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Morreu o Correia!

por Robinson Kanes, em 23.08.18

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 Imagem: Própria.

 

 

 

A morte não é, então, o acabar de uma duração feita de dias e de noites, mas uma possibilidade sempre aberta.

Emmanuel Levinas, in "Deus, a Morte e o Tempo".

 

Num canal ou numa época em que, quando alguém conhecido da praça morre e de repente se percebe que tinha milhões e milhões de amigos que procuram prestar-lhe uma homenagem, venho recordar um daqueles primeiros artigos que aqui se escreveram e que hoje me veio à memória... Chegou-me à memória porque me lembrei do Correia... O Correia que não era uma pop star ou um indivíduo daqueles que, quando morre, é notícia e todos têm opinião sobre o mesmo (mesmo aqueles que nunca ouviram falar dele). O Correia, apesar de conhecido num meio mais fechado, era o Correia, um anónimo... E é como anónimo que, mais uma vez, recordo o Correia...

 

Hoje morreu o Correia.

 

Não! O Correia (nome fictício) morreu em Janeiro. É como se praticamente 10 meses nos separassem desde aquela última conversa em Novembro. Recordo-me, estava com a Maria (nome fictício). Em trabalho visitámos o nosso amigo de curta data. Uns meses... fomos àquele teatro, mais um vez, descobrimos a doença recém-diagnosticada e quedámo-nos desamparados perante a subtileza do destino.

 

Sim, a doença também toma conta dos mestres. Sim, o Correia, naquele seu ar austero, com um sorriso contido mas genuíno como o halo que circundava os seus gestos, também contidos, era um mestre do Teatro e da Cultura.

 

Era o amigo de curta data que nos contagiou de imediato e nos ensinou a diferença entre o animar e o criar, entre o fazer teatro e o fazer espectáculo. Que nos mostrou, como outros, que o Teatro é de todos e não somente de alguns, no fundo como a sua própria personagem, agora contida, mas abatida pelas escaras da doença que lhe dava um ar inverosímil.

 

Discutimos, ainda sorrimos e inclusive, no seu estilo rebelde, lá tivemos de tirar o Correia daquele parque de estacionamento sem que este tivesse que pagar por ele. Quem me lê, vai-me já atirar a primeira pedra, mas apesar de defender a ética e a transparência também tenho o meu lado rebelde e de criança, beati mundo corde.

 

A chuva de Novembro, que sempre tirou um ar luminoso ao mês do meu aniversário, caía forte sobre Lisboa, aquela Lisboa esquecida lá para os lados do Beato, aquela Lisboa que por mais escura que seja, não consegue cevar aquele ar escuro e carrancudo quando o sol cruza o mar da palha, entra rio adentro e decide ali pintar de cor aqueles bairros que até há muito pouco tempo, eram a porta de entrada da cidade.

 

Saímos e nem pensámos em trabalho... tomámos a difícil decisão de deixar o Correia descansar. Por vezes sentíamos que carregava o peso do mundo e apesar do paz exterior, internamente tentava dominar todos as erupções que emergiam do interior da terra.

 

O Correia morreu, mas não foi hoje, foi em Janeiro... e só hoje soubemos que o nosso parceiro e amigo tinha morrido. Talvez, e como o disse Levinas, tenhamos em nós aquele sentimento de que a morte é morte de alguém e tê-lo sido de alguém não é levada pelo moribundo mas pelo sobrevivente. Talvez tenhamos aquele arrependimento de não ter percebido os sinais. Talvez o trabalho e todos os desafios que dez meses nos proporcionaram e quase sem tempo para respirar, nos tenham deixado ficar somente por correspondência electrónica à qual não tivemos resposta. E o telefone que estava tão ali à mão...

 

Por certo o nosso parceiro, o nosso colega de trabalho sempre estivesse ali, mas nós não. Talvez até, o Correia, que de nós pouco conhecia, não quisesse a nossa presença.

 

Talvez ouse escolher uma banda sonora para o Correia, para este momento e para alguém que gostava de piano tal como eu, talvez lá do alto (se ele assim existir) esteja sentado ao lado de Beethoven, enquanto este executa com mestria o Concerto para Piano nº 5 e se possa deixar envolver por cada acorde tocado com toda a emoção que cada nota nos transmite. Talvez, também para mim, para nós, essa banda sonora seja uma espécie da cura e não de paliativo... minuetur atrae carmine curae.

 

Termina Bethoven, que nos tenta escutar de “funil” ao ouvido e é como se sentisse uma alegria desesperada nesta tarde aérea de brisas. É assim que estou, é assim que me quero sentir.

 

Hoje morreu o Correia, hoje morremos também nós um pouco...

 

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10 comentários

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De P. P. a 23.08.2018 às 11:41

Uma realidade.
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De cheia a 23.08.2018 às 21:52

Quando alguém morre, abre-se uma ferida dentro de nós.
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De Robinson Kanes a 23.08.2018 às 23:16

É o nosso cemitério que ganha mais uma cova...
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De Maria Araújo a 25.08.2018 às 21:57

Uma linda homenagem ao Correia.
Gosto do pormenor da foto.
Não sei dizer mais nada.
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De Rita a 28.08.2018 às 11:29

Como disseram aí em cima: bonita homenagem.
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De José da Xã a 28.08.2018 às 19:58

Só transcrevo isto:

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

John Donne

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