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O que aprendi nos últimos seis meses...

Por GC...

por Robinson Kanes, em 18.06.20

rubens_nao_e_que_nao_houvesse.jpg

Peter Paul Rubens - "Retrato da Filha do Artista" (Scottish National Gallery) 

Imagem: Robinson Kanes

 

Quando penso nos últimos seis meses tenho a sensação de ter passado já muito tempo. Não por causa da pandemia e do consequente recolhimento forçado, que obriga a mais tempo de reflexão e contacto com a nossa mais íntima realidade, mas porque uma parte de mim parece ter ficado lá atrás - enquanto a minha essência mais profunda está a voltar e a caminhar em frente. Qualquer que seja a razão para isso ter acontecido, parece que devo ter motivos para ficar feliz.

 

Nos últimos seis meses aprendi que, embora seja por vezes doloroso, a escolha pelos nossos ideais e valores em detrimento de títulos (profissionais ou outros) vale sempre a pena. É um caminho solitário e muitas vezes incompreendido. Mas a coerência e consistência com o que temos de mais estrutural traz-nos uma tranquilidade impagável.

 

Aprendi, igualmente, que a minha ignorância é afinal bem maior do que julgava. Há tantos livros para ler, tantos cursos para fazer, tantos filmes e música e poesia para me emocionar, que a única hipótese viável é reservar uma parte do dia para me cultivar e tentar ser melhor a partir do conhecimento e da experiência dos outros.

 

Aprendi ainda que a vida pode ser tão simples para nós, humanos, como é para um cão. O meu Pastor Alemão descobre, à medida que vai ficando mais velho, muito mais sítios interessantes para farejar, brincadeiras muito mais divertidas para me pedir ou técnicas bem mais ardilosas para me obrigar a levá-lo a dar passeios mais longos pela natureza. Quando penso que poderia traduzir tudo isso para a minha própria experiência humana, chego à conclusão de que, tal como para ele, descobrir constantemente novos motivos para me fascinar perante o mundo poderá ser algo verdadeiramente espontâneo - basta estar atenta ao que me rodeia.

 

Aprendi também que, embora não se morra, literalmente, de saudades, é possível morrer metaforicamente. Porque é por dentro, no invisível traço que nos une a alguém, que a falta acontece sem pedir licença. Um dia disseram-me que não era de uma pessoa que sentíamos saudades mas do que ela nos fazia sentir. Talvez seja verdade. Ainda assim, há olhares, aromas, sorrisos, abraços e cumplicidade que não são repetíveis - por muito que outra ou outras pessoas cheguem entretanto à nossa vida. Aquela marca, aquela ausência, aquela memória pertencem unicamente a quem no-la gravou cá dentro.

 

Aprendi, finalmente, que não há nenhuma forma de saber o que cada dia nos reserva, por muito que gostemos de nos defender dessa certeza com falsas seguranças e vidas muito cronometradas. A inevitabilidade e o mistério do desconhecido parecem-nos longínquos quando estamos a viver em piloto automático. Mas o facto de não podermos controlar tudo pode trazer uma bênção impensada: a de sermos, finalmente, aquilo que somos, sem amarras, sem controlo de cada gesto, sem medo que a nossa essência transborde para lá do barco imenso da nossa plena existência.

 

GC

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16 comentários

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Robinson Kanes a 18.06.2020

Cara GC,

Muito obrigado por este texto espectacular. Obrigado pela forma tão pura e real com que nos contemplou.

Tirei daqui excelente lições...

"a de sermos, finalmente, aquilo que somos, sem amarras, sem controlo de cada gesto, sem medo que a nossa essência transborde para lá do barco imenso da nossa plena existência."

Top!

Não é por acaso que a cavalgada no "medium" começou tão bem. É um orgulho tê-la por cá.
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Anónimo a 18.06.2020

Caro Robinson,
Muito obrigada eu pelo convite para vir até este espaço tão lido.
A inspiração nem sempre acompanha a pena (ou as teclas), mas, como dizem os espanhóis, "pero... Vamos!"... Vale a generosidade do anfitrião e de quem lê.
Foi uma honra ter vindo até cá. Boas escritas.
GC
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Anita a 18.06.2020

Adorei o texto. Todos nós temos tanto a aprender.
Fica bem e um bom dia
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Anónimo a 18.06.2020

Muito obrigada pelas suas palavras, Anita. Fico feliz por ter gostado.
Cada dia é mais uma aprendizagem, sem dúvida!
Um beijinho,
GC
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Anónimo a 18.06.2020

Texto excelente e muito bem escrito.
Parabéns
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Anónimo a 18.06.2020

Muito obrigada! É muito bom saber que teve reflexo desse lado!
Um beijinho,
GC
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Maria Araújo a 18.06.2020

Belo texto!
Destaco este parágrafo:

"Um dia disseram-me que não era de uma pessoa que sentíamos saudades mas do que ela nos fazia sentir. Talvez seja verdade. Ainda assim, há olhares, aromas, sorrisos, abraços e cumplicidade que não são repetíveis - por muito que outra ou outras pessoas cheguem entretanto à nossa vida. Aquela marca, aquela ausência, aquela memória pertencem unicamente a quem no-la gravou cá dentro."

Obrigada.

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Anónimo a 18.06.2020

Muito obrigada, Maria!
Eu é que tenho a agradecer as suas palavras.
Ainda bem que esse parágrafo lhe fez sentido... Vamo-nos reconstruíndo a partir desses encontros e das marcas que nos deixam. 😊
Obrigada por estar desse lado!
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cheia a 18.06.2020

Excelente texto!

Um abraço
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Anónimo a 18.06.2020

Muito obrigada!
Um abraço grande para si e obrigada por me ler por aqui.
GC
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José da Xã a 19.06.2020

"Quit perfect".
Muiro bom.
O neu aplauso.
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Anónimo a 19.06.2020

Muito obrigada, José, pelas suas palavras tão elogiosas!
Um abraço,
GC
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José da Xã a 19.06.2020

Desculpe os erros, mas responder no telemóvel é o que dá.
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Anónimo a 19.06.2020

Eu percebi! Mas olhe que até ficou mais engraçado!
Bom fim-de-semana e um abraço para si!
GC
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O ultimo fecha a porta a 20.06.2020

Bonito texto "não há nenhuma forma de saber o que cada dia nos reserva, por muito que gostemos de nos defender dessa certeza com falsas seguranças e vidas muito cronometradas" :)
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Anónimo a 20.06.2020

Muito obrigada, "Último"! E não há mesmo... Assim sendo, talvez seja hora de irmos aproveitando o que temos - e já é tanto... :)
Um abraço,
GC

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