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Ondem andam os milhões do turismo?

por Robinson Kanes, em 24.04.20

euro_45790700_12940600.jpgCréditos: https://en.publika.md/2016-ends-with-investments-of-tens-of-millions-euro-for-economy-relaunchment_2632517.html

 

Ao longo dos últimos anos, não terá passado ao lado de ninguém, o fabuloso mundo do turismo em Portugal. Todos nós vimos serem anunciados milhões e milhões de apoios ao turismo por parte dos diferentes Governos e sobretudo pela anterior Secretária de Estado que tanto explorou a sua imagem que ficámos a pensar se o turismo em Portugal era só a pessoa de Ana Mendes Godinho - afinal, com o dinheiro dos outros. A verdade é que resultou e a catapulta para Ministra do Trabalho, da Solidariedade e Segurança Social fez-se notar.

 

Anunciaram-se financiamentos de milhões ao mesmo tempo que se apresentavam os números do turismo, havia que investir na galinha dos ovos de ouro, mesmo que mais de metade dos turistas fosse o tão conhecido "pé de chinelo". No entanto, uma das coisas que se aprende logo no primeiro ano de uma licenciatura na área, em Introdução ao Turismo ou em Economia do Turismo, é que esta indústria é a mais vulnerável em períodos de crise. Entendo que tal seja esquecido, afinal os primeiros anos na universidade servem é para a malta andar nos copos. 

 

Com tamanho encaixe financeiro, com uma economia a apostar tão forte neste tipo de serviços, com a gabarolice de que o revenue per available room (RevPar) estava mais alto que nunca, de que os milhões não paravam de entrar em hotéis, restaurantes, eventos e alojamento local, de um regresso de uma certa sobranceria de certos actores, acabamos, numa vastidão de casos, ainda no primeiro mês de vírus com o caos montado - ainda o vírus tentava sair da China e já alguns negócios abriam falência ou iniciavam o discurso habitual do colapso imediato. A minha questão é simples: onde estão os milhões do turismo? Onde está o return on investement (ROI) ou, pelo menos, uma clara demonstração do destino desses valores?

 

Portugal pode-se orgulhar de ter uma boa oferta turística, mas não se pode gabar de pagar os melhores salários nessa área. Portanto, não terá sido aí que todos esses milhões desapareceram. A destruição do valor da profissão (e dos salários) que culminou com a crise de 2008, não voltou à ao glamour da profissão em tempos anteriores, embora reconheça que muitas correcções eram necessárias. Uma nota: não eram poucos os hotéis, pelo menos em Lisboa, cujas máfias de trabalhadores imperavam, e isso foi/é importante limpar.

 

Mas volto à questão, onde estão os milhões do turismo? Gastámos esses milhões todos a comprar prémios para dizerem que nosso turismo era o número 1? São os próprios agentes do turismo, os que têm coragem, que o dizem... Um deles é o inesperado André Jordan.

 

E os planos de contingência? Será que à boa maneira portuguesa ignorámos estes mesmos planos? Porque é que não nos preparámos para crises? Porque é que só alguns autores estavam preparados, os mesmos que encerrando serviços têm investido na manutenção, não despediram e ao invés de andarem a apanhar cacos já andam a pensar em 2021. Estes, sobretudo na hotelaria, foram também aqueles que conseguiram antever o colapso de operadoras como a Booking.com e outras ,e que deixaram os seus clientes sem apoio, e encetaram um sem número de contactos no sentido de apoiar os seus hóspedes, antecipando riscos, encontrando soluções e não deixando para o período crítico problemas com os quais ninguém quer ter com que se preocupar quando a questão é a saúde.

 

Quer para o turismo e quer para todas as outras áreas, são necessário muitos novos actores e a reconversão de tantos outros sem esquecer a retenção dos melhores. Vai ser preciso resistir ao show off; às maçonarias de profissionais de determinadas áreas e apostar em gestores/colaboradores com uma visão de futuro, um futuro imprevisível, que obriga a decisões dificeis e a uma clara visão de longo-prazo e não de dias ou semanas.

 

O futuro será de altos e baixos, e só aqueles cuja capacidade de antevisão, adaptação e reacção às crises é que poderão acrescentar valor, caso contrário, teremos o caos e o pânico montados de cada vez que acontece algo, isto porque continuamos a ter um plano para a vida do qual não queremos ter desvios. Tuudo isto não vai mudar com horários de trabalho desenfreados, com o discurso do cheio de trabalho e horas não dormidas (muitas vezes com eficiência zero), mas sim com um mindset claro de quais são as prioridades, a estratégia, e mais que nunca, a aposta na sustentabilidade.

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18 comentários

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Anita a 24.04.2020

Já me tinha questionado do mesmo. Tanta riqueza para onde foram os lucros???
Alguém ficou com eles. Tenho pena é dos trabalhadores.
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Robinson Kanes a 24.04.2020

É uma boa pergunta...

Em meu entender, para mim, ter um negócio tem de ser para ir além de pagar o mês, caso contrário não é rentável. É o chamado, trabalhar para aquecer. Se assim for, o turismo não traz muito mais que o chamado trabalhar para aquecer.

Mas há bons exemplos, um deles, é o Corpo Santo Hotel, mas há mais.

Também me parece que não é apenas uma questão de trabalhadores e/ou gestores, é também uma questão de "mindset". Até porque algumas crises ajudam a limpar a casa de ervas daninhas.
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Anita a 24.04.2020

Concordo perfeitamente
Bom fim-de-semana
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Alice Alfazema a 24.04.2020

"Tudo isto não vai mudar com horários de trabalho desenfreados, com o discurso do cheio de trabalho e horas não dormidas (muitas vezes com eficiência zero), mas sim com um mindset claro de quais são as prioridades, a estratégia, e mais que nunca, a aposta na sustentabilidade."


"Vai ser preciso resistir ao show off; às maçonarias de profissionais de determinadas áreas e apostar em gestores/colaboradores com uma visão de futuro, um futuro imprevisível, que obriga a decisões difíceis e a uma clara visão de longo-prazo e não de dias ou semanas."


"não eram poucos os hotéis, pelo menos em Lisboa, cujas máfias de trabalhadores imperavam, e isso foi/é importante limpar."




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infp a 24.04.2020

como trabalhadora da área do turismo e hotelaria, obrigada pelo post
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Robinson Kanes a 24.04.2020

Obrigado eu. O vosso trabalho, tantas vezes invisível, é fantástico!
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The Travellight World a 24.04.2020

Também tenho feito a mesma pergunta...
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Lady a 24.04.2020

Algo que já me tinha questionado, tenho familiares na área da hotelaria e é melhor nem falarmos nos ordenados .
A aposta na sustentabilidade é essencial, mas infelizmente, temo que não o será para a maioria
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Robinson Kanes a 24.04.2020

Ordenados e horas e trabalho e por aí além... Diz, quem só vê o resultado, que é uma profissão cheia de glamour. :-)))

Espero que o seja, a bem dos postos de trabalho, do profissionalismo e até do ambiente. E já nem falo da economia como um todo.
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Luísa de Sousa a 24.04.2020

Aqui está uma belíssima questão!
Aonde andam???

Beijinhos Robinson
Resto de Dia Feliz!
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Robinson Kanes a 25.04.2020

Ninguém sabe... :-)))

Beijinhos e bom fim de semana,
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cheia a 24.04.2020

Deve ter caído em bolsos rotos.
Bom fim-de-semana
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Robinson Kanes a 25.04.2020

Quem sabe...

Bom fim-de-semana,
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/i. a 25.04.2020

Um país que depende da actividade turística (e não é uma indústria, como muitos dizem... Indústria é a do automóvel, por exemplo, que produz algo. O turismo presta um serviço em rede com outros prestadores de serviços) para sobreviver é um país que não me interessa. Significa que é um país sem indústria e eu não quero que Portugal seja um Brasil, por exemplo. Quais são os país em que a principal atividade económica seja o Turismo? Pois... Os PVD.
O dinheiro está onde está sempre nos donos dos grupos hoteleiros que conseguem sacar sempre bons fundos europeus. E que depois não conseguem manter o seu staff durante três ou quatro meses mesmo com os salários de corar: os lucros são para eles, o prejuízo para dividir com o contribuinte com o lay-off que estão a abusar em muitos casos porque no fim disto tudo fazem um despedimento colectivo.

Quantos aos prémios, não vejo a comunicação social investigar o dinheiro gasto nestas candidaturas que se ganha porque se paga e bem.
Anda tudo deslumbrado com o facto de sermos o melhor destino blá, blá, blá... Somos porque pagamos. Não há almoços grátis.
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Robinson Kanes a 26.04.2020

Depender do turismo pode acabar sempre mal, que o diga o sul de Itália e até Espanha, embora...
A comunicação social é, não raras vezes, a principal promotora destes prémios - já me faz lembrar algumas conversas com alguns artistas da nossa praça em relação a "globos de lata" :-) e outros que tais... Voto do público? Como se costuma dizer "yeah right".
Não há almoços grátis e em breve lá vamos ter de pagar muitos almoços...

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