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Shiraz: Cidade dos Jardins e dos Poetas!

por Robinson Kanes, em 14.11.19

shiraz_iran-2.jpg

Imagens: Robinson Kanes

 

 

Apesar de distarmos cerca de 1000Km de Teerão, continuamos a quase 1600m de altitude! Embora não pareça, dentro da cidade temos até a sensação de que estamos numa planície. E pensar que ainda nos faltam pouco mais de 550km para chegar a Bandar Abbas, no Estreito de Ormuz.

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Aterramos, literalmente, na capital da província de Fars: Shiraz, ou Xiraz. Já sentimos o forte calor da terra, é de madrugada mas é a hora em que o solo respira e a humidade é uma presença que não deixa a nossa respiração e os tecidos que nos cobrem indiferentes. Esta é uma das cidades mais antigas da Pérsia, tem mais de 4000 anos (registos actuais) e acompanhou todas as "revoluções" que possamos imaginar ao longo da história desta região. Chegou inclusive a ser a capital durante a dinastia Zand erguida por Karim Khan - os Vakilol Ro'aya, ou "defensores do povo" como se intitulavam e que criaram, pelo menos em termos de imagem, uma oposição a um certo sentimento de autoritarismo.

shiraz.jpg

Estamos também na Rota da Seda e Shiraz foi um importante entreposto, sobretudo pela sua localização e  interface entre a rota marítima e a rota terrestre. Andamos por terras que os imperadores aqueménidas, sobretudo Xerxes e Dario ajudaram a erguer e a dinamizar comercialmente. E encontramo-nos a cerca de 60Km de Persépolis, outro sonho (lá iremos)... Estaríamos meses a falar sobre a história da região, por isso, nada como nos deixarmos encantar pela "Cidade dos Jardins" como é conhecida. "Cidade dos jardins" e "cidade dos poetas", pois é também a terra de Hafez (que iremos escutar mais tarde a ser declamado perto do bazaar) e de tantos outros... E por mera curiosidade, foi também aqui que nasceu Siyyid `Alí Muhammad Shírází, o inspirador do Babismo. 

shiraz_iran.jpg

Andar pelo Irão é inalar história, é tropeçar em cultura, é fazer uma travessia pelo quase nascimento da civilização até aos dias de hoje, contudo, com uma riqueza que muito poucos países/regiões acompanham. Contudo, é em Shiraz que estamos e é em Shiraz que queremos percorrer as ruas, conhecer gente que terá muitos dos seus genes num passado rico e singular.

shiraz_iran.jpg

E em Shiraz essas ruas são movimentadas, é mais uma daquelas cidades iranianas que se deita tarde e em alguns pontos questionamos se chega realmente a dormir. Quem descansa em paz, e na terra que o viu nascer, é o próprio Hafez que se encontra sepultado a norte da cidade, mais precisamento nos jardins de Musalla. Quiçá o poeta e herói (no Irão os poetas são heróis) esteja a pensar como os seus poemas influenciaram a sociedade iraniana e não só, como ainda hoje são um elogio ao comportamento da natureza e da Humanidade. O muezim chama, é hora da oração, não sem antes prestarmos a devida homenagem ao poeta no seu mausoléu e com a protecção da grande "Cordilheira de Zagros" que nos seus 1500Km tem início entre a Turquia e Iraque e termina no Estreito de Ormuz. Fascina-nos fazer parte também dessa natureza, até porque a vamos reencontrar e testemunhar a força da sua extensão e altitude.

hafez_shiraz_iran.jpg

Enquanto caminhamos pelas ruas não dispensamos também uma passagem pela Karim Khan, a Cidadela que nos fascina pelos seus relevos e torres inclinadas - a conselho de um local, visitamos também ao pôr-do-sol, pois é quando se torna mais bela e onde muitos habitantes da cidade se reunem para confraternizar, além disso a sua proximidade com o Vakil Bazaar, o maior de Shiraz, é um atractivo extra.

shiraz_iran_hafez.jpg

Voltamos ao final da tarde, início da noite, é hora de nos sentarmos perto de Karim Khan e sermos abordados por um sem número de pessoas. As crianças querem posar para a fotografia. Acabamos por conhecer um turquemeno e torna-se impossível não termos sido remetidos para a história das tribos turcas do hoje cazaquistão e que ocuparam aquele território no século X. É viajar no tempo estando no presente... É único e ocupa-nos muitos minutos de conversa, sobretudo com o auxílio de um iraniano que vai servindo de tradutor. Nós, os portugueses, um iraniano e um turcomeno, sentados na cidadela a estudar história, ou melhor, a senti-la e a quebrar todas as barreiras fronteiriças e religiosas.

Karim_khan_shiraz_iran.jpg

Deixamos aquele local e seguimos para o Vakil Bazaar, não mais que cinco minutos... E, mais uma vez, deixamo-nos contagiar pela número de tecidos, ou não fosse Shiraz um importante entreposto da Rota da Seda. No entanto, e para não variar, o que mais nos fascina são as especiarias, as frutas e os frutos secos. Abastecemo-nos de sumac ou sumagre, e recordamos a Turquia... O aneto abunda e também não o deixamos fugir (ainda não sabemos o que fazer com tanto, mas que é do outro mundo é...),  e não esquecemos mais alguns temperos porque hoje queremos cozinhar umas almôndegas de carne e vegetais, "khofteh". Compramos várias misturas e claro, voltamos ao açafrão Iraniano, o ouro que nem sempre é fácil de encontrar se quisermos qualidade.

vali_bazaar_shiraz.jpg

São horas de sair, deixar que o canto dos pássaros que se encontram em algumas gaiolas na extremidade do bazaar se fiquem com as vozes de comerciantes e compradores... Não são mercados ruídosos como noutros locais, nomeadamente Marrocos ou até Turquia, mas têm a magia dos iranianos e isso é mais que suficiente para que um sem número de sons se funda sem um se sobrepor ao outro.

kharim_khan_iran_shiraz.jpg

As "almôndegas" ficaram óptimas e agora é hora de descansar, o dia amanhã promete numa cidade que respira o perfume da História...

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35 comentários

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MJP a 14.11.2019

Olá, R.! :-)

Muito Obrigada pela partilha! ADOREI!!! :))

"o que mais nos fascina são as especiarias, as frutas e os frutos secos"
(também pertenço a esse "clube"!!! ;-))

Beijo
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Robinson Kanes a 14.11.2019

Hi MJ,

Admito que já não tenho muita apetência para as bugigangas. Salvo excepções e coisas que só se encontram em determinados locais, ou eventualmente peças especiais.

O problema é que se gasta bem mais e perde-se mais tempo em provas e regateios :-))))

Beijo,
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MJP a 14.11.2019

Como te compreendo!!! ;-))
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Anónimo a 14.11.2019

Um País incrível ,pessoas amistosas ,artesanato sem igual, uma cultura superior .Gostei muito do Irão.
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Robinson Kanes a 14.11.2019

Sem qualquer dúvida!
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Luísa de Sousa a 14.11.2019

Obrigada Robinson por mais uma viagem convosco!!!
E que lindas fotografias!!!

Beijinhos
Resto de um Dia Feliz!
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Robinson Kanes a 14.11.2019

Obrigado!

Uma noite tranquila!
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cheia a 14.11.2019

Que ótimo passeio! Muito obrigado.

Um abraço
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Robinson Kanes a 14.11.2019

Obrigado, José!

Um abraço,
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C.S. a 14.11.2019

Adorei! Que belo passeio que eu dei ao ler-te.
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Vorph Valknut a 15.11.2019

Espetacular descrição!!

Só uma pergunta:

Falaste de Dario e Xerxes, mas não de Ciro. Ciro, O Grande, rei persa que libertou os judeus do exílio da Babilónia. Talvez o único rei estrangeiro louvado no Antigo Testamento. Ciro, que segundo Heródoto, foi levado, em criança, para as montanhas, para morrer e que tendo sobrevivido regressou como Zarathustra.

De referir que o Cristanismo está pejado da simbologia do Mitraísmo, religião persa, que influenciou, grandemente, o Império Romano, sobretudo entre os legionários. O 25 de Dezembro era/é uma das suas mais importantes.

Belo, Kanes. Belíssimo.
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Robinson Kanes a 15.11.2019

Para Shiraz, estes têm um papel mais decisivo, mas espera por Dario..
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Robinson Kanes a 15.11.2019

Publiquei o outro sem querer. Espera por Dário, terá o seu tempo. Aliás, os zoroastras também. Cenas de um próximo capítulo :-)
O Cristianismo pautou-se por absorver ou transformar seu muito do que foi do zoroastrismo, de outras religiões e até do profano...

Obrigado pelas palavras, vindo de ti é uma grande alegria, até porque sou um mero curioso :-)
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Vorph Valknut a 15.11.2019

O 25 de Dezembro era/é uma das suas mais importantes datas
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Vorph Valknut a 15.11.2019

Susa, Sardes, Ecbatana... Os Medos e os Persas... Vou recordando-me da Pérsia, que li há muitos anos.

Próximo daí tens Samarcanda, cidade icónica e a estrada de Pamir...

https://youtu.be/pj-ONg-09Dg

Abraço e é um gosto ler-te
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Robinson Kanes a 15.11.2019

Samarcanda no Uzbequistão é um mundo, mas quase toda reconstruída como uma grande maioria dos templos que ficaram, por lá, séculos ao abandono :-(

Obrigado por enriqueceres isto :-)
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Vorph Valknut a 15.11.2019

Ora essa. Corro é o risco de parecer pedante. Aliás, talvez o seja

Abraço
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Robinson Kanes a 15.11.2019

Ligeiramente, sim :-))))))))))

Abraço,
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Vorph Valknut a 15.11.2019

.

A sorte é que tenho consciência do meu. Mas olha, que para podermos ser pedantes há todo um longo e penoso trabalho para trás. A vantagem é que, aos jantares, as conversas fluem como rios tintos.

Abraço
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Robinson Kanes a 15.11.2019

"Também é intelectual? Sou, bastante" :-))))))

Também é verdade, mas depende da companhia, quando o pedantismo tem bafio, ninguém atura ahahhah


Abraço,
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Vorph Valknut a 15.11.2019

Aqui só para a gente. Gosto de estudar, ler, mais para picar, do que para aprender, percebes?
Aos 42 anos sei que mais de metade do que li, ou digo, vale lixo, mas disfarço, como ninguém, a minha incredulidade:)) ...até sou capaz de falar alto, ficar vermelho…"assim não...o que é isso?...ponha-se na rua!!" Conforme a estação gosto de vestir-me com o facho, outras, com foice, mas do que mais gosto é do martelo
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Robinson Kanes a 15.11.2019

"Epá" eu é mais para aprender, mas percebo o que queres dizer - sobretudo é bom picar, porque hoje em dia muitos falam, mas poucos sabem realmente. Percebo, e bem metida ;-)

Eu acho que ainda não sei nada, e isso frustra-me :-)

As águas ou se agitam do centro ou desde os extremos :-)

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Vorph Valknut a 15.11.2019

"Eu acho que ainda não sei nada"

Tenta começar pelo principio. Não atalhes caminho. Isso do nada sei, só vem no final, com os créditos.

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