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Málaga: O Inicio das Hostilidades.

por Robinson Kanes, em 14.02.17

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A Guerra continuava... enquanto os cristãos continuavam a aumentar o seu território com as conquistas de Moclín, Illora, Cambil, Albahar e a forte Veléz-Málaga - onde o Zagal, por pouco, não surpreendeu o Rei Fernando - e outras tantas praças, os mouros debatiam-se internamente pela luta de poder entre o Zagal e Boabdil. Boabdil era o filho de Muley Hacén e que, tinha sobre si, a sina de vir a ser o último rei de Granada. Aliás, foi em Almeria, que o Zagal, quase surpreendeu este último, ainda fiel à coroa de castela.

 

No entanto, um dos episódios mais marcantes da Reconquista deu-se em Málaga. Depois do desastre das montanhas, esta estratégica e riquíssima cidade tornou-se o alvo do assédio cristão. Málaga era um cidade fortemente comercial e quem tinha como alcaíde? Hamet el Zegrí, que contava com a sua tropa de elite, os Gomerez (Gomaras em português). Lembram-se de Ronda?

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 Hamet el Zegri governava a cidade deste o Castelo de Gibralfaro, o pouco que ainda resta na cidade como testemunho desses tempos. Foi daí que viria a perceber que o Zagal não iria sair de Granada com receio de perder o trono e, foi daí também, que resistiu aos vários assédios dos emissários dos reis católicos para que entregasse a cidade. Neste episódio, o Marquês de Cádiz foi o grande impulsionador das negociações por parte de Castela.

 

Na verdade, el Zegri era um lutador fiel à sua cultura e religião e não cedeu um único passo, ou não fosse Málaga uma das cidades mais bem apetrechadas militarmente. El Zegri era verdadeiramente leal ao seu reino, como poucos, sobretudo em épocas de disputa de poder.

 

Perante as recusas do alcaíde mouro, Fernando II saiu de Antequera e percorreu os vales e montanhas que o separavam de Málaga. Além da forte Artilharia pesada, o rei católico contava agora com apoio por mar, com vários navios que iriam garantir o abastecimento e cercar a cidade, além de, inibirem qualquer apoio muçulmano vindo do Norte de África. Por terra, o acesso a Málaga também não se avizinhava fácil e, atravessar todos aqueles vales e montanhas de Antequera até Málaga foi um dos maiores desafios do exército real.

 

A primeira escaramuça viria a ter lugar quando, el Zegri ao vislumbrar a proximidade do inimigo, fez sair três batalhões que destruíram tudo o que encontraram ao redor da cidade e se envolveram em combate directo com as forças de Castela... as mesmas que viriam a conquistar posições estratégicas no cume das montanhas. Notabilizaram-se os reforços galegos nesta conquista inicial, pois enfrentaram os mouros - com o apoio de Don Hurtado de Mendonza e Garcilazo de la Vega - num terreno extremamente declivoso e difícil. As baixas foram muitas, mas a proeza e coragem do porta estandarte católico, Luis Macedo, foi determinante para a vitória, na medida em que, atravessou sozinho as linhas do inimigo e colocou as armas de castela no topo da montanha.IMG_5830.JPG

 

Málaga era uma cidade airosa, limpa e bela. O relato dos jardins, das suas elegantes palmeiras e até das suas gentes ainda hoje é actual. De facto, os testemunhos são poucos, mas os caminhos até Málaga, sobretudo desde Comares ou Antequera, ainda fazem a delícia dos apaixonados por Andaluzia qu,e procuram chegar à cidade e respirar o ar marítimo numa qualquer sombra com vista privilegiada para o Mediterrâneo.

 

Málaga é, ainda hoje, uma das cidades mais airosas e mais luminosas de Espanha, uma cidade que ainda transmite os cheiros que chegam do Norte de África, mesmo ali à frente. A cultura, tão amada por mouros e católicos é hoje uma das mais-valias da cidade, com um sem número de museus interessantíssimos, ou não contasse com delegações do Hermitage, do Pompidou e do Carmen Thyssen. Mas, a conquista de Málaga, que viria mais tarde a assistir ao nascimento de Picasso, seria dura e sangrenta. Lá voltaremos, pois temos de estar bem protegidos na nossa armadura para podermos ter uma vista privilegiada do Gibralfaro e das duras batalhas que aí se disputaram.

 

Voltarei na próxima segunda-feira... pelo que vos deixo a apreciar o encontro do ar marítimo com o ar da montanha...

 

Fonte das Imagens: Própria.

 

Para os que só agoram chegaram com os seus exércitos:

 

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/aben-hacen-e-zahara-17518

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/el-zegri-e-ronda-18287

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/salobrena-e-a-morte-de-aben-hacen-19240

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/cordoba-o-quartel-general-cristao-19524

 

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5 comentários

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De Francisco Freima a 14.02.2017 às 11:54

Eu não conhecia os detalhes da conquista de Granada, mas do que tenho lido por aqui assemelha-se um pouco ao que sucedeu durante a conquista de Barcelona pelos franquistas. As hostes republicanas também estavam divididas e rebentou uma guerra dentro da cidade entre a CNT/FAI e o POUM contra a UGT, o PCE e o PSUC. Passados oito meses, Barcelona cairia mesmo para o lado de Franco.
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De Robinson Kanes a 14.02.2017 às 12:30

Sim, é uma forma de entender as coisas. Aqui estava em causa um reino… os envolvidos são mais e não estamos apenas a falar de uma cidade.

Mas de facto, é inegável que as tensões internas ajudaram ao fim de um dos mais poderosos reinos que já conhecemos.
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De Francisco Freima a 14.02.2017 às 13:01

Sim, o maior problema desses reinos foram as lutas intestinas, porque depois tinham de chamar os «primos» do Norte de África que eram bem mais rigorosos na observância do Islão. Os Almorávidas e posteriormente os Almóadas não tinham nada a ver com a abertura que se vivia na Península, eram demasiado rígidos para tolerarem a excentricidade de um al-Mu'tamid.
No caso de Granada, foi o espírito do tempo a funcionar a Oeste como tinha funcionado a Leste com a queda de Constantinopla
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De Robinson Kanes a 14.02.2017 às 13:42

Não iria tanto por aí, embora não estejas errado.

De facto, o Mediterrâneo também já não estava, nesta época, nas mãos dos povos do Norte de África, o que limitava a travessia. Além disso, não podemos esquecer que a própria Europa, sobretudo os Portugueses, fazia incursões por África. É importante ainda ter em conta que o comércio continuava a ter lugar entre os dois continentes e uma guerra em larga escala não seria benéfica para ninguém.

Da região que é hoje Marrocos existiam também muitas lutas internas e externas, dos territórios de Orão para baixo e mesmo até ao Egipto (que tinha boas relações com Castela) desejava-se a paz a troco de estabilidade económica, sobretudo na mais alta esfera.

O Zagal, quando abandonou Guadix e foi para Fez foi condenado à cegueira, viveu e morreu miseravelmente. Já Boabdil teve um destino diferente e foi bem acolhido. Penso que, no fundo, era tudo uma questão diplomática e de interesses.
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De Francisco Freima a 14.02.2017 às 14:25



O al-Mu'tamid também foi mandado para o exílio em Aghmat, onde passou os últimos dias.

As lutas fratricidas foram uma constante das taifas, mas o problema vinha de longe, o exército de Tariq Ziyad era um autêntico albergue espanhol, daí que não surpreendam as dificuldades que foram tendo após a conquista. O fim do Califado piorou depois a situação, a partir daí era cada um por si, pareciam os diádocos após a morte de Alexandre Magno.

Sim, o Norte de África era igual, basta lembrar a expedição de D. Sebastião, que foi uma tentativa de impedir que os otomanos mantivessem a sua influência em Marrocos.

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