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A Lição do Deutsche Bank.

por Robinson Kanes, em 07.02.17

Untitled.png

Mestre Português Desconhecido, Inferno (Museu Nacional de Arte Antiga)

 

Tomei conhecimento, através do "New York Times" (https://www.nytimes.com/aponline/2017/02/04/world/europe/ap-eu-deutsche-bank-apology.html?_r=0), que o Deustche Bank havia comprado várias páginas em jornais com o intuíto de publicar um anúncio em que pedia desculpa a todos os alemães e não só.

 

O pedido de desculpas prendeu-se, sobretudo, e não vou entrar em pormenores, com actividade bancária danosa e com consequências para clientes e cidadãos que directa ou indirectamente sofreram com tão criminosa gestão. 

 

Mas é no pedido de desculpas que me quero focar. O Deutsche Bank trouxe à luz do dia um conceito que se tem estado a perder, nomeadamente, o conceito de "Vergonha". Se atentarmos aos estudos sobre a Família Matrifocal de Jan Brogger, realizados na década 80 do século passado na Nazaré, vamos encontrar esse conceito bem definido na cultura de um povo. Do casal que se apaixona e que, contra a vontade dos pais, com vergonha, foge e volta anos mais tarde para viver em casa da família... casado ou tendo em vista o casamento, limpando assim o nome e afugentando a vergonha. Contudo, e vou tentar focar-me em Portugal, esse conceito perdeu-se. Hoje em dia já podemos quase em contexto de taberna dizer: "vergonha? Isto é uma pouca vergonha! Já ninguém tem vergonha.".

 

"Quem tem vergonha passa mal", já diz o povo. E em Portugal parece que ninguém quer passar mal e insiste na corrupção deliberada e numa total ausência de ética associada a um sentimento de impunidade.

 

Socialmente, ser corrupto em Portugal é aceite! Se assim não o fosse, praticamente já não teriamos políticos no poder central e muitas câmaras municipais estariam vazias. Em Portugal, um político pode vender a alma ao diabo e os destinos dos seus cidadãos por um "mísero" bilhete de futebol, ser descoberto e continuar no cargo com uma arrogância que me deixa perplexo. Outros desaparecem durante uns tempos, (passarão um período de vergonha?) e voltam como se de uma sabática se tivesse tratado.

 

Mais vergonha tinham os "pexins" da Nazaré! Em Portugal, se formos para uma entrevista de recrutamento numa agência e dissermos que não fazemos qualquer tipo de networking (movimento de grifo com vista à busca de um emprego sem ter que trabalhar para isso) somos olhados como forasteiros qual Mick Dundee em New York. Porque a corrupção não é só política e não se foca só no dinheiro... ao contrário do que muitos ainda pensam.

 

Parece-me, que nem sequer existe a vontade em pedir desculpa, embora, no quotidiano, perante erros repetidos a... desculpa... seja sempre a mesma... continuamos a premiar a incompetência e o jogo sujo em detrimento do reconhecimento daqueles que dão o seu melhor. Continuamos a recrutar o amigo para a organização "y" porque em breve vamos ter retorno para a organização "x". Depois temos organizações minadas pela corrupção, em estado de entropia, e onde é tão difícil a alguém que venha para arrumar a casa, conseguir fazer o seu trabalho... mas ninguém pede desculpa.

 

Em jeito de conclusão, também o candidato da direita francesa pediu desculpa aos seus concidadãos por empregar em trabalho fictício mulher e filho. Teve vergonha... embora seja tarde. Será que nós, tão evoluidamente gostamos de coisas trendy, vamos começar a exigir pedidos de desculpa ou a ter vergonha? Se isso acontecer, eu próprio criarei uma organização que os vende, pois terei um mercado de quase 10 milhões de habitantes.

  

Quem não tiver mais nada que fazer e ficou curioso com Brogger pode sempre dedicar-se a esta leitura:

Brogger, Jan & Gilmore David D. (1997) “The Matrifocal Family in Iberia: Spain and Portugal Compared”, Ethnology, Volume 36, Issue: 1, University of Pittsburgh

 

Fonta da Imagem: Própria.

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45 comentários

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Vânia a 07.02.2017

Olá novamente!!

Dizia-te que vi recentemente uma reportagem onde comparavam os políticos portugueses com os politicas dinamarqueses e a grande diferença era a mentalidade e os princípios.

Dessa mentalidade vem que a Dinamarca é o país com menores níveis de corrupção da Europa.
Agora a culpa não é só da classe politica do nosso país, existe corrupção em todo o lado e acho que os políticos são apenas a imagem o reflexo de quem os elege.

A vergonha não existe, os fins justificam os meios. É até bem visto alguém que tem um bom carro, uma boa casa, um bom cargo profissional mesmo que tudo isto tenha sido construído sobre uma moral duvidosa.

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Robinson Kanes a 07.02.2017

"Existe corrupção em todo o lado e acho que os políticos são apenas a imagem o reflexo de quem os elege.".

Um pouco na lógica do temos o país que merecemos...


"A vergonha não existe, os fins justificam os meios. É até bem visto alguém que tem um bom carro, uma boa casa, um bom cargo profissional mesmo que tudo isto tenha sido construído sobre uma moral duvidosa. "

Isso, tenho sentido. Recentemente tive uma conversa com um conhecido (nem isso) em que o mesmo me dizia que tinha colocado as filhas num Colégio "da moda" para que assim elas um dia mais tarde fizessem o seu "networking" mas sobretudo porque, também se deslocava às reuniões e eventos religiosos (ateu) para fazer contactos com pessoas importantes que tinham os filhos no Colégio.
Confesso que, na altura questionei se ele se sentia bem com isso, ao que a resposta foi um claro "são escolhas".

Obrigado por passares.
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Vânia a 07.02.2017

O networking... Tenho a perfeita noção de que não estou a trabalhar na área na qual me licenciei porque durante a licenciatura não fiz o "networking" necessário.

Talvez tivesse tido mais sorte se o meu pai me tivesse colocado num "bom colégio da moda"...

De nada, obrigada pelo teu feedback

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Robinson Kanes a 07.02.2017

Vou ouvindo muitos relatos desses... mas cada vez menos... não sei se felizmente ou infelizmente.
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Rita PN a 07.02.2017

Se um pedido de desculpas vindo a público, decorrer da tomada de consciência de um erro cometido, o qual gerou no próprio um sentimento de vergonha, ok, será um passo importante. No entanto, esse mesmo pedido, funciona mais como limpeza de consciência e atenuante de danos próprios e morais, do que propriamente como "conforto" dos lesados.
A limpeza de imagem é, para os altos cargos, de extrema importância. Quantas campanhas de marketing pessoal já nós vimos associadas ou camufladas por limpezas de imagem?
Li num dos teus comentários a referência a associações e fundações de carácter social e solidário... não as tivesses tu referido, iria eu fazê-lo. Tenho, por vezes, a sensação de que o povo português ainda é muito ingénuo nesse campo. Ou é ingénuo ou finge apenas que não vê. Quantos milhares ao bolso e para beneficio próprio têm vindo a ser conseguidos através delas? quantos fundos desviados? Será mais desculpável corromper utilizando entidades de carácter social do que através de entidades de carácter político e financeiro?
À corrupção nem a igreja escapa.
No nosso país a corrupção é, há muito, um meio para atingir fins. Enraizou-se em modelos de governação e gestão, não é de agora nem culpa dos mais recentes governos. É culpa de toda uma história governativa, de tal forma que chega a ser parte integrante da cultura de um povo que já nem a condena e que banalizou tais actos, motivos pelos quais já pouca ou nenhuma vergonha encerram.
Já em mim, causam-me demasiadas vezes vergonha alheia.

Isto tudo para dizer que se quem governa o faz, quem é governado também aprende a fazer. E assim se vão aproveitando desde e daquele, disto e do outro, de um esquema agora e outro depois. Do tira daqui para tapar ali, porque é mais um buraquinho que por agora nem se nota.
Se serão descobertos? Inevitavelmente. Nesse caso nada melhor do que o tal período sabático (até que os ânimos se acalmem, ou venha à baila um qualquer novo escândalo financeiro que faça o anterior perder o interesse, superando todo o seu impacto mediático).

Gostava muito de acreditar em pedidos de desculpa sinceros por parte de grandes entidades politico-financeiras, mas o meu cepticismo não me permite. Limpa a imagem agora, comete novo erro depois. E usando a sabedoria do popular "Quem faz uma vez, faz duas ou três".
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Robinson Kanes a 07.02.2017

Os lesados nunca verão as suas perdas completamente sanadas e sim, no fundo a desculpa também é uma forma do seu autor aliviar uma certa carga que carrega. Aqui, penso que o objectivo é recuperar a confiança dos clientes e dos cidadãos e com isso, claro, gerar retorno.

Ainda... ou aliás, torna-se cada vez mais complexo fazer a distinção entre marketing pessoal e propaganda. Penso que um bom marketeer não deverá nunca cair na tentação da propaganda... abordo o conceito de propagando no pior sentido que o mesmo tem.

Bem, o sector social (e no que toca a fundações e associações já temos muito que falar só centrando a conversa neste) ainda é uma árvore que sofre influências de vários ventos, entre eles os políticos e os religiosos. Muitos cargos ocupados em misericórdias, por exemplo, são profundamente políticos. Quantas IPSS não padecem também do mesmo?
É um sector que se estudo pouco, ou melhor... estuda-se demais... mas responsabiliza-se pouco. Penso que isso acontece pelo discurso de que é para os vulneráveis e para o qual os cidadãos, em geral, ainda olham com carinho. A primeira vez que analisei relatórios de contas de algumas instituições bem conhecidas da nossa praça fiquei de boca aberta... e abro ainda mais a boca quando esses relatórios são públicos mas poucos se preocupam.

Aqui, utilizei realmente estes exemplos para gerar o debate e provocar até... mas é um começo... e algo que por estas terras se vê pouco, talvez pela ausência da reprovação social que alguns indivíduos, que por aqui já passaram, deram conta.

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Marta Elle a 07.02.2017

Só pediu desculpas devido à reprovação social, caso não o fizesse.
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Robinson Kanes a 07.02.2017

Apontas uma questão importante: a reprovação social. Se existir essa reprovação social é de esperar que estas práticas sejam menores.
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HD a 07.02.2017

Admite-se (quando acontece!) a vergonha nas alturas oportunas...
Como dizes: muita, pouca ou nenhuma vergonha é praticamente a mesma desculpa insipiente -.-
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Robinson Kanes a 07.02.2017

De facto. Mas pelo menos ainda se admite e não se "goza" com a cara das pessoas... há um assumir do comportamento errado... por cá vê-se pouco.
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HD a 07.02.2017

Por cá, não existe!
Espera-se que caia no esquecimento...
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Robinson Kanes a 08.02.2017

E como se esquece e se faz esquecer rápido...
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O ultimo fecha a porta a 07.02.2017

Tocas em vários temas sensíveis. Vamos lá por partes:
- gostei da tua definição de networking. Cada vez mais é isso. A Senhora cunha ganha cada vez mais nomes. Na era digital e do século XXI, esse pode ser um bom pseudónimo
- a vergonha continua existir porque privilegia-se a imagem. Ninguém gosta de ficar mal na fotografia. Atira-se sempre a culpa para outros. Ainda ontem um ex ministro expôs publicamente a sua ex-mulher ao falar para as televisões num caso de violência doméstica em que é acusado. Todos têm redes sociais na internet que servem de arma de arremesso. A imagem ainda é extremamente valorizada.
- a corrupção atinge vários níveis e concordo, não é só dinheiro. Mas ninguém gosta de ficar com essa imagem e há vergonha em ser conotado como um corrupto.
- nos recrutamentos ou nomeações, o mérito é preterido pela troca de favores. Isso é mais do que frequente. porém acho mais crítico em cargos públicos, que são pagos por todos nós.
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Robinson Kanes a 08.02.2017

Bom resumo deste artigo...

-Bem, quando estiver a falar com muitos promotores do dito "networking" profissional já não serei achincalhado porque levo mais alguém... eu compreendo o dito "networking" numa lógica de negócio e de fomento, por exemplo de vendas ou parcerias, mas um "networking" que tresanda a preguiça e ambição desmedida não. Comigo nunca resultou...
Tenho de ver quem é esse ex-Ministro, embora ser Ministro hoje em dia não é sinónimo de ser um cavalheiro... longe disso.

-A vergonha existe se afectar a carteira. Em alguns meios é até vantajosa... porque permite que se fale de... quantas personagens não teria caído no esquecimento se não existisse um escândalo? Quantas manobras são realizadas para fazer sair uma notícia menos boa e depois iniciar uma curva ascendente? Ainda ontem me falavam de uma pessoa que fez isso recentemente com uma revista... as vendas já não se fazem só por anúncios.

-Ninguém gosta? "Epá se quis que aquilo avançasse tive de pagar ao gajo, os olhos até brilharam"... ainda é um discurso tido com muito orgulho.

-Em cargos públicos deveria ser crime!

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