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Prescrição Perpétua...

por Robinson Kanes, em 20.05.20

Antonio Allegri (Corregio) - _Descanso na fuga parAntonio Allegri (Corregio) - "Descanso na fuga para o Egipto com São Francisco" (Le Gallerie Degli Uffizi) 

Imagem: Robinson Kanes

 

 

A fatalidade faz-nos invisíveis.

Gabriel Garcia Márquez in "Crónica de uma Morte Anunciada"

 

Não há muito que elaborar neste artigo, basta colocar nos escaparates deste local pouco agradável a seguinte citação, depois da Comissão de Protecção de Crianças, Jovens e Pessoas Vulneráveis da Arquidiocese de Braga ter sido confrontada com a ocultação de dois casos (que se conheçam) de abuso sexual de menores por parte de sacerdotes: "canonicamente prescritos".

 

Depois de "Ballet Rose" continuar a ser um escândalo e continuar presentemente ocultado (e já dura há mais de meio século) porque altas figuras do regime de Salazar e depois da Democracia ainda se encontram vivas e outras, apesar de falecidas, não podem ver os nomes manchados... Depois do processo Casa Pia ter sido a pouca vergonha que foi com leis aprovadas na Assembleia da República à pressa para ilibar altas figuras do Estado (da época e de hoje), ler "canonicamente prescritos" não me deveria espantar. Mas espanta...

 

Chocados ficamos com as Valentinas, com os casos de abuso sexual de menores em meios vulneráveis (isto se forem notícia, caso contrário é tema pouco interessante) mas como cidadãos deixamos que o crime de abuso sexual de menores em Portugal continue a ser uma coisa ligeira, um crime de roubo de carteira por esticão e em alguns casos, até uma questão cultural. Até em meio prisional os reclusos têm mais sensibilidade para "castigar" estes criminosos do que propriamente a nossa política, a nossas instituições sociais e claro, nós cidadãos.

 

Canonicamente prescrito é a desculpa ideal para ocultar crimes de abuso sexual de menores (e continuo a repetir a expressão) sem que ninguém se preocupe muito com isso, porque a Igreja, sobretudo em Braga é uma real instituição que vai dispondo de alguns interesses da cidade como quer, e o beijo na cruz é transversal se queremos ter sucesso por lá. 

 

Para estar acima da lei num dos crimes mais hediondos que se podem cometer basta dizer que está "canonicamente prescrito"! Uns dizem que se estão a "cagar para o segredo de Justiça" (é ele sim, o Presidente da Assembleia da República), outros dizem que as leis dos homens não estão acima das leis de meia-dúzia de indivíduos que utilizam a ortodoxia em proveito próprio e continuam a não ter qualquer pejo em cometer crimes contra a Humanidade. 

 

Até lá,  vamos continuando intelectualmente e criticamente prescritos... Pelo menos até serem os nossos filhos a serem abusados pelas sotainas. Interessante a semelhança da palavra com Satanás.

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9 comentários

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https://www.google.com/amp/s/www.publico.pt/2019/04/21/sociedade/noticia/diocese-porto-nao-vai-criar-comissao-lidar-eventuais-casos-abusos-1869974/amp

Bispo do Porto diz que vai "mudar tudo” para evitar novos casos de pedofilia, mas admite que, mesmo assim, “é possível que alguém volte a fazer asneiras”.

Pedofilia = Asneira

O responsável máximo da diocese do Porto acrescentou, contudo, que ao contrário do que acontece em Lisboa, não vai avançar com medidas de controlo da pedofilia.

Assim sendo, o Porto é a primeira diocese do país a dizer que não avançará com uma comissão deste tipo depois do Papa Francisco ter pedido ao clero que denuncie às autoridades todas as suspeitas de crimes sexuais.

D Manuel Linda justificou-se afirmando que “ninguém cria, por exemplo, uma comissão para estudar os efeitos do impacto de um meteorito na cidade do Porto”

Pedofilia = Meteorito


Bispo do Porto é uma das bestas.

Assim vai o Clero
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Robinson Kanes a 20.05.2020

Aproveitando a abertura das esplanadas, foi onde aconteceu esta conversa... Fui ver a notícia e procurei mais informação, sigo pouco o que é de Portugal, salvo algumas excepções a comunicação social não me deixa assim tão confortável... Reforço, contudo, que há bons exemplos...

Este discurso de impunidade da Igreja em Portugal é algo de tenebroso, é viver e estar acima de toda e qualquer lei - não me espanta, estive em Roma alguma semanas, de portas travessas com o Vaticano e tive oportunidade de ver e ouvir cenas de pancadaria de "penso eu" entre superiores e subalternos ainda jovens, chamemos as coisas desta forma. É preciso subir algumas muralhas :-)

Em relação a este campo, o silêncio da classe política (inclusive de Ventura) e da justiça também é assustador e já nem falo do alto magistrado da nação (eu sei que estou a insistir) e dos interesses que tem com esta instituição. Não é um ataque à Igreja, mas de facto, estas circunstâncias só levam a que o pensamento anti-clero vá por aí.

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Robinson Kanes a 20.05.2020

Como já referi no artigo de sexta-feira em que falei de Valentina, esse caso foi um entre milhares. Todos os dias existem "Valentinas", todos!

Além disso, fico a pensar: que competências têm as autoridades eclesiásticas para se sobreporem ao jugo do Ministério Público e decidirem o que é crime ou não é? Aliás, nem o MP o faz, só o tribunal. Talvez esteja na famosa Concordata... É possível, mas se for, um povo inteiro tem de questionar esse documento.
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O ultimo fecha a porta a 22.05.2020

O adverbio usado é ridículo e tacanho. Porém, 30 anos depois levantar o crime não faz sentido. Não está em causa o horror do crime, nem ser padre ou qualquer outra coisa, está sim o tempo que já passou, fazer prova das coisas, etc.
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Robinson Kanes a 22.05.2020

Judicialmente, os crimes prescrevem (compreendo, aceito, embora levante - e não sou só eu - muitas questões quando de se fala de prescrições de crimes)... Moralmente, eticamente e humanamente, não posso compreender como é que este tipo de situações não pode ser levantado... Baixar a cabeça e esconder é ser cúmplice desse crime... Além de que, um criminoso não deixa de o ser só porque o acto criminoso prescreveu, não é julgado, mas existindo prova, é e será sempre um criminoso e alguém que, neste caso, cometeu crimes hediondos.
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José da Xã a 22.05.2020

Robinson,

em todas as sociedades há gente vil.
Os abusos sexuais são há muuuuuuuuuuuuuuuuuuito tempo escondidos pela igreja. Mesmo que o Papa Francisco tenha assumido a existência desses crimes há sempre formas de o esconder.
A justiça tem medo de ser justa para com os criminosos eclesiásticos. Os governantes têm medo da Igreja. E depois temos o PR.

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Robinson Kanes a 22.05.2020

Se fosse só pela Igreja... A Justiça, aqui, pode pouco... Quando muito pode haver uma "penalização" por parte de todos nós como cidadãos. Já o PR e outros, ganham muito com a proximidade à Igreja... Estado laico não é um conceito que se possa aplicar a Portugal, ainda não é.
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Maria Araújo a 23.05.2020

Sou crente,mas não creio nestes homens,sejam políticos,alguns, sejam padres.

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