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Sindemia ou Pandemia?

por Robinson Kanes, em 15.10.20

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Créditos:https://www.nationalheraldindia.com/national/by-2021-as-many-as-150-mn-people-likely-to-be-in-extreme-poverty-due-to-covid-19-world-bank /

 

Over coming  weeks - yes. In the long-term, probably not permanently, but other epidemics are certainly possible.

Eli Fenichel,  PhD, Professor Knobloch Family de Economia dos Recursos Naturais na "Yale School of the Environment". 

 

 

Emantilhados num ruído em torno do SARS Covid-19, começamos a questionar tudo aquilo que nos chega ou simplesmente a ignorar.  No entanto, um artigo recente da publicação "The Lancet" e cujo conhecimento me chegou através da BBC, levantou-me alguma curiosidade acerca da forma como abordamos esta pandemia - mas será uma pandemia? 

 

Neste artigo, Richard Horton, que não é propriamente um Buescu, alicerçado em várias análises cientificas acaba por defender que mais do que analisarmos a pandemia à luz de modelos matemáticos com base em situações como a "gripe espanhola" ou focarmo-nos no corte das cadeias de transmissão e instrumentos "obsoletos" como as quarentenas, devemos encarar a actual realidade como uma sindemia. Aliás, Horton vai mais longe e alerta que uma potencial cura ou vacina pode não ser suficiente se não foram reunidos alguns pressupostos fundamentais.

 

Estes pressupostos passam, e começando na base, por abordar a pandemia como uma sindemia, ou seja, "deixamos de lado" o foco no corte das cadeias de transmissão e focamo-nos em algo mais global. Sindemia (sinergia + pandemia), e de forma simples, é a interacção de duas ou mais doenças que provocam danos ainda maiores do que a soma de ambas as doenças. Com isto, não quer dizer que uma das mais prestigiadas revistas de medicina do Mundo esteja a adoptar uma atitude negacionista face à pandemia, mas sim a desenvolver uma abordagem mais vasta (já com sucesso, nomeadamente em relação ao HIV e à obesidade) e que inclui além do factor biológico propriamente dito, as questões sociais, o meio-ambiente e a economia, por exemplo. Podemos perceber, por exemplo, porque é que Ayuso teve de proceder aos tão contestados confinamentos locais nos bairros mais pobres de Madrid. 

 

Na realidade, Horton não descobriu a pólvora ao afirmar que a incidência de óbitos ocorre em indivíduos em situação de fragilidade social, com parcos rendimentos, em territórios vulneráveis ou em ambientes poluídos. Acrescentaria também algumas patologias associadas a comportamentos mais comuns ao primero mundo, por exemplo, a diabetes. Isto é senso comum em relação a qualquer situação, mesmo apesar da doença e a morte serem as coisas mais democráticas que temos, como diria um conceituado professor do curso de Psicologia da Universidade de Coimbra.

 

O que me deixa intrigado com esta "não descoberta" (sem com isto lhe retirar importância, bem pelo contrário) é o facto de estarmos perante uma quimera, ou seja, a aposta na resolução de vários problemas de saúde e acesso à mesma no Mundo. A redução das desigualdades sociais, o acesso a cuidados de saúde básicos, o aumento do awareness em relação a determinados factores de risco, a redução dos níveis de poluição e tantas outras situações, são fundamentais para reduzir os óbitos por Covid-19.

 

Será que no meio da desgraça temos mais uma oportunidade de criar modelos que reduzam as desigualdades sociais? Será que a "não descoberta da pólvora" mostra-nos que vivemos num Mundo recheado de pandemias até mais graves do que aquela que enfrentamos?... Como se todas as outras tivessem entrado em hibernação... E será que num mundo mais egoísta saída da epidemia, haverá abertura para apoiar, nesta matéria, os países menos desenvolvidos?

 

Esta abordagem mais holística, poderá não ter efeitos imediatos, mas no futuro poderá ser um reforço importante em termos de combate a Covid-19 e a tantas outras doenças, todavia, entramos numa espécie de dilema, ao estilo "acabar com a fome no Mundo", e sabemos como isso é impossível. Todavia pode ser um passo importante, sobretudo se o pressuposto de que uma vacina pode não ser a solução final para este vírus.

 

Fica aqui o artigo completo (pdf) onde também poderão encontrar uma definição mais aprofundada do termo desenvolvido por Merril Singer e informação mais pormenorizada.

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