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Pedalar a Ecopista do Tâmega (1/2)

por Robinson Kanes, em 04.01.21

ecopista tamega.jpgImagens: Robinson Kanes

 

A manhã estava quente, o mês de Agosto por terras do Baixo-Tâmega não costuma ser suave. Deixava Cabeceiras de Basto e estacionava as quatro rodas na Estação de Caminho-de-Ferro do Arco de Baúlhe, freguesia do mesmo concelho. Todavia, mesmo ali ao lado do Museu das Terras de Basto, uma interessante recuperação da estação ferroviária (encerrada em 1990). O objectivo deste dia era chegar a Amarante de duas rodas percorrendo a Ecopista do Tâmega, umas das mais belas e que mais me surpreendeu. Sobretudo porque tinha uma parte do percurso em terra batida por causa das obras da barragem.

 

A Linha do Tâmega, foi inicialmente denominada de Caminho de Ferro do Valle do Tâmega, ligava a estação de Livração (Marco de Canaveses), da Linha do Douro, à Estação de Arco de Baúlhe em Cabeceiras de Basto. Esta foi desactivada em 1990 o que veio a dar na actual ecopista que liga Amarante a Arco de Baúlhe (troço Livração-Amarante não está disponível).

 

Em 2007 as Autarquias envolvidas, a REFER (agora Infraestruturas de Portugal) e o Estado assinaram um protocolo que resultaria na construção da Ecopista da Linha do Tâmega, uma via que atravessa três Municípios ao longo de 50 quilómetros, Amarante, Celorico de Basto e Cabeceiras de Basto.

ecopista tamega (3).jpg

Esta Ecopista percorre uma das mais belas linhas ferroviárias do país, permitindo o contacto directo com o património histórico e natural envolvente, nomeadamente as muitas aldeias e pontes que encontramos ao longo de toda a sua extensão, as paisagens verdejantes de inigualável beleza e oRio Tâmega, ex-líbris desta região. Este projecto, que se inclui na Rede Europeia de Vias Verdes, tem o seu início ao km 12,467, na cidade de Amarante, e término ao km 51,733 no Arco de Baúlhe.

 

Começo a etapa  que levaria 100 quilómetros. A extensão oficial do trajecto é de 39 km, ou seja, um percurso ida-e-volta pode ficar pelos 80/85 km.

ecopista tamega canedo.jpg

Começar no Arco é já um bom motivo para fazer o percurso, a beleza da estação é qualquer coisa e os primeiros quilómetros apetecem, com pequenas inclinações, nada de muito difícil até Vila Nune e com uma passagem por cima da A7 onde temos uma vista de montanha e vales com algumas passagens por zonas de vinha - o Tâmega não anda longe. A paragem seguinte é no Apeadeiro de Canedo, e aqui começamos a encontrar as belas estações que se mostravam ao longo da linha. Com esta imaginação sempre fértil, não consigo deixar de pensar no bulício, embora mais contido, que outrora caracterizara aquele lugar. Se há coisa que me deixa num misto de paixão e tristeza são as estações desactivadas. Devem ser dos locais com mais histórias para contar, não só pelos que frequentavam as mesmas mas também por aqueles que ainda lá viveram. Ainda tive oportunidade de conhecer alguns, sobretudo na zona Centro e as histórias são tantas. Talvez tema para um destes dias...

IMG_3874.jpg

Senhores passageiros, a próxima paragem será Mondim de Basto, passando ainda por Padredo. Não existirão passeios tão encantadores como este quando por um caminho lindíssimo em que pelo meio de hortas, pequenos lugares, alguns monumentos, temos sempre a companhia do Monte da Senhora de Graça, o que, para quem estiver de bicicleta ainda tem um gosto mais especial. É como se subíssemos o Monte de uma outra forma, é como que desta vez não fosse propriamente uma luta entre o homem e altitude, mas um passeio lado-a-lado. Simplesmente deslumbrante! É também no concelho de Mondim de Basto que encontramos algumas das mais interessantes vistas do percurso e a belíssima estação - além de outras, pensei em tempos num projecto para a mesma tal a beleza da infraestrutura bem como as vistas e a proximidade com as duas pontes que são um dos atractivos do percurso. Passaria dias inteiros à varanda da estação, com um Hendrick's e um livro a apreciar aquela paisagem.

ecopista tamega (1).jpg

As Terras de Basto têm um encanto tão especial, sobretudo no território de Cabeceiras de Basto e Ribeira de Pena onde já não temos sequer noção de estar no Minho e nos sentimos transmontanos. Nas pessoas, quer pela sua austeridade e bravura quer pela simpatia e humildade, não há como negar o lado mais transmontano. Não falarei de gastronomia porque aí, de facto, é mais que notório e a passagem a Montalegre, por exemplo, nem se faz notar quando entramos em Salto

ecopista tamega (2).jpg

Mondim atrasa-me as contas em termos de horário, além disso, esperam-me as iguarias da Dona Lídia no regresso a Cabeceiras, mais propriamente para os lados de Cavez. Vou chegar atrasado, tenho a certeza...

 

Continua...

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20 comentários

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cheia a 04.01.2021

Uma visão futurista e ecologista, substituir uma linha férrea por uma ecopista, substituindo o fumo do carvão, pela tração humana!

Um abraço,
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Robinson Kanes a 04.01.2021

São espaços fantásticos e carregados de histórias, património e paisagens.
Ainda se encontra muita gente que fala com saudade da linha.
Um Abraço,
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João-Afonso Machado a 04.01.2021

Caro Kanes: aqui para os meus lados,o antigo ramal para a Póvoa de Varzim também foi transformado em ciclopista. Mas em terra batida... E tem razão: nada tão triste como um apeadeiro abandonado, como tantos neste ramal.
Só discordo no seu comentário sobre Cabeceiras: ainda é bem Minho.

Abraço.
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Robinson Kanes a 04.01.2021

Sim, essa também é uma Ecopista, embora penso que não reúna condições a 100% para o ser, há uns tempos (entretanto não acompanhei se existiram mudanças) para se ser Ecopista, o trajecto nunca poderia ser em terra batida salvo algumas excepções como a do Tâmega mas que teria de ser alterada após o fim da construção da barragem. Nunca fiz, mas fica já a nota :-)

Eu explico-lhe porque acho que é mais transmontana que minhota, devo isso. Penso que os cabeceirenses (os que eu conheço e são alguns) têm mais aquele lado transmontano, mais humilde e em certo grau mais duro (dureza essa que se apaga com a confiança). Também não sinto grande diferença quer na paisagem quer nas pessoas, passando Fafe, por exemplo, já sinto, se for para os lados de Montalegre ou Vila Real menos... Embora com a deslocação para norte e nordeste o sotaque vá sendo mais cantado/galego. Além disso, até tempos recentes (e aqui é apenas o que me contam), mesmo em Braga, os estudantes oriundos daquelas terras já eram vistos como de muito longe... Embora o distrito fosse o mesmo.

Entre outras coisas, mas é apenas a visão de quem passa algum tempo por lá e cujas origens estão bem mais longe.

Abraço,
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Maria Araújo a 04.01.2021

Apesar de desactivadas as estações, as autarquias deviam cuidar delas.
Os turistas de dentro e de gota gostam disso.
Que belo passey.
O norte também é lindo!
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Robinson Kanes a 04.01.2021

Eu só retirava o também, é lindo :-)))

As estações não são das autarquias. Aliás, tudo o que está dento do domínio ferroviário pertence à IP. Existem sim concessões, que muitas autarquias aproveitam e assim "ficam" com os espaços, todavia a responsabilidade máxima, digamos assim, é da IP. Mas nem sempre é fácil, por vezes chega a ser mais fácil negociar uma parceira com a IP do que com uma autarquia... Como lhe referi, ainda não perdemos o instinto de courela. Além disso, em alguns casos, o primado do associativismo (nem que seja do rojão ou das motas de 125cc) prevalece mais do que a iniciativa privada...

Os turistas? Os turistas adoram, e as gentes locais também... Se não adoram deviam adorar, em último recurso é um património dessas mesmas gentes!
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Maria Araújo a 04.01.2021

Ok!
Retiro o também, e corrijo o passey ( ai o teclado virtual!).
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O ultimo fecha a porta a 05.01.2021

Por curiosidade, a estação de Celorico de Basto é gerida pelo parque de campismo. Aproveitaram para fazer quartos e colocar ao serviço dos turistas.
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Robinson Kanes a 06.01.2021

Sim, a ideia é servir de apoio a quem frequenta a Ecopista. Em tempos estive para entrar nessa corrida (não propriamente da estação em si), mas tenho pouca paciência para "feudos" e além disso não quis envolver terceiros que politicamente poderiam ter ajudado. Penso que também tem uma pequena área para reparação de bicicletas... Em algumas terras é preciso beijar a mão às autarquias, às associações do Noddy e do Carteiro Paulo e às misericórdias... Há quem perca mais tempo a trabalhar e não tenha grande disposição para isso :-)
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Folhasdeluar a 04.01.2021

Fiz essa linha mas de comboio..em 1989...era uma linha onde o termo "dava para sair do comboio, apanhar uvas e apanhá-lo novamente", era devidamente apropriado...:))))
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Robinson Kanes a 04.01.2021

Lembro-me de ter falado com um "recruta" que nos tempos da guerra falava de ter feito essa linha no seu caminho para Mafra, onde receberia a instrução e se tornaria Alferes. A subida um pouco antes de Mondim, lenta... Relatos fantásticos...

O seu foi mais um...

Abraço,
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O ultimo fecha a porta a 05.01.2021

No Verão quando fui a Mondim e Celorico, fui até à ecopista, mas em férias há descanso, por isso não percorri a ecopista :)
Sendo no Norte e nessa região, estou certo que haverá muito verde e paisagens deslumbrantes para mirar e fotografar.
Obrigado pela descrição e parabéns pelas fotos!
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Robinson Kanes a 06.01.2021

Férias em descanso deixam-me louco :-))))))
A zona é muito interessante, pouco explorada mas isso também a torna uma verdadeira surpresa para muitos, além disso, no caso da Ecopista, o percurso é ainda mais interessante por ter travessias onde os carros não chegam.

Obrigado eu,
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O ultimo fecha a porta a 06.01.2021

Sim, é como os trilhos. Vemos paisagens que de carro não vemos.
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Até fiquei com vontade. Do caminho. Da paparoca
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Robinson Kanes a 08.01.2021

Ahahahah primeiro o esforço.

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