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Paleo? Não é Realista!

por Robinson Kanes, em 06.11.17

IMG_0909-2.jpg

 Bodegón con Costillas , Lomo y Cabeza de Cordero, Francisco de Goya - Musée du Louvre

Fonte da Imagem: Própria.

 

Sempre que surge uma nova "dieta", existe um vasto número de "nutricionistas" na nossa praça que quase nos obrigam a aderir à sua ideologia alimentar. Para mim, e por ser um tema demasiado sério para andarmos a brincar com o mesmo ou a assumir o papel de um especialista, penso que cada um de nós deve consultar sempre um profissional da área... Não estamos propriamente a adquirir ou a aderir a uma forma de vestir - a "última" tendência é o Paleo ou os "Primitivos Modernos" ou "Neo Primitivos".

 

Não sou seguidor da corrente e muito menos especialista na área da saúde alimentar pelo que estudei um pouco sobre a matéria, mas não o suficiente, reconheço, pelo que os vossos comentários serão mais que importantes. Nestas matérias mais do que embadeirarmos algo em arco, só porque é cool ou está na moda, temos de ver todas as frentes, eu vou-me focar nos contras, porque prós não faltam, embora mencione alguns.

 

O desenvolvimento desta tendência tem por detrás o polémico Chef Pete Evans. Evans defendeu nos media que se começássemos a replicar a alimentação dos nossos antepassados do paleolítico, a nossa saúde melhoraria substancialmente. Pete Evans, apenas criou uma tendência, e com o devido usufruto para o próprio, mas temos de ter em conta que é só isso e até aí, nada a apontar. Importa sublinhar, contudo, que Evans apenas mediatizou o que já vinha a ser estudado por alguns especialistas que defendem esta prática há mais de 40 anos. Desenganem-se aqueles que pensam que é uma descoberta recente, livros dos anos 70 não faltam.

 

Um dos maiores contestários de Evans, é Marlene Zuk, especialista em Biologia Evolutiva na Universidade do Minesota e uma referência na área. Esta advoga que a dieta Paleo é baseada na ideia de que a genética humana não mudou desde há 10.000 anos para cá, nomeadamente, desde o desenvolvimento da agricultura. Todavia, mais uma vez e segundo a mesma, os nossos genes mudaram e isso fez com o nosso organismo possa perfeitamente "aceitar" alimentos que nunca seriam aceites pelo Homem do Paleolítico. Os especialistas como Zuk vão mais longe, e assumem até, que pouco sabemos do que se alimentavam os nossos antepassados pelo que não podemos sustentar tal teoria. Zuk é a autora do livro "Paleofantasy: What Evolution Really Tells Us about Sex, Diet, and How We Live".

 

Uma outra questão, prende-se com o facto dos defensores desta corrente excluirem das épocas históricas a questão social e das próprias necessidades - à época o homem tinha de caçar ou recolher o que a natureza lhe dava, hoje isso não é necessário, pelo que ficará a questão: justifica que nos comportemos como tal? Coloca-se ainda a questão de que tudo o que comemos actualmente, ou quase tudo, já sofreu a transformação do homem e da própria evolução natural - não podemos conceber que as frutas, legumes e até carne de outrora existam hoje como existiram um dia. Temos de ter cuidado e ter em conta que a tendência paleo não resolve todos os problemas de saúde, como em alguns casos já se tentou fazer crer - a propósito disso, este artigo publicado na Lancet, demonstra que o Homem de outrora não era propriamente aquele ser belo, de corpo esculpido e saudável. Já vão sendo realizados alguns estudos, todavia, muitas doenças poderiam não ocorrer no paleolítico pelo simples facto de muito poucos atingirem uma grande longevidade... Além disso, as doenças actuais não estão só relacionadas com a idade mas também com o estilo de vida e outros factores que vão bem para lá da alimentação. 

 

Outro pormenor prende-se com o facto do Homem, ao longo da história, ter estabelecido diferentes dietas que sempre dependeram da geografia e da variedade de "produtos" disponíveis. Recomendo o artigo de William Leonard na Scientific American de Dezembro de 2002 e este outro da Nature realizado com base no estudo do ADN da placa dentária dos Neandertais - se gostarem desta matéria, para lá das dietas, é sem dúvida uma viagem interessante. Ambos os estudos têm acesso pago e por esse motivo as minhas desculpas.

 

Um outro factor, e aqui creio que podemos extender a todas as dietas, está relacionado com a importância de prevenir aquilo a que os americanos chamam o "what the hell effect", algo como "efeito, mas que raio" e que não é mais do que sublinhar que a prática de diferentes dietas não leva a uma perda de peso, bem pelo contrário. Este comportamente surge também devido à vulnerabilidade a que muitos estão sujeitos assim que "caem em tentação". Neste campo, os estudos vão mais longe, e apontam que basta só a ideia de se ter quebrado determinado regime alimentar, para que os indivíduos percam o auto-controlo. Sugiro este estudo da Universidade de Toronto. 

 

Finalmente, a adopção de determinados hábitos como o regime paleo, pode levar, inclusive, à perda de um ambiente social agradável e também a restrições que são irrealistas para os dias de hoje. Esta é também a opinião de Charlotte Markey, psicóloga e professora na Rutgers University com 15 anos de investigação nesta área. Sugiro o livro "Smart People Don't Diet: How the Latest Science Can Help You Lose Weight Permanently" e também o artigo "Don't Diet!", da autoria da mesma, e publicado na Scientific American Mind de Setembro/Outubro de 2015. Podem encontrar o artigo online mediante pagamento ou adquirir, como eu, a revista.

  

Todavia, nem tudo é mau, uma das vantagens apontadas para esta dieta, é a ausência das chamadas "comidas processadas". Penso que aí é indiscutível. 

 

Com isto, não procuro censurar quem segue estes hábitos (é uma escolha dos próprios, livre e que deve ser respeitada), contudo, temos de ter cautela quando utilizamos o conceito de ciência como se fosse marketing ou um lifestyle, até porque dizer que hoje é possível adoptar uma forma de estar paleolítica é totalmente absurdo - ainda não conheci ninguém que adira a este modo de estar e viva numa caverna sendo recolector ou caçadorO ideal, será sempre conhecer diferentes perspectivas e, sobretudo, quando é de saúde que falamos, conversar com os verdadeiros especialistas (a favor e contra). 

 

 

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62 comentários

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De Anónimo a 06.11.2017 às 19:54

" Colesterol conheço por ouvir falar, diabetes por ouvir dizer. Nunca fui a um médico: tirando a obrigação para a renovação da carta de condução, não sei o que é uma dor de cabeça, o mesmo para uma dor de estômago ou de rins; nunca fiz nenhum rastreio a nada, onde me deito durmo, se fosse preciso até em cima de uma pedra. Mas durmo pouco. Três ou quatro horas. Não sei o que é uma constipação, uma gripe, nada. Nada do que se queixa a humanidade eu sei o que é.
Bebo muito leite, porque sempre gostei..."

Fantástico, Corvo.
África deu-lhe saúde, resistência, robustez, qualidade de vida.
Parabéns.
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De Corvo a 06.11.2017 às 20:47

Não sei. Milhares estiveram em África, outros até lá nasceram e ainda outros lá estão.
Não conheço outro exemplo.
E mais lhe digo. Não tomo medicação para nada, nem sei o que é uma simples aspirina.
Se será, porventura, o facto de desde criança comer piri piri aos punhados, e mesma agora não dispensar o picante em todos os pratos, incluindo-o até na sopa, não sei nem digo que seja por isso.
Mas e para evitar ouvir diatribes de volta, digo:
Comigo é isto exactamente como disse. Agora, acredite quem quiser.
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De Corvo a 06.11.2017 às 21:16

E ajunto mais isto.
Antes e por obrigação de carta visitava o médico, de há quatro anos para cá nem isso faço porque deixei de conduzir, por dever de consciência.
Conduzia na melhor das disposições, quatro faixas de rodagem e aproximava-me da ponte da Arrábida, muito trânsito mas fluía bem, quando subitamente do nada me deu uma dor agonizante ao nível do externo, localizada num ponto preciso. Já me tinha dado uma vez há uns trinta anos. Pensei num AVC, porque não sou burro para não saber que um dia, sem aviso isso vai acontecer. Consegui encostar e apoiar-me sobre o volante à espera que passasse, e quando me senti melhor e me preparava para arrancar, passou ao meu lado um carro com uma criança numa cadeirinha atrás.
Pus-me a pensar que não tinha o direito de numa provável situação semelhante, não ter a mesma sorte de agora, dar-me mesmo um AVC, provocar um acidente em que aquela criança, ou outra qualquer morresse.
Não renovei mais a carta e para não sucumbir à tentação vendi o meu carro.
Portanto já não preciso de medico
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De Robinson Kanes a 06.11.2017 às 21:19

"Antes e por obrigação de carta visitava o médico, de há quatro anos para cá nem isso faço porque deixei de conduzir, por dever de consciência.".

O meu aplauso e reconhecimento! Não é fácil tomar essa decisão :-)

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De Corvo a 06.11.2017 às 21:32

Facílimo, Robinson.
Não trabalho portanto não tenho a responsabilidade de cumprir horários, moro perto de tudo e o que preciso vou a pé.
Foi a segunda vez aquela dor agonizante. Não sei o que são doenças em mim, mas sei que existem, e sobretudo conheço bem o que é um AVC. O meu pai foi-se com isso, dois vizinhos no meu prédio também já foram, alguns amigos já marcharam e eu aguardo a minha vez.
Foi um aviso. Morra sim mas não mate os outros.
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De Robinson Kanes a 06.11.2017 às 22:24

Entendo-o, mas para muitos, deixar a condução é quase um sinal de entregar as armas da vida... Conheci muitas situações assim.

Aguarda a sua vez, mas olhe que com essa saúde ainda nos vai enterrar a todos primeiro, como diz o povo. Eu não tenho dúvidas :-)
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De Maria Araújo a 06.11.2017 às 23:12

Eu não tenho dúvidas, também.
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De Maria Araújo a 06.11.2017 às 23:25

Aquele(a) anónimo(a) sou eu.
Desde que o Sapo mudou a configuração dos comentários, e está bem e gosto, acontece esquecer-me de entrar como blogger e reparo, também, que amigos de outras plataformas aparecem anónimos nos meus comentários, o que não acontecia antes, e eu gosto de saber quem são.
Alguns conheço pelo modo de escrita.

" ...deixei de conduzir, por dever de consciência."

Uma pessoa de bom senso e que conhece as suas capacidades e limites.

Há aqui na rua vários vizinhos entre os 90 e 93 anos.
Dois deles conduzem, e vim a saber que o que eu achava que estava muito bem, parece que a cabeça já mostra muito esquecimento e dificuldade nos movimento que até " o carro está a ficar cheio de riscos das manobras que faz mal", disse-me hoje uma vizinha.
Ora eu disse várias vezes e tenho a certeza que o farei:
Quando perceber que já não tenho a destreza da condução que tenho, deixarei de conduzir. Vivo no centro de tudo, ando a pé, coisa que não me custa nada,e se nessa altura continuar com a minha actividade física, irei de autocarro, pois tenho um aqui perto que pára do outro lado do passeio do ginásio.
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De Robinson Kanes a 07.11.2017 às 08:30

Saber desistir é uma característica que poucos têm. E nem sempre é mau, antes desistir perante uma adversidade inevitável a atirar-se para o aviso.

Eu admito que a única coisa boa que vejo na condução é quando faço as chamadas"road-trips", de resto é mesmo por necessidade ou obrigação.
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De Maria Araújo a 07.11.2017 às 19:49

Viajar é bom e sendo por cá, muito melhor.
Eu sou adepta do carro e não passo sem ele.
Abdicarei dele quando sentir que posso prejudicar outros.
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De Robinson Kanes a 06.11.2017 às 21:17

Por acaso, cá em casa temos sempre gindungo (ou jindungo em Angola, penso) feito por uma são-tomense que é uma maravilha.
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De Robinson Kanes a 06.11.2017 às 21:09

Por acaso ía comentar isso mesmo... Quem passa por África traz de lá uma saúde que nem no Japão...
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De Corvo a 06.11.2017 às 21:21

Já expliquei ao anónimo, caro Robinson. Não tem nada a ver.
O meu pai, por exemplo, precisou sempre de médico para tudo enquanto lá esteve, e morreu aos 56 anos, dois anos depois de ter regressado a Portugal.
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De Robinson Kanes a 06.11.2017 às 21:25

Estava a brincar um pouco... Mas que aquela terra danada tem qualquer coisa tem :-)
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De Corvo a 06.11.2017 às 21:36

Coma gindungo. Sempre e em tudo e todos os dias. Mas muito. Faça como eu que até sandes de gindungo faço. Abro um pão, punhados de malagueta vermelhinha lá para dentro e hum, delícia. :))
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De Robinson Kanes a 06.11.2017 às 22:26

Admito que aí não sou o homem que é o Corvo. Só consigo comer muito pouco de cada vez. Mas confesso que uma muamba sem gindungo não é uma muamba - cá em casa fazemos como em Angola, com funge e é delicioso.

Permita-me que este pobre puto se vergue perante a força de quem consegue aguentar tanto picante :-)
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De Maria Araújo a 06.11.2017 às 23:26

Corvo, já escrevi que aquele anónimo sou eu.
Desculpe.

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