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Alterações Climáticas? That's a fact Jack!

por Robinson Kanes, em 26.10.20

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Créditos: Frédéric Noy - Panos Pictures

 

Não são as grandes ideias que os outros tiveram, mas as pequenas coisas que só a ti te ocorrem.

Haruki Murakami, in "Sputnik Meu Amor"

 

Uma das situações que fez parar as alterações climáticas foi a temática do SARS-CoV-2, pelo menos é a ideia com que ficamos e onde já nem o publicitário "how dare you" de uma jovem sueca tem eco. Previsível, numa campanha que teria os dias contados pelo simples facto de não ter um plano a longo-prazo e procurar apenas um rápido impacte. 

 

No entanto, a realidade nem sempre é a que encontramos nas notícias e na verdade, com o "apoio" do Fórum Económico Mundial (FEM) foi possível aferir que talvez o actual vírus seja o menor dos nossos problemas, e como dizem os americanos "that's a fact Jack", vejamos:

 

Em 2030 (daqui a 9 anos, portanto), o degelo contiuará de tal forma que o nível do mar irá subir cerca de 20cm (US Global Change Research Program - USGCRP). Todos sabemos as consequências deste facto, sobretudo para países com costa oceânica. No Golfo do México já são actualmente 60cm (Center for Science Education) e ao qual se juntam as tempestades cada vez mais severas, bem como no Noroeste dos Estados Unidos, onde estas (desde Janeiro de 2020) já são mais de 25 (USGCRP).

 

Todavia, não é preciso viajar 9 anos no tempo para chegar à conclusão que, e ainda falando em águas oceânicas, 90% dos recifes de coral estão ameaçados e 60% em estado de ameaça grave (National Oceanic and Atmospheric Administration).

 

Viajemos para terra e encaremos o facto de que a redução da área arável já atirou 100 milhões de pessoas para a pobreza extrema (Banco Mundial). 100 milhões de novos pobres, coloquemos as coisas desta forma. Em terra também chegámos à conclusão que as mortes devido às alterações climáticas aumentam por ano em 250 000 (Organização Mundial de Saúde - OMS). Não são 250 000 mortes, mas mais 250 000! A OMS é a mesma organização que nos quis ver todos fechados em casa por causa do Coronavírus e ainda as mortes estavam bem longe deste número.

 

Neste contexto, países como o Bangladesh, Tailândia, Vietname e outros, continuam e continuarão a sofrer um aumento das tempestades e consequentes inundações que provocam migrações em massa (Climate Central). Todos sabemos como o aumento da capacidade de carga vai levar a que outros conflitos possam surgir, inclusive com países vizinhos. Se tivermos em conta que actualmente 140 milhões de pessoas já se encontram deslocadas devido à insegurança alimentar, falta de água e fenómenos extremos (Banco Mundial), podemos imaginar o futuro.

 

Também ainda não é necessário viajar mais uns anos para chegar à conclusão que 8% da população mundial sofreu no último ano uma redução na disponibilidade de água potável (Intergovernmental Panel on Climate Change - IPCC) e que o Ártico também já tira férias e no Verão fica sem gelo (Arctic Council) - o Ártico no Verão fica sem gelo, sublinho... Já falei em tempos da gravidade desta situação.

 

Mas viajemos agora 19 anos e vamos até 2040. 19 anos é já amanhã, pelo que é já amanhã também que o mundo irá superar o limite dos 1,5ºC de aumento de temperatura imposto pelo Acordo de Paris (IPCC). É uma espécie de diferença entre um bife mal passado e um bem passado. Mas podemos deixar a grelha e passar ao forno, pois em 2050 a previsão é de que 2000 milhões da população mundial sofra com temperaturas na ordem dos 60º durante mais de 10% do ano (The Future We Choose - Surviving the Climate Crisis por Christina Figueres e Tom Rivett-Carnac). Em suma, não iremos precisar de máscaras para nos proteger de vírus mas sim da poluição extrema.

 

Se uma das coisas que as previsões em relação às alterações climáticas nos têm mostrado é que muitas vezes falham... Falham porque o que está previsto para daqui a 100 anos pode acontecer já amanhã. E é por isso que as previsões para 2100 apontam já para uma subida da temperatura na ordem dos 4ºC, sobretudo nas latitudes mais a norte (IPCC). Não estamos a regular o esquentador, 4ºC é uma coisa demasiado séria e com consequências no nível do mar: só a título de exemplo, a Flórida passará a ser uma coisa do passado, os recifes de coral desaprecerão e as consequências ao nível da fauna e flora marinha serão mais que desastrosas (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization - UNESCO). No ar e em terra uma vasta maioria dos insectos terão desaparecido e além das consequências em vários outras áreas - também as colheitas sofrerão pela falta de polinização (Biological Conservation). Falar em cataclismo é pouco, deixemo-nos de palavras bonitas.

 

Palavras bonitas não poderão livrar ninguém da seca extrema que afectará 40% do planeta (Proceedings of the National Academy of Sciences - PNAS) e a título de exemplo significará que uma área equivalente ao Estado do Massachussets irá arder por ano nos Estados Unidos (United States Environmental Protection Agency - EPA) aliás, os recentes incêndios na Califórnia, no Colorado, na Autrália e na Sibéria já mostram essa triste realidade. E tão pouco se fala deles... Estranhamente.

 

E finalmente, porque até nos toca de forma séria, o sul de Portugal e Espanha estará transformado num autêntico deserto, provocando carências alimentares e falta de água de uma gravidade extrema (Science) e acrescento até as migrações que daí advirão. Mário Lino parecia estar certo quando nos dizia que bastava atravessar a ponte e chegar à margem sul para estar no deserto. Temo é que em pouco tempo baste atravessar o Mondego.

 

Mais do que estar fechados em casa, no shopping ou a pensarmos no nosso umbigo (com o coronavírus, o egoísmo tornou-se uma doença) é altura de pararmos para pensar,  de deixarmos de ser refractários à verdade e sensíveis apenas a estímulos artificiais sob pena de não nos sabermos governar, como escreveria Tagore. É tempo de termos ideias e acima de tudo exercermos a nossa cidadania.

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19 comentários

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João-Afonso Machado a 26.10.2020

Excelentes perspectivas.... se cuidarmos da saúde, ainda para o nosso tempo...
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Robinson Kanes a 26.10.2020

Temo que não cheguemos a tempo... :-(

Uma boa semana,
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Maria Araújo a 26.10.2020

Trinta anos voaram quando ouvia dizer que as praias iriam diminuir, com a subida do mar.
Trinta anos voarão para que o meu sobrinho neto mais novo, 1 ano, e os outros cinco, sofrerão se não fizermos nada pelo planeta.
Acredite, estes assuntos sobre o planeta, mexem comigo.
Não sou egoísta ao ponto de dizer, como muitos dizem " já cá não estarei para ver e viver isso"
Este post devia estar na página principal do Sapo.

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Robinson Kanes a 26.10.2020

Existem praias que já desapareceram praticamente do mapa ou quando muito perderam o areal.

Devem mexer com todos nós, eu hipócrita me confesso, pois também não faço tudo o que podia, mas é preciso começar a mudar.

Há uns tempos, por causa da questão na Sibéria, um habitante da zona continuava a poluir e não se preocupava com o degelo, mesmo que isso lhe estivesse a colocar em risco a vida e a própria casa que afundava a olhos vistos na tundra. A resposta foi categórica: os meus filhos que tratem disso...

Obrigado pela consideração :-)
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imsilva a 26.10.2020

Este é daqueles textos que nos aceleram o coração, (e não por ter sexo implicito) .
Quando se faz o que sabemos estar nas nossas mãos, que mais poderemos fazer? Não é fácil, nem será.
Esperança de que as outras cabeças pensantes ( quem de direito) ouçam e decidam "rapidamente" enquanto é tempo.
É por causa de textos destes que entendo quem diz não querer pôr filhos num mundo destes.
Boa semana.
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Robinson Kanes a 26.10.2020

:-))

De facto, a "green economy" tem de deixar de ser apenas compra e venda de acções e passar a ter ainda mais expressão.

Neste momento, eu não traria um filho ao Mundo :-)
Além disso, já somos muitos :-)

Obrigado e boa semana,
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Folhasdeluar a 26.10.2020

A solução das grandes "coisas" começa nas coisas simples...uma delas chama-se reduzir...reduzir...reduzir...inclusive a população mundial. A grande questão é ..e a economia?
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Robinson Kanes a 26.10.2020

É aí que surge a "green economy", mas para isso são precisas condições e estarmos preparados para sacrificar muita coisa. E sim, reduzir a população mundial, esse é o maior desafio, pois além da discussão ser um tabu, ninguém deseja que isso aconteça pela força :-)
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Folhasdeluar a 27.10.2020

Sim a economia verde ...e há outro tabu acerca da economia. Quando se diz que a redução do consumo e da população vai arrasar a economia, isso é falso. Primeiro porque a economia é elástica. Segundo porque isso não será feito de um dia para o outro, vai ser gradual e consequentemente a economia vai-se adaptar às necessidades....:))))
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Robinson Kanes a 27.10.2020

Sim, mas tem de ser, como diz, muito devagar e, temo até que para durar muitas gerações, porque se fizer isso em poucas décadas, pode crer que isto vai ao fundo. Com menos população, as necessidades são menores... E depois ainda temos uma coisa macabra... Se todos começassem a ter boas condições de vida, o Mundo provavelmente não aguentaria nem uma semana :-)))
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Anónimo a 27.10.2020

Mas repare que boas condições de vida não significam forçosamente consumismo. A mudança terá que ser total a começar pelas mentalidades. E acredite que não será no "nosso" tempo, mas o mundo e a forma como dispomos do planeta terá que mudar. O planeta é um ser vivo, sofre de cancro,( nós somos o cancro, mas também podemos ser a cura), se não o fizermos o planeta vai curar-se por si próprio. Só que nesse caso as consequências serão devastadoras.
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Robinson Kanes a 27.10.2020

Para si, talvez para mim, talvez para tanta outra gente... Mas a realidade mostra-nos o inverso. Aliás, nos países onde começa a existir uma melhoria das condições de vida, dispara logo o consumismo. Tem um exemplo, que é aquele país onde vivemos em que esse boom já existe há muitos anos. Mudar mentalidades... Ui... :-)

Eu acredito que alguma coisa mudará assim que existir um grande cataclismo climático a Ocidente, não tenho a mínima dúvida. E ele vai acontecer... É como o terramoto de Lisboa, ele vem aí, só não sabemos quando :-)

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anabriga a 26.10.2020

Como sempre, bem escrito e assertivo. O Planeta não vai esperar pela nossa tomada de consciência. Está a dar sinais... só não vê que não quer ver. Sinceramente acho que quando a extinção chegar, é merecida.
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Robinson Kanes a 26.10.2020

O Homem vai ser capaz de sobreviver, pelo menos, para já, ainda é algo que pode realmente acontecer... Muitas e muitas mortes, o cataclismo, isso é um facto. Veremos como será a conquista do espaço... Para já, ainda só reservada a alguns. Além disso, já estamos na meia idade solar :-)

Obrigado,
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Calimero a 26.10.2020

Ola Kanes,

O teu texto é mais que uma excelente reflexão , devia ser para conseguir as mentes deste mundo que estão fechadas..não pior que uma mente fechada!

Esta foto e duma violência que faz doer!

Obrigada pela tua partilha objectiva, directa e tao assertivamente oportuna!

Um beijinho

Cali
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Robinson Kanes a 26.10.2020

Olá Cal,

De vez em quando (ou sempre) é bom pensar nestas coisas, caso contrário, tendemos a esquecer, eu próprio inclusive.

Obrigado pelas palavras e até confesso que me moderei na foto, a outra que tinha em vista era bem pior... :-(

Um beijinho

P.S.: E força, alguém precisa muito de ti agora :-)
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Calimero a 26.10.2020

*abrir as mentes
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cheia a 26.10.2020

Se critica tanto uma miúda que desafiou os adultos, como é que quer que acordemos para uma problema que não é de amanhã, mas foi de ontem!

Boa noite

Um abraço,
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Robinson Kanes a 26.10.2020

É mais sarcasmo, mas o José acha que esse fenómeno imediato foi obra do espírito santo?

Está nas suas, nas minhas e nas mãos de todos e não de uma miúda, por muito que a queiram transformar na nova Joana d'Arc (e mesmo essa, morreu queimada na fogueira). Em tempos, que não os meus, o espírito critico das universidades mudava o mundo... Hoje só muda as horas das festas. Essa apatia assusta-me mais.

Grande Abraço,

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