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Ruído de Vizinhança - Uma Praga que "Mata"

por Robinson Kanes, em 12.11.19

Willem Witsen - De Voorstraathaven in Doordrecht (

Willem Witsen - De Voorstraathaven in Doordrecht (Rijksmuseum)

Imagem: Robinson Kanes

 

 

 

Mas realmente, basta um, que mantenha a cidade obediente, para executar tudo aquilo em que agora não se acredita.

Platão, in "República"

 

Portugal é daqueles países em que existe a tradição de produzir muitas leis, o que leva ao velho problema das mesmas serem uma obstrução à própria justiça e ao próprio bem-estar entre os cidadãos. Uma das leis está relacionada com o ruído de vizinhança que, raras vezes, tem um efeito disuasor sobre quem pratica actos que prejudicam os demais.

 

O ruído de vizinhança ainda é um tema tabu, mesmo que afecte uma vasta camada da nossa população. Os efeitos são nefastos, quer em termos de produtividade quer em termos de saúde mental e ambiente familiar. Não são raros os casos, e não preciso de recorrer a estudos, em que famílias se desintegram, têm problemas de sono e de stress e cuja produtividade no trabalho sai claramente afectada.

 

Na realidade, se em Espanha nos podemos queixar do ruído nas ruas (e não é em todas as cidades), por Portugal podemo-nos queixar do ruído dentro dos apartamentos - existe uma clara sensação de impunidade de muitos (muitos mesmo) portugueses em relação a esta matéria, até porque as autoridades policiais pouco mais podem fazer do que levantar autos, quando o fazem. Os casos que chegam aos tribunais tornam-se morosos e dispendiosos e as coisas ficam como estão. 

 

A impotência dos lesados é tal que existem milhares de casos em que a saúde mental é afectada de tal forma que o acompanhamento médico é recomendado ou então o velho e estúpido recurso (tão português) do "quem está mal muda-se". 

 

Indivíduos cujo volume da música parece a de um festival de verão, indivíduos que falam/gritam alto independentemente de ser dia ou noite, o arrastar constante, as jantaradas com o pretexto do "é fim-de-semana" e as crianças ("afinal são crianças") que correm e gritam sem que os pais façam algo são apenas alguns dos exemplos que podemos ver por aí. Também não são raros os casais que ficaram a "odiar" crianças por motivos relacionados com o ruído. Em Portugal já estamos a ter o reflexo da infantocracia vigente, mas também é tema tabu e ai daquele que se atreva a falar sobre isso...

 

Recordo também as abordagens para que se faça silêncio e do outro lado surge uma reacção hóstil. No entanto, também ocorre o contrário e perante determinados exageros e inacção da justiça, não são raros os casos de aplicação da "lei de Fafe". Sou totalmente contra, mas se nos colocarmos na pele do condenado de Victor Hugo talvez consigamos nutrir alguma sensibilidade em relação a este.

 

Não somos um povo com respeito pelo próximo, é um facto. Estamos a perder a noção do que é viver em comunidade e temos a lógica do "eu primeiro, os outros que se danem" e isso tem consequências na nossa sociedade.

 

Associada a estas questões, junta-se a má construção do parque habitacional. Agora preocupa-nos em ter casas, sobretudo nos concelhos do Barreiro, Moita e Seixal que possam estar isoladas ao ruído por causa de um hipotético novo aeroporto (ridículo), mas não nos lembramos de inspecionar e punir os construtores que, mais uma vez à boa maneira portuguesa, se esquecem que as casas precisam de isolamento acústico e térmico. Em termos pessoais, também nunca percebi a paixão dos portugueses por pavimento flutuante e parquet, que afinal nada isolam e são um enorme foco de ruído.

 

Finalmente, temos uma outra questão que são as autorizações dadas a alguns estabelecimentos para que exerçam a sua actividade em prédios habitacionais. E estabelecimentos desses nem são os tradicionais cafés mas, por exemplo, os infantários ou a praga de infantários disfarçados de centros de estudo - porque de outro modo não teriam autorização da Segurança Social e dos municípios. Até deixo um conselho, se querem acabar com o ruído destes e até encerrar os mesmos, nada como a queixa na Segurança Social antes do município. Muitos destes casos existem, mais uma vez, porque o compadrio é parte da nossa sociedade e quem conhece o amigo do amigo... Dou um exemplo que uma câmara municipal autorizou uma salão de festas num prédio habitacional! Um salão de festas no R/C de um prédio com cerca de 4 pisos!

 

Com tantos partidos preocupados com a natureza, os animais e os cidadãos (será que algum o é?), que aprovam leis à pressa e com maus resultados tal é a ausência de uma análise profunda, estranho que ainda nenhum se tenha debruçado sobre este problema que afecta em muito a qualidade de vida dos portugueses. Há quem diga que os deputados não têm este tipo de problemas... Compreendemos o porquê.

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29 comentários

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Calimero a 12.11.2019

Muito verdade o que dizes sem duvida!

Deixa-me so acrescentar que infelizmente que quem faz as leis e estou a generalizar na maior parte das vezes não tem noção sequer de como a mesma pode interferir ou ser racional na vida das pessoas..

Talvez um dia aborde um tema na primeira pessoa sobre a irracionalidade das nossas leis…

E para meu bem neste caso...dos vizinhos considero-me uma sortuda já que os que tenho na maior parte das vezes ate fecham a porta para não nos cruzarmos..logo e como se não tivesse..


Enfim…

Beijinhos Kanes, e votos de um dia feliz!
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Robinson Kanes a 12.11.2019

As leis, não raras vezes, são feitas por grupos de trabalho de secretaria que não conhecem a realidade... Um pouco como aquela história do "se queres ver a tua empresa prosperar contrata uma dona de casa para a administração".


Fico à espera :-)

Isso é que é triste, sabes... Não sou de grandes relações com vizinhos, mas confesso que me deixa perplexo essa total distância, quando aquilo que nos divide é uma parede de tijolo.

Beijo e Feliz Dia,

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Calimero a 12.11.2019

Nem imaginas quanto "triste" são os ditos!

Talvez um dia conte detalhes!

Estes "vizinhos" aqui sem nos conhecermos são todos mais bem formados e íntegros que estes não duvides!

Beijinhos Kanes dia feliz para ti também!

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Robinson Kanes a 12.11.2019

Imagino, olha que imagino :-)))))

Tens de escrever sobre isso... E acredito que sim, mas não digas "todos" ahahahahahaahah

Beijo,
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Calimero a 12.11.2019

sim :):)


Tens razão rectifico :

"Quase todos"


E que aqueles são tao mauzinhos que chego a pensar que pior não existe
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Luísa de Sousa a 12.11.2019

Um tema muito pertinente, Robinson!
Obrigada por o trazer até nós!
Este é um mal "silencioso" que afecta muitas pessoas, principalmente as que vivem em apartamentos ou cidades grandes, muito à conta da falta de respeito e educação dos vizinhos.
Em pequena vivi num apartamento, e a minha mãe (isto já tem + de 40 anos), não me deixava fazer qualquer ruído depois das 19 horas, e durante o dia tinha de ter cuidado para não incomodar os vizinhos!!!
É tudo uma questão de educação e respeito pelo outro!!

Beijinhos
Feliz Dia!
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Robinson Kanes a 12.11.2019

É uma queixa que escuto há muito e vinda de muitas pessoas. Existem casos que chegam a acabar muito mal. Aliás, um não acabou porque alguém achou (para evitar estragos) o melhor era sair.

Eu, criado numa moradia com terraço e quintal... Não podia correr em casa, gritar ou incomodar quem quer que lá estivesse. Nem era pelos vizinhos, é mesmo por uma questão de educação e respeito, como dizes e bem. Queria correr e gritar ía para a rua, rua essa que era movimentada com muitos carros e as traseiras com uma zona de "montanha" algo perigosa. Ainda estou vivo!

Beijo e Feliz Dia e... Obrigado pela partilha e demonstração de como é possível.
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Folhasdeluar a 12.11.2019

Começo pelo "princípio)..falta de educação cívica. Esta deseducação trás tudo por arrasto. Sabemos muita gente pensa que dentro da sua casa pode fazer o que quiser. A esta forma de estar chama-se sentido da impunidade. De facto as autoridades pouco podem fazer, no máximo podem ir bater à porta dos energúmenos. Já quanto às crianças a culpa não é delas. Claro que se uma criança provoca ruído,( tenho um amigo que mudou de casa porque o filho do vizinho de cima andava de skate no corredor), é normal que o "ódio" se dirija a quem faz barulho, a criança. Há muito a fazer em termos de educação cívica. É mesmo muito urgente educar as pessoas no sentido do respeito pelo outro. Até lá resta-nos a paciência e os tribunais. Aqueles que demoram anos, (e custam caro), a resolver qualquer diferendo.
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Robinson Kanes a 12.11.2019

"É mesmo muito urgente educar as pessoas no sentido do respeito pelo outro. Até lá resta-nos a paciência e os tribunais."

Temos de ter muita atenção a este ponto, aqui é fundamental, mas parece que falar de regras começa a ser mal interpretado.

Em relação ao ódio, claramente que o mesmo é direccionado, no entanto, não é fácil lidar com essa situação todos os dias e aí acaba por ser um reflexo do mau comportamento dos demais.

O sentido (eu prefiro chamar-lhe sentimento) de impunidade existe porque existe quando sabemos que as nossas acções não terão consequências contra nós e nos borrifamos completamente para o outro e até para a lei.

Se essa do skate fosse comigo... .-))))
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MJP a 12.11.2019

Olá, R.! :-)

É, de facto, um tema muito pertinente... um problema grave que, muitas vezes, assume proporções "absurdas"!
Pessoalmente, não tenho razão de queixa porque, sempre, tive a felicidade de nunca morar em prédios... mas conheço muitas pessoas cuja vida se transformou num "inferno" à conta do dito ruído! :(

Beijo
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Robinson Kanes a 12.11.2019

Hi MJ,

Sem dúvida! Proporções que vão desde actos violentos a problemas de cariz mental e até ao fim de algumas relações!

É um tema pouco falado ou em surdina, porque existe desconhecimento da lei e as autoridades não actuam, sobretudo porque estão de mãos atadas por uma mesma lei absurda.

Beijo,
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/i. a 12.11.2019

É uma libertinagem. Não têm educação cívica e vão passando esse legado: se os pais não sabem o básico de conviver em sociedade, como podem ensinar aos filhos.

Subscrevo. Esses moradores barulhentos são os tais que passam o seu tempo em Ikeas e ainda não conseguiram encontrar aqueles adesivos de feltro anti-ruído para colar nos pés das cadeiras, bancos, por exemplo... Para o vizinho não contar as vezes por dia que arrasta a cadeira. E tem toda a razão. O chão flutuante é um demónio para potenciar o ruído. E quando a senhora da casa calça os sapatos de salto às sete da matina e calcorreia as divisões durante uma hora ( fascina-me esse comportamento: terá pavor de entrar no carro de chinelos e nem se aperceber e assim calça os malditos sapatos?). É uma tortura inspirada no tempo da outra senhora.

Há as leis, mas depois há as execpções. E é com essas excepções que se justificam este modo de viver, que já é a regra.




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Robinson Kanes a 12.11.2019

"se os pais não sabem o básico de conviver em sociedade, como podem ensinar aos filhos."

A geração dos 30 e dos 40 actualmente, parece que sofreu do excesso de mimo... E o reflexo está aí. Além de que, quando forem a geração dos 60/70/80 estou para ver as consequências que irão sentir na pela das gerações mais recentes. Colhe-se o que se semeia, já diz o povo.


"passam o seu tempo em Ikeas e ainda não conseguiram encontrar aqueles adesivos de feltro anti-ruído para colar nos pés das cadeiras, bancos, por exemplo... Para o vizinho não contar as vezes por dia que arrasta a cadeira."

Grande verdade!!!

Já é a regra e que activa a lei sofre, se sofre... É por isso que julgo pertinente que este tema se aborde, até porque, aqueles que enchem os jornais e as televisões se devem esquecer do mesmo ou não passam por ele.
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Rão Arques a 12.11.2019

Educação cívica, eis a questão. Nem nas famílias nem nas escolas se ensinam os primeiros passos.
Para ludibriar as leis até com o deixa andar se faz coro.
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Robinson Kanes a 12.11.2019

É extraordinário como existem pessoas que se sentem mal a denunciar estes casos e que até evitam por medo... A verdade é que o "agressor", por permissão da lei, acaba por levar a sua avante - isso não é Democracia e muito menos liberdade.
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José da Xã a 12.11.2019

Então onde fica a liberdade,hem?
É que se há a tal de liberdade devo ter direito a fazer o que me apetece. Os outros? Que se lixem...
É como muito bem dizes a mentalidade lusa.
Belo texto. Um problema premente na actual sociedade.
E nao é só nos prédios. Nas moradias pode acontecer o mesmo.
Abraço.
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Robinson Kanes a 12.11.2019

Liberdade fica onde começa a do outro :-)

Já ouvi dizer que nas moradias também pode ser aborrecido, nunca tive problemas nesses casos.

Vale tudo, até alguém perder a cabeça ou começar a doer na carteira.

Abraço
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cheia a 12.11.2019

Está um pouco no princípio: a educação. Depois, ninguém quer ter problemas com os vizinhos.
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Robinson Kanes a 12.11.2019

Ora aí está uma coisa que não me apoquenta... :-)))
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Maria a 12.11.2019

Tenho imensa sorte com os vizinhos relativamente ao barulho, todos muito pacíficos, incluindo os rebentos.

Mas, há sempre um porém, não fazem barulho, mas adoram divagar sobre a vida alheia, um delas tanto cuidou dos vizinhos que se esqueceu de cuidar da casa dela, e.. acabou por ter uma surpresa daquelas.

Voltanto ao barulho, uma amiga tem uma vizinha que aspira a casa à noite, porque a eletricidade é mais barata!

É como diz, não nos podemos queixar de falta de leis , são é dificeis de aplicar.

Una noite tranquila, sem vizinhos ruidosos.
Beijo


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Robinson Kanes a 12.11.2019

Isso são as reais "codrilheiras"... Ajahahaha

Aspirar à noite? E ninguém diz nada?

Obrigado e não fale alto... Não vão estar eles com copo atrás da parede.

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Figueiredo a 13.11.2019

«...também nunca percebi a paixão dos portugueses por pavimento flutuante e parquet, que afinal nada isolam e são um enorme foco de ruído...»

Os Portugueses estão se marimbando para o pavimento flutuante ou o parquet, porém os parolos(as) gostam muito, uns porque é mais barato e outros por estupidez; sabe que para muita gente é um autêntico orgasmo andar a dizer pelas esquinas, cabeleireiros, e adros de igreja, que se tem pavimento flutuante ou parquet no chão do apartamento.

Engraçado é que esse tipo de pavimentos, ao fim de uns tempos, fica todo defeituoso, tipo ondulado e cheio de altos e baixos, lol.

P.S.: Esqueceu de referir o pladur, essa maravilha que infesta actualmente os apartamentos, sejam eles novos ou «recuperados».
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Robinson Kanes a 13.11.2019

Pladur também e chique :-)))

Realmente ainda estou para perceber qual é a lógica do orgasmo com uma parolice de todo o tamanho... (em relação aos pavimentos). Nada como um pavimento de madeira, que também é barulhento, ou então um de cortiça. Tivemos pavimento de cortiça na casa dos meus pais e até é hoje é o melhor que se pode ter, quer em termos de instalação/renovação (renovação? Aquilo é quase eterno) quer em termos de isolamento térmico e acústico - nada mais fresco no Verão e mais quente no Inverno.
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Maria Araújo a 13.11.2019

Se somos produtores de cortiça seria o ideal usá-la nos apartamentos e casas.
Ainda este dias pensei na cortiça, como isolador.
Já odeiooooo, a cortiça nos sapatos, nas carteiras de senhora, no diaba a 4, que se tornou moda de repente.
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Robinson Kanes a 14.11.2019

Somos o nº1 no Mundo!

Por experiência própria, cortiça!

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