Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Salobreña e a Morte de Aben Hacén.

por Robinson Kanes, em 06.02.17

IMG_6031.JPG

 

Para quem agora chegou ao campo de batalha, deixo aqui o início das hostes:

 

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/aben-hacen-e-zahara-17518

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/el-zegri-e-ronda-18287

 

Com Muley Aben Hácen cada vez mais doente, a luta pelo trono de Granada intensificou-se e as tensões internas também. As duas facções, uma fiel a Boabdil - que era, por sua vez, fiel à coroa de Castela e Aragão e se encontrava em Córdoba junto dos reis católicos - e uma outra fiel ao Zagal (Abū `Abd Allāh Muhammad az-Zaghall), tio de Boabdil e irmão de Aben Hacén, disputavam o Governo de Granada.

 

Todavia, uma grande viragem iria ter lugar. Com o estado de saúde de Aben Hacén a degradar-se, o Zagal decidiu, estrategicamente, enviar, sob o pretexto de dar melhores condições ao enfermo, a família próxima e o próprio Aben Hacén para a fortaleza de Salobreña.

 

Granada ficaria agora sob alçada do Zagal, sobretudo porque Aben Hacén, a sultana e os seus filhos ficariam, de certo modo, presos e sem capacidade de mover os seus partidários em Granada.

 

Salobreña é um daqueles locais em que qualquer um de nós gostaria de estar preso. Da sua fortaleza, é possível ter uma imagem singular, pois de um lado temos as calmas águas do Mar de Alborão (parte mais ocidental do Mar Mediterrâneo) e do outro, ficamos ansiosos por nos perdermos nos cumes da Serra Nevada. A tranquilidade da mesma é, por certo, o mote para, sobre um raio de sol, contemplarmos a magia e a história que o Mediterrâneo guarda. Ficamos perante uma espécie de culminar de beleza natural antes de Almuñecar e Nerja. Se por um lado, a "varanda da Europa" está em Nerja, por outro, a "fortaleza da Europa" está em Salobreña. O Mediterrâneo, ali tão perto como caminho de águas calmas para o Norte de África. As águas que trouxeram a nossa herança árabe e as mesmas águas que levaram muitos destes povos para lá do Atlas.

 

Lendo a “Crónica da Conquista de Granada”, podemos imaginar a morte com um sorriso de Aben Hacén e os pensamentos trágicos em relação ao futuro, que todos os seus próximos, sobretudo a sultana, terão visto ser desencadeados nas suas mentes.

 

IMG_6027.JPG

Aben Hacén morreria pouco tempo depois de chegar a Salobreña, usufruiu, talvez, de uma espécie de paraíso terreno antes da morte... morreria junto dos seus e já não assistiria ao envio de todos os seus tesouros para Granada. O Zagal, conta-se, terá ordenado que o corpo de Muley Hacen fosse transladado sobre uma mula e sepultado sem qualquer espécie de honras, garantindo que a cerimónia decorresse em segredo de modo a evitar agitações populares. Consta, segundo a crónica, que cita um outro cronista, que foram dois prisioneiros cristãos que depositaram o corpo no ossário real.

 

Vinham mais convulsões internas a caminho e que seriam prejudiciais para o futuro do tão formoso e rico Reino de Granada. 

 

Uma curiosidade, alheia à crónica, prende-se com o facto de, em 2006, Salobreña ter visto fechar o último engenho de açúcar ainda existente na Europa continental.

 

Fonte das Imagem: Própria.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


26 comentários

Imagem de perfil

Sónia Pereira a 06.02.2017

Muito interessante. Suspeito que os teus posts sobre a Crónica da conquista de Granada ainda sejam mais envolventes do que o livro que estás a ler. Até na morte, a morte de Hácen, conseguiste incutir uma certa poesia. Fizeste-me ainda ansiar por algo impossível: viajar por um reino que já não existe, por um tempo que já se foi.
Imagem de perfil

Robinson Kanes a 06.02.2017

Obrigado. Acho que não tenho essa capacidade, contudo não me deixo contagiar, e penso que Irving também não, do louco elogio aos cristãos perpetrado por Agápida... este chega, aliás, a defender que ainda bem que muitos são assassinados, presos ou queimados na fogueira.

Sim, esse reino não existe, mas pode existir na nossa imaginação. Sobretudo na Andaluzia, ainda se respira muito o que é árabe. O tom de pele, os hábitos, a cultura e até a língua... o modo como um andaluz fala e se expressa ainda tem muito de árabe, não só na respiração, quando se prepara para dizer uma palavra, mas também no corte que faz da mesma... por exemplo... ao invés de dizerem Cádiz, dizem Cádi...

Comentar



Mais sobre mim

foto do autor





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog





Mensagens

Copyrighted.com Registered & Protected 
CRD7-BFJD-IWHB-ZXDB