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Falar de Bowie e da Morte...

por Robinson Kanes, em 19.12.16

david-bowie-1.jpg

 

 

Agora que os ventos estão mais calmos e em que tudo já se escreveu sobre David Bowie - que ficaria feliz ao perceber que afinal tem o quádruplo dos fãs que pensava - escrevo eu quando pouco falta para o primeiro aniversário da sua morte. Sobretudo porque, sempre que morre alguém, tenho a sensação de que já existem rascunhos prestes a serem publicados para não se perder a corrida das lamentações e com isso os holofotes.

 

De repente fiquei a saber que poderia ter falado de "Absolute Beginners", de "Ziggy Stardust" ou de outros temas com tanta gente que eu pensava não conhecer muito da vida e obra deste senhor... possivelmente não as conheciam mesmo. Nada que no prazo de um dia umas pesquisas na internet não resolvessem e... a cada aniversário lá virá mais uma colectânea para o lembrar.

 

Bowie, apesar de ter trabalhado uma vida inteira e de, por isso, ter sido reconhecido também em vida, teve de morrer para chegar a número um nos Estados Unidos. Isto faz-nos pensar um pouco... afinal, quer queiramos, quer não, as conquistas, os prémios e os reconhecimentos depois de mortos de nada valem para os artistas. “Vou ser reconhecido pelo meu trabalho... fantástico!... mas estou morto e, mesmo que até na minha fé esteja a visualizar tudo o que se passa na terra, convenhamos, de pouco ou nada me serve”. Somos nós, sobreviventes (por mais algum tempo), que podemos lucrar e transportar para aí um pouco a nossa crença de imortalidade.

 

Falou-se muito de David Bowie, sobretudo em termos de aprendizagem organizacional, de como era inovador, diferente e até de como a sua atitude se reflectiu numa carreira que se prolongou por várias décadas. David Bowie foi sempre ele próprio e a “única” coisa que teve de inovador foi isso mesmo: ser ele próprio. David Bowie não cedeu às muitas inovações (absurdas) de que o mundo musical foi sendo alvo nos últimos anos. Aproveitou como ninguém a tecnologia, mas jamais se deixou contagiar pelo muito lixo musical que foi sendo produzido. Podemos nesse aspecto continuar a falar de inovação? Claro que sim! Também isto é ser inovador – cada vez mais...

 

Outra descoberta: a apropriação da morte de Bowie por todos nós - “o meu Bowie”; “quando ouvia a música do Bowie”; “foi um cd do Bowie que...”; “como vai ser sem a música do Bowie” (interessante que também descobri no decorrer deste ano que a maioria dos portugueses e não só tem dificuldade em pronunciar o nome do senhor).

 

Tudo isto é interessante, e eu aí também sou apanhado na teia, mas esquecemos que o Bowie era uma pessoa e não pensamos muito nisso. Não pensamos muito no lado de lá... na família, no próprio (afinal morreu)... Não conseguimos ir mais além do “eu” que aqui também ganha destaque. É lugar comum falar em sociedade individualista, mas não vamos ao encontro dos focos desse mesmo individualismo. Não me alongo muito nesta matéria, deixo-a para os especialistas.

 

Finalmente, falar da morte de Bowie é também, passe a redundância, falar de... morte! Bowie é um cidadão da Idade Média. Ou melhor, é gente da Idade Média, pois o conceito de cidadania nessa época, com a queda do Império Romano do Ocidente, ficou um pouco marginalizado. Bowie soube preparar a sua morte com discrição - convidou a senhora da foice, sentou-a à mesa e discutiram todos os preparos para a festa que se seguiria. Uma das coisas em que a nossa sociedade não evoluiu, pelo contrário, foi a questão da morte. Talvez por perda de fé; talvez pelo simples facto do homem estar entregue a si próprio; talvez porque nos julgamos imortais; talvez porque perdemos aquele ente querido mas acreditamos poder viver eternamente porque a medicina nos vai salvar... até ao dia em que corremos o risco de morrer “velhinhos”. E quando a morte nos pisca o olho, temos um medo terrível e lutamos com todas as nossas forças, pois ainda há esperança de sermos salvos, mesmo quando não somos mais que um vegetal condenado a essa mesma morte.

 

Bowie foi gente da idade média, basta ler Ariés para perceber em que medida, naquela época, a Ocidente, o cerimonial da morte era preparado: morrer fazia parte da vida e a aproximação da morte era como que celebrada. Era o próprio moribundo que, apercebendo-se da aproximação do fim, preparava todo o cerimonial. Não existiam pontas soltas, quer em termos de heranças, quer em termos de palavras ou gestos. Havia tempo para serenamente discutir as questões da morte, não só entre o moribundo e os médicos da morte, mas também entre o moribundo e todos aqueles que o rodeavam. Segundo Ariés a morte era uma cerimónia pública e organizada e mais importante que isso, a simplicidade com que os ritos da mesma eram aceites e cumpridos, sem qualquer drama ou emoção excessiva. Fugir da morte, esconder o moribundo é uma prática recente do início do século XX.

 

Bowie não teve medo da morte. Preparou-a aliás, com um sorriso no rosto e trabalhou em parceria com ela no sentido de deixar tudo finalizado apesar de possivelmente ter travado uma luta interior que nos é desconhecida. Quantos clientes com esta postura não adoraria ter a morte?

 

No entanto, não esqueçamos... isto não é coisa que se faça cinco minutos antes de termos aquele AVC que nos vai levar de vez... este é um projecto também de vida, pois a serenidade da morte tem a ver com a serenidade da vida, caso contrário teremos aquilo a que Sartre chamava de “viver” e não a “aventura” (da vida) que só existia quando pudesse ser contada e acrescento eu, realmente sentida...

 

Talvez uma das maiores lições e inovações de Bowie tenha sido essa: a morte é normal, faz parte da vida e, fazendo parte dessa vida, também nós, “pseudo-imortais”, temos de estar preparados para a receber. Foi essa a última grande inovação de Bowie, ser gente da Idade Média em pleno século XXI.

 

Fonte da Imagem: http://thefashiontag.com/2016/01/13/david-bowie-a-style-icon/

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