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A Matilha Humana...

por Robinson Kanes, em 27.04.17

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 Fonte da Imagem:http://www.apparelthing.com/page/3/

 

Ainda não é hoje que vou aderir ao movimento "slow blogging" e, confesso, que até tinha esta data seleccionada para o efeito, mas...

 

Em Portugal, uma das máximas do jornalismo, dita por John Bogart, continua a não ter efeito: "não é notícia quando um cão morde um homem, pois isso acontece muitas vezes. Mas se um homem morde um cão, isso é notícia." Sempre que um cão em Portugal ataca alguém é um sem-número de fundamentalismos que se levantam. Fosse assim para os crimes de colarinho branco, ou para muitos crimes sexuais e de sangue e teríamos o país perfeito.

 

Sou tutor de um Pastor Alemão, e claro, lá fui obrigado a ir ver as notícias pois toda a gente me dizia para ter cuidado com o meu cão. Até o sapo deu destaque a um artigo, no mínimo fundamentalista e carregado de vernáculo, que em nada abona a causa de quem a defende. Mas vamos por partes:

 

1) Não existem cães perigosos, mas sim cães potencialmente perigosos e aqui existe uma clara diferença;

 

2) O Pastor Alemão não é um cão potencialmente perigoso, o dono pode ser, mas o Pastor Alemão não! Tenho lido indivíduos que dizem que o Pastor Alemão nunca deveria ser um cão de companhia porque é utilizado para perseguir criminosos! O Pastor Alemão e os outros todos, isso não nasce com eles. Mas o que não li foi dizerem que o Pastor Alemão, e outros, salvam vidas, encontram pessoas em escombros, detectam drogas, protegem pessoas e bens e realizam um sem número de tarefas em prol dos seres-humanos, inclusive reabilitação de adultos e crianças!

 

3) A apologia (ou fundamentalismo) dos cães pequenos face aos grandes. Sem qualquer cariz científico, digo que tenho um Pastor Alemão que já perdeu a conta aos ataques que sofreu de cães pequenos. Até hoje não contra-atacou. E isto acontece porque? Porque muitos tutores de cães pequenos acreditam que não têm de acautelar este tipo de situações e deixam que os mesmos andem soltos, obrigando os tutores de cães grandes a andar com os respectivos à trela. A ausência de contra-ataque acontece porque está treinado! Treinar um cão acarreta despesas e trabalho, quantos estão preparados para isso?

 

4) A conversa das "criancinhas"! O discurso do "as nossas crianças" ou o "qualquer dia ninguém pode andar na rua com medo" é de um fundamentalismo atroz! Mais que isso, é de um egoísmo assustador. E já que falamos do 25 de Abril esta semana, temo que andemos a festejar um fim de uma Ditadura porque a substítuimos por outra, uma espécie de substituição de uma Ditatura "top-down" pela minha ditadura pessoal e por me ser permitido também fazer a minha manipulação (mal eu sabendo que também sou manipulado)!

 

5) Menos César Milan e mais ciência! Das coisas que tenho visto nos últimos dias, são os defensores da estrela de televisão César Milan. César Milan não tem um método e muito menos a abordagem é cientifica e comprovadamente eficaz! Falem mais com os veterinários dos vossos cães e com verdadeiros especialistas em... comportamento animal e interacção entre animais e humanos. Se dúvidas existirem, terei todo o gosto em partilhar contactos de verdadeiros profissionais da área e especialistas de renome, aliás, os melhores a nível mundial. César Milan utiliza métodos aversivos, ou seja, métodos agressivos que colocam os animais em níveis de stress incompatíveis com um resultado favorável. Além disso esses métodos aversivos utilizam violência... violência, gera violência. César Milan não utiliza um método de treino posítivo, é somente uma estrela de televisão;

 

6) Ter um cão dá trabalho! Ter um cão fechado todo o dia sem distracções tem consequências, tratar mal um cão tem consequências, ter um mau-ambiente em casa tem consequências pois transparece para o cão... são muitos anos de convivência entre homem e cão. Um dono agressivo é igual a um cão agressivo! Um cão não é um objecto e muito menos uma tendência da moda. Já me disseram que tenho um cão e não um filho porque assim não tenho trabalho, vejamos: no mínimo, um Pastor Alemão exige, diariamente, cerca de uma hora a uma hora e meia de exercício! Quantos pais o fazem com os filhos e orgulhosamente ostentam os indíos como uma coisa boa? Um Pastor Alemão, o meu, come dois quilos de ração (ou arroz com frango ou peixe) por dia! O meu Pastor Alemão, além do exercício requer treino diário, treino positivo e que leva tempo. O Pastor Alemão pede-me quando quer fazer as necessidades e além disso obriga-me a pisar as fezes de cães cujos donos não conhecem a palavra civismo e higiene. Um Pastor Alemão obriga a uma limpeza quase diária da casa e do carro.  Adoro e não me queixo;

 

7) Infelizmente, continua a ser mais fácil matar o cão do que responsabilizar o indivíduo. Muitos cães atacam por medo, não por pura maldade, pensar o contrário é antropomorfismo. Conheçam mais os vossos cães, observem-nos mais, comuniquem mais e vão ver que os resultados serão outros;

 

8) Deixem a sobranceria humana, do Ser que tudo sabe e nada deve a outras espécies e aprendam mais sobre comportamento e interacção animal. Em muitos países é preciso ter uma "carta de condução" para cães, importamos tanta material obsoleto, talvez fosse altura de importar algo com valor.

 

9) Também já cometi erros com o meu cão, não sou o "papá" perfeito e não sou "guru". E por isso, também não sejam fundamentalistas quando censuram aqueles que tratam os cães como crianças (sem laços e adereços fúteis, isso não)... Lembram-se de anteontem defenderem a Liberdade?

 

10) Cuidado com os comportamentos de matilha, nos cães é por uma questão de sobrevivência muitas vezes, nos seres-humanos tende a ser por uma questão de maldade e fundamentalismo. 

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51 comentários

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Sónia Pereira a 27.04.2017

Estava a pensar em escrever sobre o assunto, mas tu escreveste muito melhor do que eu o conseguiria fazer. Subscrevo cada palavra, cada frase que escreveste.
As pessoas andam à procura das suas indignações diárias nas notícias, nas redes sociais, sem que o seu comportamento, o seu estilo de vida se coadune com essas suas indignações. Agem e comentam por impulso sem qualquer tipo de informação de apoio, agem como uma horda enraivecida e como uma matilha desorientada e perigosa.
Os animais não são acessórios, mas há quem ache que sim. Que tenha os animais porque são de determinada raça, para adquirir um determinado estatuto e o relacionamento que têm com esse animal é de mera posse, igual à de um qualquer objeto. Há ainda a questão que, para mim, é um autêntico paradoxo: as pessoas criticam fortemente os donos que, de certa forma, humanizam os seus animais de estimação. No entanto, quando esses animais têm algum tipo de comportamento agressivo, exigem que o castigo seja aplicado ao animal, que o mesmo seja abatido. E isto é paradoxal. Se é ridícula a humanização de um animal, mais ridículo é castiga-lo como se este fosse um ser humano condenado à pena de morte.

Embora para alguns a comparação possa ser forçada, o que acho é que um tutor de um animal de estimação deve ter o mesmo tipo de responsabilidade, amor, carinho, disciplina para com esse animal como teria com um filho. É igual, embora sejam seres vivos diferentes. Tal como não me esquivo a assumir a culpa por comportamentos menos próprios do meu filho menor cuja educação é a minha responsabilidade, o mesmo faço com a minha cadela.

Quanto ao Milan, é um homem do espetáculo, nada mais. Infelizmente a televisão possibilita que seja difundida de uma forma tão massiva informação e promoção de comportamentos erróneos.
Quem se quer informar, deve consultar especialistas e não gurus.
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Robinson Kanes a 27.04.2017

Muito obrigado!

Hoje denoto que basta atirar a primeira pedra que vai "tudo" atrás. Estranho, sobretudo numa Era em que a informação é tão, mas tão acessível, além de que se dá demasiada importância a comentadores e jornalistas que nada provaram e que deixam muito a desejar em termos profissionais. Não entendo porque perdemos horas a escolher um par de sapatos mas não perdemos um minuto a aferir da competência de um "opinion-maker".

Gostei da forma como analisas o paradoxo, e confesso que nunca tinha visto as coisas por esse prisma. Mas é verdade, não devem ser "humanos", mas têm de se sujeitar à lei dos humanos :-)

Nos EUA e nos países nórdicos existem programas em que a educação das crianças é realizada por cães e outros animais… não vale a pena dizer mais nada :-)

Não caio, por norma, na tentação de citar nomes, mas de facto, apenas me foquei na realidade dos factos. César Milan deixa muito a desejar, defendo que todos devem ter o seu espaço, mas o foco essencial numa só pessoa, que está longe de ser a melhor, é que me faz pensar.

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