhar para estas iniciativas como uma forma de facilitar a circulação do trânsito e até fomentar a segurança rodoviária junto das escolas.

 

Pessoalmente, e sendo praticável em várias escolas, pode ser uma boa alternativa, desde que respeitada pelos automobilistas - o que já levanta outras questões quando falamos de encartados com sangue luso.

 

Importará também perceber até que ponto estas áreas são deveras fundamentais e se são reservadas a estas actividades numa lógica de 24/7 ou só em períodos de pico (entrada e saída de alunos das escolas).

 

No entanto, e também seguindo a moda dos últimos anos, a edilidade de Lisboa importou o conceito na sua linguagem original: "Kiss & Ride". E parece ser aqui que, reina a discórdia. Se por um lado, a faixa "Bus" também não é uma coisa muito portuguesa, como também o "STOP", será que não se poderá optar por algo mais português? Recuperando a música de João Galhardo e Raul Ferrão, não é motivo para dizer "Lisboa não Sejas Francesa"? Sabemos que a Lisboa dos últimos anos tem procurado ser uma cidade para estrangeiro ver e viver, excluindo-se a manutenção de alguma "vida alfacinha" em alguns bairros bafientos especialmente nas Avenidas Novas e com um público difícil parado ainda anos 60 e 70 mas... Já assisti a indivíduos que achavam bem ser em inglês porque o futuro (presente?) habitacional de Lisboa são os estrangeiros.

 

Se assim é, será que também não devemos defender mais a nossa língua? Portugal é um país membro, aliás, a génese da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) pelo que, não podemos fazer um pouco mais pelo português ? Se até naquilo que sustenta uma organização desta importância nada conseguimos fazer, de que valerá ter/pertencer a esta espécie de Commonwealth? 

 

A tarefa não é fácil, quando provavelmente quem decide deve ter um daqueles títulos de "Mobility Specialist and Very Intelligent Unique and Gorgeous God of Lisbon", coisa pouca  o país onde o sujeito que atende telefonemas e aufere €530 mensais é o "Customer Engagement Lead Specialist" ou quando uma padaria é coisa de labregos e "Baker Lab" uma coisa de gente mais do que letrada na arte de bem fazer pão, perdão, bread.

 

Fica o tema a discussão e até aproveito para sugerir a criação de faixas de "Kiss & Ride" noutras zonas da cidade onde se apanham e largam passageiros com um beijinho, nomeadamente no Monsanto, no Instituto Superior Técnico (sobretudo depois da hora de expediente) e no Alto do Parque Eduardo VII. Digamos que aí o nome pode nem estar mal escolhido. Já temos a "Pink Street" mas nessa rua os "topos de gama" de vidros fumados não deambulam tanto.

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As polícias que se lixem! Viva a ETA!

por Robinson Kanes, em 17.09.20

 

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Créditos: Chema Barroso - https://www.madridiario.es/policias-y-guardias-civiles-protestan-en-el-congreso-por-el-pesame-de-sanchez-a-un-etarra

 

 

O pior das humilhações  é que fazem quem as sofre sentir-se  culpado.

Javier Cercas, in "As Leis da Fronteira".

 

Espanha vive tempos conturbados, à semelhança de Portugal, onde a extrema-esquerda com a conivência do centro-esquerda impõe a agenda atropelando muitos dos valores mais básicos. Parece subsistir, numa base diária, um claro exemplo para demonstrar o cataclismo político e social para onde algumas áreas caminham. Acresce a este facto, uma direita fraca e uma extrema-direita em franca ascenção - não incluo o VOX neste rótulo de extrema-direita, ao contrário do que muitos tentaram fazer sem sucesso.

 

A mais recente, e permitam-me a expressão, escandaleira, foi protagonizada pelo Primeiro Ministro Pedro Sánchez que veio a público e com toda a solenidade prestar as suas condolências e grande pesar pelo suícido de um Euskadi Ta Askatasuna (ETA) na prisão onde se encontrava a cumprir pena. Num país que, nos tempos actuais, precisa de estar mais unido que nunca, ver um chefe de Governo a assumir esta posição face a um violento separatista é, no mínimo, rocambolesco e sem qualquer sentido de Estado. Fazer ressurgir feridas ainda mal fechadas de um passado muito recente não é próprio de um Governo e atentará até contra a própria Constituição e unidade de Espanha.

 

Por certo, a pressão de Iglesias, alguém que acredita piamente que irá conquistar o poder e transformar Espanha num campo de batalha emergindo como um totalitarista travestido de suino orwelliano, terá tido os seus efeitos. Iglesias, contudo, à semelhança daqueles que lutaram na Guerra Civil espanhola, não tem ideais e não procura a paz entre os seus concidadãos apenas a vontade em se assumir como uma espécie de Demiurgo com tiques estalinistas.

 

No entanto, em Espanha, o povo e as próprias polícias não vão no discurso da serenidade (e até algo totalitarista), encetado por muitos dirigentes e que sai sempre da cartola, sobretudo do nosso Presidente da República, nomeadamente quando as coisas podem correr mal. Foi neste contexto que todo um povo e especialmente os agentes da ordem, particularmente a Guardia Civil e o Corpo Nacional de Polícia, mostraram o seu descontentamento, colocando inclusive, no Palácio das Cortes, um sem número de urnas encenando os funerais dos agentes da autoridade mortos pela ETA, que cometeram suícido ou que foram mortos no cumprimento do dever nunca tendo merecido qualquer palavra deste e de muitos governos espanhóis. Acresce aos factos, um pouco à semelhança do que também acontece por cá, a irresponsabilidade de ainda não se ter desenvolvido um programa de prevenção do suicídio nas forças de autoridade e que em Espanha é um dos principais cavalos de batalha destas.

 

É é trazendo a discussão para Portugal, que é notório que temos assistido a selfies tiradas pelas mais altas individualidades do Estado junto dos heróis que apedrejam ou disparam sobre a polícia ou então que simplesmente desprezam toda e qualquer indicação das autoridades. Pensar que ter os militares na mão, sobretudo mantendo incompreensíveis regalias, é a solução para se manter um Estado em paz e sob controlo, pode ser um erro crasso no longo prazo, até porque, não vivemos no país "orgulhosamente só" que em muita alta esfera política, sobretudo aquela que adora mergulhos no mar, ainda causa saudade.

 

E se, à semelhança do que vai sendo sublinhado por muitos, o discurso que acabei de ter é populista, aliás, como o próprio combate à corrupção, então é com muito orgulho que o sou. 

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Costa Nostra...

por Robinson Kanes, em 12.09.20

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Créditos: https://jornalacores9.pt/costa-acompanha-frustracao-de-medina-mas-defende-que-meios-estao-a-ser-reforcados/

 

A melhor forma de assustares um português? Fala-lhe em mudança, nunca mais o vês!

GC

 

Admito que, depois do último artigo, tinha pouco interesse em repetir o tema da Sicília, todavia, algumas das "grandes" figuras nacionais não me dão muita hipótese de ser impopular. Como poderá dizer uma certa juíza entretanto silenciada, "são escolhas".

 

Na verdade, e nada tenho contra o futebol, devo admitir que em Portugal (e não só) a promíscuidade entre política, comunicação social e clubes de futebol é escandalosamente arrepiante.

 

Para citar alguns exemplos, temos o caso de um sem número de governantes que em tempos, a troco de um jogo de futebol num europeu de, venderam a alma ao diabo. Um faleceu entretanto e foi visto como um herói, outros pagaram uns tostões e não foram a julgamento. Para mim isso não é inocência, é pagar para não ser encarcerado e manter as regalias na função pública. Afinal, também por "cá", Cristiano Ronaldo e José Mourinho pagaram e ficaram "meninos de bem". Ai se o "Toino" sabe, da próxima vez que se vir a passar 5 anos na cadeia por ter roubado uma banana no hiper low cost vai alegar a jurisprudência para se livrar do cárcere.

 

Outro exemplo, é também o de um ex-ministro das finanças (e não é caso único) que utilizando o cargo, mendigava lugares na tribuna de honra de um determinado clube de futebol para que o filho também pudesse assistir a jogosl, e sobretudo trabalhar o seu networking com a malta influente.

 

Temos ainda o sem número de agentes políticos que surgem em comissões de honra e orgãos gestores de clubes de futebol, mesmo quando ainda exercem funções públicas e com total incompatibilidade com os cargos, o mais recente caso de Rui Moreira na Câmara Municipal do Porto disso é exemplo.

 

Finalmente, temos também um jornal nacional que tem como comentador o Director Geral da Microsoft para a Europa Ocidental, e é com este título e também como sócio que se apresenta, a defender um clube de futebol - não como um parceiro de negócios, mas como uma espécie de adepto possuído. Se está autorizado pela organização que representa, podemos aceitar, embora não me pareça propriamente a melhor prática dentro da Microsoft. Em relação ao jornal que publica o artigo, já sabemos como estas coisas funcionam... "Está desculpado". Sabemos que a Microsoft tem o Benfica como cliente, e isso é óptimo e em nada censurável, bem pelo contrário, no entanto existem linhas, mesmo no negócio, que nunca se ultrapassam - e não é só por uma questão ética e profissional, mas também relacionada com o próprio negócio. 

 

E tudo isto para chegarmos ao mais recente exemplo, onde o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e o Primeiro-Ministro (o primeiro sem o segundo não existiria, portanto, uma espécie de "mini me") surgem na comissão de honra de um candidato à presidência de um clube de futebol. A promiscuidade, mais uma vez ao seu mais alto nível, sem esquecer que num país civilizado e prudentemente governado, não é admissível este comportamento. Na eventualidade  de ser uma prática moralmente aceitável, existem mais clubes na cidade. Por sua vez, também a pessoa do candidato que ambos apoiam e o próprio clube encontram-se envoltos em polémicas e processos judiciais. Todos são inocentes até trânsito em julgado, no entanto, patrocinar candidaturas no decorrer do processo não é a melhor forma de mostrar neutralidade e ausência de pressão sobre os agentes policiais e judiciários. Talvez a impunidade que ambos têm tido em várias situações os deixe tranquilos.

 

Concluíndo, e voltando à Microsoft, é bom lembrar que por muito menos, existiram marcas que abandonaram determinados indivíduos ou organizações. Por cá, parece que as coisas funcionam ao contrário.

 

Em suma, é motivo para dizer que num país de máfias, umas mais pequenas e outras maiores (e na sua maioria recheadas de alorpados cretinos) mas com graves danos para o país, a Costa Nostra é mais uma que veio para ficar.

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Sentido de Oportunidade!

por Robinson Kanes, em 10.09.20

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Créditos: Eroi in Divisa

 

É importante iniciar este texto sublinhando que a violência policial não é um facto inexistente, e como tal, deve merecer a nossa atenção. Penso que aqui a opinião é unânime. 

 

Com efeito, não têm sido raros os casos em que assistimos a uma mediatização excessiva e ao nascimento de novos heróis (e não são as vítimas) alicerçados numa retórica de luta contra o poder onde a polícia, por incrível que pareça, surge como um dos elos mais fracos. Pelos jornais, pela política e até por um certo humor altamente parcializado (algo que em Portugal é já uma instituição) e inclusive pelo anormal poder dos comentadores, vai sendo criada a ideia de que é uma prática diária.

 

Bater nas polícias, especialmente nas polícias nacionais e não militarizadas tem sido uma prática comum nos últimos tempos. Não censuro que se faça em relação a casos justificáveis, mas tenho de assumir algum espanto com a descontextualização e distorção dos factos, o não entendimento do contexto e a provocação em off seguida de filmagens em on

 

Como as armas são um meio de defesa mas ao mesmo tempo, na mão de humanos imbecis, podem ser um meio de ataque, também os telemóveis podem ser uma arma de ataque letal. Numa sociedade aberta onde alegadamente as aulas de cidadania podem servir para abrir horizontes, estimular o empowerment e o espírito critico, talvez não estejamos a fazer o nosso papel fundamental que é promover todos esses aspectos e com visíveis consequências na avaliação e participação dos cidadãos na vida pública. Possivelmente, nessa sociedade, muitos dos jornais e televisões actuais teriam de fechar portas devido às parcas audiências, não obstante, o país e o mundo teriam muito mais a ganhar e com toda a certeza os extremos seriam menos.

 

No final de contas, não deve existir nada mais humilhante, sobretudo quando as coisas ficam mais complicadas, que é requerermos a protecção daqueles a quem quotidianamente aplicamos a nossa "soma zero".

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E isto é o quê?

por Robinson Kanes, em 27.08.20

As sociedades modernas acreditam nos dogmas humanistas e socorrem-se da ciência para os confirmar e implementar e não para os questionar.

Yural Noah Harari, in ""Homo Deus"

 

Foi no dia 25 de Agosto, ou seja, anteontem... Onde estão as manifestações na rua? Onde estão os pedidos de justiça? É racismo? É violência contra idosos? Pode ser tudo, mas é um crime como muitos que temos visto, só que este precisa da CWB para se tornar conhecido e "por acaso" chegou à FOX. Vi tanta gente chocada com alguns vídeos por aí, até lamentando como era possível que outras pessoas não tivessem ficado em estado de choque, mesmo que no conforto do sofá. Dá que pensar...

 

Este foi em Janeiro deste ano...

Todas as vidas interessam, e independentemente de tudo o resto, temos que protestar é pelo cumprimento da lei... Porque segundo essa lei todos os cidadãos são iguais mesmo com as suas diferenças, sejam elas quais forem... O resto, além de "show off" e ignorância é dotado de "hypes" que só acentuam as diferenças e os extremismos.

 

 

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Obrigado SNS!

por Robinson Kanes, em 26.08.20

15287fcb90c41af48bf9a578484890fe-783x450.jpgCréditos: https://zap.aeiou.pt/hospital-lisboa-sem-radiologistas-202802

 

Este não é um artigo que surja no rescaldo do "vamos todos ficar bem" (uma bela cópia forçada do que espontaneamente surgiu em Itália), das palavras amáveis com profissionais de saúde e com palmas à janela para televisão captar ou porque estávamos com um medo enorme de morrer de COVID-19.

 

Este é um artigo que surge para agradecer de facto o bom trabalho realizado por muitos profissionais que todos os dias dando ou não o seu máximo garantem a nossa saúde. É também para enaltecer o bom trabalho e colocar um contraponto aos que argumentam que dispendem rios de dinheiro no privado (quem acha que a saúde não custa dinheiro ou então é grátis anda completamente alheado da realidade) mas não dão uma oportunidade ao Serviço Nacional da Saúde, não é tão... Aliás, quando o tema é medicina privada, já repararam que ninguém vai ai hospital? Vão à Luz, aos Lusíadas ou à CUF, entre tantos outros.

 

Todos os dias conheço muitos e muitos casos com relativa proximidade, pelo que, me focarei num dos mais recentes.

 

Em pleno pico da pandemia em Portugal, e perante a impossibilidade de um utente se dirigir ao seu médico de família, foi-lhe sugerido que contactasse a sua médica via email - contactar a médica de família via email, em Portugal, ainda é uma daquelas coisas que faz levantar um tornado de reclamações. Deu-se o contacto, e no dia seguine surge uma resposta. Mais uma troca de emails e o "convite" para em menos de uma semana se dirigir ao centro de saúde. Entrada imediata, atendimento em menos de 30 minutos e sem a enchente habitual daqueles que frequentam os centros de saúde diariamente como se fosse o café. Quando, incrivelmente, não se paga nem um euro de taxa moderadora é natural que tudo isto aconteça. Ser consultado e não pagar por isso, pouco que seja, nos tempos actuais, é qualquer coisa.

 

Feita uma observação clínica, porque era necessário, foram marcados exames que ao fim de uma semana e meia estavam prontos. Nova análise à distância com uma rapidez louvável (no próprio dia da recepção dos exames) e uma resposta com a indicação de que estava marcada uma consulta de especialidade num hospital central, nomeadamente o São José, em Lisboa - a carta chegaria entretanto.

 

Em menos de um mês chegou a carta e também em menos de um mês a consulta teve lugar. Hospital, normalmente a abarrotar e onde  confusão reina, totalmente calmo, apesar de algum movimento. Auxiliares à entrada dos serviços com mais simpatia, afinco e dedicação que em muitos lugares onde se vendem artigos ou experiências de luxo.

 

Espera para se ser atendido? Nem 30 minutos. O especialista, um médico da velha guarda, com muito conhecimento que em menos de um minuto deslindou o caso e, não sendo nada de grave, "quase colocou" a opção de cirurgia nas mãos do paciente, pois não era um caso de extrema gravidade. Papéis assinados, uma enorme simpatia (e até sou da opinião que um médico pode, mas não está lá para ser simpático) e a informação de que seria agendada a cirurgia.

 

Cirurgias no SNS? Lista de Espera? Nem neste ano nem para o próximo. Passavam pouco mais de 3 horas desde a consulta e um telefonema de uma médica (não foi de um assistente administrativo) a indagar da disponibilidade do doente para uma cirurgia em menos de um mês. Face à resposta de que existia essa disponibilidade, ficou marcado e aguarda-se o contacto do secretariado tendo em vista o fornecimento de todos os detalhes.

 

Entretanto, em todo este processo, ainda nem um euro saiu do bolso do utente que nem é isento e fica perplexo como é que tudo isto se está a fazer sem custos. Sem custos directos para si, mas com um gigantesco custo para o SNS, ou seja, para o Orçamento de Estado e consequentemente para todos nós. Não é uma pessoa rica, muito longe disso, mas não consegue ainda hoje lidar com o facto de não pagar nada, e até a cirurgia parece não ser uma preocupação.

 

Por tudo isto e muito mais, OBRIGADO SNS!

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Estado de Calamidade na Brasa...

por Robinson Kanes, em 25.08.20

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Créditos: https://www.huffingtonpost.fr/entry/scarface-va-avoir-droit-a-un-remake-signe-des-freres-coen_fr_5ebe6441c5b6500cdf6691f5

 

Hoje declarou-se o Estado de Calamidade no SardinhaSemLata. Podem acompanhar a nossa rubrica das terças-feiras. É já aqui.

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Não há festa como esta!

por Robinson Kanes, em 24.08.20

 

35583452_03048_oGOjESU_osCXP6o.jfifCréditos: https://www.dnoticias.pt/2020/8/20/71215-dgs-esta-a-pedir-mais-documentos-tecnicos-sobre-a-festa-do-avante/

 

Há várias instituições que organizam as suas iniciativas, e a avaliação sanitária há de valer da mesma maneira para todas as iniciativas (...) Não me parece que o vírus mude de natureza de acordo com a natureza das iniciativas.

Marcelo Rebelo de Sousa, 17 de Maio de 2020

 

 

Nunca fui a uma festa do Avante e nunca fui contra quem decide pactuar com o financiamento de um partido repudiado pela União Europeia - equiparado a um partido nazi. Mas ao contrário do que faria um partido comunista, a União Europeia, permite democráticamente que no seu seio, à semelhança de partidos declaradamente de extrema-direita, que também os partidos de ideologia comunista (ou extrema-esquerda que é praticamente o mesmo só muda o rosto) possam ter direito à palavra se essa for a escolha dos seus cidadãos. Admito que sempre achei estranho como é que partidos que defendem a destruição da União Europeia aceitam receber dinheiro dessa instituição e suplicam também por fundos e "bazucas" da mesma para os países onde estão, sobretudo se o cano da bazuca tiver muitos buracos. É como dizer que não se gosta de cerveja mas beber umas dez imperiais por dia e "nos entretantos" roubar os copos.

 

E como seria de esperar, depois de produtores de eventos, músicos, técnicos de audiovisuais e todo um mundo produtivo (e trabalhador - uns falam dos trabalhadores, os outros trabalham efectivamente) ter ficado parado, e assim continuar, desde Março até ao dia de hoje, eis que vamos fazer um mega-evento com 33 mil pessoas por dia. Uma espécie de repetição de grande evento do regime como aquele que teve lugar no Campo Pequeno e onde não faltaram as elites políticas da nação, mas desta feita, ainda mais grandioso e ao ar livre. Afinal, somos um país fantástico, organizamos eventos e é isso que agora nos faz promover internacionalmente... Sobretudo se em muitos oferecermos quase tudo, inclusive isenções de impostos. Por falar em isenções de impostos, é melhor não falarmos sobre isso quando o tema é Festa do Avante, mais uma daquelas coisas dignas de um país como a Bielorrúsia e com a conivência de todos os Governos ao longo da nossa história "democrática".

 

Existe, com efeito, uma pergunta que todos os portugueses deveriam colocar, ou aliás, várias... Porque é que não se puderam fazer arraiai, alguns com pouco mais 50 indivíduos e agora se podem fazer festas com 33 000? Porque é que aldeias, vilas e cidades se viram impedidas de realizar eventos com muito mais história que uma festa partidária e que serve para encher os cofres de um partido que odeia multinacionais mas factura tanto ou mais? Porque é que muitos dos nossos cidadãos, sobretudo fora das nossas metrópoles, se viram sem aquele momento do ano tão especial, aliás, para alguns o único e agora se pode fazer um evento deste calibre? E finalmente, porque é que muitas empresas pagadoras de impostos e cumpridoras da lei se viram impedidas de organizar nem que fosse um minúsculo jantar com 20 pessoas e agora faz-se uma festa gigante como esta e onde a questão fiscal é sempre um daquelas nuvens onde até o conceito de off-shore faz tremer alguns militantes... Piores nuvens só aquelas que surgem se decidirmos consultar os financiamentos que muitas instituições de solidariedade social, misericórdias e associações de tudo e de nada recebem, não raras vezes, sem sabermos para quê. Talvez seja o meu mau feitio, mas gastar um milhão para fazer um estudo para adjudicação de coisa nenhuma, também essa com o seu custo, é qualquer coisa.

 

São perguntas que podemos deixar na modesta sede do PCP em Lisboa, num modesto edifício na Avenida da Liberdade e que não é tão elegante como o "paupérrimo" palacete da CGTP - um dos seus tentáculos. Falamos de um modesto edifício com direito a vários lugares públicos em ocupação privada, na principal avenida da cidade e que até são gradeados sempre que uma viatura abandona o local, não vá algum incauto por aí estacionar. O mais provável é ser corrido pelos indivíduos que agora vendem bilhetes à porta e projectam música pela avenida, espero que paguem as licenças que existem para esse tipo de utilização do espaço público. Já bastam os recursos públicos da Câmara Municipal do Seixal ao serviço de um interesse partidário.

 

Talvez ande realmente deslocado e passe demasiado tempo lá fora, ou então, talvez me comece a sentir como a mulher do médico do "Ensaio Sobre a Cegueira"... Ou talvez o único cego seja eu. Talvez seja isso... Entretanto, na Moita, uma câmara municipal também comunista, não se irá abdicar das tradicionais festas em Setembro, depois de se ter conhecimento do que se iria passar no vizinho Seixal. É irresponsável? Pode ser, mas quem somos todos nós para falar depois do que está previsto para daqui a pouco mais de 10 dias. Pelo menos na Colômbia ainda se combatem as FARC e na Coreia do Norte existe uma corrente contra o "grande líder". 

 

Uma coisa é certa, não há festa como esta... 

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Créditos: https://imgflip.com/i/1vlfv3

 

Quando o tema é emprego, Portugal tem sido um verdadeiro milagre. O grande milagre português anunciado por Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa não foi no controlo da COVID-19 mas nos números do desemprego. Portugal deve ser dos poucos países do mundo onde o aumento dos despedimentos leva a uma "redução" do número de desempregados! Senhores de Harvard ou de Standford, por favor, aprendam com este país.

 

E é nesse contexto que chegou ao meu conhecimento a passada semana mais um caricato episódio de fraude made in Portugal, aliás, recordando um programa televisivo, é de facto nisso que somos bons.

 

Tudo começa com um anúncio de emprego que já tem vindo a ser publicado desde Fevereiro por uma empresa algarvia que  anda pela internet à procura de um especialista em recursos humanos e mais recentemente também por dois especialistas noutras áreas, nomeadamente em marketing e design. Anúncios com muitos meses são sempre uma red flag, pelo que, deixo o meu conselho à minoria de 1% que ainda acredita que encontra emprego por esta via: nunca se candidatem a estes anúncios.

 

Todavia, o episódio começou com uma candidatura em final de Maio, que acabou recusada em Junho, e de repente, uma repescagem em final de Julho. Uma coisa fantástica, pensou a ingénua candidata que ainda tem a mente lá fora e esquece-se que entre Portugal e a Bielorrúsia as diferenças vão sendo cada vez mais ténues. 

 

Com a primeira entrevista, descobre uma empreendedora portuguesa que trabalhou em Inglaterra e que voltou para continuar a sua empresa em Portugal. Um discurso digno de grande gestora, alguém que sabe do que fala. Cuidado com estes discursos, cada vez são mais e cada vez... Grande empresa e grande futuro se avizinhava nessa multinacional, algo à dimensão de uma Google.

 

Com tudo a correr bem, começam as red flags: um desafio à candidata para que resolva uma situação complexa em termos de fiscalidade e recrutamento internacional e cuja solução já só está ao nível de um profissional muito sénior e que mesmo assim necessita de apoio jurídico e fiscal, em suma, algo que custa uns bons euros e que não se faz num dia.

 

Perante uma resposta elaborada, no entanto evasiva e mais assente no espírito da lei, são pedidos mais detalhes, algo mais aprofundado e mais concreto, algo para ser de imediato colocado em prática. A candidata, já mais alerta, amigavelmente forneceu mais alguma informação mas não adiantou muito mais.

 

Segue-se uma terceira fase em que surge o Operations Manager - uma empresa que se preze só tem títulos pomposos mesmo que, como se veio a descobrir, só tenha pouco mais de 20 colaboradores. Mais uma entrevista com sucesso e já lá vão 4 fases do processo quando surge mais um desafio - afinal dois. Os famosos desafios (a palavra desafio, acredito eu, terá ganho outro  sentido para a candidata depois  destas peripécias): preparar, acompanhar e elaborar um relatório para duas entrevistas que entretanto irão ter lugar! Ética e Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) de fora... Colocar um candidato a entrevistar outros dois é qualquer coisa, sendo que os outros dois nem saberiam que estavam a ser entrevistados por alguém que não estava a trabalhar para e na organização. Acrescendo a isto todo um trabalho que também envolve questões financeiras, fiscais e de mercado. 

 

Diante destes factos, a candidata bateu o pé e disse que não estava disposta a continuar com a situação, ao que rapidamente a grande empreendedora, e perante as contra-medidas entretanto disparadas, deu a entender, pela linguagem verbal e não verbal (viva o Zoom) que só estava à procura de mão-de-obra gratuita, ou melhor, consultoria grátis utilizando o subterfúgio do recrutamento. Na realidade, a história poderia ficar por aqui, mas perante as evidências demonstradas pela candidata, a empreendedora de sucesso rapidamente mudou o discurso apresentando argumentos que afinal era melhor as coisas ficarem como estavam até porque a candidata além de querer um salário "elevado", nem era bem aquilo que a organização procurava. Quem é português sabe do  que falo, ou seja, passar o ónus do problema para o outro, muito tipíco na nacional vigarice que ainda é abundante.

 

Todavia, e como o Mundo é um local rico em comportamentos da fauna que anda em duas pernas, ficou aberta a hipótese de recomendar alguém para uma eventual participação num projecto na área do marketing ou na área do design. A organização preparava agora a contratação de dois elementos para essas posições mas tinham de resolver vários problemas criticos  da mesma para serem aceites, além de que um estágio não estava fora de questão.

 

Infelizmente, situações destas não faltam, já em tempos relatei uma similar, pelo que, não é assim que lá iremos e nem um surto gigantesco de ébola mudará esta mentalidade, condenando-nos à eterna mediocridade. 

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