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"Park Bench Love"

por Robinson Kanes, em 11.03.19

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Fotografia: Robinson Kanes

 

Esta luz, este fogo que devora,

esta paisagem que me rodeia,

esta mágoa por uma só ideia,

esta angústia de céu, de mundo e hora,

 

este pranto de sangue que decora

lira sem pulso já, lúbrica teia,

este peso do mar que me golpeia,

este lacrau que no meu peito mora,

 

são grinalda de amor, cama de ferido,

onde, sem sono, sonho-te a presença

entre as ruínas do peito meu sumido,

 

E embora eu busque o cume da prudência

dá-me o teu coração vale estendido

com cicuta e paixão de amarga ciência.

 

García Lorca, Federico "Chagas de Amor", Sonetos

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Playlist para uma Noite Sem Ti

por Robinson Kanes, em 07.03.19

Quantas vezes, entre um moscatel, uma caipirinha feita à pressa, um Porto da melhor qualidade ou entre um simples branco do Tejo ou um Tinto alentejano não nos sentamos à varanda e vivemos uma "noite sem ti"? Talvez hoje, não à varanda, mas entre vidros protegido pela chuva, encontre algumas sonoridades que poderiam fazer-me recordar-te numa ausência tua...

 

"Love doesn't End" e o regresso a Michael Nyman. Aquele que nos marcou para sempre e que já escutámos apaixonadamente... Trago-o também de um filme brilhante, "The End of the Affair" onde Juliane Moore e o Ralph (o Fienes de quem tanto gostamos, sobretudo no teatro) contracenam num filme inesquecível. Das poucas obras literárias que Graham Green que até aprecio.

Poderia agora escutar o "Intermezzo" de "Cavalleria Rusticana", de Mascagni -no entanto, já aqui falei dele - uma das peças mais bonitas de todos os tempos quando a temática é a música... Fiquemos com a "Ouverture" que não nos deixa indiferentes antes daquela entrada em palco do Placido Domingo, lembras-te?

Não consigo sair da música clássica e é na inacabada "Zaida"  de Mozart que encontro "Ruhe Sanft". Não me perguntes o porquê de gostar desta ária... Talvez pelo alemão... Talvez pela vulnerabilidade que, pontualmente, o mais forte dos homens também sente.

Stavros Lantsias... Porquê? Porque me embala, entre a ingenuidade e verdade do amor quase infantil dos 20 e entre a maturidade (ou ideia dela) em anos mais adiante. Porque nos torna infantis no amor quando a seriedade é uma realidade que nos rodeia... Prefiro e deixo-me levar por esta "Valsa dos Olhos".

Não podia deixar passar uma "playlist" destas sem trazer o Ennio... O Senhor Morricone que nos faz viajar pelo mundo atrás dos seus concertos... Também não poderia deixar passar "For Love One Can Die". Pela nostalgia, pela profundidade, pela recordação do grande actor Carlos Paulo naquela peça... Talvez porque a música do Ennio tem aquele efeito em mim... Talvez porque me torna nostálgico de uma época que nem vivi, que nem sequer era sonhado... Talvez a recordação de amor, de sofrimento, de um mundo de emoções... Quando as emoções são algo em vias de extinção!

Se há filme que superou largamente o livro foi "Out of Africa" mas... Há algo que ainda superou o filme: aquela banda sonora única de John Barry! Já não se fazem composições destas... Também já não se fazem filmes destes... Também já não se fazem actores destes... Talvez aquela atracção por África venha deste filme, ou então pela carga genética que carrego ou carregamos, afinal todos "nascemos" em África... E em 1986... Em 1986 eu nem "existia"!

Tenho de voltar ao Ennio e à recordação de "Amore per Amore", mais uma daquelas que nunca se esquece e que, associada ao filme, ainda mais intensa se torna. O filme, "Così Come Sei" permitiu esta pérola e sim, gosto de Marcello Mastroianni. Olhar para lá da varanda, contemplar as estrelas que as luzes da cidade nos deixam fitar. Olhar para lá, onde estou sem ti.

A noite vai longa, a madrugada apela aos sentidos e importa dar uma certa voz ao momento... Revejo-me nas palavras de Vergílio Ferreira quando sei que não posso sentir falta da vida mas sim daquilo que a faz viver. Talvez por isso tenha de trazer uma das divas dos nossos tempos e uma das suas mais brilhantes interpretações... Diana Krall e "Why Should I Care"... De facto, why should I care...

Uma das músicas mais interpretadas em castelhano, sobretudo no espanhol da América do Sul, é a "Historia de un Amor". Fiquei indeciso entre Luz Casal e Guadalupe Pineda. Desta vez ganhou Pineda com uma interpretação mais nossa, mais quente e levada ao expoente máximo de uma paixão que se distancia por não estares aqui... Até porque "não há remédio que cure o que a felicidade cura", dizia García Márquez no seu "Do Amor e outros Demónios".

Tenho de fechar com algo vocal e moderno - sob pena de ainda me acharem velho e trágico...Tenho de fechar com algo que me torne a noite mais tranquila, tenho de fechar com algo que nos possa unir e também unir todos aqueles que podem vir a ler estas sugestões, esta partilha... Tenho de fechar com algo... "Stay or Leave" da Dave Matthews Band e acreditar que este meu lado mais virado para o "acosmisme" efectivamente mostre que tenho razão... Além disso, vão pensar que sou lamechas.

 

 

 

 

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E é Isto o Amor!

por Robinson Kanes, em 30.10.18

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Le Baiser, Auguste Rodin - Musée Rodin

Fonte: Robinson Kanes

 

Os seres-humanos não foram feitos para estar toda a vida com a mesma pessoa! Enquanto não percebermos isso, não evoluíremos enquanto pessoas e amantes.

Tenho dito.

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Atrás de Marcel Proust em Cabourg...

por Robinson Kanes, em 24.08.18

IMG_3401.JPG Imagens: Próprias e GC.

 

 

A única verdadeira viagem de descoberta, a única fonte da eterna juventude, será não visitar terras que nos são estranhas, mas sim possuir outros olhos, contemplar o universo através dos olhos do outro, de centenas de outros, ver as centenas de universos que cada um contempla, ver o que cada um deles é.  

Marcel Proust, in "Em Busca do Tempo Perdido - Volume V: A Prisioneira"

 

 

Já tive oportunidade de falar de Erik Satie, ou até de Eugène Bodin aquando do meu artigo sobre Honfleur. No entanto, agora é a vez de um mestre das letras merecer um destaque, é ele Marcel Proust!

 

Falo de Marcel Proust para poder também falar de Cabourg, localidade, sobretudo conhecida por ter sido o local preferido de férias do escritor! Estar em Trouville-sur-Mer, ou mesmo em Dieppe e não ir a Cabourg acabará por ser quase um crime, nomeadamente cometido por parte daqueles que têm em Proust uma referência.

 

Cabourg, no Departamento de Calvados, é um daqueles locais de França em que as flores e as plantas transformam uma cidade... E uma espécie de cataplana típica também, devo confessar. Para mim, é também um local onde, como amante do estudo da 2ª Guerra Mundial, olhando o mar, já começo a ter uma sensação menos boa. Devo admitir que, na primeira vez que visitei Cabourg - e já explico porque é importante lá voltar - não consegui colocar um pé na água. Já imaginava muito daquilo que iria sentir mais para a frente, já perto de Caen.

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Mas Cabourg é mais que um majestoso Casino do século XIX. Cabourg é poder passear na "promenade Marcel Proust" e sentir um pouco certos tempos que não vivi. É sentir um certo glamour dos anos 60, 70, 80 ou até mesmo de finais do século XIX e imaginar o charme e requinte de tal estância balnear. Não será dificil conceber Cabourg, e daí ser importante regressar, como uma daquelas escapadas românticas únicas ou não foss conhecido pelo Festival de Cinema, também ele dedicado a filmes românticos! Acrescentem a isto, que uma parte do programa inclui cinema na praia!

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Mas Cabourg não se fica por aqui no que concerne a romantismo! O São Valentim é também celebrado de uma forma muito especial, com direito a banhos nocturnos e muito fogo de artifício - esta temática é tão levada a sério que se abrem ciclos de debates e um sem número de iniciativas culturais e até cientificas ligadas ao amor... Quiçá, e nem sou adepto da data, o próximo dia 14 de Fevereiro não venha a ser passado em Cabourg!

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Ainda falando de amor, Cabourg, mais precisamente a "Promenade Marcel Proust", é também o local onde encontramos o "Le Méridien de L'Amour", uma celebração do amor a uma escala universal e onde vários "quiosques" nos abrem os horizontes nesta matéria e em 104 línguas" - algo que não fica indiferente a ninguém! É fácil deambular por entre os  telegramas em diferentes línguas e sentir o amor num passeio junto à praia, numa localização privilegiada e romântica. Talvez seja isso que está a sentir aquele casal na segunda fotografia.

 

Bom fim de semana...

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Amor em Tempos de Cólera...

por Robinson Kanes, em 03.08.18

Roubei o título ao grande Gabriel García Marquez... Todavia, com a cólera que grassa neste pequeno planeta que já começa a contratar um cobrador do fraque para saldar a dívida, ainda vai existindo tempo para se amar e apreciar o que é realmente importante .. L'amour...

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 Fonte da Imagem: Própria.

 

E como o amor não se explica, deixo-me envolver por um poema que poderia estar escrito naquele livro e ilustrar aquela cena na "Place des Vosges".

 

Só de espelhos o crânio mobilado

Um corpo de mulher posto no centro

Outro jogo de espelhos lá por dentro

O meu crânio no centro colocado

 

E cada  corpo o crânio projectado

E em nenhum me detendo em todos entro

se de encontro aos espelhos me concentro

se do crânio me encontro descentrado

 

Os espelhos reflectem só o fogo

do sol que desses corpos anda ausente

porque só no meu crânio tem morada

 

E é sem dúvida Amor todo este jogo

É sem dúvida Amor Mas de repente

é sem dúvida Amor e não é nada

 

Mourão-Ferreira, David (1998). "É Sem Dúvida Amor", Antologia Poética, Lisboa, Editorial Presença.

 

Bom fim de semana...

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Todos Começamos Como Desconhecidos...

por Robinson Kanes, em 06.05.18

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Autoria do texto da imagem: Desconhecido

Fonte de Imagem: Própria.

 

Segundo dizem, já chegamos todos aqui com uma missão, com algo definido para sermos alguém, mas na verdade, é por cá que nos é formatado todo o nosso Ser.

 

Até sermos, temos também duas opções: seguir a injecção de informação que nos foi dada na infância e não só, ou simplesmente procurar algo para lá dessa fronteira. Não passamos de meros desconhecidos que só nos descobrimos a viver. É uma espécie de ficção de nós, o chegar desconhecido e construir todo esse percurso. Vergílio Ferreira dizia que se era morto quando se começava a ser vivo e quando se acabava, ou seja o desconhecido estaria antes e depois sob a figura da morte.

 

Podemos também descobrir-nos através do outro, daquele que odiamos, daquele pelo qual nutrimos uma forte amizade ou até admiração... E também através daquele que amamos. É aí, também no amor, que começamos como desconhecidos, como seres atirados ao evento, como esse monte de fezes e urina do qual nascem as grandes coisas e que em "Fanny Owen" da nossa Agustina ficou latente.

 

Todos começamos desconhecidos nesse mundo que é partilhar as nossas emoções mais belas com o outro e é aí que nos conhecemos... Ao outro e a nós... Mas será que até nesse conhecido, o próprio amor alguma vez se chega a conhecer? Esse amor de conceito, de ausência de prática, de tacto, de fascínio visceral de um momento que na eternidade dura tão pouco? Demasiadas interrogações para uma época em que não se deve perder tanto tempo a questionar...

 

Conhecer não poderá ser o quebrar do próprio conhecimento, não será o início do fim do conhecimento, afinal, é o desconhecido que tanto nos fascina... Como na caça a perseguição é mais deleitosa que o prémio.

 

Com efeito, no amor e na vida, será afinal que começamos como desconhecidos e como desconhecidos terminamos?... Não será talvez perder demasiado tempo neste nada de ser a questionar o conhecer quando podemos ser mais felizes no desconhecido de sermos homens, amantes ou apenas seres que apreciam cada movimento das folhas na copa da uma árvore.  Aí talvez esteja a resposta a tudo...

 

E porque é que ad absurdum me lembrei disto? Não tenho a mínima ideia!

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Fim-de-Semana com "Il Postino"...

por Robinson Kanes, em 15.12.17

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 Fonte:http://images3.static-bluray.com/reviews/13055_5.jpg

 

Existem filmes que nos marcam para sempre... Existem bandas sonoras que nos marcam para sempre... E existem livros que nos marcam para sempre... E porquê? Porque também existem pessoas que nos marcam para sempre!

 

Este artigo não é uma sugestão, é a força de várias emoções que fervilham sempre que vejo e escuto "Il Postino". De facto, ser em Itália, ter como realizador Michael Radford (relizador do "Mercador de Veneza"), ter Philippe Noiret (Pablo Neruda) e Massimo Troisi (Mario Ruoppolo) como actores, já vale muito.Confesso que o livro de Antonio Skármeta é uma daquelas situações em que o livro se deixa superar pelo filme.

 

Foi a minha miúda que me deu a descobrir este filme tardiamente... De facto, nos anos 90, era uma criança mas... Não é possível que só anos mais tarde lá tenha chegado.

 

"Il Postino" ou "O Carteiro de Pablo Neruda", é um filme que retrata sobretudo a amizade entre o poeta Pablo Neruda durante o seu exílio em Itália e um jovem (quase analfabeto) que decide aprender poesia e acaba por se emancipar por intermédio desta. É pela poesia e pelo uso das metáforas que conquista Beatrice (Maria Grazia Cucinotta) e começa a questionar um certo status quo que reina na ilha. 

 

Os diálogos e a relação que se estabelecem entre Mario e Neruda, são o grande ponto forte deste filme. Michael Radford conseguiu ir bem mais longe que Skármeta e trouxe-nos um filme envolvente e que está ao nível das melhores produções cinematográficas.

 

Um acontecimento paralelo ao filme, contudo, acabou por ser uma das imagens de marca do mesmo: o actor Massimo Troisi, que havia adiado uma cirurgia ao coração para poder gravar o filme, morreu no dia seguinte ao encerramento das filmagens. A personagem de Massimo, morre também no filme, depois de, influenciado por Neruda, ser convidado a declamar poesia numa manifestação comunista, violentamente reprimida pela polícia. Partilho a cena que apaixona todos aqueles que têm oportunidade de ver o filme... Em italiano, sem legendas... Foi sempre assim que vi este filme...

 

 

São filmes diferentes, mas coloco este num patamar muito semelhante a "Cinema Paradiso"... São filmes que nos marcam para a vida e que nos constroem como seres-humanos.

 

Finalmente, a banda sonora. Apesar de nomeado para os óscares nas categorias de "Melhor Filme" e "Melhor Realizador", foi com a "Melhor Banda Sonora Dramática" que "Il Postino" arrecadou uma estaueta. A música é brilhante, composta por mais um compositor da época "spaghetti western", o argentino Luis Bacalov, falecido em Novembro deste ano...

 

Para mim, uma das mais bem conseguidas bandas sonoras de sempre e que me trazem à memória um pouco de Buenos Aires e sobretudo de Itália e daquelas duas ilhas onde o filme foi filmado: a inesquecível Salina, uma das ilhas Eólias que ainda hoje recordo e a ilha de Procida, na Baía de Nápoles. Recomendo uma das versões que mais gosto e que se encontra no albúm "In Cerca di Cibo" de Gianluigi Trovesi e Gianni Coscia... Um acordeão e um clarinete de sonho.

 

É impossível que o tema principal não nos marque, é uma pérola e que já deu origem a diferentes versões e a qual partilho convosco...

 

 

Bom fim-de-semana...

 

P.S: Ao contrário do que foi noticiado, o agente da GNR atropelado ontem no Pinhal Novo não estava numa operação STOP mas sim numa zona onde se realizavam obras de conservação da estrada. Passei numa direcção e ainda o vi a controlar o trânsito. Quando voltava, já vi o equipamento do mesmo espalhado pela estrada e o corpo deitado no chão... Ainda não estava sequer em posição de segurança, o que nos fez pensar se não seria boa ideia verificar o que se passava... Espero que esteja tudo bem com este agente, que minutos antes da minha segunda passagem ali estava a comandar o trânsito.

 

 

 

 

 

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Será que me Amaste?

por Robinson Kanes, em 26.10.17

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Fonte da Imagem: Própria.

 

 

O "meu" artista de rua não só tem inspirado a minha pessoa a escrever por aqui como a pensar nas coisas como elas são ou não são. Depois de me ter feito pensar em quem somos nós daqui a 365 dias, trouxe-me uma nova inquietação que até surgiu nesse mesmo artigo.

 

"Será que me amaste?" Quantos de nós já não colocamos essa questão? Aliás, será que já colocamos mesmo a questão a nós próprios, uma espécie de "será que te amei?". Oui, tout est simple. Ce sont les hommes qui compliquent les choses, talvez seja eu que esteja a complicar e a desafiar as palavras de Camus (Vide o ensaio "Entre o Sim e o Não"), mas será algo tão subjectivo também descomplicado...

 

No campo das relações amorosas quem é que nunca colocou essa questão? Quando as relações terminam equacionamos sempre se outrem nos amou e aí entramos naquela questão de que o amor até pode existir mas termina, não tem de ser eterno. Mas poucas vezes questionamos se nós amámos. Na verdade, o fim de uma relação, ou melhor, o choque do fim de uma relação pode ser aligeirado se reservarmos um momento de introspecção e equacionarmos que provavelmente nunca amámos. A revolta e o choque devem-se ao abalo num certo egoísmo da nossa parte porque foi o outro que colocou um ponto final na relação e não nós.

 

Podemos sempre dizer que não concebemos estar com alguém sem a amar, mas na realidade, quando experimentamos o "amor" ou aquilo que lhe quiserem chamar, começamos a perceber que provavelmente tudo não passou de uma mera paixoneta ou de uma pressão social ou até de um certo comodismo. Quantas vezes o "primeiro amor" é aquela coisa que... daqui a dois meses já não nos diz nada?

 

Actualmente, quando conhecemos alguém, a primeira coisa que queremos saber é o que faz e um outro sem número de pormenores que pouco têm a ver com... Amor. Mas o amor vem depois, dirão... Mas será que o amor está sujeito a critérios materiais ou de status? Não é o amor desprovido de tudo isso? Como é que podemos dizer que amámos quando esses critérios são tidos em conta? E sim, já disse que o amor pode ser algo químico, físico, completamente normal sem nenhuma aura especial, ou pode até não existir, mas... Mesmo assim, tal processo estar condicionado a factores externos tem algo de falacioso.

 

Será que ao convidar aquela executiva de topo, ou melhor... Será que ao convidar aquela administrativa que ambiciona ser executiva de topo para aquele jantar romântico num local fantástico (nunca percebi porque também têm sempre de ser caríssimos) e de repente dissermos que ao invés de sermos "Specialist in Account Management of Multiple Projects in Different Departments and Internal and External Procedures and Evaluation Standards" (em suma, vendedor), somos serventes ou trabalhamos numa empresa de limpezas (no terreno) vai resultar? Será que é um bom começo para começarmos a amar?

 

Recordo-me agora de um amigo, que já não está entre nós, que quando saía à noite para conhecer pessoas - quem quero eu enganar? Miúdas, conhecer miúdas - levava sempre o seu Seat Marbella com mais de 20 anos e deixava o automóvel topo de gama em casa. Dizia ele que assim filtrava as oportunistas e encontraria o amor.

 

Acabei por me debater em questões distintas, mas independentemente de tudo, as questões que não devemos evitar são de facto estas: Será que me amaste? Será que amei? Talvez a resposta seja simples, nós é que complicamos.

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

Já por aqui confessei que ninguém é perfeito e o meu gosto por música italiana é a prova cabal... Também já admiti que custa gostar da miríade de músicas que todos os dias são despejadas nas rádios e nos tops (confesso que já nem sigo), no entanto, vão existindo excepções...

 

Uma delas é a Giorgia (estranhamente pouco conhecida em Portugal), mas que canta com uma intensidade e uma entrega pouco comuns em cantoras mainstream. Não é apenas uma senhora bonita, é uma voz forte e perfeita que atrai a nossa atenção assim que a escutamos ao longe, ou numa viagem a Itália quando a ouvimos na rádio.

 

 

O último sucesso e que ecoa pela sua terra-natal é a música "Scelgo ancora te", uma música para nos fazer sonhar e claro... Amar... Amar enquanto percorremos Itália e ao nosso lado temos a companhia de quem nos faz pensar que no meio de tantos acontecimentos maus, a sorte do destino também nos dá autênticos bónus e numa probabilidade infíma de oportunidades, eis que... Haverá momento melhor que escutar esta música enquanto do outro lado, os olhos e o sorriso de outrem se perdem na imensidão do Tirreno? Talvez o título da música - "E mesmo assim te escolho" - seja sem dúvida um resumo do que poderia pensar nesses momentos.

 

A Giorgia... A Giorgia tem sido uma companhia não muito recente, mas que tem melhorado na voz ano após ano, desde que a ouvi pela primeira vez com "Ora Basta". Recomendo, sobretudo para ouvirem com quem gostam enquanto preparam um jantar romântico à segunda-feira, quando quase toda a gente se afoga num sentimento de "Blue Monday". Resulta, vão por mim... Iniciem esse momento com "Per Fare A Meno Di Te".

Pensar...  Cada vez mais um privilégio de poucos num relógio que teima em ter mais de 24 horas! "Pensar" é talvez algo que comece a fazer falta e nada melhor que um livro com o mesmo nome, o "Pensar" de Vergílio Ferreira que não é mais que uma colectânea de pequenos e grandes pensamentos que, de tão actuais que são, levam-nos a pensar que as inquietações só mudaram de nome... Um livro que não é para ser lido de uma vez, posto que os 676 pensamentos devem ser efectivamente pensados e digeridos. É um bom desafio, ler um ou dois por dia... Destaco apenas três, que de um certo modo chamaram a minha atenção:

 

IMG_20171020_102834.jpg91 Este é o tempo do insólito, do vigário, do capricho, da mentira, da falsificação, do cheque sem cobertura, da banha-da-cobra. Não temos um estalão para nada (...) Hoje tudo é possível porque nada é possível. Hoje a verdade não se demora até ser mentira mas uma e outra se convertem mutuamente e são ambas válidas na sua mútua referência , sendo a mentira a verdade e ao contrário. Hoje é o tempo dos aventureiros, do medíocre, do sagaz da esperteza, que é a inteligência da astúcia. Hoje é o tempo do curandeiro, do endireita, do bruxo, do vidente,do profeta, do prestidigitador. Hoje é o tempo de se ser estúpido porque o inteligente não há razão para não ser mais estúpido do que ele. Hoje é o tempo de todos os caminhos estarem desimpedidos porque não é possível um sistema alfandegário. Hoje é o tempo de todos os contrabandos porque não há razão para um sistema fiscal. Hoje é o tempo da noite para todos os gatos terem a mesma identidade. Hoje é o tempo de tudo ser o tempo de. Hoje é o tempo de tudo, portanto de nada. Hoje é o tempo de se não ser. Levanta em ti, se puderes, o que te resta de homem, para seres alguma coisa.

-//-

381 Fala baixo. Não te esfalfes a falar alto. Deixa que os outros se esfalfem até ficarem calados. Falar alto é compensar o que em ideias é baixo. E essa é a compensação dos que escutam. Não te esforçes a falar alto. Serás ouvido quando os outros se esfalfarem e já não tiverem voz. Como o que se ouve num recinto depois que o comício acabou.

-//-

466 Rápidos correm os dias, os anos. Não deixes. Nem isso é verdade. Vive intensamente cada dia, cada hora, repara no seu escoar e verás como são lentos. É por isso que quando guardamos um "minuto de silêncio" pela morte de alguém, aquilo nunca mais acaba...

 

 

 

 

Pensar, sobretudo depois de mais uma semana trágica, é algo que se impõe... Talvez neste momento vagueie naquele rosto que contempla o Tirreno e por aí me fique, será isso que me traz força energia para digerir muito do que vou vendo...

 

Bom fim-de-semana...

 

P.S: Esta semana não poderia deixar de agradecer à Maria Araújo, à C.S., à Mami e a todos os outros que no seu espaço correram o risco de perder todos os leitores ao mencionarem este espaço. Agradeço-vos muito, a vocês e a todos os outros que já o fizeram, a Maria por exemplo, é outro caso... Espero não me estar a esquecer de ninguém, mas mesmo que me esqueça é com uma profunda alegria que vos acolho aqui (mesmo aqueles que por aqui passarem com opinião diferente). São vocês a força motriz deste espaço e isso... Bem, isso vale mais que qualquer comunicação... Vale mais que qualquer favor ou qualquer "empurrão"...  Obrigado por existirem e por fazerem com que este espaço ainda exista, são vocês os grandes pilares.

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E Quem Serás Tu?

por Robinson Kanes, em 19.10.17

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Fonte da Imagem: Própria. 

 

Esta é a pergunta que te coloco! Esta talvez seja a pergunta que me prende na esperança de mais 365 dias de vida contigo. Também é o dilema que me atormenta se, daqui a 365 dias, ainda sentirei a tua presença pela casa, pelo carro e até nos meus pensamentos... Nesses malditos pensamentos onde entraste e eliminaste toda e qualquer memória, onde foste rainha e ninguém escapou à tirania da tua sedução...

 

Mas o amor não dura para sempre... O amor, esse maldito subterfúgio da sociedade para nos tornar mais moles ou para colocar em nós algo surreal que, no fundo, não passa de uma característica física que, não tendo forma, passaria despercebida e desse modo perderia todo o nosso interesse. Vergílio Ferreira, no seu "Conta-Corrente", debruçava-se sobre o facto de "se não há amor como o primeiro, porque é que ele não é o último?". Será pois o amor algo que morre com a primeira decepção, com o primeiro fim... Com a primeira separação. Talvez só amemos por momentos e nunca mais voltaremos a amar, talvez a nossa capacidade de memória seja absorvida nesse primeiro amor, no entanto, a natureza é mais forte e faz-nos deixá-lo... 

 

Encontro-me contigo quando dizes que "as pessoas não foram feitas para estarem juntas toda a vida" e tento, apesar da minha frieza, destruir o teu argumento, mesmo que equacione se é mesmo nisso que acredito. Recorro à premissa de que existem casais que vivem juntos para sempre mas... Escamoteando a realidade, ou percebemos que foi a habituação,  ou a pressão dos pares, a pressão da estabilidade e até uma educação ainda alicerçada em muitos ditames religiosos que até o mais profundo ateu absorve. 

 

Será que me amas? Será que para ti não existiu amor como o primeiro e agora vives rendida à vida até que a morte te retire deste marasmo em que o amor já não existe? Questiono-me sempre pensando em quem serás tu daqui a 365 dias... Se serás mais uma experiência do amor, se uma experiência da crua realidade que insistes em inscrever na tua bandeira de que um homem e uma mulher jamais se amarão para sempre. Talvez projecte os meus pensamentos em ti, ou talvez os mesmos se encontrem e só reconheçam, efectivamente, que o amor eterno é uma obra literária para quem não consegue aceitar as relações humanas como elas são.

 

Talvez sejas a face de uma desilusão que por intermédio de mim não desfez a utopia em que ainda acreditava... Quem serás tu daqui a 365 dias ou o que será o amor daqui a 365 dias? Será que já amámos por 365 dias?

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