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Girolamo de Santa Croce - A Adoração do Menino (Gemäldegalerie Alte Meister)

Fonte da Imagem: Própria.

 

No seguimento do artigo de ontem, ao qual podem aceder aqui, e onde os contributos de muitos comentadores foram valiosíssimos, procurarei hoje ver as coisas de um outro ponto de vista, até porque a temática é complexa.

 

Foquemo-nos numa questão: porque é que não trabalhamos a questão da maternidade/paternidade, ou aliás, a impossibilidade da mesma no sentido de mentalização dos indivíduos para esse facto? Com isto não estou a dizer que não se desenvolvam demais abordagens. Porque é que o foco não passa por uma mentalização das pessoas para as suas limitações? Porque é que noutros campos vamos por aí e no caso da geração de um filho fugimos mais à questão?

 

É assim tão grave que um indivíduo conviva com o facto de não poder ter um filho? Dou um exemplo: são muitos os casos que conheci de pessoas que passaram pelos maiores martírios fisícos e psicológicos só para conseguirem ter um filho e muitas vezes por pura pressão social! Parece que nos tempos actuais é proibido dizer "não tenho filhos porque biologicamente não sou capaz e vivo bem com isso" e nem menciono aqueles que não os têm por opção. Porque é que não existe um trabalho desse lado e continua a impor-se uma lógica do "ter filhos a todo o custo". Será que se a abordagem fosse mais por aí teriamos tanta gente a investir dinheiro, anos de vida e um sem número de emoções para conseguir ter um filho? Alguém, aos comentários do artigo de ontem focou o egoísmo... Será um egoísmo da sociedade e de cada indivíduo? O artigo presente, pretende sobretudo ir pela questão do "é assim tão complicado aceitarmo-nos como somos?".

 

É uma questão complexa, sobretudo quando leio e vejo argumentos de indivíduos que na praça pública defendem (quase obrigando) que devemos ter filhos, pois estes serão o garante da sustentabilidade da Segurança Social e que é egoísmo não os ter! Um deles até é o proprietário de uma empresa de brinquedos com nome na mesma praça. São esses mesmos indivíduos que não falam de adopção, por exemplo.

 

Estamos a fazer de tudo para promover um mercado de venda ou negociação de bebés mas continuamos a não exigir leis mais facilitadoras da adopção. É aqui que pecam aqueles (auto-intituados vanguardistas) que acusam os "anti-barrigas de aluguer" de estarem presos a rituais ancestrais e de serem egoístas. Eu, sem me colocar de um lado e de outro, digo sempre... Cuidado, sobretudo quando a pretexto do que é novo, colocamos todo um passado no caixote do lixo. Até porque uma das marcas maiores de ancestralidade é a geração de um filho - quantas mulheres não eram ostracizadas ou até mortas por não conseguirem gerar uma criança?

 

Além de que, se queremos falar de egoísmo importa referir, mais uma vez, que o mundo já tem gente a mais e sempre podemos encontrar muitas crianças sem pai nem mão à espera de uma oportunidade para serem crianças... Mas talvez seja mais interessante ver as mesmas subnutridas, feridas ou mortas na televisão enquanto a todo o custo tentamos ter aquele filho que tem de ser "nosso"! Mas aí já estamos a ser vanguardistas... 

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2 comentários

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Kalila a 20.07.2017

Nem todos têm apelos paternais ou maternais, percebo isso perfeitamente e também o desprendimento que noto em ti. Muitos e muitas são pelo "se acontecer..." mas há muita gente que parece que já nasce para procriar. E têm nisso a sua razão de vida. Também os percebo, aflige-me é quando não acontece ou corre mal e a ânsia se torna patológica. Há muitos casos desses e mulheres que simplesmente não engravidam devido à ansiedade, que nem sequer têm mais nenhum problema.
Isto é muito complexo, de facto. Quem não consegue ter filhos biológicos poderia recorrer à adoção ou a práticas médicas, no entender de muitos, mas a cabeça destes ansiosos (na maioria mulheres) não funciona assim, só recorrem a meios externos em último caso.
A pretensão de ter filhos, natural e naturista, não é facilmente entendida pelos desprendidos, meu amigo. São forças da natureza (não só humana) pouco percetíveis para quem não as sente em si. São coisas que estão muito além da inteligência e da socialização.
Falas de pessoas que são pais por uma espécie de imposição da sociedade, isso já me transcende, para não dizer que é uma estupidez. Pai ou mãe deve ser apenas e só quem o pretenda mesmo que aconteça acidentalmente. Pôr filhos no mundo é tão precioso e envolve tanta responsabilidade que não pode incluir levezas de ânimo.
Há muito de social neste assunto, é verdade, antigamente tinham-se rebanhos de filhos e agora quase nenhum mas isso são questões da evolução e do conhecimento. Em algumas zonas da África mais pobre mede-se a "riqueza" de cada um pela quantidade de filhos e até em zonas de mais desafogo mulher que não procrie é de certa forma discriminada.
Muitas pessoas sentem o apelo mais tarde, outras sentem-no na sequência de grandes paixões ou amores avassaladores (que ainda existem) mas até os mais desprendidos, na grande maioria, se rendem quando acontece. Acredita, ser pai ou ser mãe é a melhor coisa do mundo! Se isso pode ser transferido para a adoção ou outros meios? Claro que pode mas depende muito do íntimo de cada um.
Beijinhos.
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Robinson Kanes a 21.07.2017

O desprendimento é de quem quer analisar a situação e discutir a matéria, apenas. E claro, de ver o outro lado menos falado, de dar um espaço a quem se possa sentir de boca tapada ou sob pressão de dizer aquilo que sente.

A ansiedade de ter filhos pode ter efectivamente várias explicações e por vezes (a maioria), quer queiramos quer não, é uma situação social. Não podemos colocar um ser tão complexo como o Homem apenas na esfera biológica.

Bem, a pretensão de querer ter um filho tem de ser entendida por quem os pretende ter. Desprendido ou não, cabe aos "outros" tentar estudar ou perceber as motivações. Aqui discordo num ponto: na questão de que quem não quer ter filhos ou ainda não pensou nisso, não ser capaz de compreender. Não acredito também que a procriação seja a força da natureza ou, aliás, um milagre como muitos lhe chamam: se fosse não aconteceria tanto, os "milagres" são acasos. Também encaro a procriação como uma coisa humana, natural e sem dúvida social. Também encaro a procriação como algo bastante simples e que de bonito e espectacular não tem nada, pode ter, sem dúvida a importância e a espectaculosidade que cada um lhe quer atribuir, mas o acto em si, retiremos a poesia ao mesmo, sobretudo se quisermos colocar o factor biológico no topo... Além disso, e pegando no caso da procriação medicamente assistida, de bonito não tem nada...

Acredito que si, que ser pai ou ser mão pode ser a melhor coisa do mundo, mas também deve ser dado o direito de dizer que não o é :-)

Obrigado pela tua opinião e pelo teu contributo para esta discussão, só assim conseguimos compreender as coisas.

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