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Normandia: um dia de homenagem

por Robinson Kanes, em 30.09.20

american_cemetery_normandy.jpgImagens: Robinson Kanes & GC

 

 

A morte é morte de alguém e tê-lo sido de alguém não é levada pelo moribundo mas pelo sobrevivente

Aristóteles, in "De Anima"

 

Deixamos Bayeux e voltamos para trás, para perto da memorável "Juno Beach", mais precisamente para Courseulles-sur-Mer. É aqui que o carro descansa e as bicicletas descem do tejadilho. Entramos em modo "Tour de Normandie" e procuramos ir ao encontro de alguns dos locais que durante anos, permanecem na nossa memória devido à grande invasão. Daqui em diante e antes de apontarmos ao Mont Saint-Michel vai ser a pé e sobre duas rodas.

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Começamos com uma deslocação de cerca de sete quilómetros, até ao Cemitério Canadiano de Bény-sur-Mer. e que é o repouso dos primeiros mortos canadianos no Desembarque - o de Bretteville-sur-Laize ficou para os que morreram nos momentos posteriores. Mesmo à beira da estrada e já se sente o peso da História, o peso da morte. A primeira sensação? Tantos mortos e este é só o primeiro... Tantos miúdos no chão que morreram em nome da libertação da Europa, em nome de um mundo que nunca mais seria o mesmo... Sentimo-nos cobardes por não termos mantido esse mundo desejável e que lhes custou estupidamente a vida - e este nem é um dos maiores jardins de pedra. Respira-se fundo, ouve-se o vento entre as árvores, faz-se uma revisão da matéria e leem-se as mensagens que encontramos em cada lápide.

canadian_cemetery.jpg

Damos connosco a perceber que já passou mais de uma hora e ainda há tanto para sentir, algo sem aparente explicação... É hora de partirmos, regressarmos para perto de "Juno Beach" e prestar também aí a nossa homenagem junto do memorial e também da primeira casa a ser conquistada naquele dia fatídico e mortífero. 

american_cemetery_normandy (3).jpg

Torno-me repetitivo, mas de facto, acabo sempre a pensar, para quê? Será que, à semelhança do que fazemos com os acidentes de viacção, onde muitos juízes condenam os culpados a visitar hospitais, particularmente com as vítimas dos embates, não deveríamos fazer isto com aqueles que parecem esquecer o passado? 

american_cemetery_normandy (2).jpgcanadian_cemetery (1).jpg

As praias são isso mesmo, praias, é preciso fechar bem os olhos, ter presente a História da invasão e voltar a esses tempos, caso contrário será mais difícil, mesmo sentido os ares que nos chegam da Mancha. Temos de prosseguir, o nosso destino em duas rodas será o cemitério alemão de "La Cambe" e antes ainda temos de voltar ao Cemitério de Guerra em Bayeux.

juno_beach_normandy.jpg

Pelo caminho, um destaque e paragem obrigatória no Cemitério Americano em "Omaha Beach", Colleville-sur-Mer. Até lá, museus e memoriais não faltam, as praias e aquelas região, mesmo à entrada de algumas vilas, não esquecem aqueles que tombaram pela França e pela Europa. Mas temos de parar em Colleville, os Americanos sabem honrar os seus e de facto, este cemitério, é um verdadeiro monumento, uma grandiosa homenagem aos mortos em combate que atravessaram o Atlântico e depois o Canal da Mancha e tombaram em solo francês.

american_cemetery_normandy (1).jpg

O número de mortos é imenso, o espaço é imenso e o contraste entre a beleza e o cuidado do local com aqueles que ali jazem é qualquer coisa. Procurou-se criar o paraíso para que aqueles soldados ali possam descansar, bem nas colinas que dão para a praia onde muitos tombaram. A quietude do espaço, a forma como tudo está cuidado (melhor que em muitos palácios), o silêncio... Olhamos novamente o mar que trouxe todos estes corpos para a terra, um Atlântico atravessado, para depois se ultrapassarem as águas da mancha e morrer em nome de todos nós. Vida triste, não podermos reconhecer estes jovens e mesmo os mais velhos, a lágrima... O pensamento a caminhada entre cruzes de Cristo e de David não bastam, deixam-nos impotentes e desarmados. Ficamos a engolir em seco, saímos a engolir em seco. Pensamos no hoje e até no amanhã, pensamos em todos os cemitérios como este e que não existiram... Perguntamos, para quê?

american_cemetery_normandy (4).jpg

Prosseguimos... É hora de prosseguir, mas depois daquele dia, não mais somos os mesmos... Depois daquele dia, já adultos e sem a magia que ser criança nos provoca ingenuidade, nunca mais olharemos aquela costa depois deste regresso.

omaha_beach_normandy.jpg

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10 comentários

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Calimero a 30.09.2020

Ola Kanes,

Ler-te e seguir o que escreves transporta-nos sempre para dentro da tua escrita !

"...É hora de prosseguir, ..... Depois daquele dia, já adultos e sem a magia que ser criança nos provoca ingenuidade, …"

E isto que me ficou hoje da tua viagem!

Excelente reflexão como sempre!
Um Beijo!
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Robinson Kanes a 30.09.2020

Olá Cal,

Obrigado pelas palavras. É bom saber que desse lado algue6nos acompanha, vive connosco tudo isso, acho que é a maior riqueza de tudo isso. A ideia é o destino, as pessoas que nos acompanham e não o autor, isto no seguimento daquilo que há pouco se falou no teu espaço.

Se assim não for, basta pagar a quem o faça por mim ou utilizar a Air Photoshop e partir todos dias para um destino novo.

Obrigado :-)
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Calimero a 30.09.2020

Grata por tao distinta companhia e poder enriquecer um pouco todos os dias com tao gratificantes partilhas!


Votos de um dia feliz Kanes

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Robinson Kanes a 30.09.2020

Obrigado e um Excelente dia, :-)
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Maria Araújo a 30.09.2020

Os cemitérios são lugares de reflexão, e esses que aqui nos mostra são serenos e ao mesmo tempo de dor pelo que os nossos antepassados viveram e sofreram.
Esses cemitérios são simples e iguais, não há fotografias nem lápides mais ricas que outras.
Também, infelizmente, a morte não traz a quem vive a serenidade que seria desejável para se viver num mundo mais tranquilo... já não digo igual porque não é possível.
Não tenho mais palavras.
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Robinson Kanes a 30.09.2020

A morte é a doença são o que de mais democrático existe... Mesmo quando erguemos pomposos jazigos, não é pelos mortos que o fazemos mas sim pelos que ficam.

Quando se mete o pé num cenário de combate também não existem sargentos ou oficiais, existem soldados...

A Maria já disse tudo :-)
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Maria Araújo a 01.10.2020

Agora, no pc, tenho noção das fotografias, destes cemitérios que merecem o nosso respeito.

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cheia a 30.09.2020

É pena que os jovens não saibam o que aconteceu!

Um abraço,

















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Robinson Kanes a 30.09.2020

Devem ser os mesmos que vandalizaram a estátua ao combatente em Coimbra... Sem comentários!
Um Abraço,

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