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Edvard Munch - "Entardecer" (Museu Nacional-Thyssen Bornemisza)

Imagem: Própria

 

É cultural... 

 

Quando queremos desculpar comportamentos estúpidos e para o qual não temos uma justificação que possa validar tal irresponsabilidade, lá nos socorremos do "é cultural".

 

Um desses comportamentos é aquilo a que se pode chamar o "quarto do hora académico", vulgo atraso irresponsável e falta de respeito pelos outros. Em Portugal, e mesmo por outras paragens, o chegar atrasado ou até falhar a um compromisso é algo visto como perfeitamente normal. Tão normal, que até se incute em programas de televisão, jornais e rádios como uma coisa boa - chegar atrasado é ser cool, é ser yeah, é ser... estúpido.

 

Temos de descontar os atrasos que, obviamente, são forçados e não são a regra mas sim a excepção, aliás, quem nunca se atrasou que atire a primeira pedra - é melhor não dizer isto porque até conheço alguns indivíduos que...

 

No entanto, cada vez que nos atrasamos estamos a prejudicar alguém ou até mesmo um processo. Quando nos atrasamos para uma reunião ou para um encontro profissional estamos a destruir a agenda daqueles com quem combinámos uma hora e a promover também o atraso destes noutros compromissos - ou seja, uma bola de neve. Além de que, quando nos atrasamos, também em âmbito profissional, estamos a fazer com que outrem não possa sair a horas para estar junto da família ou em outras actividades porque tem de fazer o trabalho que não pôde fazer enquanto estava à nossa espera e também, enquanto esteve connosco. Afectamos o bem-estar e a produtividade daquele com quem irresponsavelmente interagimos! Mas na verdade, quem é que quer saber disso, sobretudo quando é B2C (business to client)?

 

Quando nos atrasamos, temos de ter em conta que do outro lado está uma pessoa que tem uma agenda, pessoal e profissional, e que também tem de trabalhar e viver - por cá, tendemos a esquecer isso, sobretudo quando não temos nada que fazer e passamos o dia na praia, mas depois forçamos o desgraçado deste ou daquele estabelecimento a esperar por nós às nove da noite para, por exemplo, visitarmos um espaço ou fazermos uma reunião. Esquecemo-nos que, enquanto estivemos na praia e nos levantámos às onze da manhã, alguém já estava fora da cama às cinco e no dia seguinte repete a rotina.

 

A desculpabilização deste tipo de atítudes não pode ser uma prática, sobretudo quando quem as pratica fica muito revoltado, ou porque é chamado à atenção, ou porque, e passo a expressão, "bate com o nariz na porta". A revolta é tal que se fica com a ideia de que o grande crime é cometido por aquele que esperou horas a fio e se fartou de tanto esperar ou até porque teve outros compromissos.

 

Temos ainda os atrasados (mentais) que enviam mensagens ou telefonam a dizer que em cinco minutos estão a chegar. Por norma, quando um português diz que chega em cinco minutos, o ideal é fazermos uns bons quilómetros para ir tomar um café, ler o jornal e voltar... Com um pouco de sorte ainda o apanhamos a chegar.

 

Recordo-me que em tempos, no primeiro dia em que cheguei para dar aulas a alunos do ensino superior, o director do curso me disse que tinha de ter em conta o "quarto de hora académico" seguido daquele "eh eh eh, sabe como é". Lembro-me também de ter feito uma expressão pouco simpática e ter respondido que, um dia, quando os alunos tiverem compromissos profissionais, não iriam existir quartos de hora académicos e de que além disso era uma tremenda injustiça para com aqueles que cumpriam e chegavam a horas, pelo que, nas aulas do Robinson, a repetição desse comportamento não seria tolerada. Não obtive resposta e fiquei a pensar que tinha carimbado o passaporte para não voltar a dar aulas naquela instituição.

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4 comentários

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Cecília a 30.08.2018

e carimbou o passaporte ou teve visto de livre trânsito? :)

eu até ia comentar mas é tanta a estupidez que este artigo me faz lembrar que nem vou dizer o quer que seja.

apetece-me saltar para dentro do quadro, isso sim.

( o texto fez-me derivar para aqueles e-mails que demoram a ver resposta e quando nos respondem perdem 4556822 parágrafos a pedir desculpa por não terem respondido antes. e uma pessoa que fique por vezes em agonia à espera)

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Robinson Kanes a 30.08.2018

Tive por um ano, o "negócio já estava fechado" :-)

Pior que isso ainda são aqueles a que pedem uma resposta para "ontem", andamos a correr e a passar noites sem dormir, desaparecem do mapa, e depois... Depois de um mês ou mais, querem para ontem mais esclarecimentos porque mais alguém está à espera... Incompetência? Irresponsabilidade? Relaxamento? :-)

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José a 17.09.2018

Nem mais detesto pessoas que tem por hábito chegar atrasadas. O quarto de hora académico é dos hábitos mais estúpidos que pode existir, nunca o percebi pois frequentei vários cursos e estou hoje finalmente na fase de um doutoramento. Nem a referência histórica faz sentido, alude à académica grega clássica. É irritante para um aluno estar a ouvir interessadamente um professor e ter que "gramar" a chegada de gente que entretanto foi tomar um café, comer uma sandes e ainda falar com um colega de última hora! Os outros que aguentem. Mas uma coisa é um dado histórico, uma curiosidade, outra bem diferente é falta de respeito pelos outros! já me atrasei por diversos factores, mas peço mil desculpas e justifico o meu atraso. Há gente que nem isso! Por outros lado tendo fama de chegar a horas, fico por vezes às meias horas à espera de uma suposta criatura que supostamente e invariavelmente está sempre "super-ocupada". Uma vergonha, como há gente que faz imenso trabalho num dia e é capaz de estar a horas em todo lado, e entretanto, existem outros que dizem sempre estarem "cheios de trabalho" e chegam a atrasados a todo lado? Como não estar cheio de trabalho se não sabem organizar-se! Numa sociedade egoísta, a falta de respeito é a norma, o difícil é perceber quem gosta de ter a vida organizada para ter tempo para si e para os seus! Já basta quando as actividades ou entidades profissionais nos roubam esse espaço tão precioso. Chegar a atrasado aos compromissos é falta de respeito e educação, que não deveria ser tão tolerado numa instituição de ensino superior, pois ali estamos para receber formação superior e não a da "rua da bandalheira".
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João a 17.09.2018

Isto do cultural é como a mitologia, tem origem no real, mas vai se perdendo nos recantos da história. E seguindo a experiência do boca à boca vai se transformando. O Quarto de hora académico surge da academia de Coimbra! Isto porque na cidade de Coimbra existem dois relógios. Um na famosa torre da Universidade, conhecida como Cabra! Localizado na Alta antiga da cidade. Outro numa torre de uma igreja que confina um dos cantos da praça do comércio localizada na baixa. O que aconteceu foi que numa altura em que os relógios não existiam como hoje generalizados por todo lado, foi que quando os relógios foram construídos eles davam horas para marcar o tempo para a população da cidade, num exemplo de serviço público. Aliás desde da idade média que os sinos das igrejas marcavam as horas para as populações. Com a construção dos dois relógios passou a existir na mesma cidade das fontes de informação de horas. O problema foi que um estava atrasado 15 minutos em relação ao outro. Assim a estudantada ganhava 15 minutos de tolerância alegando que tinha ouvido o toque agora mesmo. Justificando os atrasos por ter apenas ouvido o que estava atrasado. Para resolver esse problema os lentes da altura instituiram oficiosamente a prática do quarto de hora académico, ou seja uma tolerância não oficial ao atraso. Essa prática foi se tornando generalizada gradualmente na população instruída. E assim passando lentamente para o resto de Portugal. Ainda hoje, não existe nada na Universidade de Coimbra que diga que podes chegar atrasado 15 minutos. Mas a prática ficou de tal modo enraizada que existe o segundo toque de chamada nas escolas... mas não na Universidade de Coimbra.

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