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Discurso do Pânico... Continuem que vão bem...

por Robinson Kanes, em 21.01.21

coronavirus.jpg

Capa da edição do histórico Diário de Notícias de 21/01/2021 - que para isto, não precisava de ter voltado.

Imagem: Diário de Notícias

 

 

E quando se deixa de acreditar nas pessoas, o que é que fica a um homem?!... Pouca coisa e nada de bom... Uma noite danada dentro da gente, uma grande vontade de morrer quando o coração amacia e uma grande vontade de matar quando se pensa que viver é bom e são os outros que não deixam.

Alves Redol, in "A Barca dos Sete Lemes"

 

 

O caronismo e o buescismo vieram para ficar. Já não basta a situação delicada e temos uma nova imposição do pânico e do medo. Parabéns, algumas pseudo-celebridades, médicos sem ética e alguns meios de comunicação conseguiram... "Estamos" cheios de medo.

 

Em relação ao caronismo, faz-me espécie como é que um candidato a Dr. Oz português, que não olha a meios para alcançar o protagonismo, continua a ter destaque máximo nos meios de comunicação, mais do que outros médicos experientes e muito mais prudentes quando falam da situação actual. A apologia do medo e da desgraça, sobretudo vinda de um indivíduo que diz ter estado em cenários de guerra, faz-nos pensar se tal terá servido de alguma coisa: a última coisa que, num cenário de guerra ou de pandemia, devemos fazer é a apologia do pânico e do medo, pelo menos dentro das nossas fileiras... Alguém estudou mal a lição... A cegueira por meia dúzia de likes e futuras audiências não tem limites! Caronas e dokinnis deste país semeiam o pânico e o medo sem olhar às consequências do seu discurso. Também não entendo o que os chefes do serviço destes profissionais andam a fazer...

 

Homens, verdadeiros médicos como António Sarmento (apenas um exemplo), mostram que não devemos entrar neste estado de pânico, mesmo em entrevistas que, mais do que buscar informação, o jornalista (ou licenciado apenas em jornalismo e com faltas a todas as aulas) tenta por todos os meios fazer com que o especialista ceda ao discurso do pânico. Mesmo perante as investidas sem sucesso insiste em dramatizar uma situação que ainda não chegou a tal. Para isso, para o desastre, voltaram os matemáticos dos números lapalissados, a semear o terror ao anunciarem números como 16 000 casos numa semana quando na corrente já temos 12 000 e estamos numa curva ascendente. Brilhante, e pagamos milhões a indivíduos como estes para ensinarem...

 

Também não deixa de ser paradoxal ver o mundo das pseudo-celebridades a embarcarem no discurso do medo e a apregoar o internet shaming e o encerramento de todos em casa - não seria grave se isto não afectasse a saúde mental de muitos que lhes dão ouvidos. Estas estrelas cadentes são as mesmas que há uma semana contestavam o encerramento de espaços culturais mas devem ter chegado à conclusão que, na tentativa de aparecerem, nada como ter as pessoas fechadas em casa e adoptar o discurso do medo - assim não vão cair no esquecimento de facto, mesmo que um dia sejamos contra o panda do kung fu e no outro dia a favor, vive-se de likes e a realidade pouco importa. Ninguém é responsável, mesmo que tenham passado o verão em férias à grande (e não poucas vezes pagas por outrem) a ostentar o seu confinamento. Também ninguém é responsável por, aquando de um acidente de viação em período de proibição de circulação entre concelhos, que pelo que me vem à memória deve ter sido o único em Portugal nos últimos anos, muitos destes indivíduos terem tido vontade de tomar parte na desgraça e afinal se terem esquecido que em tempo de confinamento, a A1 era um desfile destas celebridades quando outros estavam fechados.

 

Voltámos também ao discurso da guerra. Só quem nunca esteve debaixo de fogo real em situação de conflito pode chamar a isto guerra. Não, isto não é uma guerra!  Mas pelo menos, já que andamos todos tão preocupados com a guerra e com a linha da frente, pode ser que seja desta que possamos dar valor aos ex-combatentes do ultramar que combateram numa guerra que nem sabiam muito bem para quê... Esses e os desertores que um certo Presidente da República que na altura já ambicionava estar à frente de uma ditadura, apelidou de cobardes e apátridas mas quando chegou a sua vez, como sempre enquanto era jovem, lá chorou junto do pai para fugir às picadas africanas... E é isto Presidente de uma Democracia... Ainda por estes dias alguém me dizia, vocês (europeus) não sabem aproveitar a paz, estiveram demasiado tempo sem guerra.

 

Sou critico do Governo de António Costa, mas é preciso muito para sentir que desta vez o nosso Primeiro-Ministro não é dos maiores culpados (sim, é o Robinson a escrever isto). Perante tantas decisões complexas, perante tantos especialistas que só querem dar nas vistas (não todos), perante um Presidente da República que se confunde com Primeiro-Ministro quando as coisas correm bem e cospe publicamente em António Costa quando as coisas correm mal, mesmo que tenha tomado parte (e influenciado até) nas decisões, é motivo para ter alguma compaixão. Pelo menos, com más decisões, não deixa de ser um estadista, já o outro... A história falará por si e de um dos maiores actores e youtubers (seja lá o que isso for) da sociedade portuguesa

 

Assassínios em massa? Alguém tem real noção do que significa (mesmo em termos legais) de acusar um Primeiro-Ministro deste tipo de crime? Será que, com todos os erros, ainda não percebemos que não é possível salvar toda a gente e os custos económicos e sociais de um confinamento geral serão fatais? Continuo a não defender confinamentos gerais, não pode ser... Porque é que muitos europeus, e sobretudo os portugueses não se convenceram que os riscos existem? Mas onde é que andaram com a cabeça, pelo menos alguns deles, para acreditar que a segurança é absoluta? É impossível salvar toda a gente se o vírus, seja ele qual for, atacar em força! Podemos mitigar, sim podemos mitigar, mas o risco existirá sempre... Em que raio de bolha andámos a viver estes anos todos? Em que raios de guerras andaram os caronas deste mundo, pois parece que andaram foi a jogar Risco ou a Operação e quando algo é a sério parecem tontos a correr de mãos no ar a gritar acudam!

 

Já se fazem contagens de mortos nos cantos dos ecrãs... Mas o que é isto? Já não há ética, já não há decoro e o jornalismo tende a ocupar mais campas que o SARS-CoV. Somos um Heinrich de Malraux a fazer render a situação, posto que a mesma já foi encontrada! Estamos a abrir precedentes perigosos...

 

E é nesse contexto que, mais do que a situação actual, dá-me medo o futuro neste país, porque isto é só o começo do que um futuro incerto nos reserva. E como diz o povo, continuem que vão bem...

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31 comentários

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Mamã Gansa a 21.01.2021

E das vitimas colaterais desta situação ninguém fala.Daqueles que morrem por falta de assistência médica, exames e cirurgias adiadas.Aqueles que aguardam há mais de seis meses por um exame urgente...
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Robinson Kanes a 21.01.2021

Esses são o "soldado desconhecido", aparentemente... Não estou dentro da questão, mas parece-me ter existido um mau planeamento. Aliás, existem hospitais que estão a enfrentar melhor a situação que outros, e não é somente porque têm menos ou mais meios.

Infelizmente, a morte por falta de assistência, exames e cirurgias adiadas não é um problema de hoje, sempre existiu. Pode estar mais exacerbado... Para já, o que tenho ouvido da parte de médicos como aquele que citei, é de que ninguém fica sem apoio, independentemente de ser maior ou menor. E generalizo, porque tive alguém próximo com o vírus que teve duas experiências hospitalares completamente diferentes. Quero acreditar que a primeira se deveu ao facto do hospital ser novo e como tal ainda não ter a máquina bem lubrificada.

Independentemente disso, o pânico não ajuda...
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Mamã Gansa a 22.01.2021

O que o médico disse não é verdade e posso afirmá-lo.Um primo meu com cancro morreu porque lhe adiaram sucessivamente tratamentos e exames. O pais dos meus filhos que sofreu uma trombose ocular no verão aguarda um doppler urgente há mais de seis meses. Uma assistente operacional que trabalga comigo tem problemas cardíacos tem os exames adiados há mais de um ano. Neste momento nem a médica de família nos atende há meses.
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Robinson Kanes a 22.01.2021

Não tenho como duvidar de ambos, no entanto, no primeiro caso não há muito a fazer, nos demais, já contactaram os serviços? Mesmo em tempos de não pandemia essas situações ocorrem... Falem com os serviços. Em relação aos médicos de família, muitos estão a fazer atendimento à distância, já tentaram aferir dessa situação no centro de saúde?

Em relação ao primo, morreu mesmo por isso, por falta de exames complementares de diagnóstico e posterior tratamento ou foi considerado como paliativo? Estou apenas a perguntar...
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Mamã Gansa a 22.01.2021

Sim no nosso caso já fomos ao Hospital várias vezes.Quanto aos outros não conheço os pormenores, mas a minha prima ( a mulher dele) fez-me referência constante ao adiamento sucessivo de trtamento e exames.
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Robinson Kanes a 23.01.2021

E a resposta é de que? Perdão pela insistência :-)
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Anónimo a 24.01.2021

A resposta do Hospital é sempre que estão aguardar data para marcar o exame, chegámos a suspeitar que tivessem perdido o pedido o que não era inédito, mas comprovaram que não. Entretanto conjugamos o verbo aguardar, nós aguardamos, eles aguardam e não pense que esta situação é única, há muitas similares...
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Robinson Kanes a 24.01.2021

Sim, há... houve... e sempre haverá :-(
Neste momento estarão numa espécie de "triagem de manchester" - vão acompanhando, estão em boas mãos.
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Mamã Gansa a 22.01.2021

No que diz respeito à médica de família já tentámos pir várias vias, está incontactável. Só nos atendem no Centro Covid , tivr um ataque de enxaqueca fortíssimo em que a medicação não me estava a fazer efeito.Fui mandada para o Centro Covid.
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Robinson Kanes a 23.01.2021

E chegaram a ir ao centro?
No caso da médica de família, nem por email?
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Mamã Gansa a 24.01.2021

Sim fomos ao centro disseram que neste momento não tinha vaga para consultas.Tentámos contactar pir e-mail e não obtivemos resposta. Atenção que eu gosto muito da minha médica de família acho-a muito humana e competente e também muito disponível. Se não dá resposta é porque não pode.
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Robinson Kanes a 24.01.2021

Sim, é possível... Terão de ir fazendo "follow up" para não "caírem no esquecimento", todavia se a gravidade for muito, devem ter isso em atenção.
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Mamã Gansa a 25.01.2021

Pois.Vamos contnuar a tentar, até porque eu costumo ser bastante persistente.Obrigada. Bom trabalho para si.
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Mamã Gansa a 22.01.2021

Isto também não é de forma alguma uma critica aos nossos hospitais (se bem que tenha algumad razões de queixa) , mas no geral tenho também muito de bom a dizer.Apenas uma critica aos danos colaterais desta seleção que foi mandada fazer do que é grave ou não.Foi um trombose ocular e disseram que se podia repetir.Não devem poder fazer nada para não considerarem urgente.
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Robinson Kanes a 23.01.2021

Sim... Cá para fora transpira que só dá Covid nos hospitais, inclusive porque um ou outro médico pop star também o verbalizar, embora isso, acredito eu, não seja o que está a acontecer, pelo menos para já. Também estamos a ter um Janeiro terrível em termos de clima, o que não tem ajudado em nada.
Não será grave, embora para o paciente o seja sempre, caso contrário já estaria encaminhado.
Apesar de tudo, temos um dos melhores SNS do Mundo. Esperança :-)
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Isabel Paulos a 21.01.2021

Concordo na generalidade. Só penso que não vale a pena ficar condoído com injustiça a António Costa. Merece-a bem. Também ele tem agido como qualquer dessas celebridades tontas que enchem as páginas virtuais de apelos dramáticos e culpabilizações palermas.

Kanes, e de resto, isso da sensatez, de perceber que o mundo não é nem tende a ser perfeitinho, como as celebridades e a população deseducada pelas celeridades julgam ser. Isso de perceber que nem tudo se resolve com frases feitas e o apontar o dedo ao vizinho, é coisa arcaica. Fora de moda. Neste mundo no discurso só vinga a moleza e a fina película de verniz.
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Robinson Kanes a 21.01.2021

Concordo, só talvez esta não seja o momento. Já foi (e ninguém se preocupou) , e há-de ser, mas não agora. Mas estou de acordo e a política no futuro não poderá assentar no "focus group" .


Se assim for, Isabel... Admirável Mundo Novo este... :-)

Obrigado,
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Maria Araújo a 21.01.2021

Sabia que ia escrever sobre o Carona, sabe que eu admiro o homem, mesmo que com algum protagonismo que queira obter dist tudo.
Carona de lado, estou de acordo com o que escreve, mas, e mais uma vez, acho que este povo funciona com o medo.
Desculpe escrever isto, mas é o que eu penso.
Quanto a:

"já se fazem contagens de mortos nos cantos dos ecrãs... Mas o que é isto? "
e porque ontem, passando nos vários canal, parei lá, fiquei estupefacta a olhar o écran e interroguei-me, também" o que é isto?!".
Nem sei escrever mais nada.


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Robinson Kanes a 21.01.2021

Não tem de pedir desculpa, Maria. É a sua opinião :-)

O medo, o pânico têm consequências psicológicas, sociais, históricas e laborais tremendas. Além disso não nos ajuda a pensar. Muito recentemente já ouvi a defesa de ditaduras a propósito do medo... Como o quetzal, prefiro morrer em liberdade a viver enclausurado.

O nosso comportamento colectivo, enfim... Já sabe o que eu penso.

P. S. : já "proibi" a minha mãe de ver televisão portuguesa :-)))
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Maria Araújo a 21.01.2021

Eu vou vendo televisão, mas só oque me interessa.
Além disso, a programação é tão boa, que eu adormeço.


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João-Afonso Machado a 21.01.2021

Caro Amigo, de algum modo a sua escrita tranquiliza. É verdade, ainda não chegámos ao fim do mundo e os britânicos, esses sim, viveram uns anos debaixo das sirenes e das bombas.

Mas olhe que o sarmento, que por acaso conheço, não tem hoje o discurso de esperança com que apareceu na tv no início da pandemia...
E o grande problema - veja lá se vê saída neste capítulo - é os engarrafamentos nos hospitais. Não me apetecia nada, agora, uma camoeca qualquer...

Abraço.
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Robinson Kanes a 21.01.2021

Existe uma frase proferida por um paciente em final de vida que me acompanhou desde que a li pela primeira vez. Foi partilhada com Marie de Hennezel. Não era um poeta, não era um "change maker", era um cidadão "simples" e disse o seguinte: "Se a única coisa que eu tivesse a dizer, fosse que tudo estava perdido, calar-me-ia". Também é mais fácil eu e todos colocarmos o "Addio a Palermo" do Morricone e assumirmos que tudo está perdido. Mas não está, nem estará.

António Sarmento, terá o seu desgaste, não tem tarefa fácil. Todavia, e saberá o João-Afonso, que continua a ser dos mais optimistas e focado na gestão do problema na sua unidade. É um entre muitos que recusa ceder ao pânico.


Os engarrafamentos nos hospitais não são uma coisa nova. Não estou a desdramatizar, mas não são uma coisa nova... E sim, pode piorar, João-Afonso, mas não será com o pânico e o medo que resolvemos crises... Além disso, é destes dois estados que nascem muitos outros - a história disso é exemplo, mas parece que muitos se esqueceram desta - ou a quiseram apagar.


Grande Abraço,

P.S.: se entrar num hospital como doente, não tenha dúvidas que estará nas mãos de um dos melhores serviços do Mundo :-)
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Anónimo a 21.01.2021

Se alguns chefes falassem assim isto era bem mais fácil
Abraço
APC
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Robinson Kanes a 21.01.2021

Ahahahah
Nah :-))))
Abraço,
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cheia a 21.01.2021

Um futuro mais que incerto: negro!

Um abraço
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Robinson Kanes a 21.01.2021

Os desafios serão muitos...
Abraço,
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Marques Aarão a 21.01.2021

Sobrando testemunhos de reconhecimento do covid como arma do crime, urge acionar perícias para reconhecimento das impressões digitais que determinem quem a usou.
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Robinson Kanes a 21.01.2021

A procissão, temo, ainda vai no adro...
Abraço,
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O ultimo fecha a porta a 23.01.2021

Lembras te do que me disseste uma vez: não ver TV :)

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