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O Desejado Irão...

por Robinson Kanes, em 02.12.20

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Imagem: Robinson Kanes

 

 

The Germans sell chemical weapons to Iran and Iraq. The wounded are then sent to Germany to be treated. Veritable human guinea pigs.

Marjane Satrapi, in "The Complete Persepolis"

 

 

Que a Pérsia sempre foi um território profundamente desejado, não restem dúvidas, desde a Antiguidade que o império é alvo de cobiça por vizinhos e inclusive por Ocidentais. Aliás, não será vergonha nenhuma um Ocidental assumir que ainda tem muito a aprender com a cultura e conhecimento produzidos por aquele povo.

 

Também é verdade que o Irão actual, muito por culpa do Ocidente, se encontra sob governação de radicais, sobretudo no parlamento, embora a liderança de "Hassan Rohani" se tenha pautado por bastante moderação em contraste com os tempos de Mahmoud Ahmadinejad onde o discurso feroz e agressivo imperava. Durante a Governação Trump, estivesse Ahmadinejad no poder e as coisas poderiam ter corrido de forma muito diferente, sobretudo após o assassinato do Major-General da Guarda Revolucionária do Irão, Qasem Soleimani. 

 

Na verdade, a influência do Irão em alguns países, nomeadamente no Líbano, onde é o principal financiador do Hezbollah, não é sinal de orgulho para o país. Não obstante, as tentativas de aproximação ao Ocidente e alguma pressão interna junto dos mais radicais poderia dar frutos num futuro próximo. Conhecer o Irão é, apesar do muito trabalho que ainda existe, chegar a essa conclusão. Todavia, se é crime apoiar organizações terroristas como o Hezbollah, também o é apoiar tantas outras por esse mundo fora - e onde a Europa, Estados Unidos, China, Rússia, Israel e Arábia Saudita têm a sua participação. 

 

O Irão é um país rico, onde a abundância de água é uma realidade e o seu aproveitamente de um conhecimeno ancestral. O Irão tem uma importância logística vital no Golfo Pérsico: o estreito de Ormuz. O Irão é o país onde também o petróleo jorra por todo o lado e o gás natural está nos poros daqueles solos. Sobrevoar o Irão à noite, independentemente das rotas, é como sobrevoar a Europa, tal é a iluminação do país, riquíssimo na produção de electricidade que não  se deve somente à indústria nuclear. Podemos andar em algumas aldeias remotas e as canalizações de gás natural estão lá.

 

Por sua vez, enquanto China e Rússia se aproximam do país construíndo infraestruturas, embora de modo controlado, pois a estas também não importa que este país se desenvolva de modo desenfreado, a Europa e o Estados Unidos vão desperdiçando uma oportunidade de ouro. A Rússia e a China nada dão em troca e recebem muito do que o Irão produz, aliás, essa é uma das queixas daqueles que por lá habitam, sobretudo em relação ao petróleo e ao gás natural.

 

Esta semana, e depois do assassinato por parte dos Estados Unidos e não só, de Qaseim Soleimani, foi a vez do mais proeminente cientista nuclear iraniano ter perdido a vida também num assassinato bem planeado. Mohsen Fakhrizadeh foi assassinado pela sua importância no programa nuclear iraniano, alegadamente por duas potências que pouco se podem gabar do seu pacifismo: Israel, Arábia Saudita e quiçá Estados Unidos, até porque raramente uns fazem algo sem conhecimento e cooperação dos outros. O encontro ao mais alto nível entre Israel e Arábia Saudita, algo inédito, a semana passada, aumentou também as suspeitas, até porque inicialmente o mesmo foi negado. Acresce ainda o facto de que este tipo de operações só está ao alcance de potências com meios para tal... E entrar no Irão, cometer um crime e sair sem acordar o gato não está ao alcance de todos. 

 

A prática de assassinar cientistas iranianos é comum, basta recuar a 2010 e 2011... Apesar do radicalismo, não tenho dúvidas que é toda uma herança histórica iraniana e um lado xiita mais moderado que tem tornado o ambiente mais calmo, além da "estratégia de paciência" encetada por Rouhani mas que não é a mais apreciada pelas altas elites religiosas do Irão.

 

A União Europeia e a ONU já condenaram o assassinato, todavia Mohamad Javad Zarif, o Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, diz que não basta... A hipocrisia continua a ter lugar, à semelhança daquele que existiu com a Crimeia ou até com os bombardeamentos em hospitais sírios. A saída de Trump pode também estar a acelerar a tomada de medidas extremas na medida em que Biden, mais moderado, evitará (assim se espera) hostilizar países como o Irão! Ao nível internacional, Biden terá uma oportunidade suprema de manter o bom trabalho de Trump em relação à Coreia do Norte (até melhorar o mesmo) e aproximar-se do Irão, seria muito provavelmente um dos feitos diplomáticos do século terminando inclusive com a política iraniana de ter aprisionados cidadãos não-iranianos ou com dupla nacionalidade para servirem como moeda de troca por cidadão iranianos detidos no estrangeiro.

 

Aguardemos... Todavia, e como tenho vindo a referir, a pandemia tem sido uma excelente oportunidade para que se cometam algumas das maiores atrocidades do século XXI. Perguntem isso inclusive àqueles que numa base diária vivem um verdadeiro holocausto no médio oriente porque alguém se lembra de arrasar as suas casas e os tratar como escravos. Esperemos que a estratégia paciente de Rouhani se mantenha, até porque nas mais altas instâncias iranianas já corre o boato de um ataque a Haifa.

Actualização (13h:45m): o parlamento iraniano votou pelo fim da autorização às inspecções da Agência Internacional para a Energia Atómica (AIEA). 

 

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4 comentários

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Maria Araújo a 02.12.2020

Votou pelo fim, coisa boa não vem de nenhuma parte.
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Robinson Kanes a 02.12.2020

Apesar de achar que não é a melhor decisão... Consigo perceber.
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cheia a 02.12.2020

Não me parece que Trump tenha feito grande coisa com a Coreia do Norte.
Um abraço
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Robinson Kanes a 02.12.2020

Nem tudo o que Trump fez ao nível da política externa foi mau, como nem tudo o que Obama fez foi bom, por exemplo. Existiu de facto uma aproximação e depois de um início conturbado, o cavalheiro lá do sítio mudou a postura com o Ocidente. Biden tem o caminho facilitado no tema da Coreia do Norte.

Abraço, José,

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