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Mas Ela não Queria Atravessar...

por Robinson Kanes, em 13.12.17

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(Editado a partir do original publicado a 07 de Novembro de 2016 e que me veio à memória após alguns comentários no artigo de ontem e depois de mais um caso em que a "solidariedade" se mistura com a "voracidade"). 

 

Num destes dias, em mais uma reunião de executivos na Taberna dos Cabrões (ela existe mesmo e fica no Montijo) dei comigo a discutir uma matéria interessante ligada ao personal branding.

 

Não fui o palestrante (quem me dera colocar aqui uma foto em cima do balcão com um headset e um led screen por detrás com a minha imagem e umas garrafas de vinho tinto ribatejano vazias) até porque naquele contexto não tinha curriculum para tal e já vão perceber porquê.

 

À mesa, algumas personagens que decidem os destinos de algumas vidas num raio de 50 metros da dita Taberna: o Sr. António (reformado da indústria transformadora), o Sr. Fernando (idem), o David (o anfitrião e um Chief Happiness Officer nato), o Sr. Lucas (comunista convicto), o Sr. Lima (agricultor) e o Zé dos Canivetes (ninguém sabe muito bem o que ele faz, mas consta que se dedica a uns trabalhos de construção civil), o Sr. Matos (um antigo funcionário das finanças), o Sr. Vasco (trabalhador numa herdade ribatejana) e o Sr. Zé (forcado). Denotem que nenhum deles gosta que os trate por “Senhor”.

 

Na verdade, todos eles, inclusive eu, temos inquietações sobre a arte do personal branding. No entanto, a temática foi mais longe e nisto o Sr. Fernando começa a explanar sobre a “mania das importâncias” e os impactes nessa prática. Chegados à conclusão que naquela cidade ribatejana não faltavam exemplos, a tertúlia chegou às redes sociais e... imagine-se ao LinkedIn!

 

Só eu tinha LinkedIn, aliás não estranho, sendo aquele grupo tão especial, só veio mostrar mais uma vez que as pessoas que mais admiro e que mais se pautam pela competência e capacidade de trabalho não têm LinkedIn.

 

Posto que as conversas são como as cerejas, chegámos à “solidariedade”, tão em voga nas redes sociais. É bom ser “solidário” e além disso esse rótulo ajuda a desbloquear alguns entraves no mercado de trabalho e até nas influências, não sejamos ingénuos.

 

Recordo-me agora das várias partilhas a que tenho assistido nesta rede com actos de perfeita “solidariedade”: é aquele sem-abrigo que convidamos para almoçar, aquele indivíduo bagageiro com ar de pobrezinho ao qual pagamos um bilhete de avião como gorjeta de hotel para ir visitar a família ou então, uma fotografia junto de umas crianças sorridentes que não fazem a mínima ideia do que estão ali a fazer. Parece-me bem e louvável, mas não há tip sem selfie, senão depois como é que eu me promovo nas redes sociais?

 

Até que ponto muitas destas histórias são realidade? Ou sendo, até que ponto são forçadas? Não há limites para o personal branding? É um reflexo do nosso tempo, aliás é por isso que em breve vou iniciar um curso na área da antropologia que procura explicar o porquê da necessidade de fazer posts. De tudo o que leio e já tive oportunidade de observar e estudar, penso já ter algumas respostas.

 

Todavia, dirão os mais críticos: “ouça lá Robinson, se não falar disso, ninguém irá saber, certo?”. Errado talvez, na medida em que nem sempre o apoio/ajuda/intervenção junto de outrem justifica uma imediata “mediatização” da minha pessoa. Alguns dos actos mais nobres que já vi serem realizados não tiveram publicidade e se no fundo queremos mudar o mundo, já deveríamos ficar contentes com o sorriso que daí pode advir. Aliás, o Marketing Social também aí tem uma palavra a dizer em relação a tais limites.

 

Não estaremos a cair no erro daquela história popular em que, a uma turma do ensino primário, é solicitado que façam uma boa acção e aquando da avaliação, três dos alunos dizem ter ajudado a mesma “velhinha” a atravessar a rua. Perante o espanto da professora (três pessoas!) estes respondem que a dita senhora não queria atravessar, daí tal necessidade de reforços. Há quem vá mais longe e com a publicidade do acto crie uma associação que apoia velhinhas que desejam atravessar a rua, garantindo assim, que no futuro todas as refeições serão à base de ostras e camarão. Até haverá espaço para os "herdeiros da parada" iniciarem o seu percurso profissional a "ajudar" os outros.

 

Confesso que penso nisso de um modo que visa a ideia em como corremos o risco, até nestas áreas mais sensíveis de criar um efeito perverso e camuflado de intenção e denote-se que não critico o meio mas sim o fim. É cada vez mais ténue a linha que separa o egoísmo da reciprocidade e da benevolência e isso pode ser perigoso. O mesmo seria extensível a outras áreas, inclusive os recursos humanos, que a meu ver nunca tiveram um lote de candidatos tão solidários, competentes e capazes como hoje... ou um lote tão vasto de profissionais de marketing pessoal e outro talvez ainda mais vasto de propagandistas.

 

“Mas há gente boa”, dirão uma vez mais aqueles cépticos. Claro que há! E ainda bem! Por exemplo o Sr. Fernando que, praticamente sem reforma, todos os dias alimenta o cão abandonado que lhe apareceu à porta, ou o Zé dos Canivetes que teve vergonha de dizer que gastou 30 euros numa campanha do Banco Alimentar (podia ter escolhido melhor, eu sei) ou finalmente do David, que além de oferecer requintadas “ginjinhas” aos visitantes, oferece tamanha boa disposição que transforma um momento de tristeza num fim de tarde de riso e boa disposição (e a culpa não é da ginja).

 

Algumas curiosidades:

Personal Branding: espécie de "eu é que sou bom" ou "olhem para o que eu digo que faço e coloco nas redes sociais, mas não falem com quem trabalha comigo,  a não ser que seja um amigo";

Chief Happiness Officer: uma moda para mostrar que somos muito amigos das pessoas, nada mais;

Tip: gorgeta, mas reparem lá se tip não é muito mais in?

Post: hoje ninguém escreve "comentário", é só por isso.

Selfie: sou eu, estão a ver que sou eu? Sou mesmo eu! Eu estive lá...O que é que lá fiz? Não sei, mas estive lá, vejam!

 

 

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48 comentários

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Rita PN a 13.12.2017

Começo a achar que existe uma linha demasiado ténue entre o dito personal branding e a forte dependência (para não chamar vício) em relação à imagem e às redes sociais. Quem não está presente, não existe. Quem não aparece a fazer, não fez. Quem não tem cara, não tem nome. E por aí...
Não sei por que caminhos isto nos leva num futuro próximo, mas não lhe vejo realização nem felicidade na equação... ou então sou um alian aqui na Terra. Não me encaixo de todo nesta nova filosofia. Não sei se é de mim, ou se estamos realmente cada vez menos humanos, menos próximos, menos empáticos, menos pessoais... com vidas parelalas apenas vividas dentro de uma tela ou ecrã, sem saber, na verdade, quem somos realmente; se o gajo que aparece em todo o lado sempre de rosto sorridente e missão cumprida, se o gajo vazio e tantas vezes só, sentado no sofá noturno e embrenhado na interrogação "qual é a minha verdadeira missão na vida?".

Sei lá... desbafos do que vejo...
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Robinson Kanes a 13.12.2017

Começas bem e é isso mesmo... Só que nos esquecemos que se todos estivermos "presentes" também não somos nada. O que temos aqui é uma pescadinha de rabo na boca ou melhor, uma roda de hamster...

Confesso que também não é o meu estilo. No trabalho por exemplo, se a chefia for uma boa chefia, os colaboradores não precisam de se colocar em bicos de pés... Foi isso que sempre tentei incutir nas equipas...

A verdade é esta: ninguém é assim tão importante e ninguém está interessado em nós... Pelo menos aquele grupo de milhões de seguidores :-)
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Rita PN a 13.12.2017

"Só que nos esquecemos que se todos estivermos "presentes" também não somos nada." - E seria tão bom que isso estivesse sempre presente no canal racional de cada um... Na verdade, somos só mais um, quando na verdade pretendíamos ser AQUELE! O ÚNICO! A DIFERENÇA!

Faz-me lembrar aquela história "Está cansado da conversa sempre igual do número 1? Fale como número 2"!

"se a chefia for uma boa chefia, os colaboradores não precisam de se colocar em bicos de pés..." - Concordo em absoluto. (E não, não vou voltar a falar no ponto: chefias intermédias).
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Robinson Kanes a 13.12.2017

E vamos andar nisto a vida toda... Tempo perdido... Podemos brilhar de tantas formas.

Esse assunto acaba sempre em grandes dissertações :-)
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Rita PN a 13.12.2017

Ehehehe verdade! Mas também faz falta debater esse tema. Porque o mais fácil é sempre não falar.
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Robinson Kanes a 13.12.2017

É uma temática mais que diagnosticada mas que, por cá, também é um tabu... Nas respectivas áreas, fogem dela a sete pés...
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Rita PN a 13.12.2017

Porque será?
Tu, por certo, saberás mais do que eu a esse respeito, mas debater esse assunto faz estremecer toda a estrutura do sector. Primeiro porque a base é a primeira a sofrer, segundo, porque a base suporta tudo o resto. E se quebra, o telhado cai.

Sinceramente ainda tenho em mim a esperança de ver, num futuro próximo, uma mudança considerável no mercado de trabalho e na estrutura das empresas.
Um dia que escrevas sobre isso,(com base em exemplos internacionais, por certo), logo "debatemos" um bocadinho. Por acaso tenho curiosidade em saber qual a opinião geral, se o medo da mudança e a perda do "confortável e comodismo"; se o optimismo por vir, um dia, a ter a oportunidade de ser remunerados apenas pelo resultado do seu empenho, foco, dedicação e resultados, sem mínimos nem máximos. (Embora com os riscos daí decorrentes, obviamente).
Creio que seria benéfico para todas as partes, tornando as empresas e o mercado muito mais competitivos.
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Robinson Kanes a 13.12.2017

Facilmente se chega a chefia intermédia, esse é logo o principal problema... Há casos em que os resultados e as competências levam a que se chegue a chefia, também não são assim tão raros...

Primeiro, muitos não falam, porque ao falarmos daremos voz a muita gente e podem acontecer muitas "raríssimas"... Depois é a sede de poder... Para muitos portugueses, sedentos de poder, o objectivo ao chefiar é controlar e minar toda e qualquer hipótese de alguém surgir... Já tive várias promoções ao longo da vida e nunca foram os portugueses a dar... Também podia ter tido por parte de portugueses, mas isso obrigava a cedências da minha parte, ou até mesmo favores em prol de...

Depois o português "subalterno" é muito servil... Não traz ideias, não faz perguntas, não discute ideias, tem demasiado medo de acrescentar valor. Detestaria ter uma equipa assim... Ao invés disso, procura sempre outras formas que nem sempre são as mais claras. E claro, isso acaba por ter consequências nas equipas e por arrasto na produtividade.

Isto assim muito superficialmente... Claro que não podemos esquecer que também existem bons exemplos...
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Rita PN a 13.12.2017

"Depois o português "subalterno" é muito servil... Não traz ideias, não faz perguntas, não discute ideias, tem demasiado medo de acrescentar valor." - Talvez a maioria, sim. Mas e quando o português é o oposto disso e são as chefias quem não gosta? Ou por se sentirem inseguras, ou ameaçadas perante a "ousadia" de um "subordinado".

Tenho pena mim, que a criatividade é o combustível da produtividade.
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Robinson Kanes a 14.12.2017

Existem sempre os dois lados...

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