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Memória Curta: Cavaco e a Natalidade...

por Robinson Kanes, em 12.07.18

fisgada.jpg

Créditos: http://jsdpontedabarca.blogspot.com/2011/01/ponte-da-barca-acredita.html 

 

 

Diz o povo que "virá quem bom de mim fará", no entanto, quando o tema é a presidência da república, o ideal é "virá quem de mim má figura fará". Não vou mais uma vez fazer uma critica ao tão perfeito e idolatrado Presidente da República... Quero ir à memória curta que o povo e os media têm para esquecer que Marcelo nem sempre foi (nem é) perfeito e que Cavaco Silva nem sempre foi assim tão imperfeito.

 

O mais recente "bota abaixo" nacional caiu sobre Cavaco Silva quando surgiu a defender o desenvolvimento de políticas que estimulem a natalidade. Continuo a dizer que já temos gente a mais no mundo e que no longo prazo será/é insustentável, no entanto, o coro de críticas em torno do discurso de Cavaco não se fez esperar. Ora se disse que o antigo presidente da república nunca tinha dado importância à natalidade ora que já não gostava de betão. Muita alarvidade junta que culminou com mais um enxovalhamento público, sobretudo para quem padece de uma espécie de doença neurodegenerativa.

 

Na realidade, aqueles que criticam o betão de Cavaco são os mesmos que desfilam nos seus carros pelas auto-estradas feitas com esse mesmo betão. São os mesmos que se orgulham de dizer que em menos horas chegam ao interior do país e que usufruem de centros culturais e de um sem número de infraestruturas de... betão.

 

Mas a realidade é ainda mais assustadora, e aqui os media também desempenham o seu papel, quando esquecem que uma das bandeiras de Cavaco, como Presidente da República, foi a natalidade! Se dúvidas existem, deixo algumas notícias que foram aleatóriamente retiradas de um motor de busca.

 

Logo no dia 09 de Março de 2011, no discurso da sua segunda tomada de posse como Presidente da República, Cavaco Silva dizia:

 

A família é o elemento agregador fundamental da sociedade portuguesa e, como tal, deve existir uma política activa de família que apoie a natalidade, que proteja as crianças e garanta o seu desenvolvimento, que combata a discriminação dos idosos, que aprofunde os elos entre gerações.

 

Mas vamos recuar mais um pouco, a 24 de Novembro de 2007 o "Público" mencionava o apelo do então Presidente à natalidade: 

"É uma alegria estar no meio de tantas crianças", afirmou. A frase não era inocente. Cavaco queria deixar um apelo ao aumento da natalidade. "Não posso deixar de estar muito preocupado porque nascem poucas crianças".

E ainda vai mais longe, aliás, está tudo aqui e também noutras publicações, no "Jornal de Negócios" e novamente no "Público"... E tudo isto só em 2007!

O chefe de Estado diz que é preciso inverter as previsões que apontam para que dentro de 30 anos Portugal tenha 7 milhões de habitantes em vez dos actuais 10 milhões.

 

Mas podemos sempre dizer que o povo tem memória curta, pelo que, não recuemos tanto e vamos a 2015 e à "SIC Notícias" para ler e ouvir:

 

"O declínio da fecundidade não é uma inevitabilidade, mas há quereconhecer  que, muito provavelmente,teremos de nos habituar a níveis que não correspondem  à reposição das gerações",

 

Cavaco Silva até condecorou com a Ordem do Infante D. Henrique quem dedicou o seu tempo a estudar a fecundidade em Portugal. 

 

E para fechar, porque exemplos não faltam na rede, uma notícia do "Expresso" datada de 19 de Dezembro de 2012:

 

O Presidente da República manifestou hoje "grande preocupação pelo inverno demográfico" que Portugal atravessa, sublinhando que "um país sem crianças é um país sem futuro" e alertando para a "importância decisiva" dos apoios à natalidade e à protecção dos mais jovens.

 

Cavaco não andava a distribuir beijinhos, nem a tirar selfies e muito menos a telefonar aos jornalistas e a sorrir para as cameras de televisão. Poderia também não cumprir tudo o que prometia, mas pelo menos tinha um discurso sustentado, identificava problemas e não utilizava o dom da oratória balofa. Desta vez, a "opinião pública" que são meia-dúzia que desfila pelas redes sociais e em espaços de visibilidade que de "almoço grátis" têm pouco, deveriam repensar muito do que disseram e escreveram...

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17 comentários

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De Cecília a 12.07.2018 às 10:53

Cavaco tem a memória curta (podia por exemplo relembrar a sua preocupação com os comboios esquecendo que desmantelou toda a ferrovia lá para as bandas de trás-os-montes). mas todos os políticos a têm - defeito profissional.

Do ponto de vista pessoal (no que ao seu amor pela natalidade diz respeito) eu até me solidarizo com ele, visto que, sofreu com alguém muito próximo o grande e devastador problema da infertilidade (que felizmente ganharam) mas do ponto de vista político e social, definitivamente, é bafiento.

continuo a dizer que o problema da natalidade é um problema de mentalidade mais do que de dinheiro. e nesse quesito, ele e quase todos os políticos não concorrem para uma mudança de mentalidades ( não dá jeito porque quando se começa a pensar para umas coisas também se começa a pensar para outras...)

estamos, vivemos, numa sociedade pouco amiga de crianças porque pouco apaixonada, pouco livre, pouco sonhadora, pouco descontraída e pura ( por mais aventura instagrammer que se viva, por mais fotos fofinhas de bebes que se ponha no facebook, por mais manifs que se façam, por mais festivais panda que se façam e por mais brinquedos que se impinjam): sociedade consumista, que se consome, passiva, comodista não é uma sociedade que ame tudo o que uma criança representa ( e é por isto que temos cada vez mais crianças "doentes"...)

há terra, há planeta, para todos. já não há é espaço para mais egoísmo e luxo de alguns e de forma alguma para tanto comodismo e conforto individual.

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De Robinson Kanes a 12.07.2018 às 13:17

Não foi só Cavaco :-)
Mas não pretendi fazer uma apologia ao antigo presidente, apenas constatar alguns factos em termos de "opinião pública".

O 4ª parágrafo é interessante e um verdadeiro murro no estômago de alguns pais...


Em relação ao penúltimo, tenho de discordar, sobretudo na parte de que há para todos - é um discurso que ninguém quer ter, mas a realidade desmente quem afirma o contrário... Contudo, adoptar será sempre uma opção, em países com elevadas (e descontroladas) taxas de natalidade não faltam crianças... Mas uma coisa é falar dessas crianças que vivem na fome, outra é trazer as mesmas para casa e dar-lhes um lar, uma vida... Talvez o egoísmo esteja a começar por aí :-)
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De Cecília a 12.07.2018 às 13:22

o egoísmo já passou e andou, ao ponto de a adopção ser uma verdadeira indústria com fornecedores e clientes com muita falta de carácter e poucos princípios.

a realidade está assente em modos de vida errados, em modos de vida de um lado do planeta que descontrola o que se passa do outro.

p.s. pode fazer apologia ao cavaco. tem esse direito. é de péssimo gosto mas tem o direito :)
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De Robinson Kanes a 12.07.2018 às 14:23

Sim, mas também existem instituições (sobretudo públicas) que não fazem da adopção um negócio... Os clientes é que por vezes não querem saber muito acerca dessas situações.

Modos de vida e políticas erradas. Mas existe tanta gente, supostamente solidária, mas muitos poucos a reivindicarem a adopção de políticas mais justas, isto porque... Acho que ninguém está disposto a pagar ainda mais por um fato-treino de marca se o mesmo for feito em Aveiras. Mais vale vir de Cantão!

P.S: apesar de tudo, somos gente a mais :-)
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De Cecília a 12.07.2018 às 15:56

sobretudo as públicas é que fazem da adopção um negócio. ou melhor, a não adoção, um negócio. na realidade as crianças adoptáveis são muito poucas. todas as outras são crianças que ficam na terra de ninguém: porque não são retiradas de vez - quando o deveriam ser - ou porque são retiradas ( roubadas) quando não o deveriam ser. tudo em nome de uma futura "adoptabilidade"...
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De Robinson Kanes a 12.07.2018 às 23:09

Penso que também está na forma como a sociedade pensa as coisas... A adopção não é uma prioridade para os portugueses e é uma temática que acaba por ser apenas do interesse de uma minoria... Daqueles que querem realmente adoptar.
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De Psicogata a 12.07.2018 às 14:41

Há que repor a verdade, com todos os seus defeitos sempre defendeu a família e as crianças, mesmo que o dissesse com a mesma expressão que falava de betão, nunca teve o dom da palavra.
O problema da sustentabilidade do planeta vai muito mais além do excesso de população, porque com um estilo de vida diferente e repartição de recursos equitativa haveria com certeza espaço para todos.
Embora tenha consciência que existem milhões de crianças a necessitar de uma família, não podemos esquecer de algumas situações, primeiro o instinto primitivo de ter os próprios descendentes, depois dos entraves à adoção, não é fácil adotar uma criança, será mais fácil apadrinhar garantindo a educação e alimentação de uma criança, por fim a consciencialização que é melhor para o planeta adotarmos crianças de outros países não resolveria a questão de base de Portugal, continuaríamos a ter falta de tempo para cuidar dos filhos sejam eles biológicos ou adotados, a nossa sociedade não é amigável para as crianças.
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De Robinson Kanes a 12.07.2018 às 23:28

Era um dos seus "defeitos", ou não... Há que prefira demagogia e quem prefira realidade, por norma a maioria prefere a primeira. Soa melhor ao ouvido e é mais romântico, diga-se...

A terra tem limitações... Não sejamos ingénuos... Custa admitir que somos muitos e, neste momento, para vivermos todos neste planeta, será que estaríamos dispostos a abdicar daquilo que usufruímos em prol dessa utopia... Perdoa-me a sobranceria, mas a resposta é não!

"não é fácil adotar uma criança, será mais fácil apadrinhar garantindo a educação e alimentação de uma criança, "

Concordo, mas prefiro chamar-lhe "outsourcing solidário".


"por fim a consciencialização que é melhor para o planeta adotarmos crianças de outros países não resolveria a questão de base de Portugal, continuaríamos a ter falta de tempo para cuidar dos filhos sejam eles biológicos ou adotados, a nossa sociedade não é amigável para as crianças."

Uma coisa não está relacionada com a outra e uma coisa não leva à outra. Uma coisa é escolher entre adoptar e conceber outra são as políticas de natalidade. Mas mais uma vez, os cidadãos têm o dever de, junto do poder político e não só, exigir um novo rumo. Atenção também que não são só más políticas de natalidade que reduzem a mesma... O mundo também mudou, eu não tenho filhos (não quer dizer que não os venha a ter) por mera opção.


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De HD a 12.07.2018 às 20:42

O que a opinião pública se recusa a aceitar... nem se quer lembrar, sequer! :-)
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De Robinson Kanes a 12.07.2018 às 23:20

Portugal SA.
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De cheia a 12.07.2018 às 21:36

Cavaco pode ter falado muito de natalidade, de fertilidade, ter dito que gostava muito de criancinhas, mas nunca tomou uma medida, que acompanhasse as palavras. Para mim, teve uma Governação desastrosa.
Não, por causa das autoestradas, mas pelos ministros, que escolheu.
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De Robinson Kanes a 12.07.2018 às 23:10

Nem tudo foi mau... E se formos por esse prisma, governações desastrosas não faltam...
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De Pedro D. a 13.07.2018 às 09:02

Um pensionista que não conseguia pagar as suas despesas com 10000€, veio dizer aos jovens que ganham 580€ para fazerem filhos. Cavaco manda-nos f**** desde 1985...
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De O ultimo fecha a porta a 14.07.2018 às 16:53

Admiro a tua capacidade, paciência e tempo para pesquisa :)

Fora de brincadeiras, os estudos demográficos apontam para uma redução da população portuguesa por força da redução da natalidade e envelhecimento populacional. Aqui há uns anos foram os imigrantes a contribuir para a "atenuação" do problema.
Não vou personalizar quem fez mais ou menos pela natalidade, pois não acho que isso seja relevante. Mais relevante são as medidas efetivas que são tomadas.

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De Maria Araújo a 16.07.2018 às 20:46

Não tive filhos por vontade própria, embora adorasse, e adoro, crianças.
Hoje, as jovens pensam muito antes de decidirem tê-los, assim como ter um filho acarreta muitas responsabilidades e partilha de tarefas que muitas e muitos não querem ter.

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