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Recursos Humanos: Os Suspeitos do Costume.

por Robinson Kanes, em 04.12.19

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Créditos: https://www.dicionariopopular.com/facepalm-meme-emoji/

 

 

Existem muitos truques que permitem a ascensão e o reconhecimento profissional de nulidades encartadas. Um pouco como aqueles indivíduos que aparecem do nada em televisão, jornalismo ou cinema e depois de nos serem impingidos e terem sucesso, é que vão ter formação para aquilo que estão a fazer. Ou então aqueles que para venderem o seu produto/pessoa dizem que vão à televisão, como se isso pudesse superar qualquer curriculum vitae.

 

É algo que também acontece na função pública e em muitas organizações privadas: o importante é entrar na organização, ocupar determinado cargo e depois pensa-se na formação e nas competências. Os resultados? Se a equipa for boa, eles acontecem. Desde que estejam a ocupar as suas funções enquanto eu vou ao cabeleireiro, não há como falhar, mesmo que seja fora do horário de trabalho destes, forço-os a ficar e pronto. Portugal, ou grande parte dele, portanto...

 

Mas uma das tácticas mais conhecidas não dispensa um certo estrelato. Quem é que nunca ficou com a sensação de que são sempre os mesmos em determinadas áreas e cargos a aparecerem em conferências, redes sociais e a vencer concursos disto e daquilo? Quem é que nunca ficou com a sensação de que aquele (e isto é um exemplo) director de recursos humanos sem autoridade ou que é uma nulidade hoje, amanhã está a receber o prémio de excelência da área, a dar palestras todos os dias e a escrever sobre tudo e sobre nada. E então quando as políticas que implementa estão debaixo de fogo mediático...

 

Alguns, nomeadamente aqueles que rapidamente vão realçar o seu lambe-botismo com comentários vazios e a aspirar a uma ascenção profissional não darão por isso. Ou darão e só querem apanhar o comboio do personal branding.

 

No entanto, existem outros que já deixaram de acreditar em tudo o que lhes aparece à frente e até já nem frequentam os habituais congressos, feiras, palestras, galas onde se fala de tudo e de nada e cuja aplicabilidade prática não é demonstrada - opto por nem mencionar o dizer-se uma coisa e fazer-se outra totalmente diferente fora dos palcos. Quando muito servem para o networking e aí é uma falha minha... Só gosto de distribuir business cards para gerar negócio e não para colocar o meu interesse pessoal à frente do resto! No dia em que isso acontecer, carta de demissão, e nada como me dedicar à procura exaustiva de emprego.

 

Mas toda esta conversa para dizer que num país de corporativismos e aldrabice (sim, censurem-me, não é uma palavra que saiu) como é Portugal, é fácil ganhar prémios e ser reconhecido, não raras vezes, por aquilo que não se faz. Um exemplo para a ascensão pode ser estar dentro de uma associação ou de uma comissão de honra ou advisory board ou lá o que lhe quiserem chamar - nunca vão a nenhuma reunião, mas o vosso nome aparece no website e na comunicação e está feito, rapidamente são reconhecidos como profissionais de excelência. Uma nota: também existem entidades que usam profissionais de excelência para se catapultarem...

 

Outra são os prémios, se existem prémios que são bem atribuídos, também sabemos que é fácil conhecer este e aquele que faz com que ganhemos aquele prémio tão desejado, sobretudo se quisermos um novo emprego ou reconhecimento. Uma troca de favores e uns contratos aqui e acolá e temos um vencedor na categoria de aldrabice. Então se fizermos parte dos grupos que surgem sempre em determinadas revistas de algumas áreas, é certo que o sucesso está garantido. Não faltam revistas, publicações e até associaçõess que são meros canais de divulgação e exaltação deste e daquele indivíduo cujo culminar acaba com grandes prémios. E tudo isto se paga, quer em favores quer em outras coisas mais... E tudo isto é aplaudido por muitos que nem se dão conta como se movem estes mundos e outros que só querem entrar nos mesmo pelo papalvismo primário.

 

Ainda me lembro de um que ao mesmo tempo que falava de boas práticas e ética numa palestra vazia de conteúdo, tinha acabado de lançar um livro e surgia como um grande exemplo mas nessa mesma manhã as notícias davam conta de um caso vergonhoso para a organização e para o país e onde além de ter pactuado com, ainda tinha sido beneficiado...

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Persépolis: A Cidade Persa

por Robinson Kanes, em 21.11.19

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Imagens: Robinson Kanes

 

A poucos quilómetros de Shiraz, e debaixo de um intenso calor, encontra-se aquela que foi uma das capitais do Império Aquemênida: Persépolis! Iniciada por Dario, a construção deu-se durante séculos até a mesma ser conquistada por Alexandre Magno. Persépolis foi sempre uma capital mais espiritual, até pelos difíceis acessos, as capitais administrativas acabaram por ser Pasárgarda, Susa, Ecbátana e Babilónia. Com Alexandre Magno, em 330 a.c. a cidade seria ocupada, saqueada e parcialmente destruída. Era o início do declínio de umas das pérolas de todo o império.

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Falar da história de todos os pormenores da cidade é matéria para centenas e centenas de artigos, por isso, nada como a consulta da imensa bibliografia, sobretudo a técnica, que existe acerca da cidade. Na internet, existem centenas de documentários e animações 3D, acerca da cidade, uma delas está aqui.

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No entanto, debaixo de um calor abrasador, e onde nos imaginamos nas montanhas do Afeganistão, fascinou-nos sobretudo a grandeza do império, também nestas pedras contada. Para se ter uma ideia, o império iniciado por  Ciro, "o Grande", acabou por ser o maior da antiguidade, nomeadamente uma extensão para ocidente até aos balcãs e leste europeu, uma rota de estradas onde se incluem as da Rota da Seda, o uso de uma língua ao longo de todo o território e o canal que ligou o Nilo ao Mar Vermelho.

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A este aspecto junta-se o facto de que, ao contrário de muitas outras edificações da Antiguidade, Persepólis, como outras grandes construições do império eram realizadas com trabalho remunerado, ou seja, não escravo. Foi com Ciro também que, apesar de muitos povos terem sido conquistados, que existiu o respeito por todos os costumes e religiões de todos os povos. Como nota de curiosidade, também é Ciro, o responsável pelo "Cilindro de Ciro", aquele que é considerado a primeira declaração de Direitos Humanos da história. Infelizmente para o povo iraniano, encontra-se no British Museum em Londres. No Museu Nacional, em Teerão, encontramos apenas uma réplica. Admito que nas duas visitas ao British, bem que já me apeteceu trazer o cilindro e devolver o mesmo ao povo que o escreveu e que é o seu legítimo detentor! Este cilindro, é talvez um dos mais importantes documentos da Humanidade!

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Agora é tempo de percorrer este espaço, de fechar os olhos e com a ajuda dos óculos de realidade virtual, admirar a escultura e a arquitectura, donde se destacam o Terraço, a Escadaria de Persepólis; a magnifica Porta de Todas as Nações; a Apadana e a sua escadria; a Tachara, ou Palácio de Dário, um dos mais belos, o Hadixe, ou Palácio de Xerxes; o Palácio Central e o grandioso Palácio das 100 Colunas.

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Ao alto, podemos vislumbrar e percorrer também, os túmulos de Artaxerxes II e Artaxerxes III com esculturas de nos deixarem de boca aberta onde são claros os símbolos Zoroastras e do próprio império - um pouco à semelhança do que acontece em todo o edificado de Persépolis. A sul, existe também um túmulo que não foi concluído e que consta que teria em vista ter como hóspede Dario III.

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Pisar o solo de Persépolis é viajar na História, é pisar cada pedaço daquele espaço com um sentimento especial, sentir cada pedra como pudessemos recuar séculos e séculos para trás. É repensar a própria história e acima de tudo é termos a sensação de que somos tão pequenos. É termos a noção de que uma certa História, bem lá atrás ainda tem tanto por contar... É termos respeito e perder a arrogância de que a Ocidente é que esteve/está o patamar máximo do desenvolvimento, até porque, se existiu império que não ficou atrás (bem pelo contrário) de outros como o Grego e o Romano, foi este. E ainda hoje, tal se nota em cada iraniano, desde o mais letrado até àquele que não foi bafejado com a sorte de uma educação mais formal.

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Uma coisa é certa... De Persépolis, saíremos mais ricos, mais ricos do que se comprássemos qualquer produto de luxo no Harrods. Mais ricos do que se trouxéssemos meia-dúzia de lingotes de ouro na mão!

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Os sentimentos referem-se primordialmente à qualidade do estado de vida no interior "antigo" do corpo em qualquer situação, durante o repouso, durante uma actividade conduzida com um objectivo, durante a resposta aos pensamentos que estamos a ter, quer sejam causados por uma percepção do mundo exterior ou pela recordação de um acontecimento, arquivado nas nossas memórias.

António Damásio, in  "A Estranha Ordem das Coisas. A Vida, os Sentimentos e as Culturas Humanas"

 

 

Tanta chapada de mar... Depois da "Nau dos Corvos" abre-se um novo mundo, um mundo onde sabemos que vamos mas não sabemos se voltamos, acreditamos no mar, acreditamos no destino. Tanta chapada de mar levei em miúdo, agarrado a barcos maiores e a semi-rigídios onde cada vaga nos levantava e a paisagem passava a ser vista de cima.

 

Tantas "ralhadelas", tantas... "Oh Miguel, qualquer vocês matam-me o miúdo"... Mas era tão bom chegar todo molhado - nesse tempo não existiam constipações, não existia medo. Existia boa caldeirada, muitas vezes terminada na lota em Peniche, de onde hoje sai o barco para os turistas. Terminada em Peniche ou em Porto Dinheiro, "Portnhero" como dizem/diziam os locais...

 

Tantas tardes a ver aquele mar bravio, a ver os barcos chegarem, a comer tremoços e pevides, estas últimas descascadas pelo meu pai. Gente de pele queimada, gente de dura faina... Gente que me odiava quando me enrolava nas redes que as mulheres tão habilmente teciam...

 

Fins de tarde na varanda para o Atlântico, fins de tarde no "Chico Neto", fins de tarde nos locais recônditos da Avenida do Mar, onde a caldeirada e o peixe grelhado ou cozido eram bem mais saborosos que em qualquer restaurante.

 

Tantas tardes, tanta amizade, tanta camaradagem... E é tão difícil encontrar essas experiências de criança, hoje em dia. Olhando as Berlengas, talvez aproveite para me colocar na pele daquele miúdo que entre admirava o labor nas traineiras ou a alegre solidão enquanto os primos andavam na pesca submarina. Talvez entre a solidão do semi-rigido e a azáfama das traineiras, e mais tarde de outras "tábuas", encontre aí essa memória, essa companhia dos homens e do mar na tristeza de um mundo que em terra perdeu o seu sentido e a sua humanidade.

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Paisagens de Portugal: Zambujeira do Mar

por Robinson Kanes, em 18.11.19

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     Imagem: Robinson Kanes

 

 

NOSSO É O MAR

Nosso é o mar. Nosso e renosso.

Pla dor, pla teimosia, pela esperança.

Nosso até onde a vista o não alcança.

Nosso até onde é nosso o que for nosso.

 

Mas depois de o ter ganho abandonámos

alma e corpo à fadiga de o ter ganho.

Bartolomeu, não olhes. Não despertes

Do sono que dorme há cinco séculos

 

Já o gume das guilhas não fecunda

teu ventre feminino, Mar aberto.

Falsa energia a nossa! Desflorado

teu sexo, Mar, aos corvos o cedemos

 

Voluptuosa e saudável, tua carne

é convite e oferta como dantes

Nós, mortos! Nós, sem força! Nós, sem fogo,

de uma saudade mole possuídos!

 

Sebastião da Gama, in "Pelo Sonho É Que Vamos"

 

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Paisagens de Portugal: Alcochete

por Robinson Kanes, em 18.11.19

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Imagem: Robinson Kanes

 

Não existem palavras  para uma matéria entre a palavra e a visão pura, há um bloqueio da evidência.

Julio Cortázar, in "Rayuela"

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Manhã de Sábado em Belém...

O Chulo e o Provinciano...

por Robinson Kanes, em 28.10.19

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Claude Monet - Regates a Argenteuil (Musée d'Orsay)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

Doca de Belém... O sol brilha, é Sábado de manhã... Eu não estou a fazer nada, apenas a aproveitar esta luz fantástica enquanto vejo turistas e mais turistas com camisolas falsas de grandes estilistas e com sacos dos pastéis de belém. No meio da azáfama, tento pensar numa estratégia para um projecto avançar. 

 

Viatura estacionada junto às linhas que permitem a passagem daquele carro anfibío que anda pela cidade e respeitando as indicações da Autoridade Portuária. Penso... Penso no projecto. As viaturas vão-se avolumando e a minha viatura acaba por ficar, hipotéticamente a ocupar dois lugares. 

 

É nesse momento que surge um digno trabalhador deste país, vulgo arrumador ou como se encontra nos estatutos da Real Federação Portuguesa de Arrumadores de Viaturas (RFPAV): Chulo! Com uma distância de segurança, profere as seguintes regras do espaço:

 

- Podia mexer carro e tirá-lo daqui, está a ocupar dois lugares e assim a malta não consegue estacionar e eu não posso fazer o meu trabalho. Assim não dá, um gajo não anda aqui a brincar, ests gajos não respeitam ninguém.

 

Penso que o meu olhar pelo espelho foi esclarecedor, porque o indivíduo não mais palavras proferiu. De facto, confesso que me arrisquei, porque a Polícia Municipal, com a gestão do trânsito no local, estava mesmo ali ao lado a presenciar e o nosso profissional da calanzice poderia chamar as autoridades e quem ficava mal era eu. Realmente, esta falta de cidadania...

 

Devo admitir, e por isso peço desculpa, por me ter comportado de modo pouco civilizado e ter gozado com o trabalho dos outros, que é um trabalho louvável, importante para o bem-estar dos cidadãos e para a mobilidade urbana. Aliás, a minha atitude ainda foi mais reprovável na medida em que não lhe dei uns trocos... Muitos trocos! Sim, porque quem estava a pagar rapidamente ouvia o comentário "não tem mais qualquer coisa?". As pessoas andam a trabalhar e têm de ser remuneradas pelo seu trabalho! Uma vergonha, e por isso, publicamente peço desculpa aos legais profissionais do gamanço deste país.

 

Entretanto, e porque Belém é Belém... Escuto isto vindo daqueles indivíduos que até pensam que o facto de viverem na cidade os torna mais "elegantes":

 

- Epá, não sei, eu vou almoçar à EXPO, comer um peixinho, lá é que se come bom peixe, mas vocês é que sabem. Tem de ser, sabes como é... Eh... Eh... Eh... (Eh... Eh... Eh... aquele tipíco Eh... Eh... Eh... do "estás a ver Zé, isto é que é qualidade de vida, isto é que é viver à grande").

 

E nisto, depois do seu ar de pedante sai uma real escarreta para o chão (daquelas que até estalam e parecem santolas quando tocam no chão) e um "pois é cara...". Homem digno, fino e distinto, que come peixe do melhor na EXPO e usa corta-vento náutico para passear junto à doca quando faz um calor que não se aguenta... Que diga palavrões, cuspa no chão, que não saiba sequer remar e ande de corta-vento num dia soalheiro e sem vento só porque está junto ao Tejo, nem é grave... Já é um hábito! Mas caramba, peixe bom na EXPO? Irra! Realmente o que são os restaurantes de Setúbal, Sesimbra, Montijo, Alcochete, Guincho e Ericeira comparados com a EXPO! Esta é imperdoável!

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O país onde não havia natureza...

por Robinson Kanes, em 09.09.19

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Imagem: GC

 

 

Os portugueses são daqueles povos que se podem orgulhar de ter legislação para tudo. Existe uma falha, cria-se imediatamente uma lei para preencher esse vazio ou alguém influente na política comete um crime, cria-se uma lei que permita a fuga desse indivíduo à Justiça. No entanto, quantas leis têm efectivamente aplicabilidade prática? Quantas leis são seguidas e quantas outras não são  mais que um processo de entropia à própria aplicação da justiça?

 

Existem em Portugal, tantas outras leis relacionadas com o ordenamento do território e com o ambiente, mas só aquelas que acompanham o cimento parecem merecer a atenção de quem governa e de quem é governado. O tema ambiente não dá votos! Poderão falar do crescimento do PAN, no entanto, a bandeira deste são os cães e os gatos, não propriamente as políticas ambientais e de sustentabilidade. Os "Verdes" não existem, pura e simplesmente, lembram-me sempre aquelas micro e pequenas empresas que ninguém percebe como sobrevivem perante a ineficiência de vendas e concretização de negócio.

 

Os temas ambientais não merecem destaque porque simplesmente ninguém quer saber! Queremos ter um aeroporto para viajar mais barato e aumentar o turismo de "chinelo no pé", mas não queremos saber os impactes do mesmo no ambiente. Não queremos saber dos Parques Naturais, das Reservas Naturais e muito penas de Zonas Especiais de Protecção. Não estamos preocupados com o processo mais que visível de desertificação e muito menos nos preocupamos se todos os dias alguém faz descargas no Tejo e em outros rios e nada se faz. Ninguém está preocupado com as promessas (e algum trabalho, efectivamente) realizadas no âmbito de pós-Pedrogão e dos incêndios de Outubro daquene ano fatidíco.

 

Um aparte, sei que não acontece com todos, mas não são raras as situações em que já presenciei bombeiros no terreno sem saber o que fazer ou, passo a expressão, "à nora" porque o comando é fraco. Não são raras as vezes que assisto a bombeiros plantados à entrada de localidades à espera de um incêndio que está a quilómetros, porque as ordens passam por desmobilizar a frente e proteger habitações! É importante que não morra ninguém e poucas casas sejam destruídas sob pena dos media serem implacáveis. Até porque, em termos de área ardida, destruição da fauna e da flora, os cidadãos não estão interessados.

 

Deveríamos ter vergonha pelo simples facto do Tribunal de Justiça da União Europeia ter condenado Portugal pelo falhanço na declaração de 61 sítios como zonas especiais de conservação - simplesmente porque ignorou as orientações da Comissão Europeia no âmbito da "directiva Habitats". Será assim tão difícil num país tão pequeno e com prazos tão alargados? Terão os cidadãos cultura ambiental (ou interesse) para exigirem mais dos Governos nestas matérias? Eu envergonho-me de estar num país em que tal acontece, em que Pedrogão e o "Outubro negro" foram óptimos para o mediatismo de muita gente e onde todos os mortos, feridos e envolvidos na tragédia foram completamente ignorados e as suas mortes ou dificuldades acabaram por ser em vão. E hoje como estou em "apartes", não é estranho que o piloto de uma força militar que disse anos a fio (e ainda diz) não ter condições para o combate a incêndios, estar a pilotar um helicóptero privado de uma empresa ligada à indústria do papel? E como este quantos existem? Não é também estranho que um piloto de 34 anos, que mora no Montijo (segundo me foi dado a saber), faz uma "perninha" a pilotar helicópteros privados e ainda é comandante de uma corporação de bombeiros a cerca de 350 km de casa? Como é que se consegue tempo e eficiência para todos estes deveres? Deveres esses que, na sua maioria são pagos com dinheiro de todos nós. Todavia, também não quero, com isto, menosprezar a capacidade de trabalho do profissional.

 

Finalmente, também o Tribunal de Contas arrasou, e voltando ao tema, a ineficiência ou total ausência do plano para a desertificação! Perdoem-me a expressão, mas "caramba que raio anda tanta gente a fazer?". Temo que estes reparos de uma das instituições públicas que melhor funciona fique, mais uma vez, no esquecimento. Não deve ser fácil estar no Tribunal de Contas e ser constantemente humilhado pelo total desprezo político em relação a esta instituição! Num país com cidadania e patriotismo fora de estádios de futebol, esta seria uma das instituições mais acarinhadas pelos cidadãos e que mais apoio teria destes para fazer valer aquilo que agora são meras observações...

 

Portugal talvez seja mesmo o país onde, além de contas claras, não há natureza...

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O "fantástico" dia de ontem...

por Robinson Kanes, em 04.09.19

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Créditos: https://www.psychologies.co.uk/why-we-should-all-say-yes-more

 

 

Estávamos em final de Dezembro... Um emprego estável, no entanto, uma oportunidade que surge. Uma oportunidade diferente, um estilo diferente e um projecto diferente; uma equipa diferente; um indivíduo (aparentemente) bem visto na praça e que até "trabalha" para a União Europeia. Adicionem muito espaço para coisas novas e criatividade. Porque não? Deixam um bom cargo (sobretudo pelos contactos que vos permitia e portas que abria em termos de sair do país), por vezes é bom mudar, mesmo que a vossa crença seja abraçar projectos grandes e preferencialmente multinacionais. Mas se é para fazer a diferença, porque não?

 

O primeiro choque, logo no segundo dia: o escritório pimpão com mesas carregadas de papéis, computadores ligados e abertos, montado para enganar incautos afinal não acomodava ninguém! Pura encenação quando descobrimos que afinal a organização repleta de indivíduos conta apenas com dois - vocês e um indivíduo que é gerente de mil e uma organizações e associações! Cuidado quando agendam reuniões fora da hora de expediente - é um óptimo pretexto para vos dizerem que metade da grande equipa está de férias e a outra já saiu. Não se deixem levar também por websites fantásticos e com muito stock footage.

 

Ao longo do tempo (pois por teimosia, CV e consideração) percebem que as coisas não são como parecem - são encostados e não vos deixam desempenhar nenhum dos papéis para os quais foram contratados! Existem para dar credibilidade à organização, porque tem bons profissionais, mesmo que seja uma organização que nada produz e também não tem interesse em produzir. Para conseguir o salário é uma guerra, negam-se a cometer ilegalidades e extorquir parceiros/fornecedores e são humilhados pelo vosso passado de sucesso. Por outro lado, existe um grupo de indivíduos que gira em torno da organização e do aparecer, vivem disso, bebem disso, evidenciam-se por isso... Vocês insistem no trabalho e dizem que não se podem "matar" estagiários meia dúzia de meses só para se dizer que a organização tem muita gente a trabalhar. Não podemos viver numa política de medo e deixar miúdos a entrar em depressão( depressão? São miúdos!) porque não têm nada para fazer e o assédio moral é constante! Dizem basta! Revoltam-se e as próprias instituições de ensino retiram compulsivamente alguns dos alunos...

 

Um dia, dizem efectivamente basta, o vosso percurso profissional não tem que ficar manchado por estranhos esquemas e ficam cansados de tentar ser profissionais e também profissionalizar a organização - por vezes é bom acreditar que não se pode mudar o mundo! No entanto, é importante combaterem tudo aquilo que não permitiram no passado enquanto estavam em posição de liderança!

 

Solicitam uma reunião, apresentam uma proposta de acordo para abandonar a organização - são quase agredidos e intimidados por indivíduos externos à mesma e têm de chamar as autoridades sob pena de serem agredidos. Recebem no email e no correio, no dia seguinte, uma "suspensão preventiva" como se tivessem sido vocês os responsáveis, mesmo que tudo o que está escrito diga precisamente o contrário, começam as ameaças com advogados e uma política de intimidação (esquecem quem está do outro lado, mas enfim). No entanto, existem indivíduos, sobretudo em Portugal que só perante uma sentença judicial (e nem assim) acabarão por perceber que iniciaram uma guerra perdida - contudo, a tacanhez faz isto, há que ir até ao fim só para estragar a vida de alguém... Good luck with that...

 

Hoje é dia de reflexão e de alívio! Amanhã é dia de arregaçar as mangas e segurar a vontade de ser rápido a superar pedindo favores a este e àquele. É dia de ir atrás daquilo que se defende e acredita, é dia de ir à luta pelos meios mais difíceis mas também mais tranquilos em termos de espírito - sou teimoso, não gosto de dever e muito menos de criar pontas soltas que podem um dia quebrar a minha transparência...

 

É também dia de relegar uma guerra que se avizinha para segundo plano e seguir os trâmites da legalidade. É acreditar no que os estrangeiros com quem trabalhei sempre me disseram - keep the focus, mesmo que a queda seja grande!

 

É apostar no futuro, até porque a meu lado tenho sempre quem nunca me deixa cair... E só isso, é o suficiente para nunca, mas nunca, baixar os braços e deixar de acreditar no que é correcto! Amanhã é outro dia e o mundo não vai acabar por isto, bem pelo contrário!

 

Por isso ontem, aquele Moscatel me soube tão bem...

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Ribadesella e uma Praia Asturiana...

por Robinson Kanes, em 19.08.19

ribadesella_asturias.jpgImagens: Robinson Kanes

 

A vida é feita, bem o sabemos, de pequenos nadas que é o que mais conta para o nada que somos no fácil e correntio.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente III"

 

As montanhas estão cada vez mais perto, aliás, em Llanes já se mostravam na sua supremacia terrestre suprema mas, e embora uma paixão pela altitude e pelos mistérios dos montes, custa-nos deixar o mar... E é por isso que seguimos o "Sella" até Ribadesella!

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Custa-nos deixar o forte aroma que vem do Cantábrico e talvez por isso fiquemos presos a Ribadesella, mais um pequeno porto, mais um pequeno estuário, mais um encontro entre os pálidos rios da montanha e o mar em toda a sua força - até "esquecemos" o Património da Humanidade, a "Cueva de Tito Bustillo" e nos deixamos encantar por um passeio na marginal junto ao rio (o "Sella"). Caminhamos até onde este beija o mar, uma caminhada na areia ("Playa de Santa Marina") onde também partilhamos um beijo celebrando esse encontro e onde o vento faz convidado.

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Ribadesella é aquele local de veraneio com cariz de norte da Europa, afinal os Picos da Europa estão mesmo ali, Cangas de Onis (uma das portas de entrada) é bem perto... As casas demonstram um apetite das famílias pelo local e também da própria aristocracia, afinal estamos num Principado onde a comunhão de um povo de forte e nobre raça se une a uma aristocracia secular.

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Mais uma sidra? Ainda é cedo e a tortilla de Llanes ainda faz "estragos" no estômago. Contemplemos o mar e aproveitemos para percorrer a cidade, junto às docas, cheira a peixe fresco que trocou as caixas de madeira pela esferovite...

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Despedimo-nos de Ribadesella com um até já, até porque temos curiosidade com o pôr-do-sol. Mais uns quilómetros, mais uma alteração de planos, se é que os mesmos existem... Não resistimos, contudo, e queremos terminar a manhã junto ao mar... Acabamos junto a uma praia, uma praia asturiana com uma "Estrella Galicia" na mão e um sorriso a cada gole enquanto alguém, ao longe... tal como nós, conversa com o mar e deste recebe em troca toda a sua venustidade. Recordo Michael Nyman, aliás, Michael Nyman pelas mãos de Valentina Lisitsa com "Time Lapse" - banda sonora do filme "A Zed & Two Noughts". Porquê? Não sei... 

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its-always-sit-peter-steine.jpgCréditos: https://condenaststore.com/featured/its-always-sit-peter-steiner.html

 

Defende-se uma doutrina com a mesma tenacidade e idêntica paixão que se procura preservar esta contra a aniquilação ou uma perspectiva comprovada ou o saber de uma  cultura antiga depurada mediante a sua selecção. Quem não está de acordo com tal opinião, sofrerá a sua parte, pois será estigmatizado como herege, será caluniado, e se possível será desacreditado, em suma, descarregar-se-á sobre ele a reacção altamente especializada do «mobbing», do ódio social.

Korand Lorenz, in  "Os Oito Pecados Mortais da Civilização".

 

 

Confesso que esta semana tinha em mente continuar com uma escrita mais polite, digamos assim. O lado bom é que não se arranjam inimigos e inimizades na gestão, no entanto...

 

No entanto, já começa a ser exagerado esta preocupação com o que se passa no Brasil e nos Estados Unidos da América (EUA), como se o que estivesse a acontecer em ambos os países fosse alguma espécie de novidade (basta um pestanejar fora de contexto e temos o caos montado) - e contra mim falo que ligo mais ao que se passa lá fora do que às pequenas coisas que por cá ocorrem, já que às grandes, todos passam ao lado.

 

Mas enquanto andamos a criticar a polícia montada nos EUA que prende um indivíduo e o leva atado a uma corda para a esquadra deixamos que o Governo vigente e o presidente cool de Portugal continuem a defender a existência de portugueses de primeira e de segunda (e em alguns casos de terceira). Preferimos lamentar um atentado (e bem) mas não deixamos a toalha de praia enquanto o país arde! Terrorismo é invadir uma academia de futebol, incendiar um país é um lapso, invadir supermercados e esquadras de polícia são crimes menores. Terrorismo é termos um primeiro-ministro que não se mostra para não prejudicar a imagem e envia o Ministro da Propaganda Iraquiano, Augusto Santos Silva, o porta-voz de todos os Governos PS dos últimos anos - todos sabemos como Santos Silva se mexe nos media. Importa lembrar que Augusto Santos Silva é Ministro dos Negócios Estrangeiros mas tem tido a palavra em tudo o que é assunto/escandaleira de política nacional. Santos Silva diz "assunto encerrado" e todos os media se calam!

 

Mas voltando ao Texas... É isso, estamos no Texas (ao menos tivessem assistido ao "Walker, O Ranger do Texas") - esta gente urbana vê alguém com um chapéu à cowboy e pensa que o Texas é uma espécie de Namíbia! Até aqui se vê um Portugal a duas velocidades de pensamento. Na Venezuela, na Coreia do Norte, na Rússia ou na China aquele senhor teria sido imediatamente abatido ou transportado com os queixos a bater numa unimog! Trump também se enganou no nome da cidade onde teve lugar recentemente um atentado e é o colapso em Portugal! Pelo menos Trump tem um país daquele tamanho para pensar, por cá, com meia-dúzia de quilómetros, muitos nem sabem onde ficam as principais cidades do interior. Reforço, não sou defensor de Trump...

 

O selfie man demonstra também que ainda não perdeu os tiques corporativistas que traz do Estado Novo e "aumenta" os juízes em 700 euros! Não está mal, afinal também deixou que passassem dois ordenados mínimos, um para funcionários públicos e outro para cidadãos de segunda. Interessante em Marcelo é que aprova e depois condena, uma espécie de assassino da Democracia que dispara o tiro contra a senhora mas depois diz que não é bem assim que as coisas devem ser... Se isto não é populismo ou conivência com uma política podre, não sei o que será! Não esqueçamos que é este mesmo senhor que acha que sabe mais que o Tribunal Constitucional. Um dia admirem-se da ascensão do populismo que tanto temem... Só lhe estão a dar espaço.

 

Marcelo também é especialista em dividir o povo, já o fez em vários episódios e agora está a fazer o mesmo com os motoristas, tentando virar o país contra estes, agora até tem a companhia do raríssimo Vieira da Silva (alguém que num país verdadeiramente democrático já estaria preso!). Já não é a primeira nem a segunda vez que Marcelo o faz, seguindo a tendência do Governo! Que o Governo o faça, até se entende, mas um Presidente da República? É feio, é desonesto, já para não mencionar o contínuo desrespeito pelas polícias (excepto pela GNR, guarda pretoriana do regime) e pelos militares - não tivessem sido estes a destruir o seu sonho de ser Presidente do Conselho antes do 25 de Abril. Marcelo vai sorrindo cinicamente dos portugueses enquanto vai actuando na sombra! Marcelo só não se revolta com algumas figuras públicas com muitos telhados de vidro, com a Igreja, com as rádios e televisões e claro, com a "bola", onde o perdão de impostos e a corrupção é uma coisa aceitável, defendendo inclusive esse atentado (terrorismo político?) com compromissos internacionais. Nem a humilhação na OCDE mudou a atitude deste senhor que se vai comportando como uma espécie de político mexicano comprado pelos cartéis da droga, qual filme americano dos anos 80 sobre estas temáticas.

 

Reafirmo, não percebo a critica ao que se passa no outro lado do Atlântico, ou pelo menos o exagero. Nos EUA, Trump, o alvo perfeito, e Bolsonaro porque uma pseudo-elite brasileira (não todos os brasileiros) que se instalou em Portugal parece monopolizar a opinião em muitos media e até no panorama cultural nacional. No entanto, na Rússia, estamos a assistir à aniquilação da oposição e à tomada de poder no sentido de reactivar a União Soviética: Crimeia e Geórgia que o digam! Silêncio total... É mais fácil falar de encontros nacionalistas e querer uma democracia desde que seja com a minha vontade e lei. Não vejo ninguém a criticar as brigadas anti-fascistas e de extrema-esquerda que desfilam pelas ruas deste país, qual legião hitleriana invertida aquando do 1º de Maio, 25 de Abril e outras tantas manifestações. No entanto, vejo muitos destes criticos a partilharem as democráticas fotos das férias em países autoritários como a Tailândia, China, Vietname, Laos e Emiratos Árabes Unidos!

 

Debate em duas direcções precisa-se... Agora chamem-me o que quiserem, mas recuso ser alguém cuja embriaguez democrática atinge de tal forma o pensamento que o transforma num caos totalitário! Citando um dos grandes heróis de muitos destes senhores, Lenine, cada vez mais "a liberdade é um bem de tal modo precioso que tem de ser controlado", sobretudo face àqueles que a estão a usar para imporem o seu autoritarismo camuflado de bondade. Isto acontece sempre que a política se julga intocável e as pseudo-elites intelectuais julgam ter a desenvoltura mental que o comum dos mortais não consegue atingir!

 

P.S.: Deixo duas questões: Sr. Presidente, alguém em Maio/Junho prometeu o "fim" da corrupção em Julho, já estamos em Agosto? Como comentador profissional e autor dessa promessa, terá algo a dizer? Também prometeu que não se recanditaria se as tragédias dos incêndios se repetissem - em que está  pensar? Monchique, Mação, Vila de Rei e tantas outras tragédias com feridos e mortos, não são tragédias, são meros churrascos? Cuidado, não se faz política com a carne queimada daqueles que foram apanhados pelo desleixo do Estado. E ainda falta Tancos...

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