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O Tejo, Esmond Bradley Martin e a Cidade do Cabo...

por Robinson Kanes, em 06.02.18

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Fonte da Imagem: https://www.thetimes.co.uk/article/ivory-trade-investigator-esmond-bradley-martin-murdered-in-kenya-k65bltr0r

 

 

Hoje este espaço está de luto... Está de luto porque existe um rio chamado Tejo mas ninguém quer saber... Pelo menos até secar. Quando isso acontecer lá vamos ter os do costume a posar para a fotografia e a dizerem-se muito preocupados com os portugueses, com o discurso do "tudo está a ser feito"! Enquanto assim não for, vamos continuar calados, mesmo que passemos a vida a falar de tudo e de nada quais cataventos que seleccionam as brisas e se escondem de outras que podem retirar votos e "amizades" com interesses óbvios. É mais fácil andar sempre perto dos sem-abrigo, mesmo que sejam só um ou dois, passando a ideia de que em Portugal são aos milhões, do que propriamente falar e agir contra a poluição no Tejo... Não é Sr. Presidente?

 

Mas o "Não É Que Não Houvesse" também está de luto porque foi encontrado esfaqueado, na sua casa de Nairobi, o activista/conservacionista, Esmond Bradley Martin, um dos maiores nomes quando se fala em combate ao tráfico de marfim! Em Portugal, em alguns meios, também acredito que foi uma morte aplaudida.  

 

É a este homem que devemos algum conhecimento acerca das rotas de tráfico de marfim e a protecção em larga escala de elefantes e rinocerontes! A notícia, encontrei-a na National Geographic e na Time e partilho convosco os links. Dou também os parabéns ao SAPO por ter partilhado também esta notícia e ter dado a conhecer a morte deste senhor nos canais de comunicação nacionais - parabéns.

 

Além da chacina destes mamíferos, o tráfico de marfim alimenta dezenas de guerras civis em África, Médio-Oriente e no Sudoeste Asiático, sem esquecer redes terroristas que encontram neste comércio uma forma de financiar os seus ataques e propaganda. Bradley Martin foi ainda responsável pelo facto de muitos países proibirem este comércio e lançarem verdadeiras intervenções no terreno contra esta prática... A juntar a tudo isto, Bradley Martin foi só mais um a ser assassinado, pois estas redes não olham a meios e todos os anos morrem milhares de heróis desconhecidos nesta verdadeira guerra, desde investigadores a guardas dos parques nacionais! 

 

Finalmente, o luto fecha-se com o drama que vive a cidade do Cabo e o primeiro grande alerta em termos de escassez de água em grandes metrópoles! Antes de desenvolver o assunto, sugiro este artigo brilhante publicado no "The Guardian" e que é da autoria de Anne Van Loon, professora e investigadora em "Ciências da Água" na Universidade de Birmingham. É um artigo a propósito desta temática e das consequências que poderá ter para o nosso futuro! Tive oportunidade também, de ler uma notícia no "New York Times" e cuja preocupação passava pelos turistas, nomeadamente, como estes podiam ser afectados! "Que se danem os habitantes, cuidado é com as viagens para o Cabo".

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Fonte da imagem: Associated Press - Bram Janssen 

 

Neste momento, as restrições e as campanhas estão a dar resultados e o "dia zero" está neste momento em 11 de Maio, ou seja, o dia em que a água vai mesmo faltar. Mais interessante ainda, é o facto de muita desta água ter sido utilizada na agricultura, mas também em usos mais luxuosos, como em piscinas, lavagem de automóveis e outros comportamentos que deixam muito a desejar... Não culpem os pobres, a maioria dos habitantes da cidade, pelo desperdício, pois muitos destes abastecem-se em fontes públicas e o consumo não é assim tão elevado. Segundo fontes da Associated Press, os mais pobres consomem apenas 4% a 5% da água!

 

Hoje estamos de luto também porque estes temas não enchem de revolta as redes sociais e a ruas que andam mais preocupadas com programas de televisão, mini-saias, peripécias de clubes de futebol e com o aniversário do Cristiano Ronaldo.

 

 

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Peter Paul Rubens - Guerra nos Céus/Pormenor (Alte  Pinakothek)

Fonte da Imagem: Própria

 

Os lugares mais sombrios do inferno são reservados àqueles que se mantêm neutros em tempos de crise moral.

Dante Alghieri in “A Divina Comédia” (Inferno)

 

Um dos traços que marca a postura de Trump é louvável: cumpre o que promete! Trump prometeu tomar uma atítude em relação ao "Acordo de Paris" e fê-lo! Mas Trump não o fez sozinho. Trump penas deu azo ao cumprimento de uma promessa eleitoral. Os americanos, e Trump é só mais um, votaram a saída do Acordo de Paris.

 

Não vou perder o meu tempo com análises políticas e geo-estratégicas, teremos quem o faça, mesmo sem dominar o tema. Também espero que percebam que muito desta política se deve à perda de hegemonia por parte dos Estados Unidos no cenário internacional, num cenário internacional onde o peso do petróleo é cada vez menor. Não é por acaso que a Europa se vira para a China e para a Rússia com olhar atento...

 

No entanto, aqui no bairro, aqui no bairro não vivemos de comentadores nem de discursos vazios... Aqui no bairro olhamos uns para os outros e juntamos mais uma preocupação ao nosso quotidiano e ao futuro de todos nós... Ou talvez não... Ou talvez estejamos mais preocupados com quem quer comprar casa em Lisboa e quem é que está à espera de um filho, em quem é que disse um sem número de trapalhadas nas redes sociais... Porque aqui no bairro, aqui no bairro até nos ensinaram algumas coisas, mas nem sempre nos permitiram pensar. E os que pensaram... Os que pensaram nem ouvimos falar deles.

 

Aqui no bairro olhamos para Manila, muitos de nós nem sabe onde fica... Amanhã estará esquecido, como já está esquecido que as Filipinas há muito que são um barril de pólvora no sudoeste asiático. Aqui no bairro olhamos para as alterações climáticas como um problema dos Estados Unidos. Ou talvez não... Talvez sintamos o sofrimento de quem morre lá ao longe bem perto de nós... Porque aqui no bairro muitos fugiram da guerra.

 

Ou então, no bairro, o nosso nível de inteligência é tal que perdemos a esperança na cidadania e em mudar o mundo. E é nesse momento... Nesse momento, aqui no bairro, que percebemos que a Democracia é a forma mais perfeita de Ditadura.

 

Tinha planeado um artigo bem mais simpático, mas no bairro... No bairro também nada é previsível.

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