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Antidepressivos e Caras de Atum...

por Robinson Kanes, em 08.06.17

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Amadeo de Souza-Cardoso - Promontório cabeça indigo MARES D'OSSIAN Rose orange (Colecção Particular/Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado 2017)

Fonte da Imagem: Própria

 

Porque é que andamos de mal com a vida? Aparentemente olho para o povo português como um povo de bem com a vida, senão vejamos:

 

- o interesse na política e nos destinos do país é baixo, ou seja, não temos qualquer problema em abdicar de direitos tão importantes em prol de quem nos governa. Supostamente, é porque está a fazer um bom trabalho.

 

- uma grande fatia da população viaja, tem casas, automóveis e outros direitos e regalias com as quais os nossos pais nunca sonharam sequer.

 

- os restaurantes estão cheios, os hotéis estão cheios, os bares e cafés estão cheios, gastamos mais dinheiro em telemóveis, televisões e brinquedos para adultos (sem serem eróticos) do que alguns países em equipamento militar ou infraestruturas básicas. E isto não é mau, até é bom para a economia!

 

- somos um povo tranquilo e sempre a dizer que no nosso cantinho é uma paz.

 

- muitos de nós vendem a alma ao diabo e a honra porque afinal não vale a pena perder muito tempo com valores.

 

Mas depois...

02d45587-4af1-45b6-854c-e51803cf824b-large.jpegDepois temos uma das mais altas taxas do mundo no que concerne a consumo de antidepressivos. E não apresentem a desculpa da crise, pois países como a Grécia, a Turquia, Hungria, Estónia ou até a Eslováquia consomem menos antidepressivos que nós! De 2000 a 2015, Portugal foi dos países que mais viu o consumo aumentar na dosagem diária. De cerca de 38 habitantes por cada 1000, no ano 2000, passamos para 95 em 2015 (ver gráfico à esquerda)! Somos, na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), o terceiro maior consumidor. Só somos ultrapassados pela Islândia (afinal os nórdicos não são assim tão felizes, a Suécia está em quarto e a Dinamarca em sétimo) e pela Austrália (os tubarões na água e os crocodilos nos rios, eu entendo). As coisas complicam-se quando a média da OCDE é de 65 indivíduos! Será porque somos fracos a lidar com os problemas? Será que temos dinheiro para gastar então vamos varrer tudo para debaixo do tapete com medicação? Ou será porque estamos habituados a um nível de vida material e emocional que...

 

010f3645-0661-4580-bb7d-2ce0097b58f4-original.pngMas deixemos esta questão que mereceria outra atenção mais profunda. Então e os níveis de felicidade, ou melhor, de satisfação com a vida? Também somos os terceiros, mas a contar do fim! Piores que nós só a Índia e a África do Sul. Numa escala de 0 a 10 estamos com 5! A média da OCDE são quase 7 (ver gráfico à direita)! Interessante que para os nórdicos os antidepressivos trazem resultados - também aqui, continuam no topo da tabela.

 

Eu pergunto, sobretudo tendo em conta as caras de atum que vejo todos os dias: vivemos numa sociedade de aparências? Nunca estamos satisfeitos com o que temos? Andamos a ser enganados? Ou gostamos de ser coitadinhos que é sempre algo que traz vantagens num país como o nosso (desde que os vizinhos e os amigos não saibam)? Um colega alemão, Chairman, responderia a esta questão da seguinte forma: “os portugueses? Podes aumentar o salário de 500 para 5000 euros, daqui a um mês já estão tristes e a dizer que o dinheiro não chega!”. Gosto de pensar que está errado, mas infelizmente são muitas as vezes em que também tem razão.

 

Afinal, o que é que nos fará um pouco, não direi mais felizes, mas pelo menos mais alegres com isto tudo? Porque parece que não são os gadgets (adoro esta palavra, existem pessoas que quando a pronunciam sobem aos céus), os automóveis, as casas, as viagens, as roupas caras, as jantaradas e tantas outras coisas que nos ocupam o tempo e nos fazem até hipotecar o peixe laranja que temos no aquário. E a família, o trabalho, os amigos?

 

Andaremos é mal habituados ou não damos o mínimo valor ao que temos?

 

Fonte dos Gráficos:

Gráfico 01: OECD Health Statistics 2015.

Gráfico 02: Gallup World Poll in Society at a Glance 2016. 

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66 comentários

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Robinson Kanes a 08.06.2017

Que grande resenha histórica :-)
Sem dúvida um resumo importantíssimo para a discussão.

Sim, realmente os antidepressivos devem ser tomados como qualquer comprimido, com extrema moderação.

Concordo com a questão dos navegadores e das famílias, mas também era um povo que vivia na miséria, nada tinha a perder e, mal ou bem, lá se aventurou. Alguns também o fazem ainda hoje… E ainda bem :-)

A má gestão, aí está o efeito crónico e que nos tornou numa potência sem relevo até deixarmos de ser efectivamente uma potência. A riqueza acumulada com os descobrimentos foi de uma monta tal que parece impossível imaginar como tanto se perdeu. E não falo só de "ouro".

A "província" sempre esteve muito sobre o jogo "estatal". A iniciativa pública, ainda hoje é fundamental para que as pessoas possam aí viver. Existem concelhos que eu acredito que desapareceriam do mapa se os serviços públicos deixassem de empregar e apoiar. Este é um dilema que tem vindo a ser adiado e que tem consequências: baixo empreendedorismo, desertificação e criação de pequenos feudos públicos geridos por homens da política.

Tivemos também a guerra colonial, mas outros países também a tiveram… Aliás, outros países têm um historial de guerra bem maior, além de que passámos ao lado da 2ª Guerra e na 1ª tivemos uma participação "reduzida". Em Espanha irmãos lutaram contra irmãos…

E agora em tom de provocação: será que a revolução trouxe a felicidade prometida? (não me interpretes mal que eu defendo a liberdade).

Também nunca percebi de quererem à força puxar pelo "Fado" triste. Se o de Coimbra é de nos atirarmos ao Mondego em sofrimento, Lisboa, por exemplo, tem fados extremamente animados. Será que somos nós que queremos ver o fado sempre de negro? Se sim, porquê? Ou será que nos querem vender essa lógica e nos nem damos por isso?

Obrigado pelo teu precioso comentário :-)
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Robinson Kanes a 08.06.2017

Leia-se "jugo estatal" e não "jogo estatal".
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Kalila a 08.06.2017

Estou fora e sem tempo, meu querido amigo, mas cá vai, resumido:
A revolução trouxe euforia e exagero só na altura precisamente porque as pessoas vinham da escuridão de anos e anos de analfabetismo e muito pouco desenvolvimento de espírito. Pecou pelas mesmas razões, não havia cabeças à altura do que era necessário. É claro que foi uma coisa excelente mas exigia todo um outro nível de desenvoltura.
O "fado" explica muita coisa porque acompanhou os acontecimentos e fado é destino. Há toda uma mítica associada, mil explicações para o fenómeno, escrevem-se livros sobre o assunto e chegam-se a conclusões de desconhecimento das origens porque é anti-comercial o que se vai descobrindo.
Tanto a nossa "depressão" é histórica (e o fado antigo por arrasto) que, e aproveitando que estou fora, costumo reparar, por esse mundo fora, que pessoas jovens tratam-nos por igual, sem distinção alguma, e os mais velhos nos tratam como inferiores, sempre! Isto é mesmo gritante em Espanha, França e Inglaterra, nas minhas deslocações em trabalho que costumam ser curtas. No resto do mundo não noto tanto isso e, por incrível que pareça, onde somos melhor recebidos, até pela pessoas mais velhas, é nos EUA e na Suiça (onde não faltam emigrantes portugueses).
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Robinson Kanes a 08.06.2017

E que bom resumo. Com resumos destes quem precisa da íntegra :-)

Também partilho dessa opinião. Foi uma revolução demasiado presa a certos "mandamentos". Contudo, acredito que podíamos ter ido mais longe nessa desenvoltura intelectual. Mas estudando e falando com pessoas do antes e do depois, ainda acredito que essa desenvoltura tarda em chegar… Pelo menos ao seu expoente máximo.

Sim, o "fado" já é quase uma lenda, mas quero pensar que nasceu num ambiente alegre. Sendo do povo, dos cafés e das tascas é estranho vermos o seu lado negro. Além de que o fado tem ali o seu quê de Andaluz que nos remete para o Árabe e aí já estamos a levantar situações que deixam muita gente desconfortável.

Eu confesso, e vou ser muito sincero, que em Espanha e em Inglaterra sou sempre, mas sempre muito bem tratado. Em Espanha, assumo, sou mais bem tratado que me Portugal. Tenho pelos espanhóis um carinho especial por isso mesmo. Embora, assuma que em Portugal os espanhóis enfim…

França, se for em Paris é de fugir, fora nem tanto… Foi das cidades onde mais detestei estar.

Na Suiça senti alguma xenofobia, mas nada que não se consiga ultrapassar. Nos EUA? Somos muito parecidos com eles, estranhamente. Eu gosto dos americanos, do americano comum, embora seja um "mix" de personalidades.

Actualmente não somos considerados, no entanto, Portugal tem vindo a estar na moda e as coisas vão melhorando. Contudo, se lá fora o "show off" tem sido muito positivo, está na hora de arrumarmos a casa, porque estar no topo, nunca é para sempre.
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Kalila a 08.06.2017

Essas minhas impressões são com as pessoas mais velhas, os que, digamos, têm a História mais presente e são altamente redutores; as pessoas mais jovens são impecáveis, de uma maneira geral e em todo o lado.
Antes do terramoto o fado era uma brincadeira alegre de beberolas e folgazões, quase sempre homens, acompanhados por guitarra clássica, a portuguesa é muito mais recente. O "choradinho" veio com o terramoto e "nacionalizou-se" depois com a Severa. Ela descende de árabes da antiga Mouraria (onde viviam confinados desde a conquista de Lisboa) e de ciganos por parte do pai. As músicas e as letras do que cantava eram da autoria dela na sua grande maioria. Viveu uma vida triste e morreu muito jovem deixando o legado daquele estilo quase até hoje, os amores fatais, a desgraça humana e por aí fora. Era prostituta e correu Lisboa pelos vários bordeis onde trabalhou e onde também cantava. Trouxe aquela moda do fado nos bordeis e, depois de morrer, todas quiseram segui-la. O fado saiu daqueles ambientes pelos fidalgos que os frequentavam e começaram também a cantar. Muitas das fadistas mais antigas foram primeiro prostitutas e conseguiram assim outras vidas.
Já naquele tempo as modas eram como agora e a coisa "pegou". Passou a ser normal cantar-se o fado em todo o lado, em Lisboa.
Quem diz que o fado deriva dos cânticos árabes e dos trechos andaluzes tem razão mas quem fez isso foi a Severa e as suas raízes.
O problema da nossa "pequenez" com os Europeus mais próximos acho que já não se põe, as novas gerações superaram tudo isso, a globalização é um facto e os "velhos" deixaram de ter voz.

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