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Fonte da imagem: Gustavex 

 

 

Podemos afirmar que Rio de Onor se assumiu como uma aldeia comunal bem ao gosto do que fora idealizado por Owen aquando da sua ida para os Estados Unidos com o intuito de fundar New Larnack - sobretudo do ponto de vista rural e não industrial. Denote-se que Rio de Onor viveu também em plena ausência de estado providência, pelo que a associação de pessoas se tornou imperial para combater as dificuldades impostas pelo território e pelas dificuldades da época (Portugal vivia também um período de ditatura).

 

Nesta questão poderíamos abrir o leque para uma outra discussão que seria o facto de ser mais fácil uma economia mais solidária, mais comunal até, vingar em países onde os suportes estatais são menores ou inexistentes - uma espécie de paradoxo em que a "economia das pessoas" tende a ganhar terreno mais facilmente em tempos de crise do que em épocas de prosperidade.

 

Rio de Onor jamais poderá ser também um exemplo de economia solidária neste ponto: “nem todas as “novas” famílias poderiam participar no conselho, embora com margem para serem ajudadas por este, no entanto, não participando na definição dos destinos da terra”. Aqui não encontramos uma verdadeira abertura inclusive para a criação de subconselhos, disso não existe registo, até porque o sucesso de muitas iniciativas destas no passado se deveu ao facto de muitas delas depois darem origem a outras, garantindo a sustentabilidade destas e das demais posteriormente criadas.

 

Tudo isto vai ao encontro do facto de nem podermos falar sequer de Democracia quanto mais de Democracia Participativa, senão vejamos: as “mulheres que, jamais, poderiam ser nomeadas mordomos e não existindo homens numa casa, quando muito a casa da mulher poderia ser admitida (mediante pagamento) no conselho, mas nunca nomeada para os cargos de administração, não tendo participação nas reuniões, mas embora beneficiando das regalias do conselho”. 

 

Em resumo, podemos dizer que ao nível económico, poderemos encaixar Rio de Onor numa espécie de cooperativa rural e social que vendia de igual modo os produtos dos seus associados a terceiros e aqui qualificar a mesmo como um exemplo de economia solidária.

 

Como projecto social e cultural, teremos de ter em conta as desigualdades que embora negadas por muitos autores eram bem latentes, todavia o sentido identitário era uma das marcas bem vincadas, um dos exemplos era a manutenção dos costumes e ritos - os responsáveis por se deslocarem a Bragança utilizavam uma indumentária própria que os distinguia na cidade dos demais.

 

Como projecto ambiental, Rio de Onor dá-nos poucos exemplos também atendendo à época. Na actualidade, poderíamos encaixar em Rio de Onor uma dinamização das actividades de agricultura biológica. O projecto territorial eram sem dúvida uma das mais valias de Rio de Onor, além das condicionantes do território serem uma das situações que levaram ao desenvolvimento deste tipo de comunidade, também muitos dos dividendos gerados pelo comércio dos produtos rionorenses eram reinvestidos na terra.

 

Contudo, O’Neill ao ver os rionorenses como povo endividado e dionisíaco deixou a porta aberta para um estudo mais aprofundado, nomeadamente se um povo assim, permitia uma tão equitativa distribuição dos bens e dos dividendos.

 

Como projecto de gestão, sem dúvida, podemos assemelhar Rio de Onor a uma cooperativa popular, quer pelo tipo de associação, mas também das regras e políticas traçadas.

 

Como projecto de conhecimento, Rio de Onor, deu muito à Antropologia e denotou-se que durante os anos de vida desta comunidade a transformação pela aprendizagem foi latente, um dos exemplos está relacionado com o facto de se ter passado da votação à rotação, no caso da eleição dos mordomos do conselho.

 

O projecto político já foi abordado e fica longe de ser perfeito, aliás, é aqui que Rio de Onor se desloca largamente do conceito de economia comunitária.

 

Do ponto de vista artístico não há muito para falar, porque pouco se conhece destes hábitos nos rionorenses.

 

Já o projecto transfronteiriço é um exemplo interessante porque a questão dos países não era importante e Rio de Onor de cima era vista como parte integrante de Rio de Onor de baixo e não como Espanha e/ou Portugal.

 

Finalmente a questão da felicidade. Até que ponto podemos afirmar que Rio de Onor era um pequeno Butão? A inexistência de dados não permite ir mais longe, e infelizmente somos levados a pensar que estas gentes assim agiam por necessidade e com trabalho, e pouco tempo dedicavam a estudar/desenvolver esta forma de estar, se assim lhe quisermos chamar.

 

Continua...

 

 

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (1)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (2)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (3)

O Falso Comunitarismo e as Aldeias Comunitárias do Norte de Portugal - Rio de Onor (4)

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6 comentários

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De HD a 20.03.2018 às 20:44

Consegues sempre surpreender com deténs toda esta informação... :-O

Aquela foto é realmente desoladora... :-(
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De Robinson Kanes a 20.03.2018 às 21:10

Este deu algum trabalho, mas deveria ter dado mais, mas o tempo é escasso...

Não está relacionada com Rio de Onor, mas chamou-me a atenção e fiz a ponte... :-)
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De cheia a 20.03.2018 às 21:20

Mais uma boa lição, para a compreensão das aldeias comunitárias.
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De Robinson Kanes a 21.03.2018 às 09:06

Muito obrigado!
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De Carlos a 21.03.2018 às 15:00

Tanta sabedoria partilhada com uma opinião vincada!
Foi sempre assim...
Grande abraço.
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De Robinson Kanes a 22.03.2018 às 09:16

Muito obrigado, Carlos.

É apenas uma partilha, baseada na minha opinião com base nos estudos de verdadeiros conhecedores da área... Nada mais :-)

Muito obrigado, mais uma vez...

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