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Das Dívidas Perdoadas...

por Robinson Kanes, em 14.10.19

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Créditos:https://www.thoughtco.com/al-capone-1779788

 

Como tantos outros animais, temos de uma necessidade muitas vezes desesperada de nos adequar, pertencer e obedecer. Tal conformidade pode ser marcadamente prejudicial, pois negligenciamos soluções melhores em nome da loucura da multidão. Quando nos damos conta que estamos fora da sintonia com o resto do grupo, as nossas amígdalas contraem-se de ansiedade, as memórias são revistas e as regiões de processamento sensorial são inclusive pressionadas a experimentar o que não é verdadeiro. Tudo para nos encaixar.

Robert Sapolsky, in "Comportamento"

 

 

Muitos são aqueles que argumentam que somos um país de gente boa, de brandos costumes e perdolários do próximo. Da minha experiência como ser humano e português, uma coisa eu sei: um português nunca se esquece de alguma que lhe fizeram e à mínima oportunidade lá estará ao ataque. O português quando perdoa é porque tem um interesse óbvio nesse perdão.

 

Tudo isto a propósito dos perdões sucessivos dos bancos públicos (Novo Banco e Caixa Geral de Depósitos) a determinados indivíduos e entidades da nossa praça. Que os privados o façam, ainda posso compreender, não é o nosso dinheiro - a não ser que as injecções de capital público (de todos nós) não sejam utilizadas para esse efeito. 

 

Percebo também porque tal é feito, de facto até percebo, mas convenhamos que para o comum cidadão -  aquele que é perseguido pelos bancos públicos por não conseguir pagar os míseros €5000 que deve e que até pagaram os seus estudos - perdoar milhões atrás de milhões a empresas que muitas vezes se gabam na comunicação social e redes sociais de fecharem negócios e até de estarem a crescer é, no mínimo, cruel. Podemos falar das empresas, muitas delas detidas por indivíduos com filiações partidárias que viram muitas das suas dívidas perdoadas e claro, como não poderia deixar de ser, dos grandes clubes de futebol.

 

É vergonhoso, para não dizer criminoso, que os bancos públicos perdoem milhões aos clubes de futebol (o Sporting Clube de Portugal foi o mais recente caso) e ninguém esteja interessado em perceber o porquê! Onde andam os comentadores da praça? Onde andam as entidades que deveriam olhar para estes factos? Onde anda o jornalismo sério? Onde andam os  fanáticos da bola? Ondem andam os partidos da esquerda? Onde andam os pequenos partidos que dizem que é hora de mudar?

 

Que o futebol em Portugal é uma instituição/religião todos sabemos, que corrompe a política e é um jogo de interesses, também todos sabemos, mas perdoar dívidas astronómicas a clubes que pagam milhões em salários a um só jogador, que não abdicam do luxo e da ostentação e que não abdicam de compras e vendas de mais milhões é, no mínimo, gozar com a cara de todos aqueles que todos os dias laboram para que a sua empresa não feche por falta de pagamentos. É criminoso que uma empresa produtiva e com reais impactes na economia feche porque não consegue pagar aos bancos ou ao fisco, mas é perfeitamente aceitável que um ou vários clubes de futebol continuem a receber dinheiro do Estado, a ter perdão de dívidas e mais um sem número de regalias que incluem muitas isenções fiscais!

 

E mais uma vez, censuramos o vizinho caloteiro que deve €10.000 e não paga, censuramos o gestor que até recebe pelos bons resultados, mas aceitamos de bom grado e até aplaudimos nos estádios e no sofá aqueles que todos os dias nos enganam e nos retiram dinheiro do bolso. 

 

Até podem acusar este discurso de ter o seu quê de populista, mas ver as tribunas de honra apetrechadas de políticos e responsáveis públicos desde as mais altas instâncias até aos lambe-botas locais, ver ministros e presidentes a mendigarem bilhetes para a bola é esclarecedor do estado criminoso em que algumas instâncias se movem, mas isso não é populismo, dizem que é dever de Estado.

 

Em Portugal, para se ser imune à lei e agir como um perfeito Al Capone, basta estar ligado ao futebol... Sobretudo aos grandes clubes da praça! E aqui temos uma vantagem, é que nem os "Eliot Ness" têm poder para acabar com o estado das coisas, ao contrário do que acontecia na Chicago da década de 30 do século passado.

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33 comentários

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Folhasdeluar a 14.10.2019

Só quero fazer uma correcção,( a minha claro) à frase"Ondem andam os partidos da esquerda?". Eu digo, onde andam todos os partidos. Mas há assim uma espécie de esquecimento colectivo. Há dia estava eu a discutir,(falar), com alguém que criticava o rendimento social de inserção.Dizia essa pessoa que "essa" gente que não quer fazer nada é que leva o país à falência. Eu contrapus que o que prejudica o a país, são os benefícios e perdões de dividas. Os tais que o Robinson enumera. A outra pessoa indignou-se, acha muito natural que se proteja a EDP, (só para dar um exemplo). Mas não se proteja quem tem,( por algum motivo da vida) dificuldade em sobreviver. que deveria haver mais fiscalização, concordo. Mas não são os pobres que desequilibram o país. Quem o faz são os ricos e os grandes interesses. Tem aqui alguém que concorda em absoluto consigo. Sou eu...:)))
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Robinson Kanes a 14.10.2019

E faz bem... Apenas mencionei os partidos de esquerda porque há quase cinco anos parecem desaparecidos, apenas isso :-)

Eu acho bem que se protejam empresas, já não acho bem que se estrangule a economia como um todo para proteger determinadas empresas que ou têm monopólios patrocinados pelo Estado ou são meros acumuladores de prejuízos. Também defendo a protecção a quem precisa e mais que isso, uma fiscalização forte, pois nem sempre a ajuda chega a quem realmente dela precisa, perde-se no caminho e vai parar aos bolsos de muitos oportunistas.

Se os pobres desequilibram o país tem de haver um motivo, e esse motivo tem de vir de algum lado, até porque o poder dos pobres é diminuto no campo que enumera. Não tenho nada contra a riqueza, até acho que seja importante, já como a mesma é obtida... Também por aqui estou de acordo consigo.
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Folhasdeluar a 14.10.2019

Sou a favor da célebre frase:" não é preciso acabar com os ricos, é preciso acabar é com os pobres."
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Ricardo a 14.10.2019

mas o outro disse em portugal vamos acabar com os ricos
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Folhasdeluar a 14.10.2019

Falar nisso é viver no passado...
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Robinson Kanes a 14.10.2019

Quem o disse já está esquecido... E ainda bem .-)
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Robinson Kanes a 14.10.2019

Concordo, mas no mundo de hoje, tenho de admitir que se acabarmos com os pobres num dia, o planeta acaba no seguinte :-(
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Folhasdeluar a 14.10.2019

Pois...é isso mesmo que é preciso...um mundo novo...o planeta será sempre o mesmo...imagine se as pessoas(nós todos, e não só os outros), resolveressem sabotar todo o sistema. Se as pessoas resolvessem não consumir. Isso é que tem que mudar...porque é o consumo que vai acabar com o planeta. não a terra em si, mas a sobrevivência.
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Robinson Kanes a 14.10.2019

A verdade é que a Ocidente, parar de forma abrupta o consumo gerava uma crise cujas consequências seriam catastróficas. Precisamos de um mundo novo, não "admirável", mas preparado para o século XXI - ainda não o temos. Numa primeira fase, a moderação pode ser o mais importante, bem como a diversificação de produtos e mercados. No entanto, isso começa no consumidor, e honestamente, não sei até que ponto esse mesmo consumidor estará interessado nisso.
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Folhasdeluar a 14.10.2019

Desculpe a expressão...o consumidor é estúpido...nós todos somos estúpidos...porque por um lado pactuamos com a nossa destruição. Por outro porque somos manipulados e não abrimos os olhos. Houve um tempo em que era um fanático por roupas de marca. Um dia acordei e percebi que aquele pequeno rótulo que usava, fazia publicidade a uma "marca" e eu ainda tinha que pagar para a usar. Deixei de usar roupas que tenham a marca à vista porque não é a marca que me faz mais Homem.
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Robinson Kanes a 14.10.2019

Não tem de pedir desculpa, e explico-lhe já porquê: tive um professor italiano que, perante a nossa vontade em elaborar uma "coisa" toda "xpto" olhando a todos os pormenores e pontas soltas, se virou para nós e disse: não compliquem nem tentem fazer uma coisa totalmente "wow", o consumidor é básico e pouco exigente.

Em relação às marcas, tenho uma opção: compro muito menos e melhor.

"fazia publicidade a uma "marca" e eu ainda tinha que pagar para a usar."
Em termos de marketing é um sucesso. Significa que alguém atingiu o seu objectivo! No entanto, se os valores da marca forem positivos e não apenas uma questão de ostentação, porque não? O problema é que isso nem sempre acontece e andamos todos os dias a fazer publicidade a algumas marcas que não são propriamente os melhores exemplos de humanidade.
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Folhasdeluar a 14.10.2019

Falo daquelas que são apenas ostentação. Daquelas que parvamente pensamos que nos dão estatuto. Nunca deixei de ser tratado, (como acho que mereço, ou seja, com respeito), só porque não trago à vista a minha condição de endinheirado, coisa que não sou, mas coisa que muitos se querem fazer passar, ou até serem e quererem mostrar.
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Robinson Kanes a 14.10.2019

Não são raros, os casos em que também a ostentação se virou contra a marca. Em relação ao estatuto, olhe que existem por aí muitos meios/locais onde se valoriza as marcas que usa (infelizmente).
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Folhasdeluar a 14.10.2019

Eu sei...mas não me deixo condicionar...isto hoje já vai longo...foi só para acabar...
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Robinson Kanes a 14.10.2019

Longo e produtivo.

Permita-me o agradecimento pela bom conteúdo!
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Folhasdeluar a 15.10.2019

Obrigado...:))) Tal como o seu...
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Luísa de Sousa a 14.10.2019

(palmas, palmas, palmas).
Na "mouche" Robinson!!!
Subscrevo tudo o que foi escrito!!!
É por isso que já não ligo nada ao futebol ... não vejo os jogos nem os programas!!!
(e olhe que era fã assídua).

Beijinhos
Boa Semana
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Robinson Kanes a 14.10.2019

Eu adorava futebol... Adorava aquele futebol vivido e sobretudo jogado na rua. Entendo também que os clubes tenham de lucrar, mas convenhamos que muitos dos negócios que minam o futebol nem sempre são claros... Se eu me esquecer de uma factura da minha empresa tenho os bens em risco, já estas áreas nebulosas...

Um beijo e obrigado,

Boa semana
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MJP a 14.10.2019

Olá, R.! :-)

Subscrevo as tuas palavras!!!
(com profunda "angústia/indignação", confesso!...)

Beijo
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Robinson Kanes a 14.10.2019

Hi MJ,

A verdade é que as coisas vão continuando e a indignação ainda vai sendo de poucos. É mais fácil andarmos a falar de gaguez e de indivíduos que apesar das ideias defendidas têm um limite democrático que não os deixa ir mais longe... O futebol é intocável.

Beijo,
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Ricardo a 14.10.2019

tenho muitas duvidas que já tivesse esquecido... eles andam por aí
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Robinson Kanes a 14.10.2019

Vão aparecendo, vão aparecendo, mas sem grandes impactes. Embora, e penso que seja a sua leitura também, seja altura de começar a ouvir sangue novo, e não falo daquele sangue novo que não passa de plaquetas da corrente sanguínea ultrapassada.

P.S.: aproveito também para lhe agradecer o comentário.
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Maria Araújo a 14.10.2019

"... mas perdoar dívidas astronómicas a clubes que pagam milhões em salários a um só jogador, que não abdicam do luxo e da ostentação e que não abdicam de compras e vendas de mais milhões é, no mínimo, gozar com a cara de todos aqueles que todos os dias laboram para que a sua empresa não feche por falta de pagamentos. "

Estamos num país de compadrios.
Tristeza.
Espero que este novo governo, com algumas novas caras,consiga opor-se a estas injecções de dinheiro, e muito mais que todos sabemos.
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Robinson Kanes a 14.10.2019

Às vezes é complicado vingar sem compadrios, muito complicado...

Honestamente, o novo Governo é uma continuação do anterior, não me parece que as coisas vão mudar nesse aspecto. E digo isto apenas seguindo uma conclusão óbvia, sem qualquer ataque político.
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Maria Araújo a 14.10.2019

Nós também não temos grandes hipóteses em escolher governo, isto é, são sempre as mesmos rostos, que já enjoam, na governação.
Mais do mesmo.
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Robinson Kanes a 14.10.2019

Pior que isso, são os rostos novos que bebem do mesmo copo que os rostos antigos... Há quem lhe chame polvo... :-)
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Maria Araújo a 14.10.2019

Será por isso que a abstenção "governa"?
Ou será por comodismo?
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Robinson Kanes a 14.10.2019

A abstenção ainda não encontrou força para se mostrar, até porque a lei e o sistema também bloqueiam o resultado.

Ainda é um pântano falar de abstenção, até o SAPO já fez uma reportagem com "corajosos" indivíduos que não votaram por opção, mas depois alguns preferiram continuar anónimos. Eu não votei, admito :-)

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cheia a 14.10.2019

Estão todos tão caladinhos, quando se trata dos seus clubes, não conseguem discernir entre o bem e o mal.
Para esclarecer as coisas, foi proferido um despacho, onde se diz, que os insultos proferidos nos estádios de futebol não são considerados crimes.
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Robinson Kanes a 15.10.2019

É inacreditável como o futebol (organização) domina tudo e todos... Simplesmente incrível.

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