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Os Revoltosos Acomodados...

por Robinson Kanes, em 26.02.18

IMG_20170611_192544.jpg

Texto: Anónimo

Fonte da Imagem: Própria 

 

 

 

A era das comunicações de massa é de deterioração da comunicação inter-humana. 

Gilles Lipovetsky in, "O Império do Efémero".

 

 

Nunca como hoje, o Ocidente teve oportunidade de se expressar de forma tão livre. As redes sociais, aliás, o digital como um todo, permitem que uma grande maioria da população tenha voz - ou será que é uma maioria assim tão grande? - e se expresse de forma mais ou menos entusiasta. Neste campo, tenho de enaltecer todas as inovações e de como a transformação foi, e é, necessária.

 

Nunca como hoje, em Portugal e não só, a revolta da sociedade foi tão generalizada e tão audível. Mas talvez, nunca como hoje essa revolta não passa de meros caracteres digitados num café enquanto se espera por um amigo, ou então porque é preciso escrever qualquer coisa para mostrar que existimos ou que temos opinião. Que temos opinião mesmo não tenhamos pesquisado sobre o tema e a única fonte de informação são os títulos de um qualquer artigo notícioso que nem sempre é o mais fidedigno ou opiniões de uma massa que não interessa contrariar. Camuflamos a nossa incapacidade de ter opinião própria, embarcado no comboio daqueles que nem sempre seguem para um destino esclarecido. 

 

Actualmente, temos opinião sobre tudo e sobre todos mas, talvez depois de esmioçadas convicções e argumentos não tenhamos opinião sobre nada a não ser sobre nós próprios, e mal. Baseamos a nosso opinião naquilo que nos chega e não paramos um momento para pensar - não procuramos ir mais longe e imediatamente desatamos a escrever e a falar como se estivessemos na posse de toda a informação e presenciado factos in loco. Podemos dizer que sempre foi assim... E foi. Mas antes a maioria da população não utilizava nomes "pomposos" para definir as suas habilitações ou o seu cargo profissional... Não estávamos perante uma população tão esclarecida, tão letrada e com os níveis de vida que encontramos na sociedade actual. Mas pensar em algo, analisar uma temática, leva a que percamos o comboio que leva todos aqueles que querem ser ouvidos, mesmo que não digam nada digno de ser escutado... 

 

Nunca como hoje fomos tão revoltados, revoltados no nosso sofá, na nossa secretária em casa ou no trabalho (porque até nem gostamos do que fazemos, mas ao invés de mudarmos preferimos protelar essa decisão para garantir que a nossa imagem perante os outros continua alicerçada em vigas de areia) mas tão cobardes na praça pública. Na praça pública que não é uma rede social, mas aquela praça pública onde somos rosto, cheiro, voz e cidadãos. Mais do que um povo reprimido, que não pode falar sob pena de acabar numa cadeia, tenho medo de um povo que pode dizer o que quer e revoltar-se por tudo e por nada, mas que embarca neste folclore de entra tema e sai tema como se nada tivesse acontecido. Mais que tudo, e seguindo as palavras da Faulkner nos "Ratoneiros", o nosso exterior é apenas aquilo em que vivemos, em que dormimos, e pouca ligação tem com o que somos e ainda menos com o que fazemos".

 

Aquele que contesta no digital o poder político por ser corrupto, é o mesmo que amanhã troca favores com outrem a bem de trazer mais uns euros no final do mês para além do ordenado. Aquele que se revolta contra a fome em África, é aquele que atropela tudo e todos no emprego e no regresso a casa, só para que ao filho não falte um carro de passeio que custa mais que alguns automóveis. Aquele que critica e despeja toda a raiva nas redes sociais, em blogs, em jornais e outros meios, é aquele que mal chega a hora de sair, fecha o computador, não deseja bom descanso a ninguém, chega a casa, janta e vê televisão e dorme um descansado sono sem qualquer inquietação em relação ao mundo que o rodeia... A não ser que tenha contraído dívidas quando teve necessidade de viver acima das posses e agora não as possa pagar. Ou então aquele que se bate (nas palavras e na imagem) pela luta contra o racismo mas não é capaz de trabalhar lado-a-lado com um preto. Ou finalmente, aquele que se bate contra a pobreza, mas nem arrisca passar de carro num bairro social, mesmo que goste de tirar fotografias ao lado dos desgraçadinhos enquanto lhes coloca um pacote de arroz no saco enquanto faz voluntariado de holofote - sobretudo agora que o voluntariado abre portas também no emprego.

 

Para aqueles que praticam o mal, para aqueles cuja ética e bem-estar não passam de notas de rodapé em revistas sociais, talvez, nunca como hoje, o mundo tenha sido um local tão apetecível para perpetuar tantas más práticas... Pois, já diz o povo, "os cães ladram mas a caravana passa", mesmo que vá cheia de bandidos, pois também diz esse mesmo povo que "cão que ladra não morde". Para os revoltosos acomodados, na verdade, podem ficar tranquilos no sofá enquanto a única noção que têm de conflito é o Netflix, pois "quem não age, não corre riscos", já dizia Vergilio Ferreira.

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16 comentários

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De Cecília a 26.02.2018 às 15:25

(pre)disse baudelaire

morrereis todos de conforto!

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De Robinson Kanes a 26.02.2018 às 18:00

Queixando-se de fartura, como dizia Eça de Queiroz...
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De Rita a 26.02.2018 às 22:36

(Infelizmente) tens aí muitas verdades. É pena não se dar outro uso à voz que cada um de nós pode ter numa era como a que vivemos.
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De Robinson Kanes a 26.02.2018 às 23:05

Temos demasiada voz a discutir futilidades ou a engalanar aquilo que não merece o nosso tempo...
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De HD a 27.02.2018 às 21:13

Creio que o que me leva a ter muita indiferença nas redes sociais não será o comodismo, mas uma sensação de impotência para lutar contra esta gente de opinião fácil... :\
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De Robinson Kanes a 05.03.2018 às 16:30

opinião fácil e acções difíceis! .-)
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De Maria Araújo a 27.02.2018 às 22:46

São muitos os bandidos, e cobardes, que vão na caravana, Robinson.
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De Robinson Kanes a 05.03.2018 às 16:30

Uma caravana de saqueadores, direi...
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De Beia Folques a 03.03.2018 às 12:34

É esse o cenário da nossa sociedade os revoltados no sofá. E nisso nós Portugueses somos mestres.Infelizmente.
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De Robinson Kanes a 05.03.2018 às 16:30

Então... O sofá é mais confortável.

... E seguro :-)
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De José da Xã a 03.03.2018 às 19:56

Robinson,

na minha já longa vida já assisti a tudo.
A seguir ao 25 de Abril mobilizei-me atrás do MRPP. Sabes porquê? Porque tinha as miúdas mais giras.
Entretanto na escola fui diversas vezes delegado de turma e acabei por ter outra consciência dos problemas dos alunos. E nem imaginas o que descobri.
Acabei por crescer e acordar para um mundo bem diferente daquele que se falava.
Durante o resto da minha vida sempre desconfiei dos falsos ricos e dos falsos pobres. E conheci tantos.
Ao mesmo nível sempre duvidei de gente que refila muito nas costas do chefe, mas esquece-se de falar na frente.
Porque não sou assim, nunca o fui, costumo dizer prefiro perder um bom amigo que uma boa resposta.
Como sabes continuo nas minhas demandas por apoios às minhas terras. Aprendi que não vale a pena dar murros na mesa.
Ainda esta semana telefonei para a junta de freguesia da minha aldeia para tentar falar com o presidente. Sem sucesso. Um mail para a Junta com o conhecimento da Presidente da Câmara abriu logo as portas e ainda ontem fui e vim à minha aldeia para resolver uns assuntos que queria resolvidos.
Desculpa o desabafo.
Bom domingo!
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De Robinson Kanes a 05.03.2018 às 16:32

Tiro-lhe o meu chapéu, filiação num partido tendo como mote as miúdas giras é daquelas coisas :-)

Qual desculpa, mostrou que é importante não ficar calado e que os recursos estão à nossa disposição se soubermos e quisermos utilizar os mesmos!

Obrigado pela partilha, José!

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De mami a 04.03.2018 às 09:46

não sei se vais entender isto como um elogio ou não (ah sua ave rara), mas a mensagem vai carregada de um forte elogio: ao ler o teu texto várias vezes senti que poderia estar a ler um texto do miguel esteves cardoso (senhor que muito aprecio)
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De Robinson Kanes a 05.03.2018 às 16:35

Claro que entendo como tal... Muito obrigado :-)

Embora não seja grande admirador do senhor :-)

P.S: muito obrigado :-)

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