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O país onde não havia natureza...

por Robinson Kanes, em 09.09.19

incendios.jpg

Imagem: GC

 

 

Os portugueses são daqueles povos que se podem orgulhar de ter legislação para tudo. Existe uma falha, cria-se imediatamente uma lei para preencher esse vazio ou alguém influente na política comete um crime, cria-se uma lei que permita a fuga desse indivíduo à Justiça. No entanto, quantas leis têm efectivamente aplicabilidade prática? Quantas leis são seguidas e quantas outras não são  mais que um processo de entropia à própria aplicação da justiça?

 

Existem em Portugal, tantas outras leis relacionadas com o ordenamento do território e com o ambiente, mas só aquelas que acompanham o cimento parecem merecer a atenção de quem governa e de quem é governado. O tema ambiente não dá votos! Poderão falar do crescimento do PAN, no entanto, a bandeira deste são os cães e os gatos, não propriamente as políticas ambientais e de sustentabilidade. Os "Verdes" não existem, pura e simplesmente, lembram-me sempre aquelas micro e pequenas empresas que ninguém percebe como sobrevivem perante a ineficiência de vendas e concretização de negócio.

 

Os temas ambientais não merecem destaque porque simplesmente ninguém quer saber! Queremos ter um aeroporto para viajar mais barato e aumentar o turismo de "chinelo no pé", mas não queremos saber os impactes do mesmo no ambiente. Não queremos saber dos Parques Naturais, das Reservas Naturais e muito penas de Zonas Especiais de Protecção. Não estamos preocupados com o processo mais que visível de desertificação e muito menos nos preocupamos se todos os dias alguém faz descargas no Tejo e em outros rios e nada se faz. Ninguém está preocupado com as promessas (e algum trabalho, efectivamente) realizadas no âmbito de pós-Pedrogão e dos incêndios de Outubro daquene ano fatidíco.

 

Um aparte, sei que não acontece com todos, mas não são raras as situações em que já presenciei bombeiros no terreno sem saber o que fazer ou, passo a expressão, "à nora" porque o comando é fraco. Não são raras as vezes que assisto a bombeiros plantados à entrada de localidades à espera de um incêndio que está a quilómetros, porque as ordens passam por desmobilizar a frente e proteger habitações! É importante que não morra ninguém e poucas casas sejam destruídas sob pena dos media serem implacáveis. Até porque, em termos de área ardida, destruição da fauna e da flora, os cidadãos não estão interessados.

 

Deveríamos ter vergonha pelo simples facto do Tribunal de Justiça da União Europeia ter condenado Portugal pelo falhanço na declaração de 61 sítios como zonas especiais de conservação - simplesmente porque ignorou as orientações da Comissão Europeia no âmbito da "directiva Habitats". Será assim tão difícil num país tão pequeno e com prazos tão alargados? Terão os cidadãos cultura ambiental (ou interesse) para exigirem mais dos Governos nestas matérias? Eu envergonho-me de estar num país em que tal acontece, em que Pedrogão e o "Outubro negro" foram óptimos para o mediatismo de muita gente e onde todos os mortos, feridos e envolvidos na tragédia foram completamente ignorados e as suas mortes ou dificuldades acabaram por ser em vão. E hoje como estou em "apartes", não é estranho que o piloto de uma força militar que disse anos a fio (e ainda diz) não ter condições para o combate a incêndios, estar a pilotar um helicóptero privado de uma empresa ligada à indústria do papel? E como este quantos existem? Não é também estranho que um piloto de 34 anos, que mora no Montijo (segundo me foi dado a saber), faz uma "perninha" a pilotar helicópteros privados e ainda é comandante de uma corporação de bombeiros a cerca de 350 km de casa? Como é que se consegue tempo e eficiência para todos estes deveres? Deveres esses que, na sua maioria são pagos com dinheiro de todos nós. Todavia, também não quero, com isto, menosprezar a capacidade de trabalho do profissional.

 

Finalmente, também o Tribunal de Contas arrasou, e voltando ao tema, a ineficiência ou total ausência do plano para a desertificação! Perdoem-me a expressão, mas "caramba que raio anda tanta gente a fazer?". Temo que estes reparos de uma das instituições públicas que melhor funciona fique, mais uma vez, no esquecimento. Não deve ser fácil estar no Tribunal de Contas e ser constantemente humilhado pelo total desprezo político em relação a esta instituição! Num país com cidadania e patriotismo fora de estádios de futebol, esta seria uma das instituições mais acarinhadas pelos cidadãos e que mais apoio teria destes para fazer valer aquilo que agora são meras observações...

 

Portugal talvez seja mesmo o país onde, além de contas claras, não há natureza...

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44 comentários

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Maria Araújo a 11.09.2019

Um.aparte:
Mais logo, leio os posts seguintes que, pelas imagens, são de fazer inveja ... da boa.

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