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Imagem: http://globalfoodconnections.com/climate-change-threatens-ancient-mayan-farming-practices/ 

 

 

E se culturalmente quase que podemos afirmar que existia um povo dentro de um outro povo, também socialmente as desigualdades eram profundas e além dos mais desfavorecidos, está o exemplo das mulheres, completamente afastadas de toda e qualquer intervenção no conselho.

 

Neste contexto de Rio de Onor, poderemos contar uma “estória” que se afasta radicalmente da realidade e que para a discussão de uma economia mais solidária somente poderá dar o seu maior contributo no espírito de união que permite muitas vezes a populações completamente isoladas geograficamente e socialmente sobreviverem perante condições tremendamente adversas ao invés de sociedades que nasceram por oposição a outras. Nesse sentido Rio de Onor é efectivamente um grande exemplo a par com a segurança da identidade cultural e comunitária.

 

Actualmente este é o seu contributo, sobretudo para uma sociedade cada vez mais individualista e sem sentido de comunidade e cidadania. Por outro lado, é um exemplo a não seguir no que toca ao papel das mulheres e dos mais desfavorecidos nas novas práticas económicas que deverão encarar estes, não dignos de dádiva, mas sobretudo actores ao nível de qualquer outro, tornando-se também eles agentes de mercado e de desenvolvimento local sustentável.

 

Conclusão

 

Rio de Onor preencheu e ainda hoje preenche o imaginário de muitos estudiosos e antropólogos. Todavia, Rio de Onor.

 

Em relação aos quatro pontos de partida deste texto, o primeiro ponto efectivamente vai ao encontro de uma das bases de uma economia solidária: a união dos interessados em comunidade, como forma de vencer os obstáculos económicos e geográficos que jamais seriam vencidos se cada um o fizesse de forma isolada. A questão da cultura de oposição está completamente de lado, pelo contrário os laços transfronteiriços eram extremamente fortes e tanto o lado espanhol como o português partilhavam deste espírito de interajuda e cooperação nos destinos da aldeia.

 

Rio de Onor não passa o teste de sociedade igualitária quer na administração dos recursos (não confundir com distribuição), na sua posse e sobretudo no afastamento das mulheres no que concerne aos destinos e até vida quotidiana da aldeia. Atentemos provavelmente à época, e que num regime ditatorial não tinha aberto ainda espaço para a formalização dos direitos das mulheres. Importa, no entanto, não esquecer que antes do regime ditatorial já existia Rio de Onor.

 

Do ponto de vista de sucesso rural, Rio de Onor nunca conseguiu produzir grandes quantidades de produtos, pelo que alimentava praticamente uma economia de subsistência. A dimensão também deverá ser tida em conta, pelo que para o futuro, talvez não seja de descorar que, ao invés de comunidades aldeãs isoladas, ser dado o passo para a criação de redes aldeãs com um modelo de gestão comum a todas.

 

No que concerne ao quarto e último ponto, a resposta é sim. Claramente as mulheres, sobretudo das zonas raianas e serranas, têm cada vez mais um papel fundamental na dinamização do interior ou de áreas isoladas. A partida dos maridos, não deve passar pela espera de um hipotético encaixe financeiro no futuro, mas sim por uma mobilização destas para o trabalho da\na terra.

 

Face a todos estes argumentos, Rio de Onor é uma “estória” da qual podemos tirar muitas lições de sobrevivência e esquecermos as utopias.

 

Rio de Onor tinha as suas lacunas, no entanto, retirando o sumo das boas práticas e aprendendo com os factores negativos, até porque, a título de exemplo, seria um autêntico suicídio afastar desta forma as mulheres, muitas destas aldeias e vilas terão muito a ganhar - sobretudo se não cometerem o erro de se voltarem somente para si mesmas. Poderão desenvolver-se numa óptica socioeconómica e com isso garantir patamares de sustentabilidade para todos os seus habitantes.

 

Citando os rionorenses "bamus a deitar piedras" e ver o resultado final.

 

 

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (1)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (2)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (3)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (4)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (5)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (6)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (7)

 

Leituras recomendadas:

 

  • Dias, Jorge, Rio de Onor, Comunitarismo AgroZPastoril, Editorial Presença, Lisboa;

  • Laville, Jean Louis, A Economia Solidária: Um Movimento Internacional, Revista crítica de Ciências Sociais, 84, Março 2009: 7Z47;

  • Marques, Joana S.; Social and Solidarity Economy, United Nations Research Institute for Social Development, Geneva, 2013;

  • McMurtry, John, Prometheus, Trojan Horse or Frankenstein The Social and Solidarity Economy as Community Creation, Market Wedge, or State Monster, United Nations Research Institute for Social Development, Geneva, 2013;

  • O’Neil, Brian Juan, Proprietários, Lavradores e Jornaleiras, Publicações Dom Quixote, Lisboa;

  • Pais de Brito, Joaquim, Retrato de Aldeia com Espelho, Ensaio sobre Rio de Onor, Publicações Dom Quixote, Lisboa;

  • Piolanyi, Karl, A Grande Transformação, Editora Campus, Rio de Janeiro, 2000;

  • Prügl, Elizabeth; Razavi, Shahra; Reysoo; Fenneke, Gender and Agriculture After Neoliberalism, The Graduate Institute Geneva, Geneva, 2012;

  • Wolf, Eric, Peasants, Prentice Hall, New Jersey, 1966;

 

 

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3 comentários

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Anónimo a 06.09.2018

Dê-me lá um exemplo real, efectivo, de uma "sociedade comunitária" e outro de uma "comunidade igualitária", se faz favor.
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Robinson Kanes a 10.09.2018

A ideia do texto era essa, provar que muitas das situações que são apresentadas são utópicas e concretizáveis, além de que, uma sociedade totalmente igualitária é uma daquelas onde menos liberdade existe... É nesse sentido que exemplos cabais não existem.

Sociedade comunitária: penso que a conclusão é simples: sociedade comunitária é outra coisa e Rio de Onor foi sem dúvida um óptimo exemplo. Temos de ter em atenção que um perfil de sociedade comunitária não tem propriamente de ser igualitário...

Obrigado pela visita :-)

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Anónimo a 12.09.2018

Não se trata de utopia. É a utopia que move o mundo! As utopias só o são enquanto não forem concretizadas e temos inúmeros exemplos sociais, económicos, políticos e até científicos: a abolição da escravatura, a criação do Estado Social, a igualdade de género, a viagem à Lua de Júlio Verne, etc...

Quase todos os conceitos, senão todos, são construções heurísticas ideais-típicas à maneira de Max Weber, de modo a constituírem um quadro de pensamento homogéneo. Não reproduzem a realidade, mas possibilitam a sua determinação precisa.

O amigo Robinson Kanes anda à procura da essência do comunitarismo? De caminho procure também a "verdadeira" democracia, a "verdadeira" liberdade, a "verdadeira" justiça, o "verdadeiro" amor, felicidade, harmonia... e por aí fora. Quando der por ela, dá-se conta de que anda à procura do Santo Graal. Ele haver há, não é grande coisa, mas há!

Jorge Dias, em Rio de Onor - Comunitarismo Agro-pastoril, não diz que Rio de Onor era uma comunidade igualitária, muito menos "absolutamente" ou "totalmente", antes pelo contrário, refere que "em Rio de Onor há a propriedade privada e três tipos de propriedade colectiva", pág. 82, 3ª edição, e acrescenta mais adiante "aparentemente parece serem todos iguais, pois a riqueza não confere superioridade social. Tratando-se todos da mesma maneira, e o mais rico não é, por isso, mais respeitado que o mais pobre. Mas, vivendo-se com eles intimamente, nota-se depressa que uns vivem com mais dificuldades do que outros, embora não haja casos de extrema miséria!, pág. 96.

Em que parte desta obra, Jorge Dias defende que "as comunidades isoladas das montanhas do Norte de Portugal são igualitárias"?

O que é igualitária é a organização comunitária que gere a propriedade colectiva e privada, através do Conselho de Vizinhos, em Rio de Onor. As mulheres não estavam presentes nas reuniões do Conselho de Vizinhos, é certo, mas temos que abordar esta questão numa perspectiva relacional e sistémica. Elas "estavam" lá. Para se tornarem "visíveis" teríamos que fazer uma abordagem feminista do comunitarismo agro-pastoril em Rio de Onor o que, manifestamente, não foi esse o objectivo de Jorge Dias, nem, obviamente, essa análise estava ao alcance do paradigma metodológico da antropologia daquela época - o organicismo funcionalista - e tão-pouco, também por razões óbvias, se ouvia falar de Pierre Bourdieu e das teorias feministas e estudos de género.

Uma última questão, relativamente à referência ao livro de Jorge Dias por parte dos rionorenses, registada em Retrato de Aldeia com Espelho, de Pais de Brito. Em Rio de Onor, como poderia ter sido em qualquer outro lugar, vemos em acção a construção e reconstrução de um processo de objectivação, legitimação, sedimentação e institucionalização da realidade social local, na produção e reprodução da prática quotidiana pela discussão, disputa, negociação e aplicação das regras e dos princípios de
um comunitarismo agro-pastoril consuetudinário. Processo reforçado por aquilo que Giddens designa como "apropriação reflexiva de conhecimento", na qual, "a produção de conhecimento sistemático sobre a vida social torna-se parte integrante da reprodução do sistema" (Giddens, pág. 37, As Consequências da Modernidade). Reforço esse que, por sua vez, foi desencadeado e estimulado pela "confiança" no "sistema pericial" (Giddens, pág. 19) contido na monografia de Jorge Dias - a instituição universitária e a vasta obra publicada pelo autor e socialmente sancionada positivamente pela comunidade científica nacional e internacional. Portanto, onde está a surpresa ou o gracejo? É a construção social da realidade em plena acção meu caro amigo!

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