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Créditos: https://imgflip.com/i/1vlfv3

 

Quando o tema é emprego, Portugal tem sido um verdadeiro milagre. O grande milagre português anunciado por Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa não foi no controlo da COVID-19 mas nos números do desemprego. Portugal deve ser dos poucos países do mundo onde o aumento dos despedimentos leva a uma "redução" do número de desempregados! Senhores de Harvard ou de Standford, por favor, aprendam com este país.

 

E é nesse contexto que chegou ao meu conhecimento a passada semana mais um caricato episódio de fraude made in Portugal, aliás, recordando um programa televisivo, é de facto nisso que somos bons.

 

Tudo começa com um anúncio de emprego que já tem vindo a ser publicado desde Fevereiro por uma empresa algarvia que  anda pela internet à procura de um especialista em recursos humanos e mais recentemente também por dois especialistas noutras áreas, nomeadamente em marketing e design. Anúncios com muitos meses são sempre uma red flag, pelo que, deixo o meu conselho à minoria de 1% que ainda acredita que encontra emprego por esta via: nunca se candidatem a estes anúncios.

 

Todavia, o episódio começou com uma candidatura em final de Maio, que acabou recusada em Junho, e de repente, uma repescagem em final de Julho. Uma coisa fantástica, pensou a ingénua candidata que ainda tem a mente lá fora e esquece-se que entre Portugal e a Bielorrúsia as diferenças vão sendo cada vez mais ténues. 

 

Com a primeira entrevista, descobre uma empreendedora portuguesa que trabalhou em Inglaterra e que voltou para continuar a sua empresa em Portugal. Um discurso digno de grande gestora, alguém que sabe do que fala. Cuidado com estes discursos, cada vez são mais e cada vez... Grande empresa e grande futuro se avizinhava nessa multinacional, algo à dimensão de uma Google.

 

Com tudo a correr bem, começam as red flags: um desafio à candidata para que resolva uma situação complexa em termos de fiscalidade e recrutamento internacional e cuja solução já só está ao nível de um profissional muito sénior e que mesmo assim necessita de apoio jurídico e fiscal, em suma, algo que custa uns bons euros e que não se faz num dia.

 

Perante uma resposta elaborada, no entanto evasiva e mais assente no espírito da lei, são pedidos mais detalhes, algo mais aprofundado e mais concreto, algo para ser de imediato colocado em prática. A candidata, já mais alerta, amigavelmente forneceu mais alguma informação mas não adiantou muito mais.

 

Segue-se uma terceira fase em que surge o Operations Manager - uma empresa que se preze só tem títulos pomposos mesmo que, como se veio a descobrir, só tenha pouco mais de 20 colaboradores. Mais uma entrevista com sucesso e já lá vão 4 fases do processo quando surge mais um desafio - afinal dois. Os famosos desafios (a palavra desafio, acredito eu, terá ganho outro  sentido para a candidata depois  destas peripécias): preparar, acompanhar e elaborar um relatório para duas entrevistas que entretanto irão ter lugar! Ética e Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) de fora... Colocar um candidato a entrevistar outros dois é qualquer coisa, sendo que os outros dois nem saberiam que estavam a ser entrevistados por alguém que não estava a trabalhar para e na organização. Acrescendo a isto todo um trabalho que também envolve questões financeiras, fiscais e de mercado. 

 

Diante destes factos, a candidata bateu o pé e disse que não estava disposta a continuar com a situação, ao que rapidamente a grande empreendedora, e perante as contra-medidas entretanto disparadas, deu a entender, pela linguagem verbal e não verbal (viva o Zoom) que só estava à procura de mão-de-obra gratuita, ou melhor, consultoria grátis utilizando o subterfúgio do recrutamento. Na realidade, a história poderia ficar por aqui, mas perante as evidências demonstradas pela candidata, a empreendedora de sucesso rapidamente mudou o discurso apresentando argumentos que afinal era melhor as coisas ficarem como estavam até porque a candidata além de querer um salário "elevado", nem era bem aquilo que a organização procurava. Quem é português sabe do  que falo, ou seja, passar o ónus do problema para o outro, muito tipíco na nacional vigarice que ainda é abundante.

 

Todavia, e como o Mundo é um local rico em comportamentos da fauna que anda em duas pernas, ficou aberta a hipótese de recomendar alguém para uma eventual participação num projecto na área do marketing ou na área do design. A organização preparava agora a contratação de dois elementos para essas posições mas tinham de resolver vários problemas criticos  da mesma para serem aceites, além de que um estágio não estava fora de questão.

 

Infelizmente, situações destas não faltam, já em tempos relatei uma similar, pelo que, não é assim que lá iremos e nem um surto gigantesco de ébola mudará esta mentalidade, condenando-nos à eterna mediocridade. 

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14 comentários

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O ultimo fecha a porta a 19.08.2020

Obrigado pela partilha e alerto.
Nunca tinha ouvido uma história destas. Existem aqueles desafios que se colocam nas entrevistas para testar a destreza do candidato, mas já ouvi o ridículo de perguntarem "quantos pêlos tem um gato?" para um estágio de 2 meses no BCP, quando as pessoas escolhidas foram todas filhas de bons clientes do banco. Há perguntas e perguntas...
Convém sim ter cuidado com estes artistas que se acham xico espertos e se aproveitam da ingenuidade natural dos candidatos. Neste caso queriam consultoria gratuita.
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Robinson Kanes a 19.08.2020

Não é tão anormal como isso. No RU é comum também e além disso, olha, toma lá mais uma: https://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/e-hoje-e-hoje-9461 - mais tarde vim a saber que a história se repetiu com duas pessoas do meu conhecimento profissional.

Aqui estava à vista que era, pior que benchmarking, a consultoria gratuita.

Isso já é normal, estágios no Estado e algumas organizações já estão bem entregues e não são raras as vezes em que os concursos já estão adulterados, não por quem está acima, mas por quem está abaixo. Ainda se descura muito a primeira linha do recrutamento, mas é aí que os melhores podem ser deixados para trás.
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Se não lesse, aqui, nunca imaginaria que a desfaçatez já chegasse a tanto. Mãe do Céu.

PS: Os Estágios Profissionais no meu tempo serviam basicamente para o mesmo. Recrutamento a baixo custo, associado a uma formação da treta
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Robinson Kanes a 19.08.2020

E não é novo.

Sim, normalmente é o resultado, salvo os famosos PEPAL e os PEPAP...

P. S. : Mãe do Céu? Se alguns deputados te ouvem... :-))))
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Anónimo a 19.08.2020

Sem comentários.Uma perfeita vigarice!!!!!!!!!
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Maria Araújo a 19.08.2020

Somos tão pequenos e com a mania de grandes!
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Robinson Kanes a 19.08.2020

É normal nos pequenos...
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cheia a 19.08.2020

Este país não tem emenda.

Um abraço
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Robinson Kanes a 19.08.2020

Começo a pensar que nao5tem mesmo...
Abraço,
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/i. a 19.08.2020

A vergonha é verde e veio uma vaca comeu a erva...
Vão experimentando se o barro cola, como a lei laboral é elástica e omissa em casos deste género...

Por exemplo, os estágios curriculares são mão-de-obra qualificada de borla, pelo menos no meu tempo era (estágio curricular obrigatório de 3 meses...)
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Robinson Kanes a 19.08.2020

Pode ser sempre enquadrada numa burla, mas é algo difícil de provar. Em termos de mercado laboral, a lei só surge após a assinatura de um vínculo, o que nem sempre é bom.

Eu fiz três. Um por minha vontade, outro pela minha instituição de ensino,. Ambos duraram três meses cada. O último foi de seis, porque quis mais três. Fora isso, já trabalhei pro bono muitas vezes. Agora, salvo raras excepções, vou ao encontro do que defendo: toda a gente merece ser remunerada, paga ou recompensada (como preferirem) pelo seu trabalho... É óptimo para a Economia. A "economia" das borlas só destrói o tecido produtivo.
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Dentro da economia das borlas surge também o "socialmente meritório" , voluntariado.

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Robinson Kanes a 20.08.2020

Sim, existem algumas boas vidas e instituições sustentadas com a boa vontade... Dos outros... Associações e afins não faltam...

Em alguns casos, até para seres voluntário precisas de cunha que aquilo não é para qualquer um... Sobretudo em instituições que o voluntariado permite outro tipo de... Enfim, tu sabes :-)

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