Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




IMG_6390.JPG

 Fonte das Imagens: Própria

 

Após tomarmos um chá na Sala dos Embaixadores, o Zagal convida-me para um passeio pelo complexo. Interessante ouvir este guerreiro que demonstra uma vontade inultrapassável de defender o reino a todo o custo, inclusive encontra-se disposto a matar o sobrinho Boabdil se tal for necessário.

IMG_6371.JPG

O Zagal conta-me a história de Boabdil, “El Chico” que à nascença trouxe marcada a queda do reino. Fala-me das indecisões e da aproximação ao reino de Castela a que também fui aludindo ao longo desta aventura. É alguém apaixonado pelo seu povo e isso nota-se pela forma como trata os guardas do palácio, com um respeito e nobreza tais que ficamos sem saber quem é o verdadeiro Governador do Reino.

 

IMG_6372.jpg

 

Saímos da Sala dos Embaixadores e caminhamos um pouco. O Zagal, perante a minha admiração e encanto com aquela infraestrutura, olha-me e esboça um sorriso – estranho vindo de tão nobre e duro guerreiro – penso que aprecia esse meu encantamento.

 

É lado-a-lado que entramos no Pátio dos Leões, o símbolo máximo do apogeu da Dinastia Nasrid a grande herança de Muhammad V, a conclusão e mescla de todos os estilos do Alhambra num local mágico. Este pátio, que fica ao centro do Palácio dos Leões, tem a sua linha de água que alimenta uma fonte mágica suportada por majestosos leões que a guardam dos mais ousados usurpadores.

 

Fico sem palavras e confesso ao Zagal que fiquei a entender o porquê deste lutar com toda a sua força na defesa de Granada.

IMG_6377.jpg

Abdicar de tamanho tesouro seria uma tremenda loucura.

 

As salas que ladeiam o pátio são algo que nos transporta para um outro mundo, que nos fazem sonhar e indagar se estaremos mesmo no planeta terra ou na Ásia.

 

Sou levado para a Sala dos Reis, o Zagal percebe que tem de me puxar pelo braço, tal o meu espanto, mas aí... espera-me outra grande surpresa. As pinturas, a planta longitudinal e a imaginação a permitir-me vislumbrar as recepções que ali teriam lugar, os turbantes, a mescla de vestidos e a habitual agitação e simpatia daquele povo. Contudo, sou alertado pelo Zagal... diz-me que nem tudo é tão belo, posto que, foi no Pátio dos Leões que muitos perderam a vida em disputas dinásticas e intrigas palacianas. Alerta-me, aliás, que estamos prestes a entrar numa das mais importantes salas do Palácio dos Leões: a Sala dos Abencerrajes. Conta-me o Zagal que foi aqui que ordenou a ida do irmão, Abén Hacen, para Salobreña e que, também foi aqui que teve grandes disputas com o sobrinho Boabdil.

 

O que o Zagal não me confessou, foi que ele e o irmão haviam sido os responsáveis pela morte da família dos Abencerrajes por serem uma família forte e poderosa do reino e também por serem uma ameaça à governação destes, sobretudo depois da revolta de Málaga em 1469. Todavia, esta é uma discussão que ainda hoje perdura, pois Irving, nos Contos de Alhambra, afirma que o assassinato foi ordenado por Abu Nasr Sad, conhecido como (Ciriza). Diz-se que, à época, o sangue dos mortos foi tanto que tingiu a transparente água do Pátio dos Leões de vermelho...

 

Noto a respiração do Zagal a acelerar e uma certa dureza no rosto, pelo que agora sou eu quem o guia para a Sala das Duas Irmãs.

IMG_6359.JPG

 

Aqui nos sentámos a contemplar o espaço, sobretudo a cúpula moçárabe que se desenvolve com base no conhecido Teorema de Pitágoras.

 

O silêncio passou a reinar, ambos ficamos perdidos nos nossos pensamentos, o Zagal a pensar no futuro do seu reino, ou talvez no triste episódio que não me relatou e eu... eu fiquei a tentar reconstruir esse acontecimento tendo como base a pintura de Marià Fortuny que se encontra no Museu Nacional de Arte da Catalunha e que não é nada mais nada menos que “La Matanza de los Abencerrajes”.

 

 

 

Para os recém-chegados a esta aventura:

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/aben-hacen-e-zahara-17518

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/el-zegri-e-ronda-18287

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/salobrena-e-a-morte-de-aben-hacen-19240

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/cordoba-o-quartel-general-cristao-19524

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/malaga-o-inicio-das-hostilidades-20973

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/malaga-o-desastre-e-a-capitulacao-21257

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/da-serra-nevada-e-das-alpujarras-se-22619

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/granada-cada-vez-mais-perto-23369

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/o-alcazaba-do-alhambra-e-a-inspiracao-24720

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-conversa-com-o-zagal-na-sala-dos-25527

Autoria e outros dados (tags, etc)


29 comentários

Imagem de perfil

Robinson Kanes a 21.03.2017

Aí está…

É interessante aferir desse carinho e com a abertura que o trazes aqui.

És como eu, colocas o pés num local e começas logo a imaginar, a viver, a viajar no tempo. Sim, de facto Mérida tem um interesse fantástico nos monumentos romanos. Adorei, e é uma recordação que me fica, as cegonhas no aqueduto. Acredito que teria o mesmo impacte, não só pelo local em si, mas pelas memórias que tu própria guardas. Costumo dizer que os locais até são bem mais interessantes à terceira ou quarta visita.
Imagem de perfil

Rita PN a 21.03.2017

É tão bom quando não perdemos a criança que fomos! A capacidade de sonhar, de imaginar, de viajar, de criar... O que é a vida sem sonho e criação?
Talvez. De facto não sei. Há lugares que sim. Já regressei muitas mais vezes e o deslumbramento continua a existir. A alma de cada lugar também fala por si. Como exemplo deixo-te o Porto. Muitos são os que não gostam, eu desde o primeiro dia que fui alvo de uma paixão avassaladora por aquelas ruas, por certos detalhes, pelas histórias que imaginava que ali se podiam ter passado. Lá está, eu não consigo olhar para uma casa e ver só uma casa. Se não lhe souber a história, crio-a na minha cabeça. O mesmo acontece com munumentos, recantos, ruas e travessas.
Madrid foi igual e Barcelona então não vou descansar enquanto não regressar.

http://contame-historias.blogs.sapo.pt/a-ti-porto-11124

Mas por estes teus capítulos de história é notória essa capacidade e ousadia de sonhar e chegar mais dentro. Citando mais uma vez Afonso cruz no Flores "entremos mais dentro na espessura".

Grande beijinho Robinson.

Imagem de perfil

Robinson Kanes a 22.03.2017

Conheci o Porto através das pessoas… o meu conhecimento da cidade deu-se sobretudo no contacto com as pessoas, no viver a cidade sem estar nas grandes atracções. Vivi os arredores de Espinho até Esposende e de Gaia até Amarante (se é que se pode chamar arredores)… confesso que gostei, mas… mais que o Porto é o Douro e aí sim é magia…

Excelente homenagem ao Porto, é uma cidade com o seu encanto e nesse aspecto, também singular.

Um beijinho…

P.S: Madrid e Barcelona são outros mundos :-)

Comentar



Mais sobre mim

foto do autor




Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Sardinhas em Lata

Todas as Terças, aqui! https://sardinhasemlata.blogs.sapo.pt/

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog





Mensagens







Copyrighted.com Registered & Protected 
CRD7-BFJD-IWHB-ZXDB