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Astúrias: de Labra para a Ruta del Cares.

por Robinson Kanes, em 05.09.19

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Imagens: Robinson Kanes e GC

 

 

Em Labra o amanhecer é surpreendente. Durante a noite nevou nas montanhas e dpois de um pôr do sol com cores únicas, a alvorada é preenchida com a névoa a desvanecer deixando as montanhas com os cumes pintados de branco.

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Depois de um pequeno-almoço bem composto, pois o dia prometia: o objectivo era apreciar o "Picu Urriellu", mais conhecido por "Naranjo de Bulnes". O caminho torna-se "duro" de Labra a Poncebos e as paragens são constantes... Para-se, caminha-se, volta-se ao carro e mais meia dúzia de quilómetros um novo ritual. Começar cedo é fundamental, sobretudo se, nos planos, estiver a "Ruta del Cares".

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E eis que, entre o nevoeiro, a montanha mostra-se! O primeiro objectivo fica concluído, não "escalámos" a montanha, não era essa a pretensão - mais que isso queríamos ver aquele monumento de pouco mais de 2500 m a mostra-se, entre outras montanhas, aos nossos olhos - admirável!

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Mas o "melhor" do dia está para vir, nomeadamente os 24 km entre Poncebos e Caín de Valdeón, sempre com o rio Cares a dividir os dois desfiladeiros. Começamos em Poncebos (Astúrias) e contamos terminar em Caín (Castilla y León). A "Garganta Divina" permite-nos hoje que a percorramos devido ao acesso criado em 1950, acesso que permitiu o acesso para manutenção do canal de água entre Caín e Poncebos - canal esse que desde o primeiro quartel do século XX já estava em funcionamento. 

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É esse o percurso que, embora em altitude, raramente obriga a grandes subidas, excepto nos primeiros 2/3 km (direcção Poncebos - Caín). É um facto que estamos perante um percurso que tende a ser considerado de baixo risco, embora não seja essa a nossa opinião - o risco está sempre iminente, estamos a uma altitude elevada e além do caminho ser estreito não existe qualquer protecção (é assim que tem de ser). Já foram registados muitos casos de quedas (com mortos), sem esquecer que a travessia no Inverno tende a ser perigosa, devido ao gelo/frio e ao perigo de queda de pedras. O Verão pode ser mais calmo e é muito aconselhado por quem já visitou e fala do local, mas em dias muito quentes, quem não estiver preparado e hidratado pode meter-se em sarilhos. No Verão a queda de pedras é um risco também, sobretudo devido às cabras da montanha.

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A tudo isto, temos de juntar o número de pessoas que, novamente no Verão, pois consta que é bastante elevado, aumenta o risco de nos encontrármos com os peritos do trekking instagrameiro que, com roupas compradas horas antes para o look desportivo e aventureiro, arriscam demasiado.

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Questões logísticas à parte, entramos numa nova dimensão... Num local onde somos nós e a natureza! A beleza da montanha, o rio lá em baixo e por vezes os canais a correrem lado-a-lado connosco, é simplesmente apaixonante. É a oportunidade de vermos e contactarmos com as cabras da montanha em autêntico trapézio, o uivo dos lobos e um pastor a correr montanha acima preocupado com o rebanho.

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É calcorrear um caminho que já perto de Caín nos oferece a oportunidade de molhar o rosto nas águas frias do Cares, é passar dentro das rochas, é parar e sentir a humidade e os cheiros da terra e dos minerais. 

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A chegada a Caín é, mais do que um alívio, é um objectivo cumprido e a oportunidade de repor energias! Atacamos os enlatados, os frutos secos, os ovos cozidos e a água. No entanto, Caín, outrora terra de pastores, tem agora no turismo o seu sustento, pelo que tem alguns pequenos cafés e restaurantes - não resistimos a ir comprar pão e queijo cabrales para nos alimentarem para o regresso! Enquanto almoçamos, partilhamos o espaço junto ao cemitério com caminhantes franceses: queijo, vinho de Bordéus, enchidos franceses, falamos muito de Saint-Malo e da Bretanha - temos a a típica imagem de portugueses e franceses à mesa - não aceitamos o vinho, não ajuda ao caminho.

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Ao nosso lado, a Igreja e o cemitério oferecem-nos uma vista única sobre os picos e aproveitamos para prestar homenagem àqueles que morreram a escalar os mesmos. É tempo de silêncio que é interrompido com um "merci a vous, au revoir". Tomamos um café, um espaço com um anfitrião muito simpático e que nos obrigou a colocar no lugar um grupo de portugueses (professores de velha guarda em época de correção de exames) cujo complexo de inferioridade estava a reflectir-se com algum desrespeito no simpático proprietário. Agora partimos com um "venga, hasta luego" e fazemo-nos ao caminho. Os professores ficaram a pensar que éramos espanhóis...

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Mais uma oportunidade para nos maravilharmos... Não queremos deixar aquele local e só já pensamos em 2020 para percorrer o que falta do Parque Natural de Somiedo, já a sudoeste de Oviedo. Pelo caminho novo encontro com portugueses, desta vez com um "Wait!Wait! Só sei dizer isto porra". A companheira de viagem desta senhora aliviava-se agora a meio do caminho! Mais um postal de bom português.

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Estamos a chegar e prestes a terminar mais um dia... Amanhã voltamos à montanha, agora é hora de ir tomar banho, comer um "Cachopo" e cair na cama que o dia seguinte promete ser longo...

 

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4 comentários

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Folhasdeluar a 05.09.2019

Mais um post de fazer crescer água na boca...a mim quem me tira uma boa montanha..tira-me tudo...;)
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Robinson Kanes a 05.09.2019

Eu gosto de montanha e de mar, é difícil escolher. Penso que tem tudo a ver com o momento...

P.S.: por falar em montanha, voltei à "nossa" Rio de Onor por um destes dias...
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Folhasdeluar a 05.09.2019

Ai que saudades, do Sr. Manuel,( homem da aldeia), que nos acompanhou numa visita ao Lago Sanábria... A propósito vi na tv uma reportagem sobre Rio de Onor, pareceu-me muito diferente no que respeita ao rio...mas achei que estava melhor, devem ter feito por lá um espelho de água...
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Robinson Kanes a 05.09.2019

Sanabria, outra "coisa" tão perto e tão bonita...

O rio está mais bonito mas quem começou por conhecer Rio de Onor nos livros de etnologia sente um certo desalento quando regressa e vai assistindo ao desenvolvimento da terra ano após ano. Claro que isso é bom... Talvez, mais do que isso, o importante fosse preservar a traça única e recuperar o que está a cair...

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