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Pancadaria Portuguesa!

por Robinson Kanes, em 01.02.17

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A recente polémica sobre a Padaria Portuguesa fez-me descer à terra e entrar no que se vai dizendo por aí. Confesso que me permite evitar ser aquele que, enquanto os outros falam à mesa do café, fica a olhar para as senhoras da mesa do lado ou a contar quantos copos consegue beber aquele indivíduo de barbas que está ao balcão.

 

Depois de uma exaustiva correria pela selva onde tudo se tem desenrolado, dou comigo, qual David Attenborough, a ver o empresário cool que fala para a televisão com aqueles avanços de quem vai fazer um cabeceamento. Confesso que me fez lembrar aqueles indivíduos mais calmos  que estão na zona VIP de um estádio de futebol a ver e a opinar sobre a partida, ora... o mesmo, só pode esperar que o povo, à mínima, não tenha qualquer pejo em achincalhar.

 

Também descobri que a Padaria Portuguesa pagava praticamente o salário mínimo a 25% dos seus colaboradores e, segundo a mesma, num período de transição. Não são as melhores condições mas... é caso único em Portugal? Quantas organizações não vivem à custa do salário mínimo e até, pior que isso, de estagiários? Não vejo fragatas de guerra a navegar nessas águas...

 

Também apreciei um empresário a defender a sua causa e políticas que, muitos outros empresários (representados na concertação social... a tal Feira de Gado) e políticos (agora calados), defendem. Ainda estamos muito longe de fazer esquecer o antigo empresário à portuguesa. Em muitos casos, podemos trocar a camisa bege e gasta pela t-shirt ou as calças de bombazine cor-de-vinho pelas calças de ganga mas... já trocar algumas "peças" da mentalidade. Mas adiante...

 

É por tudo isto que vamos "cair em cima" de Nuno Carvalho como se fosse o único a defender a flexibilidade laboral (já se for por colocar as mãos nos bolsos durante a entrevista a conversa é outra, pelo menos pareceu-me que o fez)? Eu também a defendo... sobretudo em países onde os empresários são conscientes e percebem que as pessoas são o seu melhor activo, reconhecem o trabalho e não aproveitam a mínima alteração para “matar o negócio”. Defendo a mesma em países onde os colaboradores encaram a organização como também sendo sua e têm a hombridade de fazer bem o seu trabalho, com entrega e dedicação.

 

Também defendo flexibilidade nos despedimentos para não termos de lidar com colaboradores que, anos a fio, só destruíram as organizações. Isto acontece, porque a lei protege, não raras vezes, quem prevarica. Porque não falamos desta temática? Porque quem está na base da organização, por norma, facilmente é despedido.

 

Mas são, ainda muitos os casos, em que a política de não flexibilização protela o fim de comportamentos menos profissionais de muitos colaboradores. São muitas destas leis que não deixam espaço para a valorização de outros colaboradores.

 

Experimentem ter alguém declaradamente incompetente na vossa organização e que não pode ser despedido? São situações que devem ser discutidas por todos, aliás, são muitas as afirmações de Nuno Carvalho que me podem fazer não gostar da forma de pensar do mesmo, mas daí a uma matança pública. E que tal aproveitarmos para falar nestas coisas? Ao invés de achincalhar, porque não trazermos ideias novas? Será que quem quer, verdadeiramente, discutir estas situações não tem tempo de antena nos media? Porque são sempre os mesmos?

 

Uma nota ainda, para as declarações de um outro sócio, José Diogo Quintela... pelo teor das afirmações que proferiu, aposto que não deve ser pessoa para passar muito tempo envolvido no negócio e, para bem da organização, espero mesmo que continue assim.

 

Por fim, a hipocrisia do boicote. Se existe razão (e essa é uma opinião que guardo para mim) que se faça. Mas aqueles que apregoam o boicote, pelos mais variados motivos, que se lembrem de olhar para os sapatos/sapatilhas que calçam, roupas que vestem, comida que comem, restaurantes chiques que frequentam, hotéis onde exibem fantásticos fins de semana e outros locais onde compram os luxos que lhes permitem afirmar um “pseudo-status”. Se vamos boicotar , que não se boicotem só os pequenos-almoços! Lembrem-se também, dos colaboradores da Padaria Portuguesa quando tratarem mal um empregado de mesa ou um operador de caixa num supermercado...

 

Por fim, mais que discutir hipocrisias, penso que todos deveríamos pensar porque é que os portugueses não produzem! Porque é que consomem e gastam mais do que aquilo que produzem! Há bons exemplos de como se podem fazer bem as coisas, e muitos deles em território nacional. Continuamos a deixar os temas verdadeiramente interessantes de lado para promover cavalos de batalha num mundo cada vez mais digital e que nem sempre deve apontar os focos para coisas tão opacas.

 

Temos hoje, muitos a julgarem-se os donos da verdade e, com isso, a terem um tempo de antena demasiado alargado. Todavia, não esqueçamos o que Hémon disse a Creonte na Antigona de Sófocles, pois “quem julga que é o único que pensa bem, ou que tem uma língua ou um espírito como mais ninguém, esse, quando posto a nu, vê-se que é oco”.

 

Uma nota: não sou cliente da Padaria Portuguesa nem pretendo ser (comentário baseado no modelo de negócio vigente).

 

Fonte da Imagem: https://www.nytimes.com/2015/07/12/movies/comedys-sweet-weapon-the-cream-pie.html?_r=0 

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99 comentários

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Nay a 02.02.2017

Não acompanhei muito as polémicas declarações, já o achincalhamento saltou à vista de qualquer um.
Pelo que escreves o senhor disse em voz alta algo que a maioria pensa, é isso?

Li também, nuns comentários ao assunto do boicote, um trabalhador da Padaria Portuguesa a dizer que não compreendia porque o faziam, até porque a maioria não está descontente com as condições mas que agora receiam as consequências dos boicotes!

Mas dizes algo tão BOM "Lembrem-se também, dos colaboradores da Padaria Portuguesa quando tratarem mal um empregado de mesa ou um operador de caixa num supermercado..."

Gosto muito do que dizes :))
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Robinson Kanes a 02.02.2017

Basicamente!

O interessante é a revolta de alguns, perante a aceitação de quem diariamente trabalha naquela organização. Uma coisa é concordar-se com o modelo de gestão, ou mais particularmente com a política de recursos humanos, outra é boicotar porque "está na moda" e traz popularidade.

Agora sou eu que digo, Obrigado Minha Cara :-)

P.S: aposto que muitos dos "boicoteiros" são pessoas muito preocupadas com o bem-estar de todos os trabalhadores. Acredito até que tratam muito bem as senhoras da limpeza e outros que, muitas vezes, nem o ordenado mínimo auferem.
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Nay a 02.02.2017

Não tens que agradecer ;)
Este, ao contrário do teu, é um elogio verdadeiro :D

Devem ser, devem :/
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Robinson Kanes a 03.02.2017

Agora fiquei enternecido :-)

Mas o meu também era verdadeiro, sobretudo pelo toque contemporâneo em conjugação com o romantismo da paisagem :-)
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Nay a 03.02.2017

Ahah
Como é que consegues aplicar esses adjectivos ao meu desenho?!?!?
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Robinson Kanes a 03.02.2017

Ora, é preciso um profundo conhecimento da arte, da vanguarda artística dos sentimentos e das emoções que se encontram na tela...

ahahahahahaha não ligues, sou eu a delirar!
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Nay a 03.02.2017

Opah...espera aí só um bocadinho que eu vou "rabiscar" aqui mais qualquer coisa só para de ouvir delirar mais um bocadinho!
Gosto :))
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m-M a 02.02.2017

Clap! Clap! Clap! :)
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Não conhecia essa citação e adorei, pois é tão verdade...
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Robinson Kanes a 03.02.2017

Quando li a obra, foi uma das que mais me cativou. Confesso que, apesar de gostar dos clássicos, li esta obra numa perspectiva de gestão...
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Maria Araújo a 13.02.2017

Bom dia.
Não estou a par das notícias e do que se passou.
Lendo este seu post e os excelentes comentários trocados entre si e a Rita, dou-vos os meus parabéns pela lucidez e frontalidade que usaram na partilha de ideias de um assunto delicado como o trabalho.
Sabe que, enquanto lia os vossos comentários, lembrei-me do Prós e Contras e do quão valioso seria um programa com o tema algo como, "o trabalho. empregador / trabalhador" ( uma ideia tonta, eu sei) e em vez de estarem no palco da entrevista as pessoas mais conhecidas, que por vezes dizem mais do mesmo e defendem sempre o seu lado, convidavam os verdadeiros trabalhadores, os que estão no terreno como vós, Rita e Robinson Kanes.
Óbvio que elementos de chefia fazem falta.
O público seria maioritariamente jovens. Estes precisam muito de ouvir, de confrontar, de experenciar.
Ah! E o programa devia longo e distribuído por duas ou três fases.
Desculpe esta minha tontice, mas acho que seria vital para o público português.
Parabéns, Robinson e Rita.

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Robinson Kanes a 13.02.2017

Bom dia,

Agradeço o elogio, aliás, agradecemos... de facto as questões do trabalho ainda estão entregues a um conjunto de pessoas, sobretudo comentadores que, pouco ou nada sabem da realidade, que... provavelmente nunca tiveram que procurar um trabalho ou nunca criaram uma empresa. São testemunhos importantes, mas não bastam...

Mesmo as verdadeiras chefias, não vemos muitas dessas pessoas. Temos, de facto, um conjunto de profissionais que até analisa estas situações, no entanto, sempre numa óptica de promoção pessoal e sem ter em conta a realidade das organizações onde desempenham trabalho. O que cria? Um discurso balofo, politicamente correcto, sempre igual e com o protelar da resolução dos verdadeiros problemas. Acontece muito na área dos Recursos Humanos e não só.

Em Portugal, e falou da questão de se discutir estes temas em televisão... eles são discutidos, muito discutidos mas não conheço país onde se façam tantos seminários, congressos, entrevistas, palestras e debates onde se discuta sempre o mesmo, diria até que andamos, anos a fio a discutir o "sexo dos anjos" e no fim os resultados sejam iguais a "0". O trabalho não é excepção. Alguma mentalidade, ainda sindicalista, também nos atira para uma guerra "patrões" (conceito obsoleto) vs Empregados e enquanto assim for... bem podemos ficar à espera de soluções.

Muito obrigado por passar, confesso que é sempre bom ler estes comentários por parte de quem ainda perde tempo a ler-me... penso que a Rita partilhará igual sentimento.
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Maria Araújo a 13.02.2017


Há destaques do Sapo que valem o tempo que se perde ( e não foi perda de tempo para mim) quando o tema é pertinente e de real importância para a blogosfera.
Uma boa semana.

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Robinson Kanes a 13.02.2017

Muito Obrigado! Muito mesmo...
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Rita PN a 13.02.2017

Só tenho a agradecer-lhe a consideração, por nós, aqui demonstrada. Assim como agradeço, em meu nome é do Robinson, o tempo dispensado e a atenção dada aos nossos comentários.
Um enorme obrigada por isso!

PS: Robinson, os debates sempre valem a pena, não só para nós, como também a leitores como Maria :)
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Cabeçuda a 13.02.2017

O problema do Nuno Carvalho é que falou na televisão aquilo que muitos guardam apenas para si. E de repente o povo quer sair à rua armado com forquilhas e pegar fogo aos estabelecimentos. Antes de boicotar a Padaria Portuguesa, olhem à volta para as lojas, restaurantes e hotéis...Eu costumo ir de vez em quando à Padaria Portuguesa e tenciono continuar a fazê-lo. Gosto do pão de deus e do caracol de frutos secos deles "Ah mas devias boicotar a Padaria! Não queres saber dos trabalhadores!" Eu boicoto a Padaria quando deixarem de comprar roupa em lojas conhecidas que recorrem à exploração. Ou quando deixarem de usar produtos testados em animais. Ou quando deixarem de usar produtos que sejam nocivos para o meio-ambiente...Ai a hipocrisia do boicote.
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Robinson Kanes a 13.02.2017

No fundo, resumiu um pouco o que aqui tem sido escrito. É sempre mais fácil abater o ser mais vulnerável. Isso não nos distingue dos demais animais... senão na situação em que esses o fazem para suprimir necessidades alimentares.

Obrigado por passar.
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Lady a 13.02.2017

Adorei os Post :), principalmente quando falas para não boicotarem só os pequenos almoços.... as pessoas só "acordam" quando há ruido, do que não ouvem falar, preferem nem saber ;). Bjs, Marina
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Robinson Kanes a 13.02.2017

Se chegarem a saber, terão dificuldade em boicotar a vida ou os hábitos.

Muito obrigado!
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Pedro Lopes a 13.02.2017

25% da massa salarial, não 25% dos trabalhadores como o "esperto" do patrão tentou passar a ideia.

Ou seja se eu tiver 3 empregados a ganhar ordenado mínimo (500€ para facilidade de contas, e eu tirar para min 1500) tenho uma massa salarial de 750€ ou seja, ninguém ganha ordenado mínimo na minha massa salarial da empresa.

Mas no geral concordo com a opinião prestada, é tudo uma cambada de falsos moralistas e ativistas de sofá e facebooks!
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Robinson Kanes a 13.02.2017

Obrigado pelo "input".

Desconheço qual a ideia do empresário ao apontar essa estatística, pelo que, só me posso basear nas palavras do mesmo. Mas sim, é uma ideia válida do ponto de vista da gestão e até de como as notícias são passadas.

Activistas de sofá e "facebooks", ficará registado. Obrigado por este momento de com que encerrou o seu comentário - fez-me rir num misto de humor e preocupação.

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