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Edvard Munch - "Entardecer" (Museu Nacional-Thyssen Bornemisza)

Imagem: Própria

 

É cultural... 

 

Quando queremos desculpar comportamentos estúpidos e para o qual não temos uma justificação que possa validar tal irresponsabilidade, lá nos socorremos do "é cultural".

 

Um desses comportamentos é aquilo a que se pode chamar o "quarto do hora académico", vulgo atraso irresponsável e falta de respeito pelos outros. Em Portugal, e mesmo por outras paragens, o chegar atrasado ou até falhar a um compromisso é algo visto como perfeitamente normal. Tão normal, que até se incute em programas de televisão, jornais e rádios como uma coisa boa - chegar atrasado é ser cool, é ser yeah, é ser... estúpido.

 

Temos de descontar os atrasos que, obviamente, são forçados e não são a regra mas sim a excepção, aliás, quem nunca se atrasou que atire a primeira pedra - é melhor não dizer isto porque até conheço alguns indivíduos que...

 

No entanto, cada vez que nos atrasamos estamos a prejudicar alguém ou até mesmo um processo. Quando nos atrasamos para uma reunião ou para um encontro profissional estamos a destruir a agenda daqueles com quem combinámos uma hora e a promover também o atraso destes noutros compromissos - ou seja, uma bola de neve. Além de que, quando nos atrasamos, também em âmbito profissional, estamos a fazer com que outrem não possa sair a horas para estar junto da família ou em outras actividades porque tem de fazer o trabalho que não pôde fazer enquanto estava à nossa espera e também, enquanto esteve connosco. Afectamos o bem-estar e a produtividade daquele com quem irresponsavelmente interagimos! Mas na verdade, quem é que quer saber disso, sobretudo quando é B2C (business to client)?

 

Quando nos atrasamos, temos de ter em conta que do outro lado está uma pessoa que tem uma agenda, pessoal e profissional, e que também tem de trabalhar e viver - por cá, tendemos a esquecer isso, sobretudo quando não temos nada que fazer e passamos o dia na praia, mas depois forçamos o desgraçado deste ou daquele estabelecimento a esperar por nós às nove da noite para, por exemplo, visitarmos um espaço ou fazermos uma reunião. Esquecemo-nos que, enquanto estivemos na praia e nos levantámos às onze da manhã, alguém já estava fora da cama às cinco e no dia seguinte repete a rotina.

 

A desculpabilização deste tipo de atítudes não pode ser uma prática, sobretudo quando quem as pratica fica muito revoltado, ou porque é chamado à atenção, ou porque, e passo a expressão, "bate com o nariz na porta". A revolta é tal que se fica com a ideia de que o grande crime é cometido por aquele que esperou horas a fio e se fartou de tanto esperar ou até porque teve outros compromissos.

 

Temos ainda os atrasados (mentais) que enviam mensagens ou telefonam a dizer que em cinco minutos estão a chegar. Por norma, quando um português diz que chega em cinco minutos, o ideal é fazermos uns bons quilómetros para ir tomar um café, ler o jornal e voltar... Com um pouco de sorte ainda o apanhamos a chegar.

 

Recordo-me que em tempos, no primeiro dia em que cheguei para dar aulas a alunos do ensino superior, o director do curso me disse que tinha de ter em conta o "quarto de hora académico" seguido daquele "eh eh eh, sabe como é". Lembro-me também de ter feito uma expressão pouco simpática e ter respondido que, um dia, quando os alunos tiverem compromissos profissionais, não iriam existir quartos de hora académicos e de que além disso era uma tremenda injustiça para com aqueles que cumpriam e chegavam a horas, pelo que, nas aulas do Robinson, a repetição desse comportamento não seria tolerada. Não obtive resposta e fiquei a pensar que tinha carimbado o passaporte para não voltar a dar aulas naquela instituição.

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Uma Cidade Portuária: Honfleur...

por Robinson Kanes, em 17.08.18

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Imagens: Próprias e GC

 

A minha paixão por cidades portuárias é mais que evidente... Durante toda a minha infância e adolescência (e ... idade adulta) o mar foi uma presença. Tendo uma parte da família ligada ao mar é natural que os genes cá estejam a desempenhar o seu papel.

 

Honfleur, embora não sendo um colosso, é aquela cidade onde o Sena encontra o Canal da Mancha e, segundo alguns (ou seja, eu), esse rio perde todo aquele romantismo, que alguns (ou seja, eu), não lhe reconhecem. Gosto, apesar de tudo, de Honfleur... Uma cidade pacata do Departamento de Calvados, em plena Normandia. Cidade tranquila, com uma pequena baía onde encontramos algumas embarcações de lazer que contrastam com aquelas que laboram e procuram as riquezas marinhas do Canal da Mancha. Ainda continuo a preferir que fosse ao contrário, mas o turismo, as cidades e o próprio funcionalismo a essa mudança obrigam.

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Gosto, sobretudo, do interior da cidade... Estar em Honfleur e não usufruir dos bares e restaurantes junto aos veleiros não é ir a Honfleur - essa área tem o nome de "Vieux Bassin". Todavia, e conhecendo relativamente bem (para um visitante) a Normandia, nunca tinha estado em Honfleur. Gosto dos cafés dentro da cidade, sobretudo, das ruas calmas, de uma forma diferente de estar numa cidade portuária que acabar por ser invadida por turistas ou não fosse uma das primeiras atracções turísticas para quem atravessa o Canal da Mancha vindo de Inglaterra ou até entrado pelo norte de França.

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Cidade comercial ao logo da História e uma das mais disputadas durante a Guerra dos Cem Anos (mais uma vez a proximidade com a vizinha Inglaterra), agrada-me também por ser a cidade onde nasceu Erik Satie - quem sabe, algumas das suas "Gymnopédies", não terão tido alguma inspiração por estas bandas... Não creio, todavia fica essa nota que reforça uma necessidade de visitar esta cidade. Com uma história ligada ao Impressionismo, é também uma cidade onde as artes plásticas têm o seu lugar, destaco apenas o "Museu Eugène Boudin" que alberga pinturas do artista e inclusive de Monet.

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Uma das grandes atracções, contudo, é a "Igreja de Santa Catarina"! Totalmente de madeira, muito por culpa da tradição naval, é deveras um encanto para quem gosta de arquitectura! Uma igreja de madeira, com o cheiro intenso da madeira velha e toda aquela austeridade particular, é uma supresa daquelas que marca!

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Cansados do cheiro da madeira e de tão grande riqueza, nada como parar na boutique de café junto ao restaurante "Entre Terre & Mer". Sendo os mesmos proprietários, tenho a agradecer a simpatia das duas colaboradoras que, servindo apenas dois cafés, nos trataram como se tivessemos jantar lavagante ou outras iguarias daquele mar ali tão perto - sem publicidade porque paguei os respectivos dois euros por cada um.

 

Finalmente, e falar deste aspecto num país com tão belas pontes como Portugal não é propriamente fascinante, todavia, nada como aproveitar as vistas (caras) da "Ponte de Normandie" para o Estuário do Sena ou até do mesmo rio ainda confinado num espaço mais curto pela "Ponte de Tancarville" - vindos do lado de Le Havre, não há como fugir.

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Encontrei Philippe Noiret...

por Robinson Kanes, em 08.08.18

 

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 Fonte: Própria

 

Já muitas vezes falei de um dos meus actores preferidos - é ele Philippe Noiret. Abordei este grande actor aquando do meu artigo sobre "Il Postino" e também aquando do artigo sobre "Cinema Paradiso". Todavia, este actor mereceria tantos outros destaques, nomeadamente com um dos filmes que lhe deu mais prémios, falo de "La Vie en Rien d'Autre", datado de 1989 e obra do realizador Bertrand Tavernier. Já em 1984 havia, também com a presença de Noiret, realizado "Coup de Torchon".

 

Mas o que hoje me faz recordar Noiret é ter descoberto o mesmo em Montparnase, mais precisamento no cemitério onde está sepultado e onde, apesar das minhas pesquisas, nunca encontrei menção à sua presença. Se Sartre e Beavouir, ou até Beckett e Duras já estavam na minha lista, ter encontrado Noiret por mero acaso enquanto vagueava entre campas foi uma grande surpresa (até porque nem está nos destaques que o cemitério tem para personalidades reconhecidas), uma surpresa boa nesta visita ao cemitério de Paris que me faltava.

 

De facto, sabendo que ali está apenas terra, foi como se tivesse encontrado o velho Alfredo com aquele sorriso tão próximo, tão franco e tão puro. Sim, estava ali Alfredo, estava ali Philippe Noiret que me encheu ainda mais de alegria quando me pude aperceber da sua paixão por cães e por cavalos - desconhecia a primeira. Simples como as personagens de Noiret, devo dizer que foi um dos pontos altos em mais um regresso a Paris.

 

Enquanto procurava o grande mestre Becket, encontrei Noiret... A minha tristeza? Não me poder ter sentado entre os dois e ter falado um pouco de dramaturgia, literatura e cinema... Acredito que entre mortos, saíria mais vivo e mais rico que nunca.

 

 

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Marcelo, Il Capo!

por Robinson Kanes, em 06.08.18

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Créditos: https://www.dn.pt/media/interior/marcelo-a-consolar-obras-de-arte-a-nova-faceta-do-presidente-pop-9135039.html

 

 

O que me traz aqui é o último comentário de Marcelo acerca dos partidos políticos e de como estes devem ser uma família da qual não se deve abdicar e muito menos trocar. Quem diz os partidos diz a família Espírito Santo ou não fosse Marcelo o defensor do lema de que mais importante que ser rico é dar-se bem com gente rica. Eu admito que este é um discurso de partido único (que Marcelo tão bem conhece) ou então de organização criminosa, algo aproximado a uma máfia.

 

Para Marcelo, trocar de partido não é opção, mesmo que se embarque por um sem número de comportamentos e tomadas de posição que sejam contra toda e qualquer ética ou valores defendidos por quem se vê confrontado com essas mesmas situações. Resta-me perguntar a Marcelo porque é que não continuou como adepto e usufruidor (ele e tantos outros que agora deambulam pela nossa praça, alguns até de esquerda) de um regime fascista? Porque é que trocou de família e escolheu uma mais adequada aos tempos de mudança? Porque é que Marcelo na sua versão democrática também virou costas ao partido de que faz parte e do qual foi presidente (um presidente para esquecer), pelo menos temporariamente? O PSD saíra dos tempos da Troika e a proximidade com essa família poderia não ter trazido tantos votos, falar no PSD durante a campanha para as presidenciais foi algo do qual Marcelo fugiu a sete pés e até fez questão de se distanciar na sua pseudo-independência. Marcelo é uma espécie de Ricardo Robles mas em versão exagerada, um homem com muitas famílias e só assim pode explicar a constante pululação entre umas e outras.

 

Marcelo, e não me canso de reforçar este ponto, também é português e irmão dessa família que são os portugueses, todavia, onde andava Marcelo quando minava as sombras do poder com o discurso de que tudo quanto fosse homem deveria estar a defender as colónias (chamando nomes até àqueles que não o faziam) e quando chegou a sua vez lá meteu a real cunha para não pegar numa arma e muito menos pisar um terreno de combate- interessante comportamento para quem hoje é o chefe supremo de outra família, as forças armadas.

 

Finalmente, e com a outra família que é a comunicação social (aquela a quem é mais fiel), foi o facto de termos ouvido Marcelo dizer que não reservou hotéis em nome próprio nesta sua deslocação para "férias" ao interior do país para não ser perseguido pelos presidentes de câmara, essa família de gente aborrecida que uma vezes dá jeito, outras nem por isso... Afinal Marcelo está de "férias" e não quer ouvir que conhece a terra e como faz com Cristiano Ronaldo, exalta este quando lhe importa, e varre para um canto quando já não importa... Mas a família da qual Marcelo não abdica é a comunicação social e aí é importante ligar a tudo e a todos para que acompanhem cada minuto de umas "férias solitárias e isoladas do mundo", mesmo que até se procure o pódio de uma corrida velocipédica para mais uns minutos de fama ou então queira assumir o lugar de porta-voz do Ministério da Administração Interna ou até da própria Protecção Civil.

 

Mas, na verdade, Marcelo nunca poderá ser um "capo" - para o mal ou para o bem, um "capo" não dispõe e se vê livre da família como lhe dá jeito. Para o mal ou para bem, até numa organização mafiosa, o "capo" é fiel aos seus valores... Um verdadeiro "capo" faz, não espera por canais mediáticos a encherem páginas e imagens com  temas sem interesse ocultando a verdadeira inércia...   

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Amor em Tempos de Cólera...

por Robinson Kanes, em 03.08.18

Roubei o título ao grande Gabriel García Marquez... Todavia, com a cólera que grassa neste pequeno planeta que já começa a contratar um cobrador do fraque para saldar a dívida, ainda vai existindo tempo para se amar e apreciar o que é realmente importante .. L'amour...

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 Fonte da Imagem: Própria.

 

E como o amor não se explica, deixo-me envolver por um poema que poderia estar escrito naquele livro e ilustrar aquela cena na "Place des Vosges".

 

Só de espelhos o crânio mobilado

Um corpo de mulher posto no centro

Outro jogo de espelhos lá por dentro

O meu crânio no centro colocado

 

E cada  corpo o crânio projectado

E em nenhum me detendo em todos entro

se de encontro aos espelhos me concentro

se do crânio me encontro descentrado

 

Os espelhos reflectem só o fogo

do sol que desses corpos anda ausente

porque só no meu crânio tem morada

 

E é sem dúvida Amor todo este jogo

É sem dúvida Amor Mas de repente

é sem dúvida Amor e não é nada

 

Mourão-Ferreira, David (1998). "É Sem Dúvida Amor", Antologia Poética, Lisboa, Editorial Presença.

 

Bom fim de semana...

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Trepanação Colectivamente Assistida!

por Robinson Kanes, em 02.08.18

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Fonte da Imagem:  A minha GC

 

 

- E tu Robinson, porque te ausentaste? Bem, caro Platão, estive a acompanhar o "Tour de France"...

-Brilhante Robinson!

Platão, in "República"

 

 

 

Como as coisas andam por este mundo... Andamos preocupados com as "gajas boas" no futebol mas não queremos saber da corrupção que grassa na modalidade e a origem, nem sempre bem esclarecida, dos montantes que envolvem a modalidade ao mais alto nível. De facto é brilhante! Tiramos as "gajas boas", mas não nos tirem a bola, mesmo que o nosso clube e aqueles que o gerem sejam autênticos criminosos que gozam de todo o tipo de impunidade. 

 

A prioridade actual é que não se mostrem as mamas da criminosa! Isso é que não! Mas a senhora em causa matou dois indivíduos e roubou 2 milhões de euros! E? Desde que não lhe mostrem as mamas, mesmo que ocultadas por uma camisa, está tudo bem, o resto não é importante. 

 

Também ouvi dizer que um certo Robles anda por aí numas negociatas imobiliárias! É legítimo, não cometeu nenhuma ilegalidade! No entanto, esse Robles não é aquele que criticava tanto Medina em termos de política imobiliária em Lisboa e depois se vendeu por um cargo de vereador? Sendo esse, é mais um como o Zé que era independente, depois passou para o Bloco de Esquerda e depois de se ter vendido a António Costa passou a chamar-se Engenheiro José Sá Fernandes e nunca ninguém mais ouviu falar dele, embora continue como vereador na mais importante autarquia do país. Mas o que não é legítimo, é Robles cair nessa tentação portuguesa que se chama a hipocrisia, sobretudo quando envolve dinheiro. E o silêncio do Bloco? Eu bem digo, desde a criação da geringonça que foi mais um "partido" que deixou de se ouvir e tem vindo a cair em algumas armadilhas bem peculiares...

 

Por França, as coisas não estão diferentes. Como também é época de férias, toda uma esquerda unida, alicerçada na ausência de notícias típica da "silly season" tem tentado derrubar Emmanuel Macron a propósito do caso Benalla. Pelo pouco que acompanhei, é uma verdadeira tentativa de derrubar um presidente num caso que não justifica tamanho ódio... E é esta a palavra. Também por França se anda a dar mais importância aos media... Ou então a ausência de jornalistas que encontrem notícias nesta época é uma realidade.

 

Também as questões climáticas continuam a ser uma brincadeira e uma fantochada... A plebe quer é calor, e quem vive do calor quer é dinheiro, mesmo que não sirva de muito quando a Natureza der o golpe final. Vamos para a praia e continuemos a não exigir nada (a nível global) aos governantes deste mundo. 

 

E porque se fala de ambiente e clima, porque é que parece não existirem mais instituições/associações ambientalistas além daquelas onde está sempre infiltrado o senhor Francisco Ferreira? Antes era "Quercus", mas como ficou zangado por ter perdido o poder que julgava vitalício, criou a "Zero" que agora merece todo o destaque mesmo que seja uma instituição sem provas dadas, sobretudo face a outras.

 

Finalmente... Portugal, Grécia, Estados Unidos e outras localizações com menos destaque, são a prova de que os incêndios estão cada vez mais fora de controlo! Entretanto, como me deparei com uma ignição aqui perto de casa, telefonei para a Glassdrive que me substituiu imediatamente os vidros da casa por uns anti-incêndio. Pelo menos foram mais rápidos que a Protecção Civil.

 

 

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 Fonte da Imagem: Bruce Beattie - Daytona Beach News Journal

 

O tema não é novo, mas repete-se... E como se repete continua tão actual como aquando da primeira polémica espoletada acerca do mesmo.

 

Sempre que estamos perante um atentado terrorista assistimos à divulgação de imagens (quantas vezes não são as mesmas repetidas atá à exaustão) de pessoas feridas, mortas, em pânico, completamente aterrorizadas e, em alguns casos, até à divulgação do próprio atentado a ter lugar (Charlie Hebdo foi um dos melhores exemplos). Se a sede de vendas aqui ainda encontra uma "descupabilização", o que dizer quando os perpetradores do terror fazem um balanço do ataque e promovem a causa?

 

Pretendo com isto dizer, e em Barcelona a cena repetiu-se, que um dos grandes cúmplices do terrorismo - porque espalhar o medo é terrorismo, não é só pressionar um gatilho - poderão ser os media. O alegado vídeo do Daesh a reinvindicar o ataque foi repetido mil e uma vezes por esse mundo fora e Portugal não foi excepção. Será que não basta "uma" notícia a informar que o Daesh (ou outro movimento) reinvindicou o ataque e voltou a ameaçar? E será que estes vídeos são muitas vezes confirmados, sobretudo do ponto de vista da origem? Não me é de todo difícil colocar um vídeo igual a muitos outros do Daesh a circular na internet.

 

É aqui que também pretendo chegar... Ainda me recordo de ver os vídeos da ETA, do Hezbollah, do IRA e de outros tantos movimentos, onde o foco do mesmo passava por indivíduos que difundiam uma mensagem; mas hoje os videos são mais elaborados e coloridos com imagens que são retiradas dos próprios media. Não só estamos a alimentar a propaganda com conteúdos mas também a divulgar a mesma. Se eu sair à rua com uma suástica no braço arriscarei, por certo, algumas consequências menos boas, contudo, divulgar o ódio e o terror continua a ser um crime que passa impune sob a capa da liberdade de informação - seja de forma propositada ou negligente. 

 

Finalmente, uma nota para o actual Presidente da República Portuguesa e que me ficou retida aquando dos atentados de Barcelona: dizer que nunca morreu tanta gente, nem existiram tantos atentados terroristas como hoje, sobretudo na Europa, revela um desconhecimento da História, sobretudo a mais recente.

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 Fonte da Imagem: AP Photo/Uttam Saikia

 

 

A fatalidade faz-nos invisíveis.

Gabriel García Márquez, in "Crónica de uma Morte Anunciada"

 

Enquanto o foco da atenção mundial se concentra nas cheias de Houston (nada contra) e nos 20 anos da morte de uma Princesa, parece que existe algo que anda a passar ao lado da actualidade. De facto, é do conhecimento público que só nos lembramos da Ásia quando falamos de viagens ou quando queremos imitar as pseudo-celebridades em destinos exóticos, todavia, rapidamente nos esquecemos do que é viver longe de um resort 365 dias por ano nessas regiões. Há períodos próprios para sermos apaixonadamente étnicos.

 

As monções sazonais já provocaram cerca de 1200 mortos e estão a afectar cerca de 50 milhões de pessoas na Índia, Nepal Paquistão e Bangladesh. Mortes provocadas por deslizamentos de terras, picadas de cobra - é verdade, morre-se de picadas de cobra - desmoronamentos de edifícios e afogamentos são as principais causas. Na Índia, nem o Parque Natural Kaziranga escapou, contando-se até ao momento cerca de 250 animais mortos entre rinocerontes, veados e um tigre de bengala - a primeira foto fala por si!

 

Todavia, no nosso pequeno mundo, andamos preocupados com séries televisivas, com princesas defuntas e opiniões de humoristas com carácter vinculativo. "Menos mal" que dos Estados Unidos sempre nos cheguem notícias do Texas, mas até algumas delas servem para bater em Donald Trump e na Primeira-Dama, ou até para nos assustarem com o preço da gasolina. O Texas pode desaparecer do mapa, a gasolina é que não pode aumentar. Alguém ontem falava do "jornalixo", não andará longe, pelo menos em muitas redacções... 

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Fonte da Imagem: AP Photo/Manish Paudel

 

Pior que as mais recentes actualizações, serão também aquelas que nunca saberemos pelos media que actualizam cada passe de um defesa da selecção nacional, mas não actualizarão o número de vítimas quando as águas descerem e as lamas forem removidas... A realidade, é que a época das monções acontece todos os anos... E todos os anos morrem milhares de pessoas naquela região, mas todos os anos são mais importantes a "época de transferências" e as contratações do Real Cascalheiro de Frielas ou do Solteiros e Casados de Muge do que um sem número de seres-humanos, fauna e flora... Mas também não será de admirar, no que depender dos cidadãos, uma tragédia bem "menor" que matou mais de seis dezenas de pessoas e feriu ainda mais de duas centenas vai passar impune...

 

A globalização pode ser uma realidade, mas existem países cujas cabeças dos cidadãos, instituições e media insistem no provincianismo bacoco que nem Verney e os seus pares conseguiram vencer. Antes de falarmos de isolacionismo na Coreia do Norte, seria prudente pensarmos em nós...

 

Finalmente, confesso que, depois de pensar que após a primeira foto já nada me espantaria, a segunda imagem fez-me engolir em seco ao ver o sorriso destes homens e destes jovens - quando por cá choramos simplesmente porque não encontramos aquele par de sapatos que tanto queremos, ou porque amanhã não estão 35º mas estão 30º, ou simplesmente porque a isso chamamos stress e entramos em depressão porque ainda não fizemos as malas para a próxima viagem e caos maior, até estamos de férias. Faz-me questionar onde estará a pobreza, se em Mumbai ou se em Lisboa, Porto ou outra qualquer cidade portuguesa.

 

Hoje esperava publicar um texto e sugestões literárias e musicais (ficará para segunda-feira), mas efectivamente não posso ficar indiferente a tantas palas (voluntárias?) nos olhos...

 

Bom fim-de-semana...

 

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Fonte das Imagens: Própria. 

 

Desde a passagem pela Cordoama que esta temática andava adormecida, pelo que, nada como 15km a caminhar ou a pedalar até ao Cabo de São Vicente (desde a Cordoama), sem esquecer a praia da Ponta Ruiva. Também é possível seguir por estrada, via Vila do Bispo (EM1265 e EN268).

 

O Cabo de São Vicente, além de uma viagem ao nosso passado de navegadores e conquistadores, é também o local onde podemos apreciar um dos melhores crepúsculos da Europa ou despedirmo-nos do farol guardião em direcção ao atlântico profundo. Em tempos, no século IV, foi também um local de peregrinação dos cristãos que visitavam aqui o túmulo de São Vicente (até ser destruído pelos muçulmanos no século XII), daí o nome Cabo de São Vicente. Aliás, S. Vicente e a sua lenda terão grande impacte também na história de Lisboa e justificam o porquê dos Corvos no brasão da cidade, mas isso será outra matéria.

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Convido a que nos abriguemos na fortaleza, não a original mandada erguer por D. João III e terminada por D. Sebastião, mas sim naquela de planta poligonal que foi erguida por D. Filipe III de Espanha, após a anterior ter sido arrasada pelo célebre Francis Drake, um dos mais famosos corsários ingleses que espalhou o terror também no Algarve. Com poucos turistas ao fim do dia, é algo único, sobretudo para aqueles que já trazem o cansaço e o encanto de um passeio pela Costa Vicentina ou pelo Barlavento Algarvio.

 

Uma das atracções deste local, além do sem número de visitantes que aqui acorre em épocas mais turísticas, é sem dúvida a presença de várias aves. Destaco algumas, nomeadamente a Cagarra (calonectris diomedea), o Ganso-Patola (Morus Bassanus) que infelizmente ainda não consegui apreciar,  e a minha paixão, nomeadamente algumas aves de rapina como o Bútio-Vespeiro (pernis apivorus), a Águia-Calçada (aquila pennata), a Águia Cobreira (circaetus gallicus) e os Grifos (gyps fulvus). Devido a número de pessoas que por ali deambulam, nem sempre é fácil observar estes reis dos céus pelo que é necessária alguma cautela a quem ousar procurar locais mais recônditos e potencialmente mais perigosos.

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Mas não é só no Cabo de São Vicente que podemos ter um óptimo final de tarde. Nada como continuar a caminhar e seguir em direcção à Praia do Beliche (ou Belixe) e apreciar daí também o espectáculo crepuscular e com os pés na água, na areia ou então abrigados na sua gruta que atrai imensos visitantes. Em época baixa, ou já com a noite a aproximar-se, é um espectáculo singular! Aproveitem com conta peso e medida e cedam à tentação da massificação... O segredo deste pôr do sol está na paz que se sente e no sentimento de isolamento.

 

Do Cabo de São Vicente a esta praia são somente 3,5km a caminhar, praticamente o mesmo que por estrada, pelo que poderão fazer uma pausa a meio e recuperar forças na Fortaleza do Beliche (ou Belixe) e olhar o promontório que já se começa a perder de braço dado com o oceano. Esta fortaleza, de origem ainda desconhecida, tem um percurso semelhante à Fortaleza de São Vicente, ou seja, também foi atacada por Francis Drake e posteriormente reconstruída por Filipe III de Espanha. Para quem aprecia arquitectura militar de defesa de costa vai apreciar este local e tentar imaginar as "batarias" a disparar rajadas de projectéis acompanhadas pelo fogo da Fortaleza de São Vicente contra as frotas de piratas e corsários. Em dias de sol parece impossível que em águas daquelas, tão duros combates se tenham travado, um pouco à semelhança do que sentimos em Barbate, Cádiz.  Neste monumento existe também uma pequena capela, a Capela de Santa Catarina, embora seja dedicada a Santo António.

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E chegados aqui, sigamos então para a praia, estendamos a toalha, tiremos uns refrescos e umas sandes da mochila e esperemos que o sol se despeça e o cheiro do mar nos traga uma das melhores experiências do mundo... E tudo isto, todo este glamour, a um preço fantástico de zero euros. E sendo que o mesmo é grátis, colaborem reduzindo a vossa pegada ecológica ao máximo.

 

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 Algumas notas:

 

 

  • Sugestões bibliográficas sobre a temática, porque aqui citamos as fontes:

Coutinho, Valdemar (1997), Castelos, fortalezas e torres da região do Algarve, Faro, Algarve em Foco Editora.

Almeida, João de (1948), Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses Volume 3, Lisboa, Edição de Autor.

 

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Não Acabem com o Verão por Decreto!

por Robinson Kanes, em 30.08.17

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 Fonte da Imagem: Própria

 

Existe algo que ultimamente me tem consumido o pensamento e que se prende com o facto de se decretarem inícios de época e o seu contrário, nomeadamente, os fins de época. Se do ponto de vista administrativo, de gestão e até de marketing e vendas pode fazer o todo sentido, quando a questão já passa para a vida e mentalidade de todos nós as coisas tendem a agravar-se.

 

Desde finais de Agosto, sempre que falo de Verão no presente, sou olhado como se D.Afonso Henriques tivesse, hoje mesmo, chegado às portas de al-Lixbûnâ e proferido as seguintes palavras: “caro Egas Moniz, vamos lá conquistar o castelo aos mouros ou não?”. Praticar Falcoaria e Tiro com Arco já me têm valido comentários a remeter para os tempos da construção da Catedral de Reims, no entanto, parece que o Verão já lá vai e todo o espírito alegre e festivo (por vezes até em excesso) se dissipa a 31 de Agosto. Essa apologia ouve-se diariamente, por exemplo... experimentem ouvir rádio durante uma manhã de inícios de Setembro. Por aqui até já existem artigos a falar do Natal! Sim, do Natal!

 

Usufruir de férias em Setembro ou Outubro chega a ser encarado como uma espécie de segundas férias e pode gerar comentários do género: “outra vez de férias?” ou "este não faz nada, ricas vidas". Ir à praia em Setembro, mesmo que debaixo de temperaturas mais quentes que em Agosto é visto como uma aventura somente acessível a residentes de Trondheim em férias pelo sul da Europa. "Mas a maioria dos portugueses volta ao trabalho em Setembro" – dirão alguns – de facto, mas também, de férias ou não, não precisamos de deixar de viver num espírito, diria... mais luminoso e descontraído e não falo daquelas práticas massivas de Verão como as modas típicas da silly season.

 

Decretam-se, nas nossas cabeças, épocas e... quer queiramos quer não, tal acaba por ter implicações no nosso dia-a-dia, inclusive no das organizações empresariais. Tomemos como exemplo a hotelaria - uma das principais queixas da hotelaria, sobretudo daquela mais próxima do conceito de férias/lazer, passa por olhar a sazonalidade como um mal menor e aceitar, sem questionar muitas vezes, as baixas taxas de ocupação fora dos meses de Verão. Baixamos os braços, porque tendemos a pensar que simplesmente é assim... ou que os mercados no exterior pensam como nós, ou seja, que fora do Verão não há mercado e dinamizá-lo é um desperdício de recursos.

 

Também recentemente, numa deslocação a Castilla Y León, dei com a imagem que coloco a colorir este texto e que no fundo reflecte bem o espírito de um povo que vive para todos os dias e efectivamente sabe viver. Todas as nações têm defeitos e apesar do momento que Espanha atravessa não é por isso que não deixa de ser uma economia pujante, muito também por culpa do seu espírito e mentalidade – sim, caros compatriotas, não vão ao baú procurar o discurso ensaiado de que o nosso país é pequeno e sempre será assim - estamos numa era globalizada. Se não somos pequenos para copiar modas de países como os Estados Unidos, também não podemos dizer que somos pequenos quando é a nossa cabeça a tomar uma atitude.

 

São temperaturas na ordem dos 34º e indivíduos com um ar cabisbaixo, tudo acabou e toda a alegria se diluiu nessa data macabra que é o 31 de Agosto. Não vamos pensar na época Natalícia, onde mais uma vez o espírito vai ficar alegre e até vamos ficar mais solidários por obrigação. Até lá, temos os meses de Outubro, Novembro e até uma parte de Dezembro para continuar a sorrir e, num país como Portugal e consoante os anos, a desfrutar do sol. Porque temos de nos agasalhar sob dias quentes de Setembro ou Outubro, quando nos dias chuvosos de Agosto andamos de t-shirt e calções? Agasalhar... pode ser também extensível ao nosso espírito.

 

E recordem-se que, enquanto andamos sempre a dizer mal do Outono (talvez a época mais bonita do ano) muitos são aqueles, de outros países, que pagam milhares para ver as vindimas no Douro e em Azeitão, ou para visitar as nossas Aldeias Históricas, ou simplesmente para usufruírem das nossas esplanadas, da nossa gastronomia e até daquilo que se tende a perder -  a nossa cultura como portugueses, como povo lutador mas sempre com um sorriso no rosto e não colado à “saudade triste e ingrata” que nos foi ilegalmente vendida e da qual parecemos ter uma espécie de contrato de fidelização vitalício.

 

Deixe o queixume e se está de folga ou fim de semana, aproveite as esplanadas e a praia do Portinho da Arrábida que esperam por si (estive lá na sexta-feira rodeado, somente... por estrangeiros), saia que as noites estão quentes. Ao invés do "Thank God it's Friday", parta no espírito do "Happy Monday" para mais uma semana de trabalho... mesmo que o seu “chefe” seja daqueles mais difíceis... lembre-se que comportamento, gera sempre comportamento... use isso a seu favor e deixe também de viver por épocas e viva todos os dias.

 

Texto originalmente publicado a 06/10/2016

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