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Quando os Porcos Não Se Distinguem dos Homens...

por Robinson Kanes, em 24.08.17

IMG_8748.jpg

A Marcha do Cavalo de Tróia sobre Tróia - Giovanni Domenico Tiepolo (National Gallery)

Fonte da Imagem: Própria.

 

 

Há temas que não merecem a nossa atenção, contudo, não merecem a nossa atenção até envolverem aqueles que representam os cidadãos. Posto que o Ministério da Educação entrou em campo de lápis azul no caso dos manuais de actividades da Porto Editora, não poderia deixar passar esta situação em claro.

 

Sinto-me como um animal preso numa quinta incendiada, com vista para o atlântico e, como animal nessa quinta, a aperceber-me de que "dos porcos para os homens, dos homens para os porcos, e novamente dos porcos para os homens" começa a ser "impossível distingui-los uns dos outros". Foi assim que Orwell, em a "A Quinta dos Animais", tão bem soube definir a sociedade da época e que não parece ter evoluído muito deste então. Até me espanta que o livro acima esteja no Plano Nacional de Leitura face a muito do que se tem assistido.

 

A ditadura é tal que já não se pode ser menino nem menina, no entanto, não é raro o dia em que não vejamos um coro de vozes a exaltar a "homossexualidade" (é só um exemplo)... Dizem que é uma defesa da causa e que lutam contra a diferença. Quando não quero ser reconhecido procuro não andar em bicos de pés a chamar a atenção para a minha pessoa. Queremos liberdade sexual e vincar a diferença sob a capa da igualdade, depois andamos a discutir que entre meninos e meninas não há diferenças?

 

Como é que vamos fazer em relação às casas-de-banho? Vamos retirar o urinol do WC dos cavalheiros? Vamos distribuir pensos higiénicos para o sexo masculino (alguns bem precisavam de facto)? Também vamos obrigar os meninos a brincar com bonecas (e há muitos que brincam, eu brinquei muito com a Barbie e com o Ken quando ia visitar uma das minhas primas)? As coisas acontecem naturalmente e não é crime nenhum ver uma "miúda" a andar de skate, no entanto, quando começamos a impor comportamentos as coisas começam a tornar-se mais sérias, sobretudo se esses comportamentos visarem uma larga maioria (quando esta não provoca dolo nos demais) que só comete o erro de simplesmente existir!  Mas deixo uma outra questão: vamos fechar os retalhistas de vestuário que têm uma secção para meninos e meninas? Não aprendemos nada com a história do "Happy Meal".

 

Porque é que andamos a dizer mal da Porto Editora e a corroer o negócio da mesma com "não-problemas" e, por exemplo, no caso do Ministério da Educação, não andamos preocupados com dirigentes corruptos, professores que facilitam a passagem de alunos (já ninguém se lembra dos exames?), professores com meia-dúzia de anos de casa que se dão ao luxo de saírem do país por dois anos para passear, voltarem e terem um lugar à disposição (perto de casa) estando à espera de um filho e consequentemente com uma "baixa" a caminho, prejudicando alunos e outros colegas? Não é que seja a pior coisa do mundo, mas aqueles que estão anos à espera de colocação e muitas vezes ficam sem trabalho por causa destes indivíduos? E as bolsas e os apoios aos livros? Andei numa faculdade onde sabíamos sempre quando as bolsas eram pagas, tal era o desfile de vaidade dos "pobres" bolseiros. Quantos portugueses beneficiam de apoios sem merecer os mesmos no que toca a educação? Vivemos na época do elemento distractor, mas começa a ser demais.

 

Estas são as perguntas que os portugueses querem ver respondidas e não o "Index" a promover a existência de uma só "religião" e de uma só forma de ver as coisas só porque meia-dúzia de indivíduos exerce mais pressão que 10 milhões... Os extremos tocam-se e... Se noutros regimes se promove a diferença, noutros promove-se a igualdade de uma forma que quem for diferente arrisca-se a acabar num auto-de-fé.

 

Um destes dias ainda vamos perceber que distinguir cidadania de opressão deveria ser punível por lei, vamos perceber também que não é o indíviduo isolado que assim pensa, até porque Nietzsche dizia e bem que "a loucura é rara nos indivíduos - mas é a regra, no grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas"... Como é estranho que num país onde grassa a corrupção, o favorecimento ilícito, o terrorismo interno (incêndios e não só), os desvios à ética e a ausência de planos estruturais para o país, ninguém procura leis que não estabeleçam diferenças nessas temáticas... A igualdade é muito importante, desde que o pensamento dos outros seja igual ao meu... 

 

 

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45 comentários

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De Luis Costa a 24.08.2017 às 11:30

Você não dá opinião,você convida para refletir.Mais um ótimo texto.
Abraço
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 14:14

Muito obrigado, Caro Luís.
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De Maria a 24.08.2017 às 14:07

Brilhante, Brilhante, Brilhante...
e eu estou para aqui feita parava, como se não fosse já um dado adquirido que o Meu Sábio é Brilhante!

ps - já te disse que te acho brilhante?...
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 14:18

Muito obrigado. É somente uma opinião de quem anda a ver que os reais problemas se perpetuam enquanto o folclore vai acontecendo...

Acho que sim, mas não o sou, acredito.
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De Maria a 24.08.2017 às 14:08

não parava... (a minha cabeça é que parou)
seria Parva,mesmo!
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 14:19

ahahaha

E eu queria dizer acredita ao invés de acredito.

Andas afastada da escrita :-(
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De Maria a 24.08.2017 às 14:52

eheheh, se não o referisses eu não reparava.

sim, tenho tido uns dias complicados (pessoal de férias...sobra para quem está:))
a ver se na próxima semana já consigo acompanhar o Sapal ;)
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 14:54

Cá fico à espera, já me queixo que a qualidade por aqui é pouca, era mais um tiro no porta-aviões...
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De naomedeemouvidos a 24.08.2017 às 14:41

Parva, não sei, mas tarada...
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 14:47

Alguém andou a ler artigos sobre motas ahahahah
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De naomedeemouvidos a 24.08.2017 às 16:54

Oh, pá! Estava a ver se ninguém reparava...
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De Maria a 24.08.2017 às 14:52

Assumidissima ;)
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De naomedeemouvidos a 24.08.2017 às 14:40

Não posso concordar mais. Quando vi a primeira notícia, o que começou por me incomodar não foi o "para rapazes" (nunca percebi porque não "meninos", mas, talvez não interesse) e "para meninas". Foi o tal grau de dificuldade diferente. Sou professora de matemática, física e química e o tema é-me caro, por razões evidentes. Mas quando vi os tais 6 exercícios da polémica, deu-me vontade de rir. Com excepção, eventualmente, do labirinto... não sei. Estamos a perder o senso comum...
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 14:52

Meninos e Meninas apela mais ao coração... Do ponto de vista da mensagem e do objectivo, não tenho dúvidas que tem um efeito mais afectivo.

Não existem coisas perfeitas, mas se vamos começar a ser tão rebuscados um destes dias eliminamos o indivíduo e criamos um "Admirável Mundo Novo".

Para mim seria um não-tema, passa a ser quando é exercida uma censura por um orgão de soberania. Por acaso fiquei na dúvida, esses manuais são de compra obrigatória (isso escapou-me)? Posto que são de actividades, lembro-me que os livros de actividades nem sempre o são. É que não sendo obrigatórios ainda complica mais a questão e temos um Ministério a interferir no mercado sem razão aparente.
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De fashion a 24.08.2017 às 14:58

Realmente andamos a preocupar-nos com coisas que não entendo. Se rapazes e raparigas são diferentes(e ainda bem) qual é o problema de encontrar temas que se aproximem mais dos interesses de uns ou de outros? Não me choca que os livros sejam diferentes desde que isso promova o interesse nas crianças. Se me disserem que há raparigas que até gostam mais dos exercícios que foram escolhidos para rapazes eu ficava contente e até achava bem. Mas não me parece,pedagogicamente, que venha mal ao mundo nesta distinção.
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 15:28

De facto, até porque a editora não impede as raparigas de comprarem os livros dos rapazes. Já não sei quem é quem e se o extremo da Democracia não é a pior das ditaduras...

Entretanto os incêndios já lá vão e assim se vai esquecendo (ou fazendo esquecer) este e outros temas...
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De Marta Elle a 24.08.2017 às 15:24

Os livros não eram de compra obrigatória, felizmente.
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 15:26

Não sendo de compra obrigatória ainda tornam a situação mais caricata.
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De Nay a 24.08.2017 às 16:04

Eu também me senti um bocado ultrapassada por esta polémica. Levou-me a pensar "Sendo assim também vão mudar as cores das prateleiras nas lojas dos brinquedos? Ou pelo menos retirar o que é cozinhas, kits de limpeza, para brincar das "zonas das meninas"??? E os carros, tiram da "zona dos meninos"? Ou só eles é que podem ganhar aptidão por condução?!?!?
Quando comprava brinquedos para a minha filha, percorria lojas inteira, não me limitava à parte rosa. Era o que devia ter acontecido com estes livros - Escolham, ou melhor, deixem as crianças escolher. Simples!
Agora retirar os livros do mercado mas deixar pás e vassouras ou cozinhas nas prateleiras "para as meninas" parece-me só estúpido!

E já agora para quando um chinfrim destes sobre...sei lá...as diferenças salariais entre géneros?!?

PS:Os livros são de actividades, para tempo livres que nada tem a ver com manuais obrigatórios...ou seja, ainda torna tudo mais parvo ainda!
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 16:35

"Agora retirar os livros do mercado mas deixar pás e vassouras ou cozinhas nas prateleiras "para as meninas" parece-me só estúpido!"

Pois é, nem tinha pensado nisso... Eu também brinquei com aqueles conjuntos de cozinha e não foi preciso ninguém obrigar-me a isso :-)

Pois, já me tinham dito aqui que nem são obrigatórios o que traz um contorno ainda mais estranho à questão, depois temos um ministério que se envolve nisto e de um dia para o outro adopta uma decisão, quando em temas mais complexos nem posição tomou...

Diferenças salariais entre géneros? Isso não interessa nada... Alguém me dizia que muitas mulheres na alta política não tocam nesse assunto porque foi somente por serem mulheres e fazerem valer esse facto que... Mas isto é o povo a falar...
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De Chic'Ana a 24.08.2017 às 16:14

Sinceramente não conheço o conteúdo dos mesmos, apenas aqueles pequenos exemplos que mostraram no telejornar. Acho que existem muitos mais tema relevantes, sobre o qual se devia efetivamente fazer algo e não se faz! A sociedade / governo pega sempre nos temas que são fáceis de resolver..
Beijinhos
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 16:31

"Acho que existem muitos mais tema relevantes, sobre o qual se devia efetivamente fazer algo e não se faz!"

Está tudo dito...
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De HD a 24.08.2017 às 20:52

Isto dos meninos e meninas não tresanda a fachada consentida para estas alarvidades...??? :s
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 20:54

Fachada, bom conceito...

Ultimamente as questões de género parecem ocupar a praça pública tirando protagonismo a temas mais sensíveis.
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De HD a 24.08.2017 às 20:57

As manobras de distração habituais... que entretêm as massas :\
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 20:58

Isto é como o pequeno crime, não se corta de raiz e vai crescendo... De volta à "teoria das janelas partidas".
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De HD a 24.08.2017 às 21:01

São as heras que vão crescendo e tomam conta dos olhos mais preguiçosos...
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 21:03

Bela metáfora, estamos com um discurso a armar ao pseudo-intelectual, temo que o número de visitantes vá começar a baixar de 3 para 1.
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De HD a 24.08.2017 às 21:05

O nosso discurso é bem acessível, mas quem se sente incomodado vai continuar a limitar-se a percorrer o seu feed de notícias... :)
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 21:08

Ainda vamos ter aqui um grupo de indivíduos a pedir as nossas cabeças penduradas numa lança! Mas tenho as anti-aéreas activadas se aparecer alguém digo-lhes que aqui só se escreve à mão e se lê em papel.
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De HD a 24.08.2017 às 21:10

Numa lança? GoT reference, Lord Stark? :D

Essas anti-aéreas são infalíveis hihihi
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De Robinson Kanes a 24.08.2017 às 22:15

Lord Stark? Não apanhei...

Só me lembro do Tony Stark dos desenhos animados...
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De HD a 24.08.2017 às 22:54

Game of Thrones... este fim de série está a deixar toda gente doente :D
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De Robinson Kanes a 25.08.2017 às 09:30

Aí está uma coisa que nunca vi e parece-me que continuarei na ignorância :-)

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De HD a 25.08.2017 às 20:14

Não comeces agora, vai por mim ;p
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De Robinson Kanes a 25.08.2017 às 20:54

Também não tenho TV. Poderia vir na net, mas hoje em dia as séries têm mais episódios que o "Dallas".
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De P. P. a 24.08.2017 às 23:07

Outro artigo muito bem escrito e aproveitando que o HD disse, numa só frase, aquilo que penso, eis-me a subescrevê-lo.
A proibição assusta-me.
Assusta-me mesmo, apesar de não concordar com a segmentação dos livros de tarefas. Mas assumo, nunca tinha pensado na existência de "manuais para a menina e para o menino". No meu ciclo todos são iguais. Proibir... em situação de sala de aula, seguramente as Educadoras escolhem uma tarefa de um e outra do outro para uma ficha de trabalho (não sei se este é o nome atribuído na Pré).
Com tudo isto, esquecemos tantas outras coisas que se passam mesmo ao nosso lado. Puxando "a brasa à minha sardinha", sou efetivo a 170km de casa, em setembro farei 20 anos de serviço, tive boa média, tanto que entrei nos quadros relativamente cedo... Mas há tantas situações bem mais macabras que a minha.
Proibir...
Qualquer dia não poderei corrigir uma ficha a rosa ou azul. Por acaso uso verde, mas qualquer cor que não as legíveis para prova podem ser utilizadas.
Parabéns pelo teu artigo.
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De HD a 24.08.2017 às 23:10

Excelente observação!
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De Robinson Kanes a 25.08.2017 às 09:32

Ele sabe, o P.P. é daqueles que sabe :-)
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De Robinson Kanes a 25.08.2017 às 09:32

Eu é que agradeço a tua observação e o teu testemunho. Foi um contributo muito importante...
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De O ultimo fecha a porta a 30.08.2017 às 21:49

Olha sobre esta polémica, incha, desincha e passa, mas é muito importante ser falado e levar a sociedade a refletir, senão entra-se num status quo irritante e circular. Há muito para ser feito ao nível da igualdade.
Pior, partilharam-me um post em que se criticava a crítica de um humorista. Ou seja, deixou-se o essencial para discutir o acessório porque os post do twitter e do facebook precisam de click baits.
Fez-me confusão também uma moça nos seus 30 anos ao representar a editora nas televsiões, a justificar logo no dia que a polémica estalou que não percebia as críticas porque os livros estavam a "vender-se bem".

Há muita coisa a discutir ao nível da igualdade entre homens e mulheres, a começar pelos rendimentos e progressão na carreira. A propósito: façamos um exercício. Quantas mulheres existem na direção dos media portugueses? Já reparaste que só existem duas e uma delas vai ver a sua revista encerrada até ao final do ano?
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De Robinson Kanes a 30.08.2017 às 22:26

Concordo. Confesso que não vi a critica nem pretendo ver, não embarco nessa onda do pseudo-humor imparcial.

Também não vi a parte televisiva da questão, mas o vender bem não é a justificação. Haveria muito por onde ir para fazer uma boa defesa, e penso que sim, a editora poderia ter ido mais longe. Em relação aos 30 anos... É como tudo, conheço malta de 20 que nunca fará nada de bom, como conheço malta de 60 que nunca fez nada de bom. Aplica-se também a visão contrária...


"Há muita coisa a discutir ao nível da igualdade entre homens e mulheres, a começar pelos rendimentos e progressão na carreira. "

Essa foi a questão que a Nay deixou... Sem dúvida, essa parece ser uma questão tabu pelos nossos lados...

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De O ultimo fecha a porta a 30.08.2017 às 22:35

Não tinha lido o comentário da Nay, mas não se vê ninguém a falar disso.
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De Robinson Kanes a 30.08.2017 às 22:37

Conto lá passar em breve... :-)

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