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(Anti)Racismo (em)na Baixa...

por Robinson Kanes, em 29.07.20

iStock-1221333903.jpgCréditos: https://www.ies.be/content/covid-19-amplifier-racism-and-inequalities

 

Seriam cerca das quatro da tarde e eis que devorava o meu almoço, um belo prego e um sumo de laranja, coisa saudável e mesmo a condizer com a boa forma (não!)  e um dia de trabalho que teimava em não terminar.

 

Estando de pé, ladeava-me um casal de indivíduos de etnia cigana num habitual aparato onde o filho corria por todo o espaço (e sem máscara) e a gritaria era tal que intimidava todos os que se encontravam no espaço, quer a comer quer a trabalhar. Enquanto saboreava qualquer coisa, a esposa, grávida, pedia ao esposo que lhe fosse buscar um rissol. Carinhosamente, o marido, eis que foi pedir o dito rissol. Não! "Olha, vai lá buscar tu". Até tem outra  sonoridade quando dito sem máscara dentro de um espaço fechado. E assim foi, há que saber tratar uma mulher, então grávida, nada como um mimo - estranhamente os defensores das minorias só apontam as balas num sentido, esquecendo-se que dentro de algumas minorias existem coisas que... 

 

O lado bom da caricata situação é que permitiu à senhora que, de forma arrogante e sem qualquer respeito pela colaboradora do espaço exigisse que a tosta mista, entretanto terminada de confeccionar, fosse aparada. Há que manter os níveis no café low cost esquina que isto de vir o pão com pontas e a alface e o queijo de fora não condiz com nada.

 

E eis que, já com a senhora de volta à mesa e em pé, surge um indivíduo africano, com o aspecto de quem estava a trabalhar no duro numa obra perto. Pede o seu pão, está de máscara e até preserva algum distanciamento social. Eis que, com uma mão no nariz, a frágil senhora grávida, começa com a outra mão a fazer aquele gesto de  afastamento para o indivíduo negro, e com um também habitual "aiiiiii olha queres ver"... 

 

Estava ali uma bela história para o Robinson apreciar. Eis que, tomando as dores da esposa, aquela que mesmo grávida tem de se desenrascar, o esposo profere um "aiiiii queres ver que não ouves, levas já duas chapadas que te virooooo". Este é o momento em que o Robinson pensa... Bem, acho que vou ter de actuar, mas optei por ficar, além de que tinha uma camera mesmo apontada à minha pessoa e a mesma capta gestos mas não sons. Ainda era cedo para contribuir para a criação de um mártir.

 

Sai novamente um "olha queres ver... este filho da.... não sai daqui, levas duas bolachadas que te viro". O indivíduo negro que, provavelmente nem percebia português, dirigiu-se à caixa para pagar, e quando estava a sair ouviu novamente alguém chamar nomes à sua mãe e ainda levantar-lhe a mão ameaçando-o de pancada da grossa. Pousei o prego e dei dois passos, mas optei por seguir a actuação do indivíduo que ignorou totalmente o facto. Alguém tinha de trabalhar para pagar impostos e muito provavelmente enviar dinheiro para uma localização distante e perder tempo não fazia parte das suas prioridades. Os olhares de todos voltaram ao chão, sobretudo depois da minha pessoa ter "recuado". Respirava-se fundo, mas o medo era notório.

 

No espaço todos se sentiram intimidados e o silêncio reinou. Reinou até à saída vitoriosa daquele casal, ainda sem máscara, até ter entrado na viatura de aluguer estacionada na via pública, em zona proibida e debaixo dos olhos dos agentes da Polícia Municipal e da Polícia de Segurança Pública. Não costumam ser tão coniventes com os indivíduos da malta de cargas e descargas, mas esses não têm espaço mediático, são meros trabalhadores e também laboram meio ano só para pagarem impostos.

 

Será que a SOS Racismo aceita esta minha denúncia? Será que se o Robinson tivesse actuado de imediato não apareceria nas televisões com o rótulo de racista? Possivelmente... Não foi o medo que me levou a ficar quieto mas sim a atitude madura e inteligente da vítima e isso foi a maior lição que tive naquele dia. Todavia, a outra lição com que fico é que, independentemente da raça, cor, etnia, a intimidação continua a ter lugar e as baforadas excêntricas e sem qualquer sentido que encontram racismo em tudo, estão a anular a capacidade de encontrarmos e resolvermos as verdadeiras demonstrações desse mesmo racismo e até de violência. Tudo isto sem esquecer a revolta contida de muitos que, em períodos mais débeis, pode facilmente soltar-se... E o perigo está aí. Até porque os temas que estão a afundar o país continuam a ser abafados pela má exploração de tópicos como este e outros...

 

Enquanto andarmos entretidos com manifestações e petições (algumas delas, sobretudo as notícias em torno das mesmas, altamente manipuladoras) para solicitar subsídios vitalícios pelo "simples" facto de alguém ter perdido um ente querido num homicídio (o que é uma tragédia), e ainda não totalmente esclarecido, vamos esquecendo todos os outros e muitos deles que morreram a dar a vida por todos nós. Vamos deixando passar os buracos de milhões que esta crise está a gerar, a falta de dinheiro na segurança social para fazer face aos problemas da crise (existem cidadãos que não estão a receber aquilo a que têm direito por alegada falta de verbas) e os já habituais casos como o Novo Banco. Ainda hoje disse que Portugal parecia a Venezuela a um nacional desse país e a resposta desse foi: "Como a Venezuela? Ainda está é pior!".

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21 comentários

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/i. a 29.07.2020

A situação é o nosso dia: o não respeito entre pessoas. O motivo é qualquer um, pode ser a raça, a condição social ou até simplesmente o facto de usar chapéu. Tudo encontram para se ser desrespeitoso e assim ser mal educado e ter uma postura reles para com o seu semelhante.

Pois a Venezuela tem petróleo... os nossos recursos são os de estar de mão estendida à espera do mealheiro dos outros.
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Robinson Kanes a 29.07.2020

Essa é a questão fundamental e que engloba mil e uma temáticas... Sem dúvida!

É há muita gente interessada naquele petróleo :-)
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MJP a 29.07.2020



Dia Feliz!

Beijo
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Robinson Kanes a 29.07.2020

Obrigado e um dia feliz :-)
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o cunhado a 29.07.2020

Pois, caro amigo e estimado Rob.
Estou voluntariamente aberto à crucificação, mas no que concerne à raça cigana o que mais desejo é afastamento e distância como daqui ao Sol.
Um excelente dia e votos de boas sardinhadas.
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Robinson Kanes a 29.07.2020

Admito que não foi tanto um piscar de olhos aos ciganos, contudo, percebo o que diz, independentemente de partilhar ou não da sua ideia.
A ideia foi mesmo ver a coisa como um todo e não em sentido único muito em voga ultimamente.

Boa sardinhada,
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Maria Araújo a 29.07.2020

Excelente, Robinson!
É que eu não me considero racista, mas em relação aos ciganos percebo que fazem o que querem, em todos os sentidos, e recebem modos de tratamento por parte das forças de segurança diferentes.
Mais um post que devia estar em destaque na página principal do Sapo.
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Robinson Kanes a 29.07.2020

Acho que este post nunca estará em destaque :-)))))
Pelo menos, este...
Em relação ao resto, é um pouco como respondi ao "Cunhado".
Muito obrigado, Maria,
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Francisco Carita Mata a 29.07.2020

Muito pertinente esta sua crónica.
Tantas cenas semelhantes a que assistimos, em variados locais. Nos Hospitais, por ex.
Dá mesmo vontade de intervir, por vezes.
Parabéns, e muita Saúde.
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Robinson Kanes a 29.07.2020

Obrigado e já agora, muito obrigado pela visita.
De um lado e de outro assistimos a tudo, acho que o sentimento de impunidade de todos, e friso, todos, tem levado a um comportamento quase de "far west" em muitas situações. Infelizmente, alguns aproveitam bem a impunidade... É que intimidar e ameaçar também é crime.
Obrigado, mais uma vez, e saúde.
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cheia a 29.07.2020

Está tudo virado do avesso! Só os que têm palco mediático é que podem fazer o que querem, porque há sempre uma, qualquer, associação, para os defender.

Umabraço,
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Robinson Kanes a 29.07.2020

Verdade... Por acaso, nos meus favoritos, creio que no primeiro, está um texto interessante de quem (um anónimo) já sentiu o racismo...

Grande Abraço,
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marta-omeucanto a 30.07.2020

Quando o meu marido trabalhava como segurança nos hospitais de Lisboa, muitos dos problemas e confusões que por lá se armavam, era com ciganos, seja porque queriam ter prioridade e ser logo chamados, quer porque não admitiam que alguém os contrariasse, e se julgavam os donos daquilo tudo.
Quando eu era adolescente, lembro-me de estar no jardim, num dia de feira, e andar lá um miúdo cigano que, à falta do que fazer e sem atenção dos pais, se entretinha a mandar pedras às outras crianças que por lá andavam.
No entanto, a minha filha teve um colega cigano no jardim de infância, e era um colega como os outros.
Claro que há, também entre os ciganos, pessoas boas e pessoas más.
Mas da fama, e de muito proveito, ninguém os livra.
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Robinson Kanes a 30.07.2020

Casos desses são aos magotes, é preciso estar em determinados locais e situações para ver a realidade.
E sim, nem todos os ciganos são maus como nem todos os brancos são bons... É um facto. Além disso, alguém que faça algo de bom por um cigano tem um amigo para a vida, reconheço.
Acho que também é importante que se reconheça a "origem" dos ciganos e o porquê de serem um povo mais fechado, historicamente foi um meio de defesa dos constantes ataques que eram desferidos às suas caravanas.

Obrigado, Marta, por nos trazer os dois lados :-)
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O ultimo fecha a porta a 01.08.2020

Não quero escrever o que penso, mas não surpreende.
Vi a mesma reação uma vez no Lidl de ameaças gratuitas ao segurança. Confunde-se "igualdade" e "imposição de respeito" com "acima dos outros".
E mais não digo...
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Robinson Kanes a 03.08.2020

Só isso já é uma espécie de condicionamento... Mas também, desde que vejo os "tolerantes" a apelar à intolerância, já nada me espanta :-)))

Abraço,
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José da Xã a 02.08.2020

Robinson,

Portugal há-de ser um país ingovernável. Ou melhor já é!
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Robinson Kanes a 03.08.2020

E sempre foi... Salvo raras excepções,
Abraço,

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