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 Édouard Manet, Almoço Sobre a Relva - Musée d'Orsay

Fonte da Imagem: Própria.

 

O objectivo do homem não é a verdade mas o êxito.

Rabindranath Tagore, in  "A Casa e o Mundo"

 

Vivemos numa época em que tudo é polémico, dizemos polémico para não utilizarmos o termo "moda" e assim condernarmos à estupidez os nossos conceitos morais e querermos acreditar que somos livres no pensamento, quando mal sabemos que só estamos a seguir a corrente deste ou daquele interesse... Basta ver que não ficamos chocados com algo que acontece à frente dos nossos olhos mas se sair na capa de um jornal...

 

Uma das questões a debate nos últimos tempos têm sido os casos de assédio sexual e até violação no seio de Hollywood. Harvey Weinstein surge como o principal actor de todas estas polémicas e, embora alguma imprensa por cá até faça eco do caso, o mesmo parece não ter o "aplauso" do público como tem por exemplo o de uma sentença de um juiz que escolheu mal (muito mal, por sinal) a fundamentação de um veredicto. Alguém me dizia um destes dias que se deve ao facto de existirem muitos telhados de vidro e de outros nem saberem o que é. De estranhar o facto de só se falar de Weinstein quando Polanski é aclamado na Europa e sobre Woody Allen ninguém procure saber o que realmente aconteceu. E estes são apenas dois exemplos em tantos outros.

 

Mas porque é que só ao fim de tantos anos é que surgem as queixas? Recordo-me de casos como os de Bill Cosby ou até do antigo director do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, que foram sanados com pagamentos milionários que limparam qualquer trauma que pudesse ter ficado. Será que quando a vida nos corre mal, nada como lançar cá para fora segredos do passado e lucrar com isso, como provavelmente lucrei naquela época com o meu silêncio e até cumplicidade em alguns casos - não estou com isto a defender o assédio sexual. Todavia, quando queremos justiça, não nos vendemos por dinheiro... Uma coisa é ser ressercido pelos danos causados, outra coisa são acordos para não levar avante os processos e consequentemente desistir das queixas.

 

Porque é que à época estas senhoras (muitas delas actrizes com carreira) não denunciaram o caso? Porque é que foi preciso uma delas ter "coragem" (está entre aspas não é por acaso) para o fazer e de repente descobrimos que praticamente mais de metade das senhoras de Hollywood passou pelo mesmo! Porque é que foi preciso esperar tanto tempo e porque é que, perdoem-me a frase mais popular, não se abandonou o barco? E porque é que só agora, quando o cinema está em crise e muitas desaas actrizes precisam de holofotes sob pena de terem de trocar a mansão de 7 milhões por uma de 2 milhões? 

 

À época até era conveniente e, agora que estamos num outro patamar e tememos perder o mesmo, nada como lançar cá para fora uma verdade que todos já conheciam e que provavelmente até terá custado a carreira a muita gente que, também à época, percebeu o que era assédio sexual e não prosseguiu pelo caminho errado... Muitas dessas pessoas, provavelmente até ameaçadas por aquelas que agora denunciam estes casos... A diferença é que essas mesmas pessoas, hoje, não são estrelas de cinema...

 

E porque é que estamos assim tão escandalizados? Existem várias áreas da sociedade em que tal é uma prática comum, a política, por exemplo é uma delas? Todos sabem, é preciso ser capa de jornal para haver indignação? Aliás, existem políticos no activo e a desempenharem altos cargos que nunca clarificaram bem a sua inocência em casos muito mais graves que assédio sexual. E os célebres casos de suites de hotéis em Lisboa que serviam de antro sexual, uma espécie de antecâmara para o estrelato? Acerca destas situações, não me recordo de ver os senhores e as senhoras do costume a condenar, sobretudo aquelas que têm tempo de antena e que vão desde a política, à televisão, sem esquecer a cultura e tantas outras áreas...

 

E no dia-a-dia? Quantas pessoas são alvo de assédio sexual e violação? Quantas pessoas são alvo de assédio moral, tão comum, inclusive em Portugal? Mas essas mulheres, e até homens, não surgem nos jornais e são, muitas vezes, até ostracizadas pela sociedade que não quer ver a vergonha que tem à frente dos olhos - ou prefere não ver porque também beneficia.

 

Não se pode, após ter beneficiado da prática de um crime e vir ao fim de tantos anos denunciar esse mesmo crime tirando, novamente, proveito da situação - para mim é ser cúmplice desse mesmo crime! Todavia, a verdade é que se esses actos fossem denunciados quando tinham que o ser, muito provavelmente estas senhoras não seriam actrizes e foi isso que as fez pactuar com a situação todo este tempo... Não utilizei o "estar remetidas ao silêncio" porque, na verdade nunca estiveram, apenas beneficiaram de uma situação enquanto lhes era satisfatório. A propósito desta "moda", Kevin Spacey foi a última vítima.

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50 comentários

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Terminatora a 30.10.2017

Pois, as interpretações podem ser muitas. E desvendar a verdadeira pode ser um quebra-cabeças.

Exacto, o Adam já está em maus lençóis também! Não sabia era que esses "amigos" já tinham prestado declarações... credo, é mesmo uma época de polémicas e bilhardices. Quem dá mais??

Este tipo de gente, que se diz agora vítimas, só descredibiliza as verdadeiras vítimas. E eu de tanto ver notícias de pessoas serem atacadas nas ruas e inclusive ter conhecimento de casos, de certa forma, próximos, deste género; assusta-me a crescente onda de violência e casos assim. Mas depois temos estas anedotas. Os mais pequeninos como referiste, não têm direito a voz.
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Robinson Kanes a 30.10.2017

O quem dá mais e o afastamento hipócrita...

Coitado do "mais pequeno" quer seja o criminoso ou a vítima... Valorizamos demais os indivíduos errados, depois dá nisto...

P.S: não me esqueci do tema do recrutamento, mas ainda está a fermentar.
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Terminatora a 30.10.2017

Verdade... Nós até podemos aumentar a nossa voz em protesto contra estes meios de comunicação que proliferam este tipo de notícias. Mas da forma que as coisas estão tão globalizadas, (falo por mim, mas penso que outros se devem identificar) sentimo-nos esmagados pela imensidão de tudo isto.

Respondendo ao P.S. Deixe lá fermentar. Há coisas que não podem ser apressadas :)
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Robinson Kanes a 30.10.2017

Desistir é que nunca... Quanto mais não seja no nosso pensamento.

Neste campo, os meios de comunicação nem foram os piores, a grande maioria transmitiu uma notícia sem entrar em grandes detalhes e especular como tantas vezes se faz... Todavia, muitos (nós) não fazem o exercício de estudar a notícia e delegam essa responsabilidade nos outros.

Em Portugal foi um tema, até falado em alguns meios de comunicação, mas na sociedade parece que não teve assim tanto eco... E aí sim, dá que pensar. Até porque a questão de género e dos direitos das mulheres são tão discutidas por cá, mesmo quando não se justifica.

Não foi "vendido" como escândalo e as pessoas não foram no trilho... Ou então é tema que também deixa muita gente comprometida.

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