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Pedalar a Ecopista do Tâmega (1/2)

por Robinson Kanes, em 04.01.21

ecopista tamega.jpgImagens: Robinson Kanes

 

A manhã estava quente, o mês de Agosto por terras do Baixo-Tâmega não costuma ser suave. Deixava Cabeceiras de Basto e estacionava as quatro rodas na Estação de Caminho-de-Ferro do Arco de Baúlhe, freguesia do mesmo concelho. Todavia, mesmo ali ao lado do Museu das Terras de Basto, uma interessante recuperação da estação ferroviária (encerrada em 1990). O objectivo deste dia era chegar a Amarante de duas rodas percorrendo a Ecopista do Tâmega, umas das mais belas e que mais me surpreendeu. Sobretudo porque tinha uma parte do percurso em terra batida por causa das obras da barragem.

 

A Linha do Tâmega, foi inicialmente denominada de Caminho de Ferro do Valle do Tâmega, ligava a estação de Livração (Marco de Canaveses), da Linha do Douro, à Estação de Arco de Baúlhe em Cabeceiras de Basto. Esta foi desactivada em 1990 o que veio a dar na actual ecopista que liga Amarante a Arco de Baúlhe (troço Livração-Amarante não está disponível).

 

Em 2007 as Autarquias envolvidas, a REFER (agora Infraestruturas de Portugal) e o Estado assinaram um protocolo que resultaria na construção da Ecopista da Linha do Tâmega, uma via que atravessa três Municípios ao longo de 50 quilómetros, Amarante, Celorico de Basto e Cabeceiras de Basto.

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Esta Ecopista percorre uma das mais belas linhas ferroviárias do país, permitindo o contacto directo com o património histórico e natural envolvente, nomeadamente as muitas aldeias e pontes que encontramos ao longo de toda a sua extensão, as paisagens verdejantes de inigualável beleza e oRio Tâmega, ex-líbris desta região. Este projecto, que se inclui na Rede Europeia de Vias Verdes, tem o seu início ao km 12,467, na cidade de Amarante, e término ao km 51,733 no Arco de Baúlhe.

 

Começo a etapa  que levaria 100 quilómetros. A extensão oficial do trajecto é de 39 km, ou seja, um percurso ida-e-volta pode ficar pelos 80/85 km.

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Começar no Arco é já um bom motivo para fazer o percurso, a beleza da estação é qualquer coisa e os primeiros quilómetros apetecem, com pequenas inclinações, nada de muito difícil até Vila Nune e com uma passagem por cima da A7 onde temos uma vista de montanha e vales com algumas passagens por zonas de vinha - o Tâmega não anda longe. A paragem seguinte é no Apeadeiro de Canedo, e aqui começamos a encontrar as belas estações que se mostravam ao longo da linha. Com esta imaginação sempre fértil, não consigo deixar de pensar no bulício, embora mais contido, que outrora caracterizara aquele lugar. Se há coisa que me deixa num misto de paixão e tristeza são as estações desactivadas. Devem ser dos locais com mais histórias para contar, não só pelos que frequentavam as mesmas mas também por aqueles que ainda lá viveram. Ainda tive oportunidade de conhecer alguns, sobretudo na zona Centro e as histórias são tantas. Talvez tema para um destes dias...

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Senhores passageiros, a próxima paragem será Mondim de Basto, passando ainda por Padredo. Não existirão passeios tão encantadores como este quando por um caminho lindíssimo em que pelo meio de hortas, pequenos lugares, alguns monumentos, temos sempre a companhia do Monte da Senhora de Graça, o que, para quem estiver de bicicleta ainda tem um gosto mais especial. É como se subíssemos o Monte de uma outra forma, é como que desta vez não fosse propriamente uma luta entre o homem e altitude, mas um passeio lado-a-lado. Simplesmente deslumbrante! É também no concelho de Mondim de Basto que encontramos algumas das mais interessantes vistas do percurso e a belíssima estação - além de outras, pensei em tempos num projecto para a mesma tal a beleza da infraestrutura bem como as vistas e a proximidade com as duas pontes que são um dos atractivos do percurso. Passaria dias inteiros à varanda da estação, com um Hendrick's e um livro a apreciar aquela paisagem.

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As Terras de Basto têm um encanto tão especial, sobretudo no território de Cabeceiras de Basto e Ribeira de Pena onde já não temos sequer noção de estar no Minho e nos sentimos transmontanos. Nas pessoas, quer pela sua austeridade e bravura quer pela simpatia e humildade, não há como negar o lado mais transmontano. Não falarei de gastronomia porque aí, de facto, é mais que notório e a passagem a Montalegre, por exemplo, nem se faz notar quando entramos em Salto

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Mondim atrasa-me as contas em termos de horário, além disso, esperam-me as iguarias da Dona Lídia no regresso a Cabeceiras, mais propriamente para os lados de Cavez. Vou chegar atrasado, tenho a certeza...

 

Continua...

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O Amor Grrrr de 2021...

por Robinson Kanes, em 31.12.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

Então... Muda-se o calendário mas será que muda alguma coisa? Eu acredito que não. Entendo a mudança como uma prática contínua para lá das datas que tentamos à força colocar para nos desafiarmos e que no fim não são mais que uma santola sem conteúdo. 

 

Acredito no Amor, que se quisermos e pelo menos existirem dois jogadores, a coisa dá-se... Será que nos próximos dias e por aí adiante conseguimos mostrar mais a

Amor? Não falo daquele Amor paternalista ou daquele Amor sem fogo (mesmo que outro diga que não se vê), falo mesmo daquele Amor assim mais... GRRR? Eu sei que onomatopeias não ficam bem na prosa e na fala, mas convenhamos, quantos actos de Amor não são recheados de belas onomatopeias? Além disso, é sempre importante quebrar os hábitos rotineiros pois são esses que dificultam a buca das coisas perdidas, um pouco à imagem dos "Cem Anos de Solidão" de Garcia Márquez.

 

O Amor é de facto importante, demasiado sério na sua compreensão, mas demasiado simples e prático na sua realização, mais fácil ainda quando falamos de Amor entre lençóis e umas boas voltas numa cama quente seja lá isso onde for, embora se em Capri ou Positano e com uma boa vista para o mar, até que possa ser algo diferente...

 

Deste modo e como aparentemente estamos a mudar de século... Até já temos o melhor jogador do século, somos tão patéticos na nossa pequenez provinciana... E afinal sempre me ensinaram que um século tem cem anos e não têm de ser de solidão. Onde é que eu estava? Sim, aproveitemos isso para amar, sobretudo os que estão juntos... que não raras vezes estão mais encalhados que aquela malta que come pipocas enquanto está agarrada à Netflix e desata a chorar (e a engordar) enquanto vê comédias românticas ou séries sobre a realeza. Mas de repente, liga-se a música e temos a Fanfare Ciocârlia a tocar o "Asfalt Tango" e seguimos em fila para declararmos o nosso Amor àquele ou àquela que... Estão a ver a coisa, não estão? Começamos assim e acabamos ao som de "Kalashnikov" de Bregovic no quarto... É pouco romântico e cheio de onomatopeias mas é bom e não faz mal a ninguém. O Pão de Ló de Ovar que já me está ali a piscar o olho também é uma bomba em calorias e não estou muito preocupado com isso. É um pouco como dizerem que não estão para aturar discursos e partilhas enfadonhas do Simon Sinek por muito que isso vos possa fazer pensar que são únicos no vosso trabalho e no LinkedIn.

 

Se a coisa correr mal, pois... Pão de Ló de Ovar é bom para compensar as crises amorosas desencadeadas por um valente "chega p'ra lá".

 

Por isso, nada como umas loucuras amorosas e bem marotas a acabar o ano e a começar o próximo, afinal... No mal ou no bem, no terror ou na felicidade, o AMOR É IMPORTANTE, PORRA!

 

P.S.: aquele amor GRRRRR, de belas cambalhotas e onomatopeias... É desse que estou a falar.

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A Sarah no SardinhaSemLata

por Robinson Kanes, em 22.12.20

uganda-2132664_1920.jpgCréditos: David Peterson / pixabay.com

 

Hoje é dia de escrevermos no SardinhaSemLata... E é só isso...

Passem por lá, é só clicar aqui.

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Erinnerungen an Berlin...

por Robinson Kanes, em 16.12.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

Passam agora pouco mais de seis anos desde aqueles tempos em Berlim... Dei comigo a pensar naquela época e no pequeno Mercado de Natal na Alexanderplatz, bem pertinho do Sony Center. A noite que agora me vem à memória, colocava, no segundo, o lançamento na Europa de um dos grandes êxitos cinematográficos da época - um Harry Potter qualquer. Mas era no mercado que queria estar, uns minutos antes de jantar num restaurante que fazia umas massas na hora. Massas apetecíveis, sempre repleto de gente animada, contrastando com alguns restaurantes da área. Além disso, era mais barato e quando o dinheiro não é meu, não gosto de esbanjar, afinal tenho sempre de jantar e é orçamento do esforço de todos, além de que a minha estada era bastante longa...

 

Estreava na época um sobretudo que me ajudou a combater o frio de Berlim e acima de tudo a aguentar os passeios nocturnos perto do Marriott em Alexanderplatz. Do ir e vir até ao Reichstag, do piscar de olhos às embaixadas russas e americanas e como não poderia deixar de ser, entrar na noite com algumas passagens pela Friedrichstraße para me perder na "Dussmann Kulturkaufhaus" e escutar alguns amadores do piano a tentarem a sorte. Não poderei esquecer as fortunas que aí deixei em livros e CD (e excesso de bagagem). A obra completa de John Sebastian Bach da BachAkademie, dirigida por Helmuth Rilling e distribuída pela histórica Hänssler ainda hoje faz as delícias cá por casa. Desfrutava do Mundo, essa casa dos mortais como nos fez perceber Heidegger.

 

Alexanderplatz "era" uma área com uma pujança tremenda em termos de novas construções, modernos edifícios, confortáveis e abertos, sem esquecer um evento inesquecível numa estação de metro acabada de construir e onde, à boa maneira alemã, uma das áreas ficou em tosco, antecipando um aumento de tráfego no futuro. E como nada se desperdiça, um evento singular na estação de metro que ainda hoje recordo... Serviu de inspiração, contra tudo e contra todos, para realizar algo semelhante em Portugal e que foi um sucesso. Não foi algo muito falado, também não era essa a ideia.

 

Todavia, era ao fim do dia, entre as massas, o mercado e a boa companhia que gostava de estar. Era no percorrer as ruas vazias e austeras da cidade e de entrar naquele jardim densamente arborizado e escuro que se seguia às Portas de Brandemburgo, depois de ter percorrido a Unter den Linden, que gostava de me entregar a Berlim. Esses momentos só eram igualáveis ao pequeno-almoço no simpático restaurante do hotel com vista para a avenida e para os transeuntes que logo pela manhã se dirigiam para o trabalho. Local deveras interessante... Encantador e singelo, mas sedutor o suficiente para sentir a nova Berlim de tal forma que, sempre que possível, esse pequeno-almoço alongava-se por três ou mais quartos de hora. Nesta zona era difícil imaginar a Berlim de outros tempos, a única coisa que poderia almejar dada a minha idade. Todavia, a viagem de comboio de Schönefeld (entretanto encerrado) até ao centro aguçou-me a curiosidade: a escuridão das folhas das árvores, a lama, as valas com águas negras e uma imensa sensação de ainda estarmos do lado de lá do muro.

 

Tempo para um aparte, pois recordo-me que meti conversa com um suíço, de Zurique mas que residia em Berlim, ainda no aeroporto por causa do táxi. Acabei a acompanhá-lo no comboio. Falou-me que Berlim estava agora, em pleno século XXI, a modernizar-se muito por fruto das poupanças dos alemães ao longo do século XX e primeira década do novo milénio. Brinquei com Portugal que recebia milhões há muito, inclusive dos contribuintes alemães e teimava em não dar o salto. Riu-se, julgo, não tenho dúvidas que pensou que eu estava a brincar...

 

Foi numa dessas manhãs entre croissants e uns ovos que fiquei a reflectir no que me disse um alemão no dia anterior, depois de uma pergunta minha acerca da eficiência dos membros da sua equipa... "é muito simples, equipas motivadas, apaixonadas pelo trabalho e onde cada um sabe muito bem o que tem de fazer". É muito simples, de facto... Mas ao mesmo tempo, para alguns parece ser tão complexo, tão difícil e penoso de modo a que ninguém tente harmonizar o processo. Parece um pensamento para artigo de recursos humanos ou LinkedIn, mas se o fosse provavelmente seria apenas conversa e total inacção. 

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Na minha memória faz-se noite, volto ao mercado, faço umas compras mais locais e no centro comercial diante do mesmo, algo mais internacional. Bebo Gluwien, como os melhores lebkuchen da minha vida - e se algo desperta em mim o cookie monster, são as lebkuchen - e percebo que numa língua à época totalmente desconhecida, acabei por compreender muito daquilo que sou hoje e encontrar na frieza alemã um acolhimento singular... Das gargalhadas mais sinceras que já presenciei hoje foram aí mesmo... em Berlim...

 

Acabo esta noite a ouvir Severija, uma lituana com um bom alemão e que me deu a conhecer a banda sonora de "Babylon Berlin" com "Zu Asche Zu Staub"... Berlim traz-me boas memórias...

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Sardinhas à Papagaio-Mor...

por Robinson Kanes, em 15.12.20

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Créditos: https://funchalnoticias.net/2016/09/14/o-ppresidente-que-beija-e-prova-tudo/

 

Hoje estamos no SardinhaSemLata a grelhar sardinhas congeladas que o tempo há muito que já não é para sardinha fresca e a época da faina está fechada.

Desta feita, fizemos umas "Sardinhas à Papagaio-Mor", estão secas e não sabem a nada, vá-se lá saber porquê... Saibam mais aqui.

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António José Pinto Doce... Herói Nacional...

por Robinson Kanes, em 14.12.20

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Créditos: Polícia de Segurança Pública

 

Os grandes valores não se definem, como não se define uma simples dor de dentes.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente V"

 

 

António José Pinto Doce não é famoso, e ainda bem, temo até que hoje em dia isso seja uma virtude. António José Pinto Doce também não tem horas em televisão e não traz votos que justifiquem um folclore criado em torno do mesmo, apesar de não duvidar que o Estado Português lhe prestará a devida homenagem quer por intermédio da Polícia de Segurança Pública (que já o fez) quer por via do Ministério da Administração Interna e até outras instâncias maiores...

 

António José Pinto Doce é um herói nacional simplesmente por ser um cidadão comum... Por ser um Agente Principal colocado no Comando Distrital de Évora. Neste caso, não será preciso fazer storytelling, inventar-lhe dotes e arranjar figuras públicas que digam bem do mesmo. Bastará dizer que o Agente Principal Pinto Doce, fora de serviço, ao presenciar uma agressão de um indivíduo à sua companheira (inclusive o seu arrastamento para dentro de uma viatura) agiu de imediato e tentou terminar com o crime em curso... No entanto, o agressor entrou dentro do seu automóvel, colocou-se em fuga e atropelou este agente (fora de serviço) arrastando-o por 40 metros. O desfecho foi o pior possível, o Agente Principal Pinto Doce, de 45 anos, casado e pai de dois filhos, veio a falecer ontem não resistindo às lesões provocadas pelo atropelamento. O alegado homicida, já havia sido condenado por violência doméstica e é guarda prisional. Sim, isto é possível... Como é possível que se o desfecho fosse a morte do agressor muita tinta seria impressa, mas a grandeza de cidadãos e instituições também se vê pelo seu weltanschauung.

 

Admito que me toca sempre a morte de um polícia, sobretudo em tempos conturbados como este em que as autoridades parecem ser um alvo a abater. Admito que ainda me tocou mais por a 16 de Novembro ter também eu passado pelo mesmo enquanto evitava uma fuga de um local onde se deu um pequeno acidente de viação, a diferença é que eu estou aqui e consegui escapar ao atropelamento.

 

Temos de saber reconhecer os nossos heróis, mesmo os anónimos, até porque infelizmente esta é uma pátria que distribui condecorações e homenagens consoante o show mediático, as inclinações partidárias e os amigos lá de casa. Muitos destes heróis nos escapam, mas ao invés de andarmos tão atentos a artificialismos, talvez seja a hora de perceber que na nossa família poderá estar um ou até na porta do lado. E muitos desses heróis não precisam de morrer à mão de indivíduos que nem sempre pagam o verdadeiro preço do crime... Muitos desses heróis estão até nos pequenos gestos, naqueles que vemos na rua e passamos, sem selfies, porque o segredo desta espécie de random act of kindness é esse mesmo.

 

Para estes heróis não existem dias de "luto nacional" nem chamadas para televisão filmar, todavia, em cada um de nós deverá existir o reconhecimento de que são estes os exemplos do que é ser cidadão, do que é ser português, do que é ser humano. Os actos falam por si, sem construções, pelo que hoje qualquer português, mesmo sem institucionalismos estará de luto.

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O SEF e outras Autoridades...

por Robinson Kanes, em 12.12.20

f4e00138c3970a8c7fb8f38dcb7dfb8c_L.jpgCréditos:https://www.radiocampanario.com/ultimas/regional/sef-de-portalegre-detem-estrangeiro-com-pedido-de-extradicao-para-emirados-arabes-unidos

 

Começo este texto por dizer que ainda bem que as redes sociais não ditam os destinos de um país e do Mundo, embora a crescente afirmação das mesmas e a cedência de alguns políticos também a essas, possa colocar em causa a minha afirmação anterior. 

 

Não é por acaso, e não me canso de repetir, que o pelourinho continua a ser uma das imagens de marca de qualquer lugarejo deste Portugal. Afinal, anos e anos de preservação puderam antever que em breve estes marcos estariam mais actuais que nunca. Não é no pelourinho que conto ver os inspectores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e também um enfermeiro e alguns seguranças, mas sim nos tribunais, pelo que, a ser verdade, devem ser condenados no espírito máximo da lei pelo homicídio de um cidadão ucraniano no aeroporto de Lisboa. 

 

Também não me vou debater sobre as afirmações do Ministro Eduardo Cabrita, alguém de quem tenho muito que reclamar (especialmente sempre que o tema são incêndios), mas também alguém que tenho de elogiar pela forma como trata os seus, e nesse aspecto, foi uma experiência apenas que melhorou a minha opinião acerca do cavalheiro. Muitos já o exploraram ao máximo, só vou repetir ecos... Alguns deles completamente hipócritas, mas é o mundo "comentadeiro" que temos.

 

Debato-me particularmente sobre o gáudio que muitos têm em atacar o SEF (ou as autoridades em geral - alguns sabe-se lá porquê), e recordo-me de um artigo que escrevi em tempos acerca do Regimento de Comandos. Recordo-me, como agora, do assassinato público de toda uma instituição, mas pior que isso, de todos os seus membros. No caso do SEF, uma compilação de afirmações acerca do racismo dos mesmos, nomeadamente de quem não sabe distinguir racismo de xenofobia; acusações de neonazismo de todos os seus elementos e até, talvez por efeitos de um certo delirium tremens, de uma associação ao CHEGA. Tenho receio de alguns fanáticos que esse partido possa ter, mas começo a ter mais receio dos pacatos cidadãos que, se tiverem oportunidade, iniciam uma limpeza tribal só vista nos piores relatos históricos.

 

Nos dias de hoje, é importante perceber que chamar nazi a alguém pode ter consequências legais, bem como desprestigiar toda uma instituição que, em muitos casos, e já o afirmei algures, também é responsável por ainda não termos ido pelos ares enquanto tomamos um café e exalamos o nosso ódio no smartphone. Sim, o SEF tem esse papel, não é só o indivíduo que na área "não-schengen" do aeroporto, olha para o nosso passaporte e depois para nós e depois para o passaporte e mais uma vez para nós e nos devolve o documento. Defendo a "eliminação" das "ervas daninhas" que existem em muitas forças policiais, não obstante, jamais poderei acusar todos os inspectores agentes ou guardas de serem racistas, xenófobos e mafiosos... Existem alguns que o são, sim... Mas o ataque sistemático às autoridades começa a tomar contornos preocupantes, mesmo quando muitos aproveitam temas externos para, mais uma vez, atacar quem nos defende. No essencial, muitos procuram não perder o comboio do "eu também tenho opinião, eu sou um tipo participativo", no entanto...

 

No caso português, não raras vezes, temos autoridades que são demasiado brandas na generalidade. Recordo uma certa manifestação junto da Assembleia da República, onde elementos de vários ramos da Unidade Especial de Polícia estiveram debaixo de uma chuva de pedras que correu o Mundo e só ao fim de toda a diplomacia se ter esgotado foram autorizados a intervir - e mesmo assim de forma moderada, embora com todos os riscos que significa dar autorização para avançar... Para os que podem não compreender essa situação de stress, depois de dada uma ordem desse calibre, após ser "disparado o primeiro projéctil", é muito mais penoso parar todo o processo. Quem já esteve debaixo de fogo e sabe o que é uma ordem de ataque, sabe que a mesma é obedecida de imediato, mas no calor do fogo, é preciso muitas vezes repetir a mesma para que cesse a hostilidade... E em alguns casos quase ser necessário alguém colocar-se diante da linha de fogo.

 

Condenem-se os criminosos, afastem-se aqueles que não representam os desígnios da República, tenhamos desconfiança dos cata-ventos e dos governantes-mor e dos seus discursos ao "sabor da onda", mas tenhamos o discernimento para chegar à conclusão de não julgar o todo porque "um falhou", sobretudo quando é a nossa segurança (ou falta dela) que está em causa. Pensemos, filtremos e tenhamos coragem para questionar, até porque no quotidiano (fora dos jornais, na nossa vida) fechamos os olhos a tanta coisa por comodismo e cobardia... Não sejamos nós mais corrosivos e destruidores da paz que os próprios criminosos.

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Um Mzungu no Uganda...

por Robinson Kanes, em 10.12.20

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(Imagens locais capturadas durante a emissão da BBS TV - Uganda)

Imagens: Robinson Kanes/Ochieng Mukisa (nome fictício)

 

 

Não... Não venho falar de belos momentos passados neste país, não trago lautas histórias que poderia contar de tão belo país. Não... Nos últimos tempos tenho acompanhado o barril de pólvora africano, todavia, deixando este país para trás... propositadamente. Tenho procurado informar-me através das minhas fontes locais que na sua serenidade e resiliência singulares me têm transmitido sinais de calma, mas...

 

Mas... O Uganda é mais um dos países que se encontra a ferro e fogo com a crescente esperança num jovem cantor que se opõe à liderança, por muitos considerada autoritária, de Yoweri Museveni. Yoweri Museveni conquistou o poder por intermédio de um golpe de estado conduzido pelo exército em 1986 e só em 1996 foi democráticamente eleito sendo que tem realizado sucessivas alterações constitucionais que protelam a sua saída do poder.

 

Robert Kyagulanyi, mais conhecido por Bobi Wine é o rosto da mudança. Não sabemos, contudo, o que esperar deste opositor ao actual presidente nas eleições de Janeiro, não obstantea, já conquistou a população jovem do Uganda que anseia por uma mudança num dos países mais belos, mas também mais tensos de África, apesar de mais uma recente conquista em 2019 - a cooperação e consolidação da paz com o Ruanda.

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Ser oposição em África é uma das tarefas mais arriscadas do Mundo, e Bobi Wine já está a sentir isso na pele ao ver 16 dos seus apoiantes serem mortos. Bobi Wine foi detido recentemente (mais uma vez) e depois libertado, uma das razões que o terá levado a cancelar a campanha e também a procurar evitar o aumento de mortes - inclusive o seu staff e a viatura do próprio já foram atacados. No Uganda, nos últimos meses, por motivos relacionados com as eleições de Janeiro, já terão morrido 54 pessoas.

 

Este é mais um país de África que tem vindo a ser ignorado... Talvez não seja interessante falar do Uganda ou simplesmente não existam muitos jornalistas no terreno para documentar o que se está a passar. Talvez também seja preciso procurar outros meios de informação, que mesmo financiados por regimes do Golfo Pérsico, parecem ser mais credíveis na informação do que aqueles que julgamos mais imparciais e democráticos.

 

Entretanto, e com o Uganda fora do jogo mediático, é bem possível que estejamos a assistir a mais um país prestes a explodir ou simplesmente a ver silenciados aqueles que acreditam numa mudança e no fim dos regimes totalitários e sanguinários de África nascidos na segunda metade do século XX.

 

Neste momento, o melhor que posso fazer é apoiar à distância, encher de força aqueles que não desejam um conflito e esperar ansiosamente por muito em breve poder pisar novamente aquela terra.

 

O desafio de encontrar um país em África que não esteja em chamas é cada vez maior, e os últimos tempos, à boleia da pandemia, têm servido para que os Direitos Humanos e todas as liberdades possam ser atropeladas. Na verdade, e como já referi noutras paragens, o que acontece em África acaba por nos chegar, e mesmo que não chegue, afecta ecossistemas como o nosso, até porque... somos todos seres-humanos, totalmente diferentes mas iguais em direitos e deveres.

 

Enquanto a comunicação a Ocidente é uma das maiores armas, em África é exactamente a ausência da mesma que têm ajudado à impunidade. No Uganda, esperemos que esse silêncio não apague a juventude rebelde daquele que é também um dos países mais jovens do Mundo, com um crescimento populacional anual na ordem dos 3%. Esperemos que os jovens, e que são tantos no Uganda, possam ter espaço para criar um novo país, capacitado para os desafios do futuro, que em África serão incomensuráveis.

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Do Neocarpideirismo...

por Robinson Kanes, em 07.12.20

vultures-4600468_1920.jpgCréditos Nel_Botha-NZ /Pixabay

 

O neocarpideirismo parece ser uma arte que veio para ficar com as redes sociais o com o "look at me", uma espécie de evolução daquilo que foi o carpideirismo.

 

Mas o que foi essa ciência do carpideirismo? Imaginem umas moças contratadas ou convidadas para carpir em honra dos defuntos para conseguir que as famílias e amigos destes mostrassem à freguesia que aquele corpo em câmara-ardente tinha sido um indivíduo muito conhecido e que será por todos para sempre recordado. Referi moças mas mas normalmente eram aquelas velhas viúvas ou solteiras que andavam sempre de negro.

 

O carpideirismo era uma arte que atingia o seu real esplendor aquando do momento da descida do corpo à terra para se encontrar com Deus... Descer à terra para subir aos céus e assim encontrar a vida eterna... Interessante, mas no mínimo paradoxal... O choro e as lamentações, as flores e os gritos que ecoam pelas campas... "Ele eraaaa tãooooo boooom, coitadinhooooo". Era digno de ser, aliás, muitas sopranos foram contratadas no cemitério do Alto de São João.

 

Contudo, o carpideirismo esteve adormecido e voltou em força com novos artistas que recolheram muita da sabedoria desses anos e o adaptaram aos novos tempos, nascendo assim, o neocarpideirismo. E o que é o neocarpideirismo?

 

O neocarpideirismo, ao contrário do primeiro, sai mais barato. A chusma agora voluntaria-se para ser carpideiro. Além de ser mais barato, já não é só composto por velhas e viúvas de negro, mas por gente de todas as idades sendo que agora é mais direccionado para caras conhecidas. E é aqui que encontramos uma das grandes diferenças: antes carpia-se para exaltar o morto, hoje anda-se a carpir para exaltar o carpideiro. Ou seja, sendo o morto alguém conhecido - mesmo que tenha sido um traste - é este que presta um serviço (também ele livre de custos) ao carpideiro.

 

Todos querem estar associados à morte de, seja por prestar sentidos pêsames a alguém que não conhecem de lado nenhum (e não raras vezes nem acompanharam da sua vida) seja para prestar condolências à família como se isso fosse importante. Muitos são os mesmos que não enviam uma mensagem quando alguém próximo empaveia.

 

Além disso o neocarpideirismo reveste-se do neoborreguismo, que é uma espécie de condenação daqueles que estiveram a chorar na morte do pai mas não se emocionam com a morte de um desconhecido. Mesmo que tenham sido os mesmos a ouvirem "é a vida, Deus assim quis"... Aquele cliché que fica sempre bem num funeral mesmo que o tipo seja ateu. 

 

No entanto, existe ainda uma elite dentro do neocarpideirismo, que são os carpidosapadores, sobretudo em redes sociais ou espaços de visibilidade e que emitem imediatamente o seu parecer e o seu pesar às 19h:00m quando a certidão de óbito marca 18:h59m. Eu tenho de confessar uma coisa... Aquela malta já só pode ter uma pasta com uma caterva de nomes e a cada um tem atribuido um epitáfio ou um triste texto de como aquele que parte era gente de bem e que marcou para sempre a sua vida. Existem alguns que também se atrasam e fazem sair o documento depois de perceberem que aquilo está a ganhar tracção pois ao anteciparem-se podem ferir o politicamente correcto, não vá um opinion-maker tecer algum ódio ou divulgar algum pormenor escabroso. Ninguém gosta de ficar mal na fotografia.

 

Igualmente, alguém ainda me há-de explicar - esta arte não é para todos - como é que alguém que sofre tanto com a morte de outrem, nos minutos seguintes já consegue ter uma música, um poema, um texto de 200 páginas ou um filme e estar de cinco em cinco minutos a disparar "instas" e "tweets". Eu admito que não sou capaz, mesmo quando não quero dar nas vistas e conto mesmo dizer algo verdadeiro. Bem, mais ou menos, porque algumas vezes se for verdadeiro é possível que diga algo como: o gajo também não era propriamente flor que se cheirasse, convenhamos.

 

Existe também o taberno-carpideirismo que não foi alvo de grandes transformações. Este consiste basicamente numa colectânea de documentos que também alguém tem armazenada e pronta a sair sempre que alguém fenece. Mas como agora "não se" podem fazer piadas quando alguém nos abandona (nem dizer a verdade do passado de muitos), estes artistas tendem a circular numa espécie de underground como locais de trabalho, cafés, "whatsapps" e jantaradas de amigos... Normalmente, muito destes taberno-carpideiros também assumem o papel da elite acima referida, afinal a neohipocrisia também veio para ficar.

 

E finalmente, qual inquisição de novos saberes, existem os sucessores dos cristãos-novos, aqueles que em tempos gozavam com tudo e com todos e assim chegaram ao estrelato, especialmente nestas ocasiões, e agora são conhecidos por, sempre que a alguém  (de preferência que lhes traga retorno) lhe arrefece o céu da boca, serem os primeiros a lamentar tamanha perda com palavras bonitas e fofinhas.

 

Temos arte culta e adulta, como dizem os outros...

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Convidei Obama para beber um Villas-Boas

Porque o resto ainda está para vir...

por Robinson Kanes, em 06.12.20

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Imagens: Robinson Kanes

 

Talvez os princípios da organização comunitária pudessem ser orientados não somente para realizar uma campanha, mas para governar, para encorajar a participação e a cidadania activa, franquiando o processo àqueles que haviam sido deixados de fora. Ensinar as pessoas a não se limitarem a confiar nos seus líderes eleitos, mas a confiarem umas nas outras e em si próprias.

Barack Obama, in "Uma Terra Prometida"

 

 

Não tenho por prática escrever sobre um livro antes de terminar a leitura, e não raras vezes, até de submeter a obra a uma releitura. No entanto, e graças à minha mãe, uma apreciadora de Barack Obama e que se convence que o tenho como um ídolo, embora questione muito a sua governação, dei uma oportunidade ao cavalheiro em "Uma Terra Prometida".

 

Comecei a lê-lo, acompanhou-me um "Villas-Boas Reserva 2016", e de facto, não poderia ter feito melhor escolha, que rapidamente transitou para o jantar - o vinho. Não é um vinho em que se sinta totalmente o Douro, mas é apetecível para acompanhar uma leitura e um queijo de ovelha (meia-cura) de Zugarramurdi... Sinto saudades de "Nafarroa" e de "Euskadi".

 

villas boas douro.jpg

 

Assisto a um homem simples, o Presidente (esse título nunca se perde) Obama, pelo menos na fase em que ainda está na campanha às primárias. Um homem com real vontade em mudar o Mundo e com um foco muito interessante na sua vida pessoal e na família - a relação com Michelle e com as filhas é apaixonante. Além de que, Obama também é daqueles que dispensa festas e encontros mascarados de palcos para ascensão social e privilegia a família e um pequeno círculo de amigos. Para já, tem o meu voto por também me rever no mesmo.

 

E como é Domingo, e ainda tenho os dedos a estalar depois de ter ido correr com um gelo daqueles, deixo-vos com uma sugestão musical e cinematográfica.

 

Começo pela segunda: "Le Meilleur Reste à Venir" - os franceses (a produção é franco-belga) não conseguem fazer comédias sem uma boa carga dramática e é por isso que um Dezembro não deve passar sem uma ida ao cinema para ver este filme de Alexandre De La Patellière e Matthieu Delaporte. Adorei o duo Fabrice Luchini-Patrick Bruel, especialmente o último actor... É uma verdadeira história de amizade e das decisões difíceis que temos de tomar quando uma verdadeira amizade - algo raro nos dias de hoje - nos coloca à prova. O resto... Vejam o filme.

Para terminar, recupero algo que me tem acompanhado várias vezes neste início de Dezembro... Amilcare Ponchielli e o seu mais que fabuloso "Capriccio per oboe e pianoforte, op.80". Isto é maravilhoso... Ideal para acompanhar uma leitura, o trabalho ou simplesmente para acendermos um candeeiro de pé e ficarmos no sofá a entregar o nosso pensamento às mil e umas taquicaridas que a nossa condição nos obriga a enfrentar.

Bom Domingo...

 

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